a subida que interminável

Seis poemas inéditos de Jeanne Callegari

alicate

sobre o que se pode cortar. pele que se derretida em brancos e azuis, que coisa é o vermelho, uma cor tão escolhida. preferencialmente sem escalavrar grandes granduras, o mar é raso, o tesouro sutil rutilado, trabalho a liquefazer antes que o sol –

na boca apodrecem, fora da mão apodrecem, endurecem, metal guarda os portões, mais que guarda, garante, mais que garante, decide. é de cuidar, não jeito, não força, milênios delicada e todas aquelas fomes no deserto, todas as fogueiras e vigias, para aqui. cutículas e um guindaste, um teto, tudo isso e tanto –

 

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tábua escriva

sangue retângulo algumas linhas e pés. manchas pretas, o menor modelo, superiorando o laranja em couro, em burros. finos de poemas, não em pé, antigas uma, duas, três, uma quatro de quase cem dozes. teto preto sobre rosa, deserto branco de dentro. carpiderias no cinza, no sal, listras e marinhos. azul, ó, resistores. teia em luna, noturna e pantera e guindaste. compridos fazem ligar a coisa branca à coisona, turva toda. embaixo bispa e uma boca triste, bola vermelha madrigal, essas coisas de sangue nos lados e em cima, topo lunar. clown e tolos, caio. cores e retangulinos. amarelo e azul constitucional. amuletos de falsa, um que outro, de envolver. as contas já, e a caixinha vermelha com as teras todas. mais comprida e é preta e menor, outra pretura e menor, uma não, dois morritos pontudos irmãos, e as bolas. também, laminado azul, doce que quadrados brancos ajuntarem, amarelo e preto linolando preto, quatro linhas brancas e mais tantas, ligadas pontos e fechadas. um rato lógico; pretuinza; evoé –

 

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turbinas de algodão

em que pese serem várias e desviadas, domésticas não e definidas: voam sim dentro, vestígios vislumbres e vários, vestígios e que maçada, vínculo vácuo. envasam-se as veias e o visto, ave improvável. viaja só, no travesseiro.

 

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trepadeira

antiga a duras penas. como que engasga, tropeça. eleva o trecho, espiralam sons, dna na lisa ininterrupta. fuligem o que sai nos ares, fuligem o surdo e ritmado, arredondado, metal esfarelado no ar, plúmbeo arco-íris monocromo, duotom. nove dedos massageiam o engasgado, a subida que interminável. na garganta, nos olhos, um peixe que se afoga, a falta de que nunca –

 

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ferrugem

a guirlanda no pescoço do pássaro, o girassol cromado em sacrifício. guitarra, dobradiça embriagada. um ramalhete, um alheiro, um micróbio. um bracelete, cidreira, um acrílico. a brevidade do barril edredom. o assobio cromado na acrópole, mangueira a quatrocentos, heroína hesitante no hospício. uma harpa, uma hélice, uma várzea. em caracol, como um beque no drible, nem capaz de tanta –

 

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manjar

escapa, aos íons escapa, às substâncias. um metal conjectura um sacrifício, rogai por todos de quem a água foge, sequiosos. alguém pode sentar-se, um sofá e seu tubérculo, veemente suave nos poros o casulo. perturbar de silva e bragança, contanto o tamanho e também não, uma irrealizável em adornos, aparelho com que tantas vezes, sem tamanho, e não –


Os poemas acima foram extraídos de Botões (Corsário-Satã, 2018), que será lançado em São Paulo em agosto.

Jeanne Callegari

Nasceu em Uberaba (MG) em 1981. Escreveu Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho, e os livros de poemas Miolos Frescos (Patuá, 2015) e Botões (Corsário-Satã, 2018). Tem textos publicados nas antologias Primeiras vozes (Quelônio, 2018), Golpe: antologia-manifesto (Nosotros, 2017), Sierra Tropicália: poesía contemporánea de Brasil e México (Cielo Aberto, 2016) e É que os Hussardos chegam hoje (Patuá, 2014). Com Raul Costa Duarte, tem o projeto poético-sonoro Botões, que sobrepõe palavra a ruídos e paisagens sonoras; com Maíra Mendes Galvão, forma o duo Pingues Ovelhas, de pesquisa em poesia, performance e tradução. Junto a Reuben da Rocha, organiza o Macrofonia!, noite mensal de poesia intermídia ao vivo em São Paulo.

13 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Poesia. Index: Jeanne Callegari. Publicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan Maitan. Fotografia da autora: Liliane Callegari.