As felicidades de Mário de Andrade

Confissões a Manuel Bandeira e Newton Freitas

Mário de Andrade é um dos pilares em que se assenta o modernismo brasileiro. Sem ele, a história das artes brasileiras no século XX seria outra. A primeira e maior biblioteca de São Paulo é batizada com o seu nome, e lá há um busto do escritor na entrada principal. Em frente ao prédio da biblioteca, uma estátua imponente de Luís Vaz de Camões, símbolo que sustenta a tradição que o paulistano guardou em sua força motriz de modernização da literatura em língua portuguesa.

Muito já se disse sobre Mário, inclusive sobre sua suposta homossexualidade, porque a sexualidade ainda gera mais interesse que a obra.  Mas não é raro ouvir que sua obra talvez tenha tido, de fato, menor importância que suas interlocuções. A correspondência com Carlos Drummond de Andrade é documento de valor inestimável para a história de nossa literatura, e talvez o futuro dê maior destaque às cartas que a Macunaíma ou a Pauliceia desvairada. Mário foi também um crítico que filtrou e expôs aos leitores o que de melhor estava sendo feito em seu tempo. Ele encarna, parece-me, a figura de um deus-mensageiro sem o qual jamais seríamos o que somos; a arquitetura precisa de uma obra em infindável execução.

As suas correspondências não nos contam apenas sobre sua época, mas nos dão acesso a uma intimidade ao mesmo tempo pujante e sombria: a humanidade intensa que o autor desdobrava minuciosamente em sua trajetória. Transcrevo abaixo dois recortes desse mapa subjetivo que dizem respeito a uma das maiores questões do pensamento: a felicidade. E Mário de Andrade nos lega, com a mão pesada de sua sensibilidade, verdadeiros tesouros em forma de confissão.

 

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a Manuel Bandeira

… a bem dizer não sou feliz. Até, cá pra nós, quando você escreveu aquele artigo sobre Remate de males e me chamou de feliz, concedeu então que eu tinha a minha felicidade criada a força de muque e vontade, coisa verdadeiríssima, confesso agora a você que meio sorri, porque francamente conquistada a felicidade e posta ela em prática cotidiana principiei achando ela tão medíocre, tão mesquinha, não só egoística socialmente porque ela não invalidava as dores e compaixões minhas pra com o mundo, mas egoística ou pelo menos besta pra comigo mesmo: prova se você quiser da existência de Deus. Já andava pois com uma vontade danada de abandonar a felicidade, que hoje considero uma conquista pessoal profundamente medíocre. Não sei bem como que vou fazer, isto tudo até parece diletantismo, dança de espírito. Não é não. Estou mesmo seriamente disposto a acabar com, pelo menos com as preocupações de ventura pessoal.

 

a Newton Freitas, 16 de abril de 1944

Lhe mando meu retrato que mais gosto, mas exijo troca. Gosto mais porque marca no meu rosto os caminhos do sofrimento, você repare, cara vincada, não de rugas ainda, mas de caminhos, de ruas, praças, como uma cidade. Às vezes, quando espio esse retrato, eu me perdoo e até me vem um vago assomo de chorar. De dó. Porque ele denuncia todo o sofrimento dum homem feliz. Porque de fato desde muito cedo eu atingi a transcendência da felicidade, mas me lembro, desde 1922, a raiva desesperada em que fiquei com a besteira de Graça Aranha, em A estética da vida, confundindo a dor, o sofrimento com a infelicidade. Ao passo que é desse ano mesmo aquele meu verso dizendo que “A própria dor é uma felicidade”. Mas sucedeu o castigo. Essa transubstanciação dos sentimentos foi tão bem conseguida em mim que por muitos anos, perto de quinze anos, vivi num delírio eufórico de felicidades e de felicidade. As lutas, os insultos, os erros, as dificuldades, as derrotas (a cada derrota, eu dizia alegre: “Um a zero, vamos principiar outro jogo!”), eram pra mim motivos de tanta, não alegria, mas dinâmica de ser a superação até física, que me esqueci que sofria. Até que tiraram essa fotografia. E fiquei horrorizado de tudo o que eu sofri. Sem saber.

Mário de Andrade

Retrato de Mário de Andrade pelo fotógrafo Benedito Duarte, por volta de 1935.

A inscrição na imagem data de 1942 e é dirigida a Newton Freitas, intelectual capixaba com quem Mário trocou dezenas de cartas ao longo de 15 anos.


Mário de Andrade

(1893-1945), foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro e figura central do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Ele foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia desvairada em 1922.

Luan Maitan

é editor da Vigília.

20 de setembro, 2018 Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Luís Vaz de Camões, Manuel Bandeira, Newton Freitas. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho. Imagem de capa: Kobra.