As felicidades de Mário de Andrade

As felicidades de Mário de Andrade

Confissões a Manuel Bandeira e Newton Freitas

Mário de Andrade é um dos pilares em que se assenta o modernismo brasileiro. Sem ele, a história das artes brasileiras no século XX seria outra. A primeira e maior biblioteca de São Paulo é batizada com o seu nome, e lá há um busto do escritor na entrada principal. Em frente ao prédio da biblioteca, uma estátua imponente de Luís Vaz de Camões, símbolo que sustenta a tradição que o paulistano guardou em sua força motriz de modernização da literatura em língua portuguesa.

Muito já se disse sobre Mário, inclusive sobre sua suposta homossexualidade, porque a sexualidade ainda gera mais interesse que a obra.  Mas não é raro ouvir que sua obra talvez tenha tido, de fato, menor importância que suas interlocuções. A correspondência com Carlos Drummond de Andrade é documento de valor inestimável para a história de nossa literatura, e talvez o futuro dê maior destaque às cartas que a Macunaíma ou a Pauliceia desvairada. Mário foi também um crítico que filtrou e expôs aos leitores o que de melhor estava sendo feito em seu tempo. Ele encarna, parece-me, a figura de um deus-mensageiro sem o qual jamais seríamos o que somos; a arquitetura precisa de uma obra em infindável execução.

As suas correspondências não nos contam apenas sobre sua época, mas nos dão acesso a uma intimidade ao mesmo tempo pujante e sombria: a humanidade intensa que o autor desdobrava minuciosamente em sua trajetória. Transcrevo abaixo dois recortes desse mapa subjetivo que dizem respeito a uma das maiores questões do pensamento: a felicidade. E Mário de Andrade nos lega, com a mão pesada de sua sensibilidade, verdadeiros tesouros em forma de confissão.

 

*

a Manuel Bandeira

… a bem dizer não sou feliz. Até, cá pra nós, quando você escreveu aquele artigo sobre Remate de males e me chamou de feliz, concedeu então que eu tinha a minha felicidade criada a força de muque e vontade, coisa verdadeiríssima, confesso agora a você que meio sorri, porque francamente conquistada a felicidade e posta ela em prática cotidiana principiei achando ela tão medíocre, tão mesquinha, não só egoística socialmente porque ela não invalidava as dores e compaixões minhas pra com o mundo, mas egoística ou pelo menos besta pra comigo mesmo: prova se você quiser da existência de Deus. Já andava pois com uma vontade danada de abandonar a felicidade, que hoje considero uma conquista pessoal profundamente medíocre. Não sei bem como que vou fazer, isto tudo até parece diletantismo, dança de espírito. Não é não. Estou mesmo seriamente disposto a acabar com, pelo menos com as preocupações de ventura pessoal.

 

a Newton Freitas, 16 de abril de 1944

Lhe mando meu retrato que mais gosto, mas exijo troca. Gosto mais porque marca no meu rosto os caminhos do sofrimento, você repare, cara vincada, não de rugas ainda, mas de caminhos, de ruas, praças, como uma cidade. Às vezes, quando espio esse retrato, eu me perdoo e até me vem um vago assomo de chorar. De dó. Porque ele denuncia todo o sofrimento dum homem feliz. Porque de fato desde muito cedo eu atingi a transcendência da felicidade, mas me lembro, desde 1922, a raiva desesperada em que fiquei com a besteira de Graça Aranha, em A estética da vida, confundindo a dor, o sofrimento com a infelicidade. Ao passo que é desse ano mesmo aquele meu verso dizendo que “A própria dor é uma felicidade”. Mas sucedeu o castigo. Essa transubstanciação dos sentimentos foi tão bem conseguida em mim que por muitos anos, perto de quinze anos, vivi num delírio eufórico de felicidades e de felicidade. As lutas, os insultos, os erros, as dificuldades, as derrotas (a cada derrota, eu dizia alegre: “Um a zero, vamos principiar outro jogo!”), eram pra mim motivos de tanta, não alegria, mas dinâmica de ser a superação até física, que me esqueci que sofria. Até que tiraram essa fotografia. E fiquei horrorizado de tudo o que eu sofri. Sem saber.

Mário de Andrade

Retrato de Mário de Andrade pelo fotógrafo Benedito Duarte, por volta de 1935.

A inscrição na imagem data de 1942 e é dirigida a Newton Freitas, intelectual capixaba com quem Mário trocou dezenas de cartas ao longo de 15 anos.


Mário de Andrade

(1893-1945), foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro e figura central do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Ele foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia desvairada em 1922.

Luan Maitan

é editor da Vigília.

20 de setembro, 2018 Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Luís Vaz de Camões, Manuel Bandeira, Newton Freitas. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho. Imagem de capa: Kobra.


La muerte de la muerte

La muerte de la muerte

Máximas de César Vallejo

Na verdade, o céu não fica nem longe nem perto da terra. Na verdade, a morte não fica nem perto nem longe da vida. Estamos sempre diante do rio de Heráclito.

*

Com o advento do avião e da radiotelegrafia, o sentimento de nostalgia despertado pela distância vai, de certo modo e até nova ordem, enfraquecendo ou desaparecendo. O que não desaparece, com os progressos científicos e industriais, é a nostalgia do tempo.

*

Entre as mil ou mais vozes simultâneas de um coro, ouve-se apenas duas delas.

*

Não há nada a temer. Não há nada a esperar. Sempre se está mais ou menos vivo. Sempre se está mais ou menos morto.

*

A música vem do relógio. A música, como arte, nasceu no momento em que o homem se deu conta, pela primeira vez, da existência do tempo, digo, da marcha das coisas, do movimento universal. Um! Dois! E a escala nasceu.


César Vallejo

Nasceu no Peru, em 1892, e morreu na França, em 1938. É um dos grandes poetas da língua espanhola, e certamente o maior de seu país.

30 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: César Vallejo, Heráclito. Tradução e publicação: Caique Zen.


O salto de Franz Reichelt

O salto de Franz Reichelt

Notas sobre estreias e abismos

[1]

Quando algo estreia, deixa de ser apenas potência – condição comum a tudo o que não foi – e passa a ganhar existência, dura, irrevogável. Quando um autor estreia, deixa de ser aquele que gosta de escrever e passa a ser aquele que escreve.

O lançamento do primeiro livro é o rito de passagem a uma espécie de maioridade – fase em que alguém se torna para sempre penalmente imputável, estando ou não maduro para tal carga. Essa passagem provoca duas coisas incontornáveis: a primeira, todas as leituras que o escritor não concebeu; a segunda, todas as críticas distanciadas, os olhares inquisidores do julgamento. O jovem escritor (na maioria dos casos) se coloca com ímpeto e sem conhecimento ao lado de tantas e variadas estaturas na selva implacável da autoria.

Estrear guarda uma violência sob a forma leve do verbo. É sempre um salto, e é preciso ter brio para dá-lo. Mas coragem só não basta.

 

[2]

O alfaiate austríaco Franz Reichelt costurou uma roupa que – na fronteira entre a lucidez e a miragem – o faria flutuar até o solo. Havia no desejo de Reichelt ao mesmo tempo uma nobreza arcaica e um sonho ingênuo. Se a cruel natureza deu-nos cérebro suficiente para percebermos que ela não nos deu asas, então há uma conta por acertar. Nenhuma razão passa impune por um animal que sonha.

Mais que o batido domínio da natureza, o alfaiate aliava a técnica do adulto à fantasia da criança. Era um homem que havia condensado sua existência, e que portanto merecia qualquer coisa parecida com o triunfo de um pássaro. Ter seu nome nos anais da História já era uma fina ironia contra a mortalidade.

E então, aos 4 de fevereiro de 1912, em Paris, depois de tempos de sentimentos desatados, testes e recosturas, trocas de tecido, cálculos e medidas, chega o dia de pôr à prova a natureza e a coragem. Uma equipe da imprensa estava lá para registrar a passagem do mito de Ícaro à perenidade da História de Franz.

O alfaiate Franz Reichelt enfartou antes de abrir um buraco ao pé da Torre Eiffel, e deve estar saltando até agora naquele segundo. Sua obra é para sempre um modelo de falha.

 

[3]

Há os que nunca passam da estreia mas constroem uma obra, como Augusto dos Anjos, que publicou apenas o volume Eu em vida e com ele figura entre os maiores poetas da língua do século 20. Há outros que jamais estrearam mas erigiram monumentos mais perenes que o bronze: os heterônimos de Fernando Pessoa, por exemplo.

Silviano Santiago certa vez afirmou: “Nunca saberemos quem são os maiores escritores da humanidade. Ou seja, são alguns ilustres desconhecidos cujos livros foram engolidos pelo tempo. Lemos e elogiamos os melhores da média geral”.

Numa carta de 1926 a Mário de Andrade, nosso poeta maior sugere que essa ideia tem alguma razão. O sensato Drummond escreve: “Não me sinto capaz de grandes coisas, por isso também não sinto dificuldade em renunciar a executá-las. E não me queira mal, se um dia eu te escrever que rasguei o meu caderno de versos”. É claro que Mário de Andrade respondeu com feroz reprovação, pois já havia lido alguns dos poemas que mudariam a história da língua. Dali a quatro anos o mineiro lançava Alguma poesia.

Não fosse a traição de Max Brod, o mui amigo de Kafka, boa parte da obra do autor de A metamorfose e O processo (esse título, inclusive) não chegaria até nós, e quiçá seu nome também não tivesse a repercussão e a influência que teve. Kafka virou adjetivo, mas poderia ser apenas uma das incontáveis sequências de letras jamais pronunciadas.

É bem possível que amigos não traídos encerraram sua obra como se nunca a tivessem escrito. E talvez todos com a lucidez de que grandeza nenhuma poderia salvá-los.

 

[4]

Quando um filhote de pássaro salta, na ânsia do céu, ainda com asas despreparadas, torna-se no instante um pássaro que falhou no primeiro voo. E se desenha claro o seu destino: Eis um pássaro que caiu do ninho.

Certa vez, encontrei um desses desafortunados. Estava num pio incessante, envolto de mato num jardim de calçada. Ali seria presa fácil. Para poupá-lo de outro algoz, pois seu tempo já estava selado, levei-o para casa. A experiência foi transformadora. Cuidar de um selvagem, alimentá-lo e fornecer-lhe calor e abrigo até perceber o quanto isso nos liga a sua existência, tudo é de uma delicadeza inexprimível. Era sempre uma dor deixá-lo no ninho improvisado. E surpreendente notar que o bicho me reconhecia e sentia por minha presença uma necessidade brutal. Mas já não cabia à minha ingênua boa vontade e afetividade animal a existência do pequeno pássaro, ele não chegou a completar um terceiro dia nessas condições.

O outro lado da minha rua não tem casa, é um filete de terra e árvore em meio ao concreto. Eu o cobri com folhas secas ao pé da árvore que me pareceu a mais alta. Por cima das folhas, uma pedra triangular, com uma das pontas apontando para o tronco – o raio congelado que nasceu na terra e relampejou em direção ao céu. Lá estava a morte: o pássaro que nunca voou, a voz cujo canto jamais se ouviu.

 

[5]

Num lapso de fantasia, fico triste por toda luz que se apagou sem chegar às retinas, e relembro – e relembro incansavelmente – do monólogo derradeiro do replicante Roy Batty, do primeiro Blade Runner. Vale lembrar também que essa foi uma intervenção do ator Rutger Hauer, que encarnava o replicante, no texto de Phillip K. Dick então adaptado para o cinema:

Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Que angustioso exercício o de imaginar os amores eternos que desaguaram no vão do tempo – o buraco negro da trajetória. O próprio Fernando Pessoa, em seu imenso “Mar português”, lança às ondas a questão:

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

E prossegue com a mais famosa pergunta (pela mais famosa resposta) em verso da língua portuguesa: Valeu a pena?

 

[6]

E de repente sou tomado pelas ideias sem brilho do pragmatismo. A vida então é breve demais para nos dedicarmos a fantasias. Os maiores escritores da humanidade – conclui a desembriagada razão – são esses que chegaram até nós.

Mas os que chegaram até nós – insiste em mim qualquer revelação teimosa – guardam aquela coincidência brutal com os que não chegaram; há um ponto de partida onde todos os que foram e os que não foram permanecem ligados pela incurável eternidade:

Todos eles ousaram passar pela prova de Franz Reichelt.

Todos se lançaram para o abismo.


Luan Maitan

Luan Maitan

Editor.

22 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Silviano Santiago, Phillip K. Dick, Fernando Pessoa. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho.


a subida que interminável

a subida que interminável

Seis poemas inéditos de Jeanne Callegari

alicate

sobre o que se pode cortar. pele que se derretida em brancos e azuis, que coisa é o vermelho, uma cor tão escolhida. preferencialmente sem escalavrar grandes granduras, o mar é raso, o tesouro sutil rutilado, trabalho a liquefazer antes que o sol –

na boca apodrecem, fora da mão apodrecem, endurecem, metal guarda os portões, mais que guarda, garante, mais que garante, decide. é de cuidar, não jeito, não força, milênios delicada e todas aquelas fomes no deserto, todas as fogueiras e vigias, para aqui. cutículas e um guindaste, um teto, tudo isso e tanto –

 

*

 

tábua escriva

sangue retângulo algumas linhas e pés. manchas pretas, o menor modelo, superiorando o laranja em couro, em burros. finos de poemas, não em pé, antigas uma, duas, três, uma quatro de quase cem dozes. teto preto sobre rosa, deserto branco de dentro. carpiderias no cinza, no sal, listras e marinhos. azul, ó, resistores. teia em luna, noturna e pantera e guindaste. compridos fazem ligar a coisa branca à coisona, turva toda. embaixo bispa e uma boca triste, bola vermelha madrigal, essas coisas de sangue nos lados e em cima, topo lunar. clown e tolos, caio. cores e retangulinos. amarelo e azul constitucional. amuletos de falsa, um que outro, de envolver. as contas já, e a caixinha vermelha com as teras todas. mais comprida e é preta e menor, outra pretura e menor, uma não, dois morritos pontudos irmãos, e as bolas. também, laminado azul, doce que quadrados brancos ajuntarem, amarelo e preto linolando preto, quatro linhas brancas e mais tantas, ligadas pontos e fechadas. um rato lógico; pretuinza; evoé –

 

*

 

turbinas de algodão

em que pese serem várias e desviadas, domésticas não e definidas: voam sim dentro, vestígios vislumbres e vários, vestígios e que maçada, vínculo vácuo. envasam-se as veias e o visto, ave improvável. viaja só, no travesseiro.

 

*

 

trepadeira

antiga a duras penas. como que engasga, tropeça. eleva o trecho, espiralam sons, dna na lisa ininterrupta. fuligem o que sai nos ares, fuligem o surdo e ritmado, arredondado, metal esfarelado no ar, plúmbeo arco-íris monocromo, duotom. nove dedos massageiam o engasgado, a subida que interminável. na garganta, nos olhos, um peixe que se afoga, a falta de que nunca –

 

*

 

ferrugem

a guirlanda no pescoço do pássaro, o girassol cromado em sacrifício. guitarra, dobradiça embriagada. um ramalhete, um alheiro, um micróbio. um bracelete, cidreira, um acrílico. a brevidade do barril edredom. o assobio cromado na acrópole, mangueira a quatrocentos, heroína hesitante no hospício. uma harpa, uma hélice, uma várzea. em caracol, como um beque no drible, nem capaz de tanta –

 

*

 

manjar

escapa, aos íons escapa, às substâncias. um metal conjectura um sacrifício, rogai por todos de quem a água foge, sequiosos. alguém pode sentar-se, um sofá e seu tubérculo, veemente suave nos poros o casulo. perturbar de silva e bragança, contanto o tamanho e também não, uma irrealizável em adornos, aparelho com que tantas vezes, sem tamanho, e não –


Os poemas acima foram extraídos de Botões (Corsário-Satã, 2018), que será lançado em São Paulo em agosto.

Jeanne Callegari

Nasceu em Uberaba (MG) em 1981. Escreveu Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho, e os livros de poemas Miolos Frescos (Patuá, 2015) e Botões (Corsário-Satã, 2018). Tem textos publicados nas antologias Primeiras vozes (Quelônio, 2018), Golpe: antologia-manifesto (Nosotros, 2017), Sierra Tropicália: poesía contemporánea de Brasil e México (Cielo Aberto, 2016) e É que os Hussardos chegam hoje (Patuá, 2014). Com Raul Costa Duarte, tem o projeto poético-sonoro Botões, que sobrepõe palavra a ruídos e paisagens sonoras; com Maíra Mendes Galvão, forma o duo Pingues Ovelhas, de pesquisa em poesia, performance e tradução. Junto a Reuben da Rocha, organiza o Macrofonia!, noite mensal de poesia intermídia ao vivo em São Paulo.

13 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Poesia. Index: Jeanne Callegari. Publicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan Maitan. Fotografia da autora: Liliane Callegari.


A arte de vagabundar

A arte de vagabundar

Crônica de Roberto Arlt

Começo por declarar que para vagabundar são necessários atributos excepcionais de sonhador. Como disse o ilustre Macedonio Fernández: “Nem tudo é vigília de olhos abertos”.

Digo isso porque há desocupados e desocupados. E me explico: entre o “pé-rapado” de botinas estropiadas, cabeleira ensebada e pança mais gordurosa que carro de magarefe, e o vagabundo bem-vestido, sonhador e cético, há mais distância que entre a Lua e a Terra. A não ser que esse vagabundo se chame Máximo Gorki, ou Jack London, ou Richepin.

Antes de mais nada, para vagar por aí é preciso estar completamente despido de preconceitos, e também ser um pouquinho cético, cético como esses cães com olhar faminto que quando chamados balançam o rabo mas, em vez de se aproximar, se afastam, guardando entre seu corpo e a humanidade uma respeitável distância.

É claro que a nossa cidade não é das mais apropriadas para a vadiagem sentimental, mas o que se pode fazer?

Para um cego, desses cegos que têm as orelhas e os olhos inutilmente bem abertos, não há nada para ver em Buenos Aires. Mas quão grandes, quão cheias de novidades são as ruas da cidade para um sonhador irônico e pouco desperto! Quantos dramas escondidos nos sinistros apartamentos! Quantas histórias cruéis no semblante de certas mulheres que passam! Quanta canalhice em outras caras! Porque há semblantes que são como o mapa do inferno humano. Olhos que parecem poços. Olhares que fazem pensar nas chuvas do fogo bíblico. Idiotas que são um poema da imbecilidade. Tratantes que merecem uma estátua pela arte de sobreviver. Assaltantes que elaboram suas trapaças atrás da vidraça turva, sempre turva, de uma leiteria.

O profeta, ante este espetáculo, se indigna. O sociólogo constrói indigestas teorias. O otário não vê nada, e o vagabundo se regozija. Me explico: o vagabundo se regozija com a diversidade de tipos humanos. Sobre cada um desses tipos, pode-se construir um mundo. Tanto os que levam escrito na testa o que pensam quanto aqueles mais fechados que um túmulo revelam seu pequeno segredo… o segredo que os move como fantoches pela vida.

Às vezes o inesperado é um homem que pensa em se matar e que o mais gentilmente possível oferece seu suicídio como um espetáculo admirável, cujo preço de entrada é o terror e o compromisso na delegacia. Outras vezes, o inesperado é que uma senhora troque tapas com sua vizinha enquanto um coro de remelentos se agarra às saias das fúrias e o sapateiro da rua assoma a cabeça à porta de sua biboca para não perder a refeição.

Os extraordinários encontros da rua. As coisas que se vê. As palavras que se ouve. As tragédias que se pode conhecer. E então a rua, a rua lisa, que parecia destinada a ser uma artéria de tráfico com calçadas para homens e pavimento para bestas e carros, transforma-se em uma vitrine, ou melhor, em um cenário grotesco e espantoso onde, como nas gravuras de Goya, os endemoniados, os enforcados, os possuídos e os enfeitiçados dançam sua sarabanda infernal.

Pois na verdade quem foi Goya, senão um pintor das ruas da Espanha? O Goya pintor de três aristocratas regalões não interessa. Mas o Goya animador da escória de Moncloa, das bruxas de Sierra Divieso, dos madraços monstruosos, esse é um gênio. E um gênio que dá medo.

E tudo isso Goya viu vagabundando pelas ruas.

A cidade desaparece. Parece mentira, mas a cidade desaparece e se transforma em um empório infernal. As lojas, os letreiros luminosos, as casas, todas essas aparências bonitas e agradáveis aos sentidos se desvanecem para deixar flutuando no ar os nervos da dor universal. E do espectador se afugenta o afã de viajar. E mais ainda: cheguei à conclusão de que aquele que não encontra todo o universo nas ruas de sua cidade não encontrará uma rua original em nenhuma cidade do mundo. E não a encontrará pois o cego em Buenos Aires é cego também em Madri ou Calcutá…

Sei perfeitamente que os manuais escolares pintam os senhores e os cavalheirinhos que vagam pelas ruas como futuros perdulários, mas, de minha parte, aprendi que a escola mais útil para o entendimento é a escola da rua, escola amarga que deixa no paladar um prazer agridoce e ensina tudo aquilo que os livros nunca dizem. Porque, lamentavelmente, os livros são escritos por poetas ou idiotas.

Ainda assim, muito tempo passará até que as pessoas percebam a utilidade de uns banhos de rua e multidão. No dia em que aprenderem isso serão mais sábias, mais perfeitas e, sobretudo, mais indulgentes. Sim, indulgentes. Porque mais de uma vez pensei que a magnífica indulgência que fez de Jesus eterno derivava de sua contínua vida na rua. E de sua comunhão com homens bons ou maus e com mulheres que eram ou não honestas.


Roberto Arlt

argentino, nasceu em 1900 e morreu em 1942. Enquanto tentava a sorte como inventor (chegou a patentear um tipo de meia feminina com calcanhares de borracha), escreveu romances, peças, contos e crônicas.

Caique Zen

é coeditor da Vigília.

8 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Roberto Arlt, Macedonio Fernández, Maksim Gorki, Jack London, Jean Richepin, Francisco de Goya. Publicação: Caique Zen. Tradução: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


O todo e as partes

O todo e as partes

POR ROBERTO ALVIM


figuras
VELHO, vestindo um terno branco
JOVEM, vestindo calça e camisa em tons de verde-musgo e negro
HOMEM, vestindo um terno em tons de amarelo-ocre e negro

(Um retângulo vermelho no piso;
o VELHO e o JOVEM estão em cena.
Silêncio)

VELHO

Seu braço foi arrancado:
um atropelamento, o motorista fugiu.
Na fuga:
depois de quilômetros, tantos quilômetros depois,
o motorista percebeu que seu braço estava caído dentro, sangrando dentro – daquele carro.
Parou
e jogou o braço arrancado em um córrego.
O braço arrancado, seu braço, boiou por um instante;
aí afundou…
Sua mão e os dedos, seus dedos azuis, aqueles dedos mortos então:
a última parte a desaparecer,
sumir nas águas imundas daquele córrego…
Compreende?
O braço arrancado está perdido para sempre.
Nunca mais em seu corpo, não existe mais –
nem pra você,
nem pra ninguém.

JOVEM

Ainda sinto, sinto o braço em mim…

VELHO

(sorrindo) Efeito-fantasma:
o todo sente a parte, a parte separada do todo.

JOVEM

Mas eu sinto, ainda…

VELHO

Seu braço, aquele?
Não vai voltar – aquele braço em seu corpo?
(pausa)
Não.

JOVEM

Então meu braço, eu compreendo – não está mais comigo, então…
Quem arrancou meu braço?

VELHO

Um homem – outro.

JOVEM

Um outro?

(surge em cena o HOMEM)

HOMEM

Eu?

VELHO

Sim!
Sim, SIM, foi ele…
Este homem: aquele.

HOMEM

Eu…

JOVEM

Por quê?

VELHO

Você quer um motivo?
(sorrindo) Mas não há…

HOMEM

Eu não queria.

JOVEM

POR QUÊ?

VELHO

(sorrindo) Mas não há, não há motivos!

HOMEM

Acredite, por favor, acredite em mim:
eu não queria…

VELHO

(para o JOVEM, referindo-se ao HOMEM, sussurrando) Foi ele…
(dirigindo-se ao HOMEM, sussurrando) Sim: você.

HOMEM

(sussurrando) Fui eu, não é assim?
(pausa)
Mas estava bêbado, não consigo lembrar…
Lembro que estava em uma festa,
lembro que estava feliz.
Esqueci o que veio depois…

VELHO

Se não tivesse jogado o braço arrancado, o braço que separou para sempre do corpo dele, se não tivesse jogado aquele braço no córrego imundo…

HOMEM

Eu não queria, não queria!
Estava bêbado: uma festa, estava feliz…
O que aconteceu?
Não consigo lembrar…

JOVEM

Por que ele arrancou meu braço?

VELHO

Se não tivesse jogado no córrego para afundar, desaparecer naquelas águas, nós poderíamos, sim, SIM:
reimplantá-lo!
Colocar de volta o braço arrancado no corpo dele –
em seu corpo, trazer a parte separada de volta…
(sorrindo) Em seu corpo então,
os dois braços em você então, em seu corpo agora:
dois braços!
(pausa)
Mas desapareceu para sempre, aquele:
(sussurrando) arrancado por ele…

JOVEM

Ele…

HOMEM

(baixo, para si mesmo) O que aconteceu?

JOVEM

…tem dois braços agora.
Dois braços, você.
Um braço, um só:
eu, agora…

HOMEM

Então foi assim que aconteceu,
mesmo que não consiga lembrar:
estava feliz,
mas isso foi antes…
Agora estou aqui,
não estou?
(sussurrando) O que diz a Lei?

VELHO

(para si mesmo) A Lei…

JOVEM

Existe uma Lei?

VELHO

(alto) SIM, A LEI!
(pausa; recitando)
O que um homem tira de outro homem
será por este homem devolvido.

HOMEM

É o que diz a Lei?

JOVEM

É o que está escrito?

VELHO

(orgulhosamente) Se um homem arranca o braço de um outro,
diz a Lei:
é preciso que este braço seja devolvido.

JOVEM

Eu preciso de um braço…

HOMEM

Eu tenho dois…

VELHO

Um de seus braços será devolvido a ele em retribuição ao braço por você separado.
Está escrito: É A LEI!
Uma amputação; depois um implante:
seu braço no corpo dele –
(carinhosamente) em seu corpo de volta!

JOVEM

Seu braço em meu corpo?

HOMEM

Meu braço:
é seu, agora.

*

(luz só no rosto do VELHO)

VELHO

E o braço daquele homem,
o outro,
foi separado de seu corpo,
em um procedimento cirúrgico minuciosamente orquestrado.
E o braço separado
foi meticulosamente implantado
(sussurrando, como se falasse para o JOVEM)
em seu corpo.
A carne,
as veias, artérias,
os nervos –
costurados cirúrgica, meticulosa, minuciosamente:
em você.
(sorrindo) Tem dois braços, agora, dois braços novamente!
(pausa; satisfeito)
Está feito, e o que está feito faz de todos nós homens melhores:
a Lei
foi cumprida.

*

(luz só no rosto do JOVEM)

JOVEM

Depois da operação, dormi por 3 dias e 3 noites…
O braço daquele homem estava em meu corpo,
tinha sido devolvido em retribuição ao braço que ele havia separado de mim.
(pausa)
Meu novo braço era maior que o anterior.
A mão era imensa,
os músculos eram mais fortes,
e havia uma tatuagem no antebraço, uma frase em latim,
que dizia em letras negras e solenes:
“CARPE DIEM”.
(pausa)
Quando acordei, tentei pegar um copo de água na mesa de cabeceira, mas o meu novo braço era muito forte:
em vez de segurar o copo,
aquela mão enorme o estraçalhou –
os cacos de vidro caíram no chão, a água derramada…
(sorri)
“Que poder!”, pensei.
“Que poder:
quanta força eu tenho, agora!”

*

(luz só no rosto do HOMEM)

HOMEM

Depois da cirurgia em que um dos meus braços foi separado de mim, acordei sem saber para onde ir…
Por isso fiquei onde estava.
Onde ainda estou.
Parado aqui,
na mesma sala em que aquele que tem agora um dos meus braços está convalescendo, se recuperando daquela delicada operação…
(pausa)
Vejo meu braço em seu corpo.
Seu corpo é pequeno demais, magro demais para o meu braço;
mas, ainda assim, desproporcional,
aquela parte de mim é agora uma parte dele…
Inadequada parte.
Dele, agora.
(pausa)
Aqui.

*

(escuridão: ouve-se, por alguns instantes, o som do mar.
Luz, lentamente: o VELHO, o JOVEM e o HOMEM estão em cena;
o som do mar vai sumindo devagar.
Silêncio)

VELHO

(nervosamente) Algo terrível aconteceu ontem à noite.
Algo terrível,
(sussurrando, para o JOVEM) com você,
esta noite.

JOVEM

Estou molhado.
(sorri, constrangido) Acho que me molhei enquanto dormia,
minhas calças estão encharcadas…

VELHO

Não é urina.

JOVEM

Sonhei.

VELHO

Não é urina, não, não é…

JOVEM

No sonho eu nadava…

VELHO

Escuta.

JOVEM

Não sei nadar,
mas o braço novo sabia,
então eu nadava…
E o mar era vermelho, aquele mar, todo vermelho –
ondas, gigantescas ondas…

VELHO

ESCUTA!

JOVEM

(absorto em sua imaginação, maravilhado) …vermelhas…

VELHO

Sangue.

(tempo)

JOVEM

No mar?
No meu sonho?

VELHO

Em suas calças, agora:
encharcadas de sangue.
Vê?

(silêncio)

Enquanto você dormia
e sonhava e nadava sobre gigantescas ondas vermelhas,
enquanto tudo isso acontecia
dentro de você,
algo terrível se passava
– aqui fora…
Porque você dormia, mas seu braço, o braço novo,
aquele braço que implantamos em seu corpo:
esta parte, sua agora, a parte aquela –
ESTAVA ACORDADA,
enquanto você sonhava esta noite…
O braço novo:
pegou os cacos de vidro do copo quebrado espalhados no chão;
e com os cacos, aqueles,
estraçalhou
– estraçalhou, compreende? –
dilacerou suas pernas…

Suas calças estão molhadas, sim, SIM, mas não é urina;
é sangue.
Estão encharcadas de sangue,
(pausa)
compreende?
O sangue,
seu sangue,
aquele que vazou durante a noite, brotando dos cortes em suas pernas estraçalhadas pelo caco de vidro empunhado por seu braço – seu novo braço…

JOVEM

(nervosamente) O braço – cortou minhas pernas?

VELHO

Muitos cortes, muito sangue…
Veias, artérias, músculos, nervos:
tudo estraçalhado, tudo mergulhado, suas pernas nadando em um mar de sangue…

JOVEM

Por quê?
Por que o braço dilacerou minhas pernas?

VELHO

(irritado) Ainda esta pergunta, esta mesma pergunta ainda?
Quer um motivo, é isso?
Não há…

JOVEM

Por quê?

VELHO

…mas não há motivos, precisa compreender!
As coisas são assim neste lugar,
SEMPRE FORAM ASSIM,
sempre serão…
(gritando)
NÃO

MOTIVOS!

(silêncio)

JOVEM

(frágil) Onde estão minhas pernas?

VELHO

Tivemos que amputá-las, enquanto você dormia e sonhava e era feliz nadando em seu sonho, aí dentro…
Fomos obrigados a amputá-las: não havia como salvá-las, acredite em mim, estavam estraçalhadas:
completamente perdidas, suas pernas – as duas…

JOVEM

(desesperado) ONDE ESTÃO?

HOMEM

Eu.
Fui eu.
(pausa)
Eu comi.
(pausa)
Comi suas pernas.

(tempo)

Tinha fome;
muita, muita fome.
Estou aqui há tanto tempo…
Iam jogar fora as pernas, um desperdício!
Não podia assistir aquilo, todo aquele desperdício,
acontecendo bem na minha frente, bem diante dos meus olhos:
NÃO!
(pausa)
Então,
eu comi;
comi suas pernas.

(silêncio)

JOVEM

(para o VELHO) Quero as pernas dele!
Me dá as pernas dele!

VELHO

Não.

(tempo)

JOVEM

As pernas dele, eu quero as pernas dele pra mim!

VELHO

Não.

JOVEM

A Lei…
O QUE DIZ A LEI?

VELHO

(calmamente) Mas este homem não arrancou suas pernas…
Ele as comeu, só isso.
Fomos nós que arrancamos suas pernas.
Para seu próprio bem.
Se não tivéssemos separado aquelas partes de seu corpo,
você ia sangrar até morrer…
Foi preciso,
compreende?
(pausa)
A Lei?
Não, a Lei não pode te ajudar agora.
(pausa, imóvel)
Mas…

JOVEM

(baixo) O quê?

HOMEM

É o que diz a Lei?

VELHO

Se quiser…

JOVEM

(esperançoso)
O quê?

VELHO

…podemos remover seu novo braço.
Foi o braço, seu novo braço:
o responsável por sua nova perda,
(para o HOMEM) quanto a isso não restam dúvidas…

HOMEM

(concordando) Nenhuma dúvida.

JOVEM

Remover o braço?
Não.
É um braço forte, me dá poder,
(sorri) e sabe até nadar!
(para si mesmo) Não…
Perdi minhas pernas, mas foi um acidente, não é assim?
Não há motivos.
Aqui, neste lugar:
NÃO

MOTIVOS!
(pausa)
Quero ficar com o braço, este braço novo, meu agora.
Preciso dele!
(implorando, frágil) Por favor…
Me torna maior, muito maior –
mais forte, mais poderoso –
muito, muito mais do que eu jamais, jamais seria
(sussurrando) se estivesse sozinho…

(silêncio)

HOMEM

Suas pernas:
(lentamente, o JOVEM olha para o HOMEM)
é estranho…
(sorri) E é engraçado, também.
Suas pernas, elas tinham gosto,
(lentamente) gosto de peixe.

*

(luz só no rosto do JOVEM)

JOVEM

Fiquei acordado por 3 dias e 3 noites.
Tinha medo de dormir, medo do que o braço poderia fazer…
Então fiquei acordado
e testemunhei aquilo que,
na falta de outra palavra capaz de descrever,
vou chamar agora,
aqui,
de milagre…
Porque naquelas 72 horas fiz uma porção, uma porção de coisas incríveis:
meu braço novo podia apertar os botões do controle-remoto da TV melhor do que jamais sonhei –
tão rápido, os canais giravam numa vertigem!
Também jogava melhor todos os jogos de todas as plataformas que existem no universo;
quebrei todos os recordes,
entrei para todos os Halls da Fama!
O único problema era que o braço se recusava a assinar meu nome,
digitando iniciais
que não eram as minhas…
Levantei peso, muito peso:
50 quilos de bíceps serão sempre 50 quilos de bíceps,
e quanto a isso não restam dúvidas!
Olhos femininos grudados em mim, tantos olhos, de tantas mulheres, completamente inalcançáveis até aquele instante…
Mas o melhor ainda se escondia
como uma surpresa na manhã de natal:
(segredando) noite passada
o braço brigou por mim em uma boate:
vi quando arrebentou os dentes de outro homem;
assisti os dentes daquele desconhecido se quebrarem, presos então em meu novo punho vermelho…
Enorme, aquele punho.
Cheio de dentes,
cravados nele…
O braço era meu, eu sabia, eu sentia:
ele era meu e eu,
eu era dele.
Para sempre.
Estávamos ligados, como gêmeos siameses:
inseparáveis.
Então dormi, dormi finalmente, como um bebê no colo de sua mãe,
enquanto sentia minha nova mão acariciar meus cabelos
com tanto,
tanto,
tanto carinho…
(pausa)
Não é isso o que chamam de amor?
(pausa)
O braço seria, a partir daquele instante,
meu guardião, meu zeloso protetor.
O medo foi embora.
Em seu lugar, agora,
aqui,
apenas uma esperança cega
em meu coração.

*

(luz só no rosto do VELHO)

VELHO

Na manhã seguinte, encontramos o que restou do corpo dele:
uma posta de sangue, carne, nervos –
tudo misturado, não parecia humano…
Brotando triunfante daquela massa asquerosa,
o braço dançava como uma árvore dança na ventania…
Pois enquanto dormia, o braço,
que nunca dorme,
o espancou até a morte.
Jogamos aquele amontoado vermelho de merda no lixo –
não valia a pena gastar sequer uma vela com aquela coisa…
Mas guardamos o braço.
Era tão bonito,
tão majestoso e viril
em sua fortaleza imaculada.
Imortal, aquele braço;
eterno
como uma esperança cega
no coração dos homens de bem.
(tempo; sussurrando)
Você:
quer de volta?

*

(luz só no rosto do HOMEM)

HOMEM

Sim…
Sim, SIM, eu quero:
quero o braço de volta.
Meu braço, de volta em meu corpo: a parte, o todo…
Juntos novamente: inseparáveis.
Podem reimplantá-lo de volta em meu corpo?
(fecha os olhos, emocionado)
Isso tudo:
é um milagre?
(abre os olhos, lentamente)
Quando terminarem a cirurgia,
vou sair, sair: celebrar!
Uma festa, sim;
estou tão, tão feliz!
Quando não aguentar mais
nem ao menos ficar de pé;
quando não souber mais
nem ao menos o meu próprio nome,
aí vou nadar pela noite deste lugar
dirigindo meu carro.
Meu carro,
meu braço
de volta ao volante:
em alta velocidade noite adentro…
Vou fechar meus olhos, então,
e vou, enfim,
esquecer:
esquecer de tudo, tudo o que aconteceu
tornando este lugar
uma terra
sem
motivos.

(emocionado)

A felicidade, eu compreendo agora:
a felicidade é este esquecimento.
E o esquecimento é como um carro, em altíssima velocidade,
cruzando a noite, com um motorista bêbado ao volante:
(sussurrando, lentamente)
sem passado
nem futuro.

(o HOMEM sorri;
a luz em seu rosto cai, bem devagar.
Escuridão
)


Roberto Alvim

(1973) é dramaturgo, diretor e professor de Artes Cênicas. Atuando profissionalmente há 25 anos, escreveu e dirigiu mais de uma centena de peças, encenadas no Brasil e em países como França, Alemanha, Bélgica, Suíça, Argentina e México.

5 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Drama. Index: Roberto Alvim. Publicação: Luan Maitan. Imagem de capa: Felipe Uchôa.


O leitor frígido

O leitor frígido

Mais um texto sobre a crise do romance

[1]

Sempre me encheu de inveja o relato de Nelson Rodrigues sobre seu primeiro encontro com Dostoiévski: “Um dia, meu pai trouxe para casa o Crime e castigo. Fui ler o livro no quarto trancado. Comecei às sete da noite, antes do jantar, e não jantei. Não parei mais. Eram oito horas da manhã, ou nove, quando os deixei na Sibéria. Ou por outra: era eu que estava na Sibéria”.

Mais de uma vez comecei a ler Crime e castigo, sempre sem chegar ao fim. Por um motivo qualquer, interrompia a leitura prometendo retomá-la o mais breve possível, atento à recomendação (borgiana talvez) de que é preciso ler Dostoiévski ainda na juventude.

Por fim – é duro assumir – capitulei covardemente. Assisti à minissérie da BBC, com o britânico John Simm estrelando Raskólnikov, e me dei por contente. Há algo no romance, afinal, mais forte que a linguagem, algo que sobrevive na transição da escrita para a imagem, e não há dia que passe sem me lembrar de alguma cena, cenário ou personagem de Crime e castigo.

Mas não tem a ver com Dostoiévski a minha inveja do velho Nelson. Não é o livro em si, mas a cena de leitura, a absorção mística com que Nelson atravessa a noite decifrando os signos, que me enche de admiração.

Há tempos não me sinto transferido para dentro de um romance dessa maneira. Boas leituras há, é verdade, algumas até muito interessantes; mas nem uma delas capaz de me fazer sacrificar o jantar ou uma noite de sono.

[2]

Quando penso em minha recente incapacidade de me deixar impactar por um livro, busco conforto em racionalizações de todo tipo; a preferida delas, sem dúvida, a que versa sobre a crise da literatura, especialmente sobre a crise do romance. Há quantos autores contemporâneos, afinal, que merecem ser lidos? Quantos sobreviverão ao tempo? Sendo o tempo tão escasso, por que não ler somente os clássicos? – pergunto a mim mesmo com a arrogância do leitor blasé, assistindo indiferente à luta dos escritores. E, convenientemente, esqueço que minha falta de entusiasmo se estende até os livros mais incontestáveis.

Mas o Balzac abandonado sobre a mesa, A montanha mágica fazendo as vezes de apoio para o notebook e os sete tomos de Proust decorando a estante sempre vêm lembrar a verdade que me esforço em negar: sou um leitor frígido.
Um leitor frígido, sim, mas não por natureza. Afinal, também já tive minhas noites rodriguianas, repletas de prazeres literários. Nem sempre abandonei livros ao meio, nem sempre abri um livro apenas como quem mantém um hábito.

[3]

Mas antes de falar em crise da literatura, é preciso falar em crise da leitura. Um sistema literário, como mostrou Antonio Candido, é feito de autores, obras e leitores. Sem autores não há obras, sem obras não há leitores, e sem leitores não há autores. O sistema literário é um organismo vivo, com estruturas que interagem fisiologicamente. Qualquer desordem em uma dessas estruturas trará consequências para o todo.

O lugar-comum (verdadeiro) de que todo grande autor é antes de mais nada um grande leitor confirma essa ideia de sistema. Como formar autores sem formar leitores?

Estamos no Brasil, é claro, lugar onde o sistema literário – por motivos que todos sabemos (ou deveríamos saber) – sempre se manteve a duras penas. Sempre tivemos poucos leitores. A crise, no entanto, parece ser ainda mais profunda, atingindo estratos sociais que, mesmo com amplas condições de acesso, se interessam cada vez menos pela literatura. E contrariando a síndrome de vira-lata vigente é preciso dizer: isso não ocorre só no Brasil.

Assistimos a um processo – inédito talvez – de regressão da leitura, que para além do fracasso em ampliar seu público, perde espaço entre grupos onde já gozou de alguma popularidade, ainda que superficial. E, entre os leitores que restam, muitas vezes predomina a frigidez de que me acuso: a leitura como mero hábito, como costume social meio anacrônico mas digno de respeito, e que portanto deve ser preservado.

Como os personagens de Fahrenheit 451, defendemos a literatura em tempos absolutamente hostis. Um ato belo, é verdade, mas também triste, pois é sempre ambígua a defesa de um patrimônio: quando tombamos um monumento, por um lado preservamos o direito permanente de renovar o maravilhamento que experimentamos ao contemplá-lo. Mas, por outro, não corremos também o risco de visitá-lo como meros turistas, registrando tudo com nossas câmeras indiferentes?

[4]

Em After the future, Franco Berardi separa os conceitos de ciberespaço – ilimitado e em processo de constante expansão – e de cibertempo – a habilidade humana da atenção que processa informações no tempo e que, sendo orgânica, cultural e subjetiva, pode ser tudo, menos ilimitada. Dito de modo mais simples, o ciberespaço é a totalidade da informação disponível no mundo digital, e o cibertempo, nossa capacidade limitada de consumir essa informação.

O cibertempo, é claro, não consegue abarcar o ciberespaço. Milhões de usuários e meios de comunicação alimentam o Big Data ininterruptamente, enquanto nossa capacidade de absorver dados – sejam simples como um meme ou complexos como um parágrafo da Crítica da razão – continua basicamente a mesma de nossos antepassados, sem avanços consideráveis.

A passagem do modelo de página ou fórum, predominante no começo da internet, para o atual modelo do feed infinito ilustra bem a discrepância entre cibertempo e ciberespaço. Podíamos ler um tópico do Orkut do início ao fim, mais ou menos como lemos uma matéria de jornal ou um artigo, mas dificilmente podemos aplicar esse verbo ao ato de rolar a timeline do Facebook buscando um fragmento de informação que mereça a nossa curtida. O caos que iguala gatinhos fofos e selfies com denúncia social e crítica de arte é infinito. Jamais chegaremos ao fim de nossa timeline.

O ciberespaço se expande; o cibertempo permanece o mesmo. Sujeita à hiperaceleração dos “infoestímulos”, nossa mente ou entra em pânico ou bloqueia sua sensibilidade. Para não colapsar, desenvolvemos uma atitude blasé. Não deixamos de ler a matéria que denuncia a relação entre a guerra no Congo e os smartphones ou a notícia sobre a venda de escravos em feiras-livres de São Paulo. Não deixamos de ler nem de compartilhar – e mesmo de nos impactar – por informações como essas. Mas, registrado algum sentimento (vergonha, indignação, descrença na humanidade), seguimos em frente. Quando falamos em crise da leitura, é preciso levar em conta essa perda de sensibilidade, certamente transferida do ciberespaço para a literatura.

A sensibilidade, diz Franco Berardi, é “a habilidade de compreender o que as palavras não dizem”, o poder de interpretar signos não verbais que fundamenta a empatia. “Essa faculdade, que permite ao ser humano entender mensagens ambíguas no contexto das relações sociais, parece estar prestes a desaparecer. Testemunhamos o desenvolvimento de uma geração de humanos à qual falta sensibilidade, a habilidade de compreender o outro e decodificar signos não codificados em um sistema binário”.

E se aceitamos que o romance, como quer James Wood, é sobretudo empatia e complexidade – isto é, “a melhor apresentação da complexidade de nossa estrutura moral” e a consequente empatia ao reconhecer essa complexidade –, devemos considerar que a crise da leitura passa pelo modo como navegamos pelo ciberespaço.

Nada mais distante de um monólogo interior, que disseca e expõe a psique de um personagem, do que a superficialidade de uma selfie. Nada mais distante da profundidade de análise do romance realista do que o imediatismo do mercado de notícias. Nada mais distante das contradições humanas presentes na boa ficção do que os bate-bocas virtuais que opõem petralhas e coxinhas. Não estaríamos nos acostumando com a futilidade das redes sociais e, consequentemente, nos desinteressando pela literatura?

A pergunta, portanto, não é “por que a literatura deixou de nos apaixonar?”, mas “por que perdemos a capacidade de nos apaixonar pela literatura?”. Ou, dito de outro modo: por que nos tornamos tão frígidos?


Caique Zen

Coeditor.

31 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index: Nelson Rodrigues, Antonio Candido, Franco Berardi, James Wood. Publicação: Caique Zen. Revisão: Mônica Silva, Caio Ramalho.


Os centauros

Os centauros

Conto inédito de Luis Dolhnikoff


Todos os fins de tarde, na volta do escritório, ele parava de pé ao lado dela, deitada em um divã, e observava demoradamente a pele pálida, quase translúcida, dos seus seios. Fazia já três meses. Tempo insuficiente para descobrir se a fisiologia da fome levara o bebê a acordar repetidas vezes, à noite e de dia, de modo a que a rotina afinal estabelecida fizesse com que a amamentação do final de tarde por acaso coincidisse com a hora de sua chegada em casa, ou se a fisiologia e a fome foram sutilmente assim guiadas pela mãe, como os lábios do bebê para os mamilos, ou seus olhos dirigidos por si mesmos para os mamilos e o bebê.

Um dia, quando ela afastou a pequena cabeça do segundo seio, e uma gota de leite aflorou na ponta do mamilo tenso, ele pousou levemente a mão aberta sobre a gota, depois esfregou uma mão na outra, e segurou seu rosto, e se abaixou, e a beijou.

No dia seguinte, outra gota aflorou na ponta exposta do mamilo, e ele outra vez pôs devagar a palma sobre ela. Mas não levou a mão aberta à outra, e sim aos próprios lábios, enquanto, em silêncio, se olhavam.

No terceiro dia, outra gota se expôs, mas ele não moveu a mão. Abaixou a cabeça, sugou-a e, em seguida, abriu um pouco os lábios, descendo-os ao longo do mamilo úmido.

No quarto dia, ele se ajoelhou ao seu lado, aproximou os lábios do mamilo, envolveu-o e sugou seu leite pelo tempo de contrair a boca. Então o soltou, ficou de pé e sorriu. Ela sorriu também.

No quinto dia, assim que ela pôs o bebê no berço ao seu lado, segurou um seio por baixo, comprimindo-o e erguendo-o, como fazia quando o oferecia ao filho. Ele se ajoelhou e mamou por um longo tempo.

 

Logo se tornou um novo hábito. Ela amamentava o filho, depois o pai. Ele não se sentia quebrando qualquer esquecido tabu, ou desnutrindo sua maturidade. Não sentia nada de moral, incluindo a imoralidade. Na verdade, sentia somente o gosto do leite, o cheiro dela, seu calor. Ela gostava de seu homem poder ser, também, seu menino.

Um dia, ela amamentou o bebê depois do banho, vestindo um longo roupão branco. Depois de o bebê mamar, ele, que a olhava de pé ao seu lado, tirou a roupa antes de se ajoelhar.

Mamou por um momento, e então, em silêncio, sem tirar os lábios do mamilo, ergueu-se um pouco, apenas o suficiente para pôr uma perna, depois a outra, e então o resto do corpo, sobre o divã, deitando-se devagar ao lado dela. Então, em um movimento rápido, mas delicado, se virou sobre ela, e se deitou sobre seu corpo, e afastou suas pernas com as dele, e a penetrou.

 

Ela se sentiu cortada ao meio como se por uma serra elétrica. A metade de cima do seu corpo, cujas sensações convergiam todas e inteiramente para o mamilo que ele ainda sugava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções jorravam mais forte do que o leite, mas sem qualquer direção, eram as de uma mãe, de uma mãe quando mais intensamente maternal. A metade de baixo do seu corpo, cujas sensações convergiam inteiras e totalmente para a boceta que ele penetrava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções transbordavam mais intensas do que o sêmen no auge do orgasmo, e como ele em espasmos, eram as de uma fêmea, de uma fêmea quando mais repletamente feminina.

Ele, ao contrário, ao mesmo tempo o macho no ato da cópula e o bebê no gesto de sugar o seio, se fundiu em um novo ser, que era ele. Ele que fora, durante cada dia e cada noite da sua vida, uma parte dele. E se sentiu unido, reunido a si mesmo, como não se sentia desde que esquecera como era não se sentir dividido, ao adquirir a inteira consciência de si mesmo, e a quase consciência da perda.

Agora a parte perdida se reintegrava à parte mantida que ele fora, que ele era até aquele instante. Ao bebê que fora um dia, e que um dia assim conhecera o mundo, e que deixara de existir para deixar nascer o adulto que se tornaria. Ele matara devagar o que fora de início, o que ele próprio fora de início, o início dele próprio, o início, ele próprio, para se tornar lentamente outro ele, mais e menos do que havia sido. Agora tudo se reintegrava, não havia mais partes, perdas nem passado, e ele parou de pensar.

Seu cérebro se esvaziou de todo pensamento, toda palavra, toda recordação, todo desejo, e se encheu inteiramente de sensações. De tudo aquilo, e de tudo aquilo apenas, que seus sentidos lhe ofereciam naquele momento, como um animal. Tudo era calor, cor, luz, cheiro, paladar, tato, som. E nada que não fosse som, tato, paladar, cheiro, luz, cor ou calor existia. Nele, ou no mundo. Mundo que era ele, ele que era o mundo, ou, ao menos, a parte do mundo que seus sentidos introjetavam, uma parte que agora era tudo.

Então ele ejaculou, e sugou mais forte o mamilo. E se tornou um círculo, o homem e o bebê no ápice simultâneo de sua percepção de sê-lo. E o círculo que ele era se tornou um círculo com ela, lançando nela seu sêmen enquanto absorvia dela seu leite. E ela se reintegrou a si mesma, ao se tornar, plena e simultaneamente, inteiramente mãe e inteiramente fêmea. Ao se tornar, inteiramente. Enquanto, ao mesmo tempo, se dissolvia e se reintegrava no círculo dele com ele, que era o círculo dela com ela e com ele.

 

Depois de alguns segundos, ele saiu devagar, em silêncio, de dentro e de cima dela, e se deitou de novo ao seu lado. Calados, os olhos abertos, olhavam para o teto perfeitamente branco. Então, sussurrante, ela disse:

– Meu Deus.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).

25 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Ficções. Index: Luis DolhnikoffPublicação: Luan Maitan. Imagem de capa: Battle Between the Lapiths and Centaurs, de Luca Giordano (1634-1705). Este conto faz parte do volume inédito Depois do sol.


Uma festa de exéquias profanas

Uma festa de exéquias profanas

Cinco poemas de Mikhail Liérmontov traduzidos do russo por Pedro Augusto Pinto

Mikhail Iúrevitch Liérmontov (1814-1841) é considerado um dos principais autores russos do século XIX, tendo inaugurado o romance psicológico na literatura russa e representando, nesta, o ponto alto da expressão romântica – e tudo em apenas 26 anos de vida, dado que com esta idade seria morto em um duelo. Apesar da morte prematura, foi considerado ainda em vida o herdeiro poético de Aleksandr Púchkin, cujo assassinato pelas mãos do embaixador francês denunciou em seu poema de estreia literária, “A morte de um poeta”. Dedicou-se à prosa, ao teatro e sobretudo à poesia, publicando relativamente pouco mas deixando um imenso legado literário, que influenciaria nomes do porte de Fiódor Dostoiévski e Vladimir Maiakóvski.

К друзьям

Я рожден с душою пылкой,
Я люблю с друзьями быть,
А подчас и за бутылкой
Быстро время проводить.

Я не склонен к славе громкой,
Сердце греет лишь любовь;
Лиры звук дрожащий, звонкой
Мне волнует также кровь.

Но нередко средь веселья
Дух мой страждет и грустит,
В шуме буйного похмелья
Дума на сердце лежит.

Aos amigos

Já nasci com um peito ardente,
Gosto de estar entre os meus;
Copo cheio e, entrementes,
Passa o tempo qual corcel.

Não sou dado às altas glórias,
Só me aquece mesmo o amor;
Som de lira encantatória
Dá em meu sangue igual calor.

Mas, na festa, algo me ataca,
Vai-se o enlevo em um momento,
Na algazarra da ressaca
Jaz no peito um pensamento.

*

Еврейская мелодия

Я видал иногда, как ночная звезда
В зеркальном заливе блестит,
Как трепещет в струях и серебряный прах
От неё, рассыпаясь, бежит.

Но поймать ты не льстись и ловить не берись:
Обманчивы луч и волна.
Мрак тени твоей только ляжет на ней —
Отойди ж — и заблещет она.

Светлой радости так беспокойный призра́к
Нас манит под хладною мглой.
Ты схватить — он шутя убежит от тебя!
Ты обманут — он вновь пред тобой.

Melodia judaica

Certas vezes eu via, se a noite caía,
‘ma estrela no espelho do mar
Oscilando na enseada, e uma cinza prateada
Eu a vi, feito vento, espalhar.

Mas não tentes pegá-la, nem queiras guardá-la:
Seu raio te engana e a onda mente
Se tu chegas mais perto, o seu brilho é coberto –
Se te afastas, reluz novamente.

A mais clara alegria p’ra treva mais fria
Nos leva – fantasma agitado;
Se o agarras, risonho, ele some num sonho!
Enganou-te – e já surge ao teu lado.

*

Пророк

С тех пор как вечный судия
Мне дал всеведенье пророка,
В очах людей читаю я
Страницы злобы и порока.

Провозглашать я стал любви
И правды чистые ученья:
В меня все ближние мои
Бросали бешено каменья.

Посыпал пеплом я главу,
Из городов бежал я нищий,
И вот в пустыне я живу,
Как птицы, даром божьей пищи;

Завет предвечного храня,
Мне тварь покорна там земная;
И звезды слушают меня,
Лучами радостно играя.

Когда же через шумный град
Я пробираюсь торопливо,
То старцы детям говорят
С улыбкою самолюбивой:

«Смотрите: вот пример для вас!
Он горд был, не ужился с нами:
Глупец, хотел уверить нас,
Что бог гласит его устами!

Смотрите ж, дети, на него:
Как он угрюм, и худ, и бледен!
Смотрите, как он наг и беден,
Как презирают все его!»

O profeta

Desde quando o Juiz Eterno
Deu-me o dom da onividência
Leio os olhos qual cadernos
Da maldade e da indecência.

Pus-me a pregar o amor,
E a verdade, limpa e pura:
E os meus, ao meu redor
Jogaram pedras e juras.

Coberto de cinzas, eu,
Miserável, pus-me a andar,
Como com as aves de céu:
Fiz do deserto o meu lar.

Obediente às leis eternas,
Seguem-me as feras, pacatas.
As estrelas me ouvem, ternas,
Dançando em raios de prata.

Se por ruidosa cidade
Eu corro em minhas andanças,
Com um sorriso de vaidade
Dizem os velhos às crianças:

“Eis um exemplo pra vocês!
Não quis ouvir-nos, os sábios!
O imbecil diz que Deus fez
As palavras dos seus lábios!

“Olhem crianças, pra ele!
Como é sombrio, ressequido,
Como é pobre e mal vestido,
Como ninguém gosta dele!”

*

Не верь себе

Que nous font après tout les vulgaires abois
De tous ces charlatans, qui donnent de la voix,
Les marchands de pathos et les faiseurs d’emphase
Et tous les baladins qui dansent sur la phrase?
A. Barbier

Не верь, не верь себе, мечтатель молодой,
‎ Как язвы, бойся вдохновенья…
Оно — тяжелый бред души твоей больной
‎ Иль пленной мысли раздраженье.
В нём признака небес напрасно не ищи:
‎ То кровь кипит, то сил избыток!
Скорее жизнь свою в заботах истощи,
‎ Разлей отравленный напиток!

Случится ли тебе в заветный, чудный миг
Отрыть в душе, давно безмолвной,
Ещё неведомый и девственный родник,
‎ Простых и сладких звуков полный, —
Не вслушивайся в них, не предавайся им,
‎ Набрось на них покров забвенья:
Стихом размеренным и словом ледяным
‎ Не передашь ты их значенья.

Закра́дется ль печаль в тайник души твоей,
‎Зайдёт ли страсть с грозой и вьюгой —
Не выходи тогда на шумный пир людей
С своею бешеной подругой;
Не унижай себя. Стыдися торговать
‎ То гневом, то тоской послушной
И гной душевных ран надменно выставлять
‎ На диво черни простодушной.

Какое дело нам, страдал ты или нет?
‎ На что́ нам знать твои волненья,
Надежды глупые первоначальных лет,
‎ Рассудка злые сожаленья?
Взгляни: перед тобой играючи идёт
‎ Толпа дорогою привычной,
На лицах праздничных чуть виден след забот,
‎ Слезы не встретишь неприличной.

А между тем из них едва ли есть один,
‎ Тяжёлой пыткой не измятый,
До преждевременных добравшийся морщин
‎ Без преступленья иль утраты!..
Поверь: для них смешон твой плач и твой укор,
‎ С своим напевом заучённым,
Как разрумяненный трагический актер,
Махающий мечом картонным…

Não creias em si

Que nous font après tout les vulgaires abois
De tous ces charlatans, qui donnent de la voix,
Les marchands de pathos et les faiseurs d’emphase
Et tous les baladins qui dansent sur la phrase?
A. Barbier

Não creias, não, em si, ó jovem sonhador,
Qual chaga, foge da inspiração:
É um delírio febril de tua alma em torpor
Ou uma irritante fixação.
Não busques nela, em vão, desígnios do céu –
É sangue quente, ou força excessiva!
Gasta antes teu ser em infindável tropel,
Arremessa esta taça nociva!

Quando quer que te ocorra, num instante celeste
Escavar, na alma há muito calada,
Secreto manancial, ainda virgem e agreste,
Rico em música simples, alada,
Não lhe dês atenção, não te deixes vivê-lo,
Cobre-o com o véu do esquecimento:
Em cadências iguais, ou palavras de gelo,
Não transmitirás seu sentimento.

Em teu peito abrigou-se tristeza amargosa?
A paixão vem com ventos, procelas?
Não procures, então, gente ou festa ruidosa –
Que não te vejam junto com ela!
Não sofra a humilhação, a infâmia de vender
Qualquer raiva ou aflição irrisória,
Ou de chagas morais tirar pus e of’recer
Para o espanto da massa simplória.

Que é que temos a ver, se tu sofreste ou não?
P’ra que saber dos problemas teus,
Tua estúpida, infantil, risível ilusão,
E tuas falsas lamúrias de adeus?
Vê: bem em frente a ti, segue inerte seu passo
A turba, em seu rumo trivial;
Na alegria do olhar mal se vê seu cansaço,
De choro indecente, nem sinal.

Entre eles, porém, não verás um qualquer
Que não pene em pesada tortura,
Com rugas temporãs, sem um crime sequer,
Sem anseios, ausências, loucuras!…
É ridículo, crê!, para eles teu choro,
Teu reproche, ensaiado refrão,
Qual um trágico ator maquiado ante o coro,
Brandindo um punhal de papelão…

*

Тамара

В глубокой теснине Дарьяла,
Где роется Терек во мгле,
Старинная башня стояла,
Чернея на черной скале.

В той башне высокой и тесной
Царица Тамара жила:
Прекрасна, как ангел небесный,
Как демон, коварна и зла.

И там сквозь туман полуночи
Блистал огонек золотой,
Кидался он путнику в очи,
Манил он на отдых ночной.

И слышался голос Тамары:
Он весь был желанье и страсть,
В нем были всесильные чары,
Была непонятная власть.

На голос невидимой пери
Шел воин, купец и пастух;
Пред ним отворялися двери,
Встречал его мрачный евнух.

На мягкой пуховой постели,
В парчу и жемчу́г убрана,
Ждала она гостя… Шипели
Пред нею два кубка вина.

Сплетались горячие руки,
Уста прилипали к устам,
И странные, дикие звуки
Всю ночь раздавалися там.

Как будто в ту башню пустую
Сто юношей пылких и жен
Сошлися на свадьбу ночную,
На тризну больших похорон.

Но только что утра сиянье
Кидало свой луч по горам,
Мгновенно и мрак и молчанье
Опять воцарялися там.

Лишь Терек в теснине Дарьяла,
Гремя, нарушал тишину;
Волна на волну набегала,
Волна погоняла волну;

И с плачем безгласное тело
Спешили они унести;
В окне тогда что-то белело,
Звучало оттуда: прости.

И было так нежно прощанье,
Так сладко тот голос звучал,
Как будто восторги свиданья
И ласки любви обещал.

Tamara

No Darial, sobre um desfiladeiro
Onde corre o Terek, agitado,
Uma torre se avista no outeiro,
Velha e escura, num canto assombrado.

Nessa torre, tão alta e estreita,
A rainha Tamara vivia:
Com a beleza de um anjo, perfeita,
Qual demônio, cruel, falsa e fria.

E de lá, meia-noite, entre a névoa,
Cintilava uma chama dourada,
Que atraiu o viajante e o leva
A buscar lá repouso e pousada.

E ouvia-se a voz de Tamara:
Ele ardeu em desejo e paixão.
Tais feitiços jamais encontrara,
Tal poder de obscura atração.

Sob a voz misteriosa da péri
Foi o mascate e guerreiro viril;
Já se abre o portão, sem que espere,
O recebe um eunuco sombrio.

Numa cama forrada, macia,
Toda em pérolas feita, e brocado,
Aguardava Tamara, e se via
Rubro vinho servido ao seu lado.

Entrelaçam-se os dedos ardentes
E os lábios aos lábios se colam,
E barulhos bravios, estridentes,
Pela noite, entre as trevas, evolam.

E então toda esta torre, deserta,
Pareceu ter cem pares em chamas,
Pr’um casório noturno desperta,
Ou uma festa de exéquias profanas.

Mas tão logo a manhã reluziu
Com seus raios nos picos serranos,
Eis que a treva, o silêncio e o vazio
Lá voltaram a imperar soberanos.

Só o Terek troveja entre as pedras,
Interrompe o silente Darial;
Uma onda na outra se quebra,
Se dissolve na cheia caudal.

E, aos prantos, com o corpo já quieto,
A criadagem depressa desceu;
Da janela então viu-se, discreto,
Algo branco, e ouviu-se um “adeus”.

E este adeus era tão carinhoso,
E tão doce o seu som ecoou,
Que um encontro, um amor venturoso,
Qual promessa, em sua voz se escutou.


Mikhail Liérmontov

(1814-1841), enfant terrible da literatura russa do século 19, morto aos 26 anos em um duelo, já então considerado o herdeiro legítimo de Púchkin. Seus 26 anos lhe bastaram para tornar-se um dos pilares da literatura russa moderna, tanto na prosa quanto na poesia, figurando ao lado de Púchkin e de Gógol no que se convencionou chamar a “primeira plêiade” da literatura russa do século 19.

Pedro Augusto Pinto

é paulista nascido em 1992 e trabalha como tradutor e pesquisador da literatura russa. Traduziu textos de Tchékhov, de Gógol e sobretudo de Liérmontov, cujos maiores poemas traduziu ao português pela primeira vez (alguns publicados pelo jornal Rascunho), recebendo menção honrosa pelo seu trabalho em alguns eventos acadêmicos. Em 2018, publicou pela editora 7 Letras seu primeiro livro de poesia, Um bicho de circo, que teve alguns de seus poemas publicados nas revistas Lavoura e Ruído Manifesto.

19 de julho, 2018. Volume: 2Seção: Poesia Index: Mikhail Liérmontov, Aleksandr Púchkin, Fiódor Dostoiévski, Vladimir Maiakóvski, Pedro Augusto PintoPublicação: Luan Maitan. Imagem de capa: La Mort de Sardanapale (1827), Eugène Delacroix.


Hora de football

Hora de football

Uma crônica de João do Rio

É o novo ground.[1] O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma. Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça quando um dos meninos arranjava um haltere. Estava perdido. Rapaz sem pincenez,[2] sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era homem estragado.

E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports. O Flamengo era o parapeito sobre o mar. A sede do club estava a dois passos da casa de Júlio Furtado, que protetoramente amparava o delírio muscular da rapaziada. As pessoas graves olhavam “aquilo” a princípio com susto. O povo encheu-se de simpatia. E os rapazes passavam de calção e camisa-de-meia dentro do mar a manhã inteira e a noite inteira.

Então, de repente, veio outro club, depois outro, mais outro, enfim, uma porção. O Boqueirão, a Misericórdia, Botafogo, Icaraí, estavam cheios de centros de regatas. Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing,[3] era a paixão dos sports. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos. Faltava apenas a sagração de um poeta. Olavo Bilac escreveu a sua celebrada ode “Salamina”.

– Rapazes, foi assim que os gregos venceram em Salamina! Depois disso, há dezesseis anos, o Rio compreendeu definitivamente a necessidade dos exercícios, e o entusiasmo pelo football, pelo tennis, por todos os outros jogos – sem diminuir o da natação e das regatas – é o único entusiasmo latente do carioca. Rendamos homenagem às Regatas do Flamengo!

O meu velho amigo, fraco e pálido, falava com ardor. Interrompeu-se para tossir. Continuou:

– Pois é este club que inaugura hoje o seu campo de jogos. Haverá acontecimento maior? O Rio estará todo inteiro ali… – Engasgou-se.

O automóvel que passara a correr pelo palácio de José Carlos Rodrigues, onde se realizava a primeira recepção do inverno do ilustre jornalista, estacara. Estávamos à porta do novo campo de jogos. E o meu velho amigo precipita-se. A custo acompanhei-o por entre a multidão e, imprensado, quase esmagado, icei-me à arquibancada. Mas o aspecto era tal na sua duplicidade, que logo eu não soube se devia olhar o jogo do campo em que Galo[4] triunfava ou se devia comover-me diante do frenesi romano da multidão.

Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football! Tenho assistido a meetings[5] colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes gestas de saúde, de força e de ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo, o entusiasmo, a ebriez da multidão assim. Só pensando em antigas leituras, só recordando o Coliseu de Roma e o Hipódromo de Bizâncio.[6]

O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano, era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo.

– Está uma arquibancada estupenda! – murmurou-me Isaac Elbas.

Pinto Lima, no outro extremo, com as duas gentilíssimas filhas, dizia-me adeus, e o dr. Arnaldo Guinle, do Fluminense, parecia almejar a vitória do Fluminense.[7]

Os gritos, as exclamações cruzavam-se numa balbúrdia. Os jogadores destacavam-se mais na luz do ocaso. E de todos os lados subia o clamor da turba, um clamor de circo romano, um clamor de Hipódromo no tempo em que era basilissa Teodora, a maravilhosa…[8]

Nervoso, agitado, sem querer, ia também gritar por Galo, que vencia e que eu via pela primeira vez. Mas o delírio chegara ao auge. O meu velho amigo dizia, quase desmaiado:

– Venceu o Flamengo num score[9] de quatro a um…

À porta quinhentos automóveis buzinavam, bufavam, sirenavam. E as duas portas do campo golfavam para a frente do Guanabara mais de seis mil pessoas arrasadas da emoção paroxismada do football.

 

*

 

[1] Novo ground = novo campo.

[2] Pince-nez = pincenê (óculos sem haste), em francês.

[3] Rowing = remo.

[4] Referência ao jogador Armando de Almeida, o “Galo”, veterano dos primeiros times do Flamengo.

[5] Meetings = encontros. Neste caso, encontros esportivos.

[6] Hipódromo de Constantinopla, onde se realizavam grandes espetáculos para o povo.

[7] A sede do Clube Fluminense fora construída na chácara do empresário Arnaldo Guinle, nas Laranjeiras.

[8] Basilissa (de “basileus”, título usado pelos imperadores bizantinos) Teodora = mulher do Imperador Justiniano I (527-565), cujo reinado assinalou um dos períodos mais brilhantes da história bizantina e que teve grande influência de Teodora.

[9] Score = escore, contagem.


João do Rio

viveu entre 1881 e 1921 no Rio de Janeiro. Jornalista, ingressando na imprensa ainda moço, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou Paulo Barreto, logo se tornou célebre com o pseudônimo. Sua atividade, febril, abarcou os mais diversos rumos. Em reportagens, entrevistas e ensaios, nos deu as tendências literárias da época, o panorama das religiões primitivas cariocas, ou a galeria das figuras de uma conferência de paz. Talvez esse cunho documental seja o mais importante do seu legado.

15 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Dossiê: Copa russa. Index: João do Rio. Publicação: Luan Maitan, Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.