Quem chega à cachoeira da Costa da Lagoa, num dia claro, depara com dois mundos que se espelham: são dois sóis, dois céus e o mesmo número de nuvens e folhas.

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Cada realidade é separada por uma fina membrana de água, semelhante a uma córnea, que reage ao mais leve toque. Ambos os mundos são ladeados por lâminas de pedra, que deslizam queda acima até perderem-se de vista no primeiro lance de água.

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Por serem feitas da mesma matéria – a visão –, as duas realidades se confundem, e não são raras as histórias dos que elegem uma e perdem para sempre a outra (incluindo as apoteoses dos que escolhem remodelar as nuvens, tocar o céu e penetrar o sol).

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Porque há uma polissemia fundamental neste lugar, e ver é trocar mensagens ambíguas, cada qual com sua dupla leitura: uma delas como equívoco, a outra como encanto.

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O caminhante que alcança este cume da jornada pode defrontar consigo mesmo e perceber, na pele porosa da água, que o eu é incontornavelmente um outro.