O todo e as partes

O todo e as partes

POR ROBERTO ALVIM


figuras
VELHO, vestindo um terno branco
JOVEM, vestindo calça e camisa em tons de verde-musgo e negro
HOMEM, vestindo um terno em tons de amarelo-ocre e negro

(Um retângulo vermelho no piso;
o VELHO e o JOVEM estão em cena.
Silêncio)

VELHO

Seu braço foi arrancado:
um atropelamento, o motorista fugiu.
Na fuga:
depois de quilômetros, tantos quilômetros depois,
o motorista percebeu que seu braço estava caído dentro, sangrando dentro – daquele carro.
Parou
e jogou o braço arrancado em um córrego.
O braço arrancado, seu braço, boiou por um instante;
aí afundou…
Sua mão e os dedos, seus dedos azuis, aqueles dedos mortos então:
a última parte a desaparecer,
sumir nas águas imundas daquele córrego…
Compreende?
O braço arrancado está perdido para sempre.
Nunca mais em seu corpo, não existe mais –
nem pra você,
nem pra ninguém.

JOVEM

Ainda sinto, sinto o braço em mim…

VELHO

(sorrindo) Efeito-fantasma:
o todo sente a parte, a parte separada do todo.

JOVEM

Mas eu sinto, ainda…

VELHO

Seu braço, aquele?
Não vai voltar – aquele braço em seu corpo?
(pausa)
Não.

JOVEM

Então meu braço, eu compreendo – não está mais comigo, então…
Quem arrancou meu braço?

VELHO

Um homem – outro.

JOVEM

Um outro?

(surge em cena o HOMEM)

HOMEM

Eu?

VELHO

Sim!
Sim, SIM, foi ele…
Este homem: aquele.

HOMEM

Eu…

JOVEM

Por quê?

VELHO

Você quer um motivo?
(sorrindo) Mas não há…

HOMEM

Eu não queria.

JOVEM

POR QUÊ?

VELHO

(sorrindo) Mas não há, não há motivos!

HOMEM

Acredite, por favor, acredite em mim:
eu não queria…

VELHO

(para o JOVEM, referindo-se ao HOMEM, sussurrando) Foi ele…
(dirigindo-se ao HOMEM, sussurrando) Sim: você.

HOMEM

(sussurrando) Fui eu, não é assim?
(pausa)
Mas estava bêbado, não consigo lembrar…
Lembro que estava em uma festa,
lembro que estava feliz.
Esqueci o que veio depois…

VELHO

Se não tivesse jogado o braço arrancado, o braço que separou para sempre do corpo dele, se não tivesse jogado aquele braço no córrego imundo…

HOMEM

Eu não queria, não queria!
Estava bêbado: uma festa, estava feliz…
O que aconteceu?
Não consigo lembrar…

JOVEM

Por que ele arrancou meu braço?

VELHO

Se não tivesse jogado no córrego para afundar, desaparecer naquelas águas, nós poderíamos, sim, SIM:
reimplantá-lo!
Colocar de volta o braço arrancado no corpo dele –
em seu corpo, trazer a parte separada de volta…
(sorrindo) Em seu corpo então,
os dois braços em você então, em seu corpo agora:
dois braços!
(pausa)
Mas desapareceu para sempre, aquele:
(sussurrando) arrancado por ele…

JOVEM

Ele…

HOMEM

(baixo, para si mesmo) O que aconteceu?

JOVEM

…tem dois braços agora.
Dois braços, você.
Um braço, um só:
eu, agora…

HOMEM

Então foi assim que aconteceu,
mesmo que não consiga lembrar:
estava feliz,
mas isso foi antes…
Agora estou aqui,
não estou?
(sussurrando) O que diz a Lei?

VELHO

(para si mesmo) A Lei…

JOVEM

Existe uma Lei?

VELHO

(alto) SIM, A LEI!
(pausa; recitando)
O que um homem tira de outro homem
será por este homem devolvido.

HOMEM

É o que diz a Lei?

JOVEM

É o que está escrito?

VELHO

(orgulhosamente) Se um homem arranca o braço de um outro,
diz a Lei:
é preciso que este braço seja devolvido.

JOVEM

Eu preciso de um braço…

HOMEM

Eu tenho dois…

VELHO

Um de seus braços será devolvido a ele em retribuição ao braço por você separado.
Está escrito: É A LEI!
Uma amputação; depois um implante:
seu braço no corpo dele –
(carinhosamente) em seu corpo de volta!

JOVEM

Seu braço em meu corpo?

HOMEM

Meu braço:
é seu, agora.

*

(luz só no rosto do VELHO)

VELHO

E o braço daquele homem,
o outro,
foi separado de seu corpo,
em um procedimento cirúrgico minuciosamente orquestrado.
E o braço separado
foi meticulosamente implantado
(sussurrando, como se falasse para o JOVEM)
em seu corpo.
A carne,
as veias, artérias,
os nervos –
costurados cirúrgica, meticulosa, minuciosamente:
em você.
(sorrindo) Tem dois braços, agora, dois braços novamente!
(pausa; satisfeito)
Está feito, e o que está feito faz de todos nós homens melhores:
a Lei
foi cumprida.

*

(luz só no rosto do JOVEM)

JOVEM

Depois da operação, dormi por 3 dias e 3 noites…
O braço daquele homem estava em meu corpo,
tinha sido devolvido em retribuição ao braço que ele havia separado de mim.
(pausa)
Meu novo braço era maior que o anterior.
A mão era imensa,
os músculos eram mais fortes,
e havia uma tatuagem no antebraço, uma frase em latim,
que dizia em letras negras e solenes:
“CARPE DIEM”.
(pausa)
Quando acordei, tentei pegar um copo de água na mesa de cabeceira, mas o meu novo braço era muito forte:
em vez de segurar o copo,
aquela mão enorme o estraçalhou –
os cacos de vidro caíram no chão, a água derramada…
(sorri)
“Que poder!”, pensei.
“Que poder:
quanta força eu tenho, agora!”

*

(luz só no rosto do HOMEM)

HOMEM

Depois da cirurgia em que um dos meus braços foi separado de mim, acordei sem saber para onde ir…
Por isso fiquei onde estava.
Onde ainda estou.
Parado aqui,
na mesma sala em que aquele que tem agora um dos meus braços está convalescendo, se recuperando daquela delicada operação…
(pausa)
Vejo meu braço em seu corpo.
Seu corpo é pequeno demais, magro demais para o meu braço;
mas, ainda assim, desproporcional,
aquela parte de mim é agora uma parte dele…
Inadequada parte.
Dele, agora.
(pausa)
Aqui.

*

(escuridão: ouve-se, por alguns instantes, o som do mar.
Luz, lentamente: o VELHO, o JOVEM e o HOMEM estão em cena;
o som do mar vai sumindo devagar.
Silêncio)

VELHO

(nervosamente) Algo terrível aconteceu ontem à noite.
Algo terrível,
(sussurrando, para o JOVEM) com você,
esta noite.

JOVEM

Estou molhado.
(sorri, constrangido) Acho que me molhei enquanto dormia,
minhas calças estão encharcadas…

VELHO

Não é urina.

JOVEM

Sonhei.

VELHO

Não é urina, não, não é…

JOVEM

No sonho eu nadava…

VELHO

Escuta.

JOVEM

Não sei nadar,
mas o braço novo sabia,
então eu nadava…
E o mar era vermelho, aquele mar, todo vermelho –
ondas, gigantescas ondas…

VELHO

ESCUTA!

JOVEM

(absorto em sua imaginação, maravilhado) …vermelhas…

VELHO

Sangue.

(tempo)

JOVEM

No mar?
No meu sonho?

VELHO

Em suas calças, agora:
encharcadas de sangue.
Vê?

(silêncio)

Enquanto você dormia
e sonhava e nadava sobre gigantescas ondas vermelhas,
enquanto tudo isso acontecia
dentro de você,
algo terrível se passava
– aqui fora…
Porque você dormia, mas seu braço, o braço novo,
aquele braço que implantamos em seu corpo:
esta parte, sua agora, a parte aquela –
ESTAVA ACORDADA,
enquanto você sonhava esta noite…
O braço novo:
pegou os cacos de vidro do copo quebrado espalhados no chão;
e com os cacos, aqueles,
estraçalhou
– estraçalhou, compreende? –
dilacerou suas pernas…

Suas calças estão molhadas, sim, SIM, mas não é urina;
é sangue.
Estão encharcadas de sangue,
(pausa)
compreende?
O sangue,
seu sangue,
aquele que vazou durante a noite, brotando dos cortes em suas pernas estraçalhadas pelo caco de vidro empunhado por seu braço – seu novo braço…

JOVEM

(nervosamente) O braço – cortou minhas pernas?

VELHO

Muitos cortes, muito sangue…
Veias, artérias, músculos, nervos:
tudo estraçalhado, tudo mergulhado, suas pernas nadando em um mar de sangue…

JOVEM

Por quê?
Por que o braço dilacerou minhas pernas?

VELHO

(irritado) Ainda esta pergunta, esta mesma pergunta ainda?
Quer um motivo, é isso?
Não há…

JOVEM

Por quê?

VELHO

…mas não há motivos, precisa compreender!
As coisas são assim neste lugar,
SEMPRE FORAM ASSIM,
sempre serão…
(gritando)
NÃO

MOTIVOS!

(silêncio)

JOVEM

(frágil) Onde estão minhas pernas?

VELHO

Tivemos que amputá-las, enquanto você dormia e sonhava e era feliz nadando em seu sonho, aí dentro…
Fomos obrigados a amputá-las: não havia como salvá-las, acredite em mim, estavam estraçalhadas:
completamente perdidas, suas pernas – as duas…

JOVEM

(desesperado) ONDE ESTÃO?

HOMEM

Eu.
Fui eu.
(pausa)
Eu comi.
(pausa)
Comi suas pernas.

(tempo)

Tinha fome;
muita, muita fome.
Estou aqui há tanto tempo…
Iam jogar fora as pernas, um desperdício!
Não podia assistir aquilo, todo aquele desperdício,
acontecendo bem na minha frente, bem diante dos meus olhos:
NÃO!
(pausa)
Então,
eu comi;
comi suas pernas.

(silêncio)

JOVEM

(para o VELHO) Quero as pernas dele!
Me dá as pernas dele!

VELHO

Não.

(tempo)

JOVEM

As pernas dele, eu quero as pernas dele pra mim!

VELHO

Não.

JOVEM

A Lei…
O QUE DIZ A LEI?

VELHO

(calmamente) Mas este homem não arrancou suas pernas…
Ele as comeu, só isso.
Fomos nós que arrancamos suas pernas.
Para seu próprio bem.
Se não tivéssemos separado aquelas partes de seu corpo,
você ia sangrar até morrer…
Foi preciso,
compreende?
(pausa)
A Lei?
Não, a Lei não pode te ajudar agora.
(pausa, imóvel)
Mas…

JOVEM

(baixo) O quê?

HOMEM

É o que diz a Lei?

VELHO

Se quiser…

JOVEM

(esperançoso)
O quê?

VELHO

…podemos remover seu novo braço.
Foi o braço, seu novo braço:
o responsável por sua nova perda,
(para o HOMEM) quanto a isso não restam dúvidas…

HOMEM

(concordando) Nenhuma dúvida.

JOVEM

Remover o braço?
Não.
É um braço forte, me dá poder,
(sorri) e sabe até nadar!
(para si mesmo) Não…
Perdi minhas pernas, mas foi um acidente, não é assim?
Não há motivos.
Aqui, neste lugar:
NÃO

MOTIVOS!
(pausa)
Quero ficar com o braço, este braço novo, meu agora.
Preciso dele!
(implorando, frágil) Por favor…
Me torna maior, muito maior –
mais forte, mais poderoso –
muito, muito mais do que eu jamais, jamais seria
(sussurrando) se estivesse sozinho…

(silêncio)

HOMEM

Suas pernas:
(lentamente, o JOVEM olha para o HOMEM)
é estranho…
(sorri) E é engraçado, também.
Suas pernas, elas tinham gosto,
(lentamente) gosto de peixe.

*

(luz só no rosto do JOVEM)

JOVEM

Fiquei acordado por 3 dias e 3 noites.
Tinha medo de dormir, medo do que o braço poderia fazer…
Então fiquei acordado
e testemunhei aquilo que,
na falta de outra palavra capaz de descrever,
vou chamar agora,
aqui,
de milagre…
Porque naquelas 72 horas fiz uma porção, uma porção de coisas incríveis:
meu braço novo podia apertar os botões do controle-remoto da TV melhor do que jamais sonhei –
tão rápido, os canais giravam numa vertigem!
Também jogava melhor todos os jogos de todas as plataformas que existem no universo;
quebrei todos os recordes,
entrei para todos os Halls da Fama!
O único problema era que o braço se recusava a assinar meu nome,
digitando iniciais
que não eram as minhas…
Levantei peso, muito peso:
50 quilos de bíceps serão sempre 50 quilos de bíceps,
e quanto a isso não restam dúvidas!
Olhos femininos grudados em mim, tantos olhos, de tantas mulheres, completamente inalcançáveis até aquele instante…
Mas o melhor ainda se escondia
como uma surpresa na manhã de natal:
(segredando) noite passada
o braço brigou por mim em uma boate:
vi quando arrebentou os dentes de outro homem;
assisti os dentes daquele desconhecido se quebrarem, presos então em meu novo punho vermelho…
Enorme, aquele punho.
Cheio de dentes,
cravados nele…
O braço era meu, eu sabia, eu sentia:
ele era meu e eu,
eu era dele.
Para sempre.
Estávamos ligados, como gêmeos siameses:
inseparáveis.
Então dormi, dormi finalmente, como um bebê no colo de sua mãe,
enquanto sentia minha nova mão acariciar meus cabelos
com tanto,
tanto,
tanto carinho…
(pausa)
Não é isso o que chamam de amor?
(pausa)
O braço seria, a partir daquele instante,
meu guardião, meu zeloso protetor.
O medo foi embora.
Em seu lugar, agora,
aqui,
apenas uma esperança cega
em meu coração.

*

(luz só no rosto do VELHO)

VELHO

Na manhã seguinte, encontramos o que restou do corpo dele:
uma posta de sangue, carne, nervos –
tudo misturado, não parecia humano…
Brotando triunfante daquela massa asquerosa,
o braço dançava como uma árvore dança na ventania…
Pois enquanto dormia, o braço,
que nunca dorme,
o espancou até a morte.
Jogamos aquele amontoado vermelho de merda no lixo –
não valia a pena gastar sequer uma vela com aquela coisa…
Mas guardamos o braço.
Era tão bonito,
tão majestoso e viril
em sua fortaleza imaculada.
Imortal, aquele braço;
eterno
como uma esperança cega
no coração dos homens de bem.
(tempo; sussurrando)
Você:
quer de volta?

*

(luz só no rosto do HOMEM)

HOMEM

Sim…
Sim, SIM, eu quero:
quero o braço de volta.
Meu braço, de volta em meu corpo: a parte, o todo…
Juntos novamente: inseparáveis.
Podem reimplantá-lo de volta em meu corpo?
(fecha os olhos, emocionado)
Isso tudo:
é um milagre?
(abre os olhos, lentamente)
Quando terminarem a cirurgia,
vou sair, sair: celebrar!
Uma festa, sim;
estou tão, tão feliz!
Quando não aguentar mais
nem ao menos ficar de pé;
quando não souber mais
nem ao menos o meu próprio nome,
aí vou nadar pela noite deste lugar
dirigindo meu carro.
Meu carro,
meu braço
de volta ao volante:
em alta velocidade noite adentro…
Vou fechar meus olhos, então,
e vou, enfim,
esquecer:
esquecer de tudo, tudo o que aconteceu
tornando este lugar
uma terra
sem
motivos.

(emocionado)

A felicidade, eu compreendo agora:
a felicidade é este esquecimento.
E o esquecimento é como um carro, em altíssima velocidade,
cruzando a noite, com um motorista bêbado ao volante:
(sussurrando, lentamente)
sem passado
nem futuro.

(o HOMEM sorri;
a luz em seu rosto cai, bem devagar.
Escuridão
)


Roberto Alvim

(1973) é dramaturgo, diretor e professor de Artes Cênicas. Atuando profissionalmente há 25 anos, escreveu e dirigiu mais de uma centena de peças, encenadas no Brasil e em países como França, Alemanha, Bélgica, Suíça, Argentina e México.

5 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Drama. Index: Roberto Alvim. Publicação: Luan Maitan. Imagem de capa: Felipe Uchôa.