47 segundos // roteiro

como a internet nos atrai (e nos distrai)

Quarenta e sete segundos. Quanto duram 47 segundos? O que é possível fazer, o que é possível descobrir em tão pouco tempo?

Descubro no Google que o voo mais curto do mundo pode durar 47 segundos em condições climáticas ideais. A depender da direção em que o vento sopra.

O voo percorre 2,73 quilômetros, saindo de Westray para chegar a Papa Westray, em Orkney, um arquipélago na costa noroeste da Escócia.

A julgar pelas fotos do arquipélago, a viagem deve ser tão bela quanto breve.

 

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Quarenta e sete segundos. Este é o tempo médio em que permanecemos numa aba quando navegamos na internet.

Li isso em um artigo meio distópico, que classificava os smartphones como armas de distração em massa.

O autor citava uma pesquisa que chegou a esse dado: quando estamos trabalhando em frente a um computador, mudamos nosso foco de atenção a cada 47 segundos.

 

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Em 47 segundos, com acesso à internet, posso ver uma imagem de que gosto muito. Por exemplo: este vídeo de Emil Zátopek, a locomotiva humana, disputando as Olimpíadas de Helsinki em 1952.

(Deixar o vídeo rolando até completar 47 segundos.)

 

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[começar em silêncio]

Há muitos anos, li sobre experimentos de privação sensorial num livro de psicologia.

Cientistas particularmente sádicos privavam pessoas de todo estímulo para ver o que acontecia.

Os experimentos eram feitos com ajuda de máscaras, óculos, luvas e engenhocas como câmaras anecoicas e tanques de isolamento sensorial.

Como é de se esperar, as cobaias humanas reagiam muito mal a esses testes. Em geral, o cérebro criava alucinações assustadoramente realistas para que o corpo se sentisse estimulado.

A moral da história, para o autor do livro, era essa: precisamos de estímulos sensoriais, e não há vida possível sem interação com o mundo.

 

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Emil Zátopek devia saber bem o peso do tempo. Quanto duram 47 segundos nos últimos metros de uma maratona, quando o corpo já não suporta sequer mais um passo, e é só a mente que o mantém em pé?

(Pausa.)

Uma coisa curiosa: dizem que ao longo de toda a corrida, um maratonista deve lutar contra sua mente, que repete o tempo todo: “Vamos parar por aqui”.

Mas, no final da corrida, com o corpo devastado pelos 42 quilômetros, é a mente que leva o corpo à linha de chegada.

Como naquela outra imagem olímpica, talvez a mais marcante de todas, em que Gabriela Andersen-Schiess cambaleia por quatrocentos metros para conseguir o 37º lugar entre 44 corredoras.

 

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O artigo sobre celulares como armas de distração em massa diz que há um termo budista para se referir a uma mente como a nossa, que pula de galho em galho a cada 47 segundos: mind monkey.

A imagem me parece precisa: às vezes, é como se um bando de macaquinhos hiperativos brigassem ou brincassem o tempo inteiro dentro de minha cabeça.

 

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No mesmo livro de psicologia que falava da privação sensorial, havia um interessante capítulo sobre behaviorismo, com descrições e ilustrações detalhadas da caixa de Skinner.

Um livro recente, de Jaron Lanier, demonstra como desenvolvedores de sites como Google e Facebook  usaram conscientemente a teoria behaviorista para criar suas próprias caixas de Skinner.

E a má notícia é que somos nós os ratinhos. Somos nós as cobaias humanas de uma experiência inédita de engenharia social.

A cada alteração no ambiente virtual, grupos cujas motivações mal conhecemos observam mudanças em nosso comportamento. Passamos então a agir de acordo com esse ambiente, aceitando seu sistema de punições e recompensas.

E o mais assustador: estou disposto a continuar dentro da caixa de Skinner desde que a internet continue a me fornecer pequenas doses de dopamina a cada 47 segundos.

 

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Nas Olímpiadas de 1952, Zátopek ganhou a prova de 5 mil metros, de 10 mil metros e a maratona.

Mas isso não importa.

 

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No artigo sobre celulares como armas de distração em massa, há um trecho interessante, que diz:

O ser-humano está desenhado para mudar sua atenção com facilidade. É algo que garante sua sobrevivência desde os primeiros dias da espécie. Houve um tempo em que os estímulos partiam da natureza, e tendiam a ser lentos. A folha que caía da árvore. O voo da mosca. Na era moderna, tudo começou a acontecer mais depressa. Na digital, tudo se acelerou.

Esse trecho me fez pensar em como a capacidade de deter a atenção para observar um fenômeno é o maior responsável por nossos pequenos avanços como espécie. Isso vale para a arte, em que a observação sempre foi crucial, e também para a ciência.

Para fazer um avião, por exemplo, uma máquina capaz de cruzar 2,73 quilômetros em 47 segundos, o humano deve ter observado com muita atenção o voo dos pássaros.

(Pausa.)

E por falar em pássaros, como Darwin chegaria à teoria da evolução sem a atenciosa e detida observação desses animais? Vivesse hoje, Darwin talvez estivesse pulando de artigo em artigo da Wikipédia a cada 47 segundos, mergulhado demais em tanta informação para pressentir que a resposta para suas questões pudesse estar nas viagens pelo mundo ou nos passeios pelo campo mais próximo de casa, onde podia observar a terra, as plantas e os animais.

 

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O artigo sobre distração em massa compara os smartphones com o cigarro.

A comparação é feita por muitos autores, e em parte me parece verdadeira. Em um texto escrito no calor da invasão de Nova York pelos Blackberries, Jonathan Franzen resumiu bem a questão:

A Nova York do final dos anos 1990 testemunhava a transição da cultura da nicotina para a cultura do celular. Num dia, o volume no bolso da camisa era o maço de Marlboro; no dia seguinte era um Motorola. Num dia, a garota bonitinha, vulnerável e desacompanhada ocupava as mãos, a boca e a atenção com um cigarro; no dia seguinte, ela as ocupava com uma conversa importante com uma pessoa que não era você. Num dia, a molecada fazia roda em torno do bambambã da turma que tinha comprado um maço de cigarros mentolados; no dia seguinte, o grupo rodeava o primeiro menino que tinha aparecido com uma tela colorida. Num dia, viajantes acendiam o isqueiro assim que saíam do

avião; no dia seguinte, eles logo acionavam o celular.

 

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Não sei o que Emil Zátopek tem a ver com redes sociais, tabagismo e hábitos mentais da minha geração. Nem sei porque gosto tanto dessa imagem, sem nada demais além de homens correndo.

(Pausa.)

Mas suspeito que há algo de irreconciliável entre meu Facebook e uma maratona.

Talvez seja o feed infinito, que rolo como Sísifo rolando a pedra montanha acima, um hábito em tudo  oposto à experiência de uma maratona, que só pode ocorrer se tiver um começo e um fim bem definidos. Ninguém seria louco o bastante para se inscrever em uma corrida infinita.

Ou talvez seja a diferença entre as pequenas doses de dopamina que busco a cada 47 segundos, em microprazeres que nada devem ter a ver com o prazer de Zátopek ao cruzar a linha de chegada.

Não sei. Talvez seja a realidade que sinto nessas imagens.

Corpos correndo na rua. Sem simulacros.


∝ genoma // esta publicação deriva e complementa o vídeo-ensaio 47 segundos. clique no título para acessar a página do vídeo ou no player abaixo para assistir.


Zen

Coeditor.

30 de dezembro, 2018. Seção: Ensaios. Index: Emil Zátopek, Gabriela Andersen-Schiess, Frederic Skinner, Jaron Lanier, Charles Darwin, Jonathan Franzen. Publicação: Zen. Revisão: Maitan.