Agora Burros

Conto de Livia Piccolo

I

“Colocar a Úlcera bem na entrada do apartamento, no pendurador de chaves, ah não, que ideia, vai ser esquisito para os convidados. É melhor outro lugar. A porta da geladeira já tem Edredom, Indecente, Anêmona, tá ótimo. No espelho do banheiro! Sim, a Úlcera vai ficar colada no espelho em cima da pia. O problema é que toda vez que eu escovar os dentes vou dar de cara com ela. Será? É uma palavra tão bonita, tem essa força bem no começo, esse u preenchido com o acento agudo. Úúúúúúúlcera. Mas não dá para ficar no quarto, aí é demais da conta. Seguindo essa lógica posso colocar no cifão do tanque. A Úlcera pode experimentar ficar mais limpa.”

 

II

Miguel é colecionador de palavras.  É um homem baixo, compacto, usa óculos de armação leve e relógio de pulso antigo. Perdeu todo o cabelo aos vinte anos. Ganha a vida como corretor de imóveis e passa os dias na companhia do gato Fellini, presente de grego da ex-namorada que mudou de estado para se casar com um cirurgião dentista que sempre exagera na loção de barbear. A mulher pretendia levar o gato junto, mas o animal protestou com fortes golpes de unha. Apesar de não ser lá muito apegado ao bicho, Miguel não teve escolha e precisou ficar com ele.

Todos os dias escreve algumas palavras no seu pequeno caderno de capa laranja. Aquilo que escuta e lê. O céu é o limite e as fontes são muitas. As estações de rádio, os áudios de celular enviados pelos amigos, a tagarelice dos desconhecidos na rua, as conversas no trabalho, os jornais impressos e todo tipo de texto que encontra na internet. Há dias de vacas gordas e dias de vacas magras. O final do ano é um período maravilhoso. Os bares e restaurantes ficam cheios, as pessoas falam alto e bebem mais, hábito que estimula a comunicação. Já as manhãs nos ônibus são áridas. O cansaço dos corpos se espraia pelo veículo e o mutismo é geral.

Há dias caudalosos em que Miguel preenche várias páginas do caderninho. A única regra é que as palavras sejam encontradas fora: na rua, na vida alheia, no mundo de consistência sólida. Não em sua cabeça gasosa. Abrir ao acaso o caderno significa encontrar lado a lado as palavras Símile, Carvão, Tapinha, Arrependida, Gárgula. Palavras estrangeiras incorporadas ao idioma entram na roda. Por isso à esquerda da Gorjeta está o Videogame e embaixo da Fera está a Selfie.

Ele gosta de variar e foge do comodismo. Se escolhe a banca em frente ao trabalho e abre o caderno de ciências, no dia seguinte folheia o caderno de esportes. Se primeiro presta atenção na conversa de mãe e filha na agência dos correios, depois entra na academia de ginástica, pergunta à recepcionista informações genéricas e dá uma volta na sala de musculação só para ouvir o que conversam os corpos brilhantes de suor. Todo espaço tem palavra: essa é a ética silenciosa de Miguel.

Tenta a todo custo não cair na repetição. Mas como a memória não é cofre de ferro, Miguel falha. Quando se dá conta que escreveu uma palavra repetida, se desfaz dela sem hesitação com um risco horizontal vigoroso no papel. Seu colecionismo começou há mais de três anos, primeiro como um hábito ingênuo, sem compromisso. Com o tempo a prática se adensou e não há um só dia em que Miguel não escreve pelo menos uma palavra no caderno. Alguns meses atrás viveu uma fase particularmente delicada, pois o que antes era costume inofensivo começou a se mostrar um perigoso vício. Não houve assunto capaz de penetrar a cabeça de Miguel com mais força do que essa coisa incessante das letras. Seu chefe mostrou preocupação com a queda no trabalho. Deixou clientes esperando e errou informações básicas. Os amigos ressentiram-se com sua ausência. Com muita força de vontade conseguiu controlar a obsessão e escapou dos malefícios do vício.

Chegando em casa Miguel gosta de organizar as palavras do dia em ordem alfabética, em um caderno maior, sem pauta, que fica em cima do criado mudo. O caderninho laranja e roxo é o viajante, está sempre dentro do bolso da calça indo de um lado para outro. Visitou portão de escola, livraria, fila de banco, praça abandonada, bloco de carnaval, restaurante coreano, posto de saúde, barbearia, loja de material de construção, pastelaria, cemitério e empório de salchichas alemãs. Já o caderno do criado mudo tem capa de veludo azul escuro, é austero, pacato, ermitão. Não sai nunca do lugar. Esse é o ritual que ele repete todos os dias, antes de dormir, junto com uma xícara de chá de camomila no inverno ou um copo de suco de maracujá no verão. Hoje está passando a limpo com caneta preta as palavras Apego, Câncer, Celulose, Celulite, Entendendo, Entrosada, Feita, Fiozinho, Omeprazol, Perfume e Paçoca. Sua companhia silenciosa antes de pegar no sono.

 

III

Acontece que o colecionismo de Miguel não é comum. Não se trata de juntar palavras como se acumulam chaveiros antigos, estátuas de coruja ou cartões postais. Durante a semana ele pinça as ditas cujas. Sábado e domingo, sob o olhar falsamente curioso do gato Fellini, escolhe algumas da lista alfabética, transcreve-as com cuidado em pedaços pequenos de papel e as espalha pela casa com fita crepe. A nova etapa leva tempo, às vezes o dia inteiro. É preciso pensar cuidadosamente no lugar que cada palavra merece ocupar. Uma vez dentro de casa, tanto faz a origem. Se vieram dos jornais, da boca do vendedor de parafusos, da estagiária do escritório ou da celebridade bêbada na internet, pouco importa. Miguel gosta de acreditar que dentro de casa não há hierarquia nem berço de ouro. Não importa se a palavra está no passado, no presente ou no futuro. E tanto faz se é substantivo, verbo ou adjetivo. Mas como nas famílias numerosas os pais têm cada um o filho preferido, assim também acontece aqui. Coisa difícil de admitir.

Todas as palavras começam sempre com letra maiúscula. Miguel as considera entidades únicas e inconfundíveis. Se os países têm geografias e conflitos particulares, por que seria diferente com  Paternidade, Zero ou Quiabo? Por trás dos nomes próprios existe uma pessoa de carne e osso com aflições enraizadas. A mesmíssima coisa acontece com o Gabinete, a Viscosa e o Maldizer.

O resultado de tudo isso é uma decoração doméstica impossível de se ignorar. No tampo da mesa da sala está a Escuridão, no box do banheiro estão Viagem, Licença, Descuido. Na gaveta de meias e cuecas, Comungar e Picadeiro. No pote de comida do gato Fellini o papel arranhado mostra Suficiente. Embaixo da fechadura da porta, Pêssegos.

Quando o apartamento está silencioso Miguel experimenta falar a palavra em voz alta. Como um vaga lume, algo aparece e desaparece deixando um rastro inquieto.

 

IV  

Até hoje, o dia em que Miguel está em dúvida sobre o que fazer com a Úlcera,  estava satisfeito com a dinâmica que encontrara. De tempos em tempos renova sua decoração, trocando algumas palavras por outras. Obviamente não todas, ele se afeiçoou a um bocado delas. Mas é inviável manter todos os papeizinhos, seria atordoante. O gato Fellini provavelmente perderia o apetite com tanta falação pelos cômodos. E é normalíssimo que certas palavras caiam em desuso.

Mas agora Miguel se sente fora do lugar. Pela primeira vez não tem vontade de se desfazer de nada. “Será que estou meio carente?” ele pensa. Descarta essa possibilidade enquanto come um misto quente e coloca a Úlcera apoiada na moringa de água. “Estou com medo de não encontrar novas palavras.” Mas no fundo ele sabe que não é isso. Sempre foi bom na caça e ao longo do tempo sua habilidade se aprimorou. Termina o sanduíche e toma coragem para assumir a si próprio o que realmente quer: arriscar. Fazer algo perigosamente novo. Talvez uma besteira. Está cansado do que já conhece. Da rotina tão organizada, do ronronar do gato e da prostração dos papéis escritos. Está cansado de sua vida cozinhando em fogo baixo.

Vai até a pia do banheiro e lava o rosto. Ajeita os óculos e arregaça as mangas como quem vai cortar lenha. Lê em cada perna da poltrona da sala o seguinte: Burros, Teu, Oceano, Agora.

Uma onda de calor invade o corpo de Miguel, ele sabe que esse é momento em que vai quebrar a ordem que se impôs até agora, e a sensação é boa, é estimulante. Vai eufórico até a poltrona e pega de uma só vez as quatro palavras. Quase tropeça. Nas coxas coloca Burros, Oceano. Depois experimenta Teu Oceano. Teu Burros. Agora Burros. Que delírio! O gato Fellini dorme e ele descobre uma nova galáxia. Neste momento subverter é muito bom, ele quer mais. A sensação de prazer é como um banho muito quente, daqueles em que a água quase queima a pele, deixando marcas vermelhas. Pega papel e caneta, não mais um pedaço mirrado de papel, mas uma folha inteira, branca, tão exposta em sua autoridade frágil. Agora pode caçar também dentro de sua cabeça. Vai começar com uma palavra aparentemente simples, pequena, de uma só letra. Uma palavra compacta como ele.

Tomada a decisão, escreve: Teu oceano agora é burro.

18 de agosto, 2017
Categoria: ficções 
Tags: Livia Piccolo

Livia Piccolo formou-se em Artes Cênicas na ECA/USP. Trabalha como preparadora vocal, atriz e performer. Na mesma instituição desenvolveu sua pesquisa de mestrado, investigando o trabalho do ator com a palavra sob uma perspectiva interdisciplinar, entre a música contemporânea, o teatro e a performance. Estudou literatura nos cursos livres do escritor Cadão Volpato e atualmente trabalha em seu primeiro livro de contos. Tem textos publicados nas revistas Ensaia e Parêntesis.