a morte e o olhar // texto

richard avedon & jorge luis borges

Essa manhã, sonhei que morria. E que sentia uma grande sensação de alívio. Eu despertei desse sonho, em que morria, me sentindo francamente feliz.

– Bom, porque tinha sido um sonho, acredito…

Não, não, não… Porque sentia que morria, e que isso era uma elevação… uma liberdade.

Este é Richard Avedon, fotógrafo americano, morto em 2004. E este é Jacob Avedon, seu pai, também fotógrafo. Por seis anos, Richard tirou uma série de fotos de seu pai. Na primeira foto, Jacob veste paletó e gravata, e parece um pouco resistente em posar para a câmera do filho. “Constrangimento” talvez seja a palavra.

Um constrangimento que perdura em todas as fotos. Talvez porque Jacob, o fotógrafo, seja agora o fotografado, velho, frágil, enquadrado pela câmera do próprio filho. Esta é a última foto de Jacob. Ou a penúltima. Com o avental do hospital. A história dessa foto é interessante. Quem a conta é o escritor John Burnside.

John encontrou Richard por acaso, em um bar de Glasgow, quando o fotógrafo retratava um grupo de escritores escoceses. John acabara de ver em uma exposição de Richard a série de fotos de Jacob, e estava obcecado com as imagens.

Naquele dia, quando perguntei a Avedon sobre essas últimas imagens, ele me contou uma história elegante e autoexplicativa. Contou-me que estivera fora, trabalhando na Suíça, e que, sabendo da iminência da morte do pai, telefonava para casa todo dia, para perguntar sobre seu estado. Por ocasião de uma dessas ligações, uma enfermeira lhe disse que não se preocupasse, que o pai estava determinado a aguentar até a volta dele, porque sabia que ainda havia uma última foto a tirar. E, de fato, quando Avedon regressou aos Estados Unidos, seu pai continuava vivo, pronto, por assim dizer, para aquele close final.

Richard também tirou aquela que considero a melhor foto do escritor argentino Jorge Luis Borges. Este é o retrato tomado por Richard. Sua história é curiosa. Quando voava para a Argentina para fotografar Borges, Richard recebeu a notícia de que a mãe do escritor acabava de falecer. O fotógrafo estava certo de que Borges não o receberia. A sessão, no entanto, aconteceu normalmente, às quatro em ponto, como marcado. Enquanto Richard tomava o retrato, a mãe de Borges jazia morta no quarto ao lado.

Essa talvez seja a única foto sincera de Borges. Sincera no sentido de que Richard consegue pegar Borges desarmado, fora do personagem que cultivou durante décadas.

Mas voltemos aos retratos de Jacob. Por que gosto tanto dessa série de fotografias? Acho que a resposta está na empatia que, através da fotografia, Richard estabelece com seu pai.

Em geral, evitamos pensar na morte e na velhice. Mais do que isso, evitamos tudo aquilo que nos lembra da morte e da velhice. Tememos envelhecer e tememos morrer. Não conseguimos conceber um mundo sem nossa existência, tampouco conceber um corpo que não seja este que agora ocupamos – este corpo ainda mais ou menos vigoroso, ainda mais ou menos jovem, ainda mais ou menos belo.

Pensar na morte nos faz lembrar que não somos nada; que assim como não existíamos antes de nascer, logo logo já não existiremos. E a vida sem nós continuará normalmente. Por isso, pensar na morte é sempre o mais duro dos golpes em nossa principal convicção: a convicção de que somos alguém, de que temos um ego.

É comovente que Richard se esforce para acompanhar o envelhecimento e a morte do pai. A morte é o desconhecido por excelência, aquilo que não se pode conceber, e ao se aproximar dela Jacob está absolutamente sozinho.

É comovente a tentativa do filho, de acompanhar o pai nesse momento. É como se Richard deixasse de existir para dar vida ao pai que vai morrendo. Afinal, o que é olhar alguém com atenção senão lhe dar vida?


∝ genoma // esta publicação deriva e complementa o vídeo-ensaio a morte e o olhar. clique no título para acessar a página do vídeo ou no player abaixo para assistir.


Zen

Coeditor.

7 de novembro, 2018. seção: ensaios. index: richard avedon, jacob avedon, jorge luis borges, john burnside. publicação: zen. revisão: maitan.