Os centauros

Os centauros

Conto inédito de Luis Dolhnikoff


Todos os fins de tarde, na volta do escritório, ele parava de pé ao lado dela, deitada em um divã, e observava demoradamente a pele pálida, quase translúcida, dos seus seios. Fazia já três meses. Tempo insuficiente para descobrir se a fisiologia da fome levara o bebê a acordar repetidas vezes, à noite e de dia, de modo a que a rotina afinal estabelecida fizesse com que a amamentação do final de tarde por acaso coincidisse com a hora de sua chegada em casa, ou se a fisiologia e a fome foram sutilmente assim guiadas pela mãe, como os lábios do bebê para os mamilos, ou seus olhos dirigidos por si mesmos para os mamilos e o bebê.

Um dia, quando ela afastou a pequena cabeça do segundo seio, e uma gota de leite aflorou na ponta do mamilo tenso, ele pousou levemente a mão aberta sobre a gota, depois esfregou uma mão na outra, e segurou seu rosto, e se abaixou, e a beijou.

No dia seguinte, outra gota aflorou na ponta exposta do mamilo, e ele outra vez pôs devagar a palma sobre ela. Mas não levou a mão aberta à outra, e sim aos próprios lábios, enquanto, em silêncio, se olhavam.

No terceiro dia, outra gota se expôs, mas ele não moveu a mão. Abaixou a cabeça, sugou-a e, em seguida, abriu um pouco os lábios, descendo-os ao longo do mamilo úmido.

No quarto dia, ele se ajoelhou ao seu lado, aproximou os lábios do mamilo, envolveu-o e sugou seu leite pelo tempo de contrair a boca. Então o soltou, ficou de pé e sorriu. Ela sorriu também.

No quinto dia, assim que ela pôs o bebê no berço ao seu lado, segurou um seio por baixo, comprimindo-o e erguendo-o, como fazia quando o oferecia ao filho. Ele se ajoelhou e mamou por um longo tempo.

 

Logo se tornou um novo hábito. Ela amamentava o filho, depois o pai. Ele não se sentia quebrando qualquer esquecido tabu, ou desnutrindo sua maturidade. Não sentia nada de moral, incluindo a imoralidade. Na verdade, sentia somente o gosto do leite, o cheiro dela, seu calor. Ela gostava de seu homem poder ser, também, seu menino.

Um dia, ela amamentou o bebê depois do banho, vestindo um longo roupão branco. Depois de o bebê mamar, ele, que a olhava de pé ao seu lado, tirou a roupa antes de se ajoelhar.

Mamou por um momento, e então, em silêncio, sem tirar os lábios do mamilo, ergueu-se um pouco, apenas o suficiente para pôr uma perna, depois a outra, e então o resto do corpo, sobre o divã, deitando-se devagar ao lado dela. Então, em um movimento rápido, mas delicado, se virou sobre ela, e se deitou sobre seu corpo, e afastou suas pernas com as dele, e a penetrou.

 

Ela se sentiu cortada ao meio como se por uma serra elétrica. A metade de cima do seu corpo, cujas sensações convergiam todas e inteiramente para o mamilo que ele ainda sugava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções jorravam mais forte do que o leite, mas sem qualquer direção, eram as de uma mãe, de uma mãe quando mais intensamente maternal. A metade de baixo do seu corpo, cujas sensações convergiam inteiras e totalmente para a boceta que ele penetrava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções transbordavam mais intensas do que o sêmen no auge do orgasmo, e como ele em espasmos, eram as de uma fêmea, de uma fêmea quando mais repletamente feminina.

Ele, ao contrário, ao mesmo tempo o macho no ato da cópula e o bebê no gesto de sugar o seio, se fundiu em um novo ser, que era ele. Ele que fora, durante cada dia e cada noite da sua vida, uma parte dele. E se sentiu unido, reunido a si mesmo, como não se sentia desde que esquecera como era não se sentir dividido, ao adquirir a inteira consciência de si mesmo, e a quase consciência da perda.

Agora a parte perdida se reintegrava à parte mantida que ele fora, que ele era até aquele instante. Ao bebê que fora um dia, e que um dia assim conhecera o mundo, e que deixara de existir para deixar nascer o adulto que se tornaria. Ele matara devagar o que fora de início, o que ele próprio fora de início, o início dele próprio, o início, ele próprio, para se tornar lentamente outro ele, mais e menos do que havia sido. Agora tudo se reintegrava, não havia mais partes, perdas nem passado, e ele parou de pensar.

Seu cérebro se esvaziou de todo pensamento, toda palavra, toda recordação, todo desejo, e se encheu inteiramente de sensações. De tudo aquilo, e de tudo aquilo apenas, que seus sentidos lhe ofereciam naquele momento, como um animal. Tudo era calor, cor, luz, cheiro, paladar, tato, som. E nada que não fosse som, tato, paladar, cheiro, luz, cor ou calor existia. Nele, ou no mundo. Mundo que era ele, ele que era o mundo, ou, ao menos, a parte do mundo que seus sentidos introjetavam, uma parte que agora era tudo.

Então ele ejaculou, e sugou mais forte o mamilo. E se tornou um círculo, o homem e o bebê no ápice simultâneo de sua percepção de sê-lo. E o círculo que ele era se tornou um círculo com ela, lançando nela seu sêmen enquanto absorvia dela seu leite. E ela se reintegrou a si mesma, ao se tornar, plena e simultaneamente, inteiramente mãe e inteiramente fêmea. Ao se tornar, inteiramente. Enquanto, ao mesmo tempo, se dissolvia e se reintegrava no círculo dele com ele, que era o círculo dela com ela e com ele.

 

Depois de alguns segundos, ele saiu devagar, em silêncio, de dentro e de cima dela, e se deitou de novo ao seu lado. Calados, os olhos abertos, olhavam para o teto perfeitamente branco. Então, sussurrante, ela disse:

– Meu Deus.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).

25 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Ficções. Index: Luis DolhnikoffPublicação: Luan Maitan. Imagem de capa: Battle Between the Lapiths and Centaurs, de Luca Giordano (1634-1705). Este conto faz parte do volume inédito Depois do sol.


Gricha

Gricha

Conto de Anton Tchékhov traduzido do russo por Pedro Augusto Pinto

Gricha,[1] rapazinho pequeno, gorducho, nascido há dois anos e oito meses atrás, está passeando com a ama pelo bulevar. Vestiram-no com um longo albornoz de lã, um cachecol, um gorro enorme com um pompomzinho felpudo, e galochas quentinhas. Está com calor e sem ar, е além de tudo o sol desperto de abril bate diretamente em seus olhos e lhe queima as pálpebras.

Toda a sua desajeitada figura, caminhando tímida e titubeante, expressa uma profunda perplexidade.

Até então, Gricha só conhecera um mundo composto por quatro cantos, onde em um canto jaz sua cama, em outro o baú da ama, no terceiro, uma cadeira, e no quarto arde uma lamparina. Espiando debaixo da cama, aí também se vê uma boneca de braço arrancado e um tambor, já por trás do baú da ama há uma enorme diversidade de coisas: carreteis de linha, papeizinhos, uma caixa sem tampa e um palhaço quebrado. Neste mundo, além da ama e de Gricha, frequentemente surgem mamãe e o gatinho. Mamãe parece com a boneca, e o gatinho com a peliça de papai, só que a peliça não tem nem olho nem rabo. Saindo do mundo que se chama “de criança”, a porta leva à amplidão onde almoçam e bebem chá. Ali fica a cadeira de Gricha com suas perninhas altas e pende o relógio, que existe apenas para balançar o pêndulo e tiquetaquear. Da sala de jantar pode-se ir para o cômodo onde ficam as poltronas vermelhas. Ali, sobre o tapete, há uma mancha negra, pela qual até hoje ameaçam Gricha com o dedo. Depois desse cômodo tem ainda um outro, onde não se pode entrar, em que se vislumbra papai – figura profundamente enigmática! A ama e mamãe são compreensíveis: vestem Gricha, alimentam-no e põem-no para dormir, mas por que razão existe papai – não se sabe. Há ainda outra figura enigmática, titia, que foi quem deu o tambor para Gricha. Ora surge, ora some. Some para onde? Gricha mais de uma vez espiou debaixo da cama, atrás do baú e sob o sofá, mas lá é que ela não estava…

Já neste mundo novo, em que o sol fere a vista, há tantos papais, mamães e titias que não dá para saber para quem a gente corre. Mas o mais estranho e incoerente são os cavalos. Gricha olha para as suas pernas andantes e não consegue compreender. Olha para a ama para que esta o oriente, mas ela cala.

De repente, ouve um terrível tropel… pelo bulevar, com passo regular, vem vindo diretamente para Gricha uma multidão de soldados, com rostos vermelhos e vassouras de banho debaixo do braço. Gricha, de terror, congela todo, e olha interrogativo para a ama: não é perigoso? Mas a ama não corre nem chora, logo, não é perigoso. Gricha segue os soldados com os olhos e começa ele próprio a andar conforme o compasso.

Pelo bulevar, vão correndo dois grandes gatos de focinho comprido, com a língua de fora e o rabo empinado. Gricha acha que também deve correr, e sai correndo atrás dos gatos.

– Espera aí! – grita-lhe a ama, segurando-o bruscamente pelos ombros. – Aonde pensa que vai? Quem foi que mandou você aprontar?

Eis que uma outra ama está sentada e segura uma pequena tina de laranjas. Gricha passa ao seu lado e, em silêncio, pega uma laranja para si.

– Para que isso? – grita-lhe a sua acompanhante, estapeando sua mão e arrancando dela a laranja. – Imbecil!

Agora Gricha poderia pegar com prazer um vidrinho caído debaixo dos seus pés, brilhante como a lamparina, mas tem medo que lhe batam de novo na mão.

– Meus cumprimentos! – súbito ouve Gricha, quase que em sua orelha, a voz forte e grossa de alguém, e enxerga uma pessoa alta com botões claros.

Para sua grande alegria, essa pessoa dá a mão à ama, se detém junto a ela e começa a conversar. O brilho do sol, o barulho das carruagens, os cavalos, os botões claros – tudo isso é tão surpreendentemente novo e pouco assustador, que a alma de Gricha se enche de um sentimento de regozijo e ele começa a gargalhar.

– Vamos! Vamos! – grita à pessoa de botões brilhantes, puxando-a pela aba.

– Vamos aonde? – pergunta a pessoa.

– Vamos! – insiste Gricha.

Tinha vontade de dizer que não seria nada mal também arrastar consigo papai, mamãe e o gatinho, mas a língua fala tudo menos o que deve.

Após certa espera, a ama deixa o bulevar e leva Gricha a um grande pátio, onde ainda há neve. Também a pessoa dos botões claros vai com eles. Contornam com cuidado poças e blocos de neve, passam por uma escada suja e escura e entram em um cômodo. Ali há muita fumaça, o ar é quente e uma mulher está junto ao fogão fritando croquetes. A cozinheira e a ama se beijam e se sentam com a pessoa num banco, e começam a falar baixinho. Gricha, todo encapotado, sente um calor e uma falta de ar insuportáveis.

“Por que isso?” pensa, olhando ao redor.

Vê o teto escuro, o atiçador com dois chifres, o fogão que parece uma enorme toca negra…

– Ma-a-mã! – diz, arrastando a voz.

– É, é, é! – grita a ama – Vai esperar!

A cozinheira põe sobre a mesa uma garrafa, dois cálices e uma torta. As duas mulheres e a pessoa de botões claros brindam e bebem algumas vezes, e a pessoa abraça ora a ama, ora a cozinheira. E depois o trio inteiro começa a cantar baixinho.

Gricha se estica até a torta, e lhe dão um pedacinho. Ele come e observa como a ama bebe. Também tem vontade de beber.

– Dá! Ama, dá!

A cozinheira lhe dá um golinho de seu cálice. Ele esbugalha os olhos, franze todo, tosse e depois agita longamente as mãos, enquanto a cozinheira olha para ele, rindo.

Ao voltar para casa, Gricha começa a contar a mamãe, às paredes e à cama, onde foi que esteve e o que foi que viu. Fala mais com rosto e com as mãos do que com a língua. Mostra como brilha o sol, como correm os cavalos, como se parece o terrível fogão e como a cozinheira bebe…

À noite, não consegue de jeito nenhum adormecer. Soldados com vassouras, gatos enormes, cavalos, o vidrinho, a tina com laranjas, os botões claros – tudo isso se ajuntou em uma massa, apertando o seu cérebro. Ele vira de um lado para o outro, agita-se e por fim, não suportando sua própria excitação, começa a chorar.

– Mas você está ardendo! – diz mamãe, encostando a mão em sua testa. – De onde é que isso pode ter vindo?

– Fogão! – chora Gricha – Sai, fogão!

– Deve ter comido demais…. – conclui a mamãe.

E Gricha, sufocado pelas impressões da vida nova, e recém experimentada, recebe da mamãe uma colherinha de xarope.

*

[1] Diminutivo de Grigori.


Anton Tchékhov

foi médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos.

Pedro Augusto Pinto

é paulista nascido em 1992 e trabalha como tradutor e pesquisador da literatura russa. Traduziu textos de Tchékhov, de Gógol e sobretudo de Liérmontov, cujos maiores poemas traduziu ao português pela primeira vez (alguns publicados pelo jornal Rascunho), recebendo menção honrosa pelo seu trabalho em alguns eventos acadêmicos. Em 2018, publicou pela editora 7 Letras seu primeiro livro de poesia, Um bicho de circo, que teve alguns de seus poemas publicados nas revistas Lavoura e Ruído Manifesto.

4 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Ficções. Dossiê: Copa Russa. Index: Anton Tchékhov, Pedro Augusto PintoPublicação: Luan Maitan. Esse conto foi originalmente publicado no volume Os russos, antologia de literatura russa da editora Hedra. Sua publicação na Vigília é fruto de parceria com a editora.


Cumprir-se

Cumprir-se

Texto de José Santana Filho

A vida inteira acreditou-se escritor, mas nesta manhã descobriu o engano. Justo agora quando se sentia à vontade com folhas e a tela em branco percebeu que necessita de respaldo, aprovação, julgamento. E um escritor deve escrever por coação interna, não para soar impactante, parecer inteligente ou levar o burro à sombra, aliviando a lida.

Aliás, é por não ter conhecimento da vida que um escritor escreve, um escultor esculpe, e mesmo uma bailarina rodopia na ponta do pé – alheios a respostas, tudo assim perguntas. Falou-se em técnica – “Você progride a cada vez” – mas ele toma vício por técnica, cometendo falácias, o rei segue nu e ele viu. Em um texto que se mostrava sólido avistou rachaduras e remendos, como se de um castelo enxergasse o calço segurando a torre, e avermelhou as bochechas.

Tempos atrás, o outro comentou depois de ler sua primeira coletânea de artigos: “Você não é jornalista, nem poeta, nem escritor, embora se assemelhe a todos. Nada pior para uma vocação do que assemelhar-se, peixe bicando o aquário sem jamais chegar ao mar. Jornalistas informam, poetas revelam, escritores se fuçam. Você passa por estas portas sem se deter em nenhuma.”

Artista é quem não poderia ser outra coisa – acreditou desde sempre. Não por incapacidade, mas por urgência de vasculhar o avesso, investigar, jogar a luz, e só então se perder em todo o breu. O artista executa a arte respondendo ao impulso orgânico, quem sabe moldar em barro a vertigem. Ou em palavras – em telas, bordados, sapatilhas e pincéis.

– Romântico demais – disse o um.

– A arte tem a inutilidade de praticamente tudo – o dois.

– Sem a arte padeceríamos da solidão espiritual – o três acudiu.

A vida inteira acreditou-se escritor. Errou de foco e destino. Não se trilha um caminho para a escrita, nem há graduação acadêmica definitiva. Labuta-se em silêncio como quem bate rede na beira do rio Tocantins, ouvindo apenas o atrito na pedra. Não será escritor pelo motivo mais raso: porque não escreve. Porque espera – e alardeia. A arte é pó flutuando à contraluz do sol: ou faz beleza ou faz tossir – quem sabe vire copos de cerveja.

 

(deveria tentar ainda uma vez. existe ali dentro, em alvoroço, uma criatura que precisa – por favor – libertar-se dela.

para então cumprir-se.)


José Santana Filho

Nasceu em Balsas, no interior do Maranhão. Foi criado em pequenas cidades às margens do rio Tocantins, e mora em São Paulo desde 1982, quando se formou em medicina. Atua como médico clínico e psicoterapeuta, dedicando-se também à literatura nos últimos anos. Publicou O Rio que corre estrelas (2012), seu livro de estreia, e a coletânea de contos O beijinho e outros crimes delicados (2013), ambos pela editora Terracota. A casa das marionetes (2015), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e Flor de algodão, lançado em outubro de 2017, saíram pela editora Reformatório. Faz parte do grupo de produção e discussão literária Clube das Três, onde, além de atividade acadêmica, promove-se encontros com autores de literatura contemporânea.

14 de dezembro, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções. Index: José Santana FilhoPublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan.


Um incerto Kafka & Perpetuum mobile

Um incerto Kafka & Perpetuum mobile

Dois contos de Carlos Neves

Um incerto Kafka

Eu o chamava de Kafka, embora seu nome fosse Celso. Fomos colegas de faculdade. Na época ele tinha idade para ser professor. Nunca me disse porque chegou tarde à escola, Kafka. Não disse, é? E não vou dizer enquanto não parar de me dizer Kafka. Sabes que sou Celso. Ou não sabes?

Sei, sempre soube. Também ele nunca me pediu para explicar porque Kafka. Nem eu lhe expliquei, não havia razão, e ele provavelmente não aceitaria justificativas, caso lhe contasse.

Mas digo aqui: ele não era um Kafka legítimo, dado a desatinos e extravagâncias surreais, embora fosse um pouco excêntrico, algo pachorrento, de um conformismo estoico, certamente indolente, quase um despropósito. No meio de suas aparentes esquisitices havia um método. E como vocês sabem, todo método traz no bojo algum tipo de esquisitice.

Quando lhe contei que pensava ler Proust, ele riu daquele seu jeito imperturbável. És um bobo, disse. Vais perder tempo lendo Proust. Por quê?, questionei. Tens a vida pela frente, ele disse, E vais passar o tempo lendo Proust?, repetiu. Como és ridículo.

Ele implicava com pontos, e também com vírgulas. Dizia que as usávamos mal e desnecessariamente. Em alguns casos cheguei a concordar. Em outros construí umas frases muito requintadas. Ele ria, a seu modo, piscava os olhos em silêncio. Questão de costume, dizia. Estamos todos desaprendendo a ler.

A cara. Estava na cara. Foi por isso que o chamava de Kafka. Não estava rigorosamente na cara, assim, na boca ou no nariz. Estava nas orelhas, principalmente, umas conchas meio saltadas, em abano, para frente. E aquele cabelo riscado ao meio, o pescoço curto, os olhos vivos, tremeluzidos. Era isso.

E ele sabia. Bastava olhar para ele, censurava-me: Celso! Mete isso na sua cabeça.

A paixão dele era um filósofo romeno chamado Cioran. Dizia-se também ele um obcecado pelo pior. É como se definia Cioran, ele me disse. Um obcecado pelo pior.

Nas aulas de arte, enquanto ouvíamos besteiras, eu sempre aterrorizado, olhava para Kafka no canto da sala e lá estava ele piscando os olhos, a triturar em silêncio aquela litania exótica que os supostos professores de arte grunhem quando ficam à frente dos alunos.

Era um retrato absoluto daquela obsessão pelo pior.

Chegamos a trabalhar juntos. Ele foi meu primeiro editor numa revista sobre metalurgia e fornos. Eu não sei como escrevia aquilo. Encontrava-o no limiar do expediente, o prédio quase a fechar e ele lá, como um oficial tranquilo e sereno às portas da lei, à espera do pobre texto que me seria devolvido depois do seu rigoroso exame para cortes e reparos.

Era um momento sublime para ele. Tenho certeza.

Cismava sobretudo quando punha aspas nas falas dos entrevistados. Mas não sou eu que estou dizendo, dizia a ele. Isso é do entrevistado. Meu caro, ele dizia, isso está evidente na frase. Você desaprende a ler, percebo, como todos nós.

A última vez que soube dele trabalhava no Estado. Chegamos a nos falar pelo Facebook. Perguntei-lhe sobre Proust. Ele riu, sabia fazer isso escrevendo. E disse: desaprendi a ler, meu caro.

 

*

Perpetuum mobile

O primeiro homem caiu não eram cinco da tarde. A praça cheia. Caiu estatelado, feito uma porta quando se desprende de um batente. Não repararam, ou fingiram não ver. A orquestra, por natureza, seguia seu ofício no palco, indiferente.

Logo um outro tombou, um sujeito sem chapéu, e bateu o occipício no chão. O sangue espalhou-se, talvez tenha manchado um ou outro sapato, talvez, mas nada além disso aconteceu. A orquestra estendia suas notas. Um fagote deslocado pôs um olho a vagar em dúvida por ali.

Nas extremidades da praça, outros corpos despencavam, aos poucos, espaçados, como se se soltassem de uns cabos invisíveis, que os prendessem por trás ou pelo alto. Já então se percebia o movimento daqueles pesos em estranhas quedas. A imobilidade fora abalada. Eram agora visíveis os deslocamentos de ar.

O corpo é peso e o peso é morto.

Pensaram numas sereias, como as homéricas. Talvez a orquestra fosse feita de algumas delas. Não se sabe, e nem se acredita muito nisso, pois logo o trompista, o primeiro, que ficava quase atrás do fagote deslocado, também virou e caiu, de olhos abertos, a trompa entupida por sua própria língua.

Seria uma estranha sereia, se fosse.

A orquestra porém firme e sublime continuou.

Da plateia, ao final, dois seres ficaram em pé. Praticamente dois. Em pouco mais de uma hora, em meio a uns duzentos ou talvez menos. Uma mulher e um anão cruzaram os dedos entre si, os mínimos, como se tivessem medo ou por algum zelo religioso pudessem com aquele tênue toque digital evitar a queda ou o que fosse aquilo.

Apenas o piano permanecia no palco, em perpetuum mobile.

A essa altura.

Tarde então, as lojas tinham baixado suas portas, a praça esvaziava-se. E não seria exagero dizer que se exauria em transe.

Um ambulante vendedor de água, num canto extremo e talvez oculto da praça, agora lisa ou branca, não sei por que cargas d’água sorria.

E ainda sorri.


Carlos Neves

é músico, fotógrafo e escritor (poeta e jornalista). Lançou em maio de 2017 seu primeiro romance, Máscara da invisibilidade, pela editora Patuá – para o qual compôs trilha musical, agora em fase de gravação, inspirada em cenas e personagens do livro. Em 2016 participou da coletânea de contos Taras, tarô e outros vícios (Risco Editorial/Casa das Rosas), organizada pelo coletivo literário Palavraria, do qual Neves faz parte desde 2015. Recebeu uma menção honrosa do selo Off-Flip pelo conto “Estreia” (publicado em 2009). No momento prepara um novo romance e organiza sua primeira coletânea de contos e novelas curtas.

15 de outubro, 2017.  Volume: 1. Seção: Ficções Index: Carlos Neves, Franz Kafka, Marcel Proust, Emil Cioran, HomeroPublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan.


A primeira vez de Lila

A primeira vez de Lila

Conto de Natália Zuccala

1.

Senti que algo me tocava no ombro. Os ônibus estão sempre lotados, quase sempre. Quase sempre há coisas que tocam os seus ombros, as suas pernas, às vezes até suas coxas. Sem fazer disso uma decisão, permaneci com os olhos e a cabeça enterrados no livro que lia. Não me virei pra ver o que era. Não tinha por quê. Submersa de corpo inteiro na história daquela mulher que, em sua lua de mel. Não, não era uma mulher, menina era. Da minha idade talvez. Daquela menina que casara-se com um rapaz bacana, rico. Mas na noite de núpcias tinha sido estuprada e espancada por ele. É uma história que se passa há muito tempo.

Estava mergulhada naquelas linhas como se contassem a minha vida e sentia um prazer imenso em não ceder a quaisquer que fossem as seduções externas, da vida comum. Do transporte público, das ruas. Acompanhava os passos de Lila como se fossem os meus porque, pensava, eles eram muito mais intrigantes que a minha própria narrativa, tão pedestre. Casara-se. Livrara-se da casa dos pais. Viveria feliz. Seria mulher! Ao contrário de mim. Como seria casar-se? E ser mulher? Como seria ser estuprada daquela forma na noite de núpcias? Mal compreendia a dimensão daqueles acontecimentos, de todo inusitados para o leitor, quando, uma vez que insistentemente algo permanecia a cutucar meu ombro, tive de virar pro lado.

Apontava minha cabeça. Gritei. Uma arma. Mas o tiro foi mais rápido que o meu reflexo e, em poucos segundos, já havia sido atingida no pescoço por aquele homem. Homem que eu nunca vira na vida, nunca sequer imaginava poder vê-lo, nem em sonho ou pesadelo. Aquele homem. Feito de carne. Muito mais real que o marido de Lila. Stefano. Feito somente de palavras. Ejaculou em meu pescoço.

Simplesmente assim. Sacou o pau pra fora e gozou. Em mim. Era ele então que se esfregava contra o meu ombro, não uma bolsa uma pasta um casaco ou uma sacola. Aquele homem. Com aquela cara. Era o pau dele que, de tanto se friccionar contra mim, afinal ejaculava livremente. Assim, no meu pescoço. Feito um tiro. No meio do ônibus. Em plena avenida. Em mim.

Eu, assim como Lila, pela primeira vez na vida, recebia o sêmem de um homem em meu corpo e, assim como ela, involuntariamente, assim como ela, inadvertidamente, assim como ela, à contragosto, assim como ela, não sentira nem um pouco de prazer.

Parecia que tanto a literatura quanto a vida me ensinavam, sem um pingo de didática, como é que um homem goza.

 

2.

Mal posso reproduzir os acontecimentos que a este sucederam. Saíram em minha defesa os muitos homens e mulheres que ali estavam. Não sei em que momento, mas o ônibus parou. Não sei bem por quê, mas os justiceiros de plantão foram contidos para não fazer lei de próprio punho. Não sei bem como, mas aquele homem manteve-se ali, sem esboçar reações, olhando fixamente a adolescente meio sem jeito na qual ele havia acabado de ejacular. E pro seu livro. Num tempo que me pareceu eterno.

Será que ele leu o que eu estava lendo? Sabia do drama de Lila? Se identificava com Stefano?

Lembro-me dos seus olhos. Talvez essa tenha sido a imagem mais penetrante de toda a tarde. Entrevi em seus olhos, que me encaravam excruciantes e sem desvio, entrevi em suas retinas a primeira experiência sexual de todas as mulheres do mundo. Naquele ali, ou melhor, nele, contemplei a primeira vez que a minha mãe tocou no pênis do meu pai, a primeira vez que a minha avó foi penetrada, que a minha vizinha chupou um pau, que alguém enfiou a mão na calcinha da minha irmã, a primeira vez que Lila deitou-se com seu marido. Devia ser assim afinal. Só podia ser assim. Como uma esporrada à contragosto.

Faz tempo eu tentava vislumbrar tal ato. Como poderia ser a primeira vez. É claro que já tinha beijado na boca. Havia chegado mais longe, claro. Trocara uns apertos e já tinha me sentido excitada. Ou melhor, muito excitada. Da última vez, inclusive, em que estivera com alguém, havia sido tão excitante que estava decidida a perder a virgindade logo. Queria ser penetrada. Queria experimentar o sexo em sua plenitude e de muitas maneiras. Queria sentir o gosto de outro corpo na ponta da língua. Queria gemer de prazer. Queria gozar. Queria até, quem sabe, que alguém gozasse no meu pescoço! Mas não assim.

 

3.

Entendia a agressão que sofria sem bem entender. Enquanto seus olhos sumiam nas entranhas da multidão que o tragava, questionava-me sobre o seu ato. Eles queriam me vingar. Ouvia sirenes e me perguntava: que mal aquele homem havia feito afinal? Não tinha me batido, machucado, nem dirigido alguma palavra ofensiva. Que mal havia feito? O que eu poderia dizer quando os policiais me perguntassem o que ocorreu? E quando minha mãe me perguntasse, meus amigos perguntassem, os jornais? O que ele te fez? Esporrou na minha cara, ou melhor, não havia nem sido na cara, esporrou no meu pescoço. Que diabos significa isso? O que é que significa dizer isso? Tivesse esporrado em minha cara logo e não teria sido tão difícil. Por acaso tinha sido estuprada como Lila? Tinha sido roubada? Violentada? Machucada?

Não sabia o que era um estupro.

 

4.

Queria ter podido gritar enquanto eles te arrastavam pra viatura o que naquele então não entendia com clareza e hoje sei.

Queria que os jornais tivessem me filmado inflamada, dizendo: você não me machucou tanto assim! Eu não me sinto constrangida. Eu não tenho vergonha. Não por mim. Por você talvez. Acima de tudo, sei que não tenho culpa. Você não me feriu por dentro. Vou me regenerar tão rápido que não vai dar tempo de você sair da cadeia. Em pouco tempo, vou poder conhecer outros garotos, beijar, amar, ter prazer novamente. E você não vai mudar isso.

Você não desonrou o meu belo pescoço. Não feriu a minha moral. Seu pau pra fora não me humilha. Sua esporrada não me abrevia. O ódio que eu sinto por você é ter de pensar no seu pau quando pegar em outro. É ter de sentir o calor da sua ejaculação quando outro homem gozar em mim. É selar minha sorte com seu maldito azar. É você inscrever-se nas minhas retinas com o seu olhar. É ter de pensar em você quando tiver prazer. A força do seu ato é macular o meu e a sua violência reside tão somente em sua arbitrariedade.

Mas naquele momento eu não sabia nada disso.

 

5.

Naquele momento eu saí do ônibus conduzida por uma mulher de meia-idade. Seus dedos firmes agarravam meus braços com gentil firmeza, quando o meu ombro, o mesmo ombro que parecia pra aquele homem excitante ao ponto de fazê-lo ejacular, foi quando o meu ombro encaixou-se perfeitamente no espaço entre os seios dela. Olhei em seus olhos um tanto assustada, mais com a familiriadade com que me acolhia nos seios do que com o incidente do ônibus, e ela sorriu com doçura. Sorri de volta, respirei fundo e percebi em mim um desejo enorme de ser acolhida em seu colo. Larguei completamente minha cabeça em seu peito. Pude chorar. Ela também.

Fiquei feliz por ela ter seios, não pênis, e contente por tê-los também. Aconchegada num choro manso, lembrei-me da última fala de Lila: “Não estou nem aí pras surras. Passa um pouco de tempo e estou melhor do que antes”.

Ser mulher será isso? Ter de ser melhor do que antes?


Natália Zuccala

é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de Literatura. Escreveu as peças A e Fenda, montadas pelo coletivo de teatro Antessala. Publicou contos na antologia Alguma objeção? e em revistas como Jandique, Empena e Caos Descrito.

9 de setembro, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções Index: Natália ZuccalaPublicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenLuan MaitanImagem de capa: Nick Turpin.


Agora Burros

Agora Burros

Conto de Livia Piccolo

I

“Colocar a Úlcera bem na entrada do apartamento, no pendurador de chaves, ah não, que ideia, vai ser esquisito para os convidados. É melhor outro lugar. A porta da geladeira já tem Edredom, Indecente, Anêmona, tá ótimo. No espelho do banheiro! Sim, a Úlcera vai ficar colada no espelho em cima da pia. O problema é que toda vez que eu escovar os dentes vou dar de cara com ela. Será? É uma palavra tão bonita, tem essa força bem no começo, esse u preenchido com o acento agudo. Úúúúúúúlcera. Mas não dá para ficar no quarto, aí é demais da conta. Seguindo essa lógica posso colocar no cifão do tanque. A Úlcera pode experimentar ficar mais limpa.”

 

II

Miguel é colecionador de palavras.  É um homem baixo, compacto, usa óculos de armação leve e relógio de pulso antigo. Perdeu todo o cabelo aos vinte anos. Ganha a vida como corretor de imóveis e passa os dias na companhia do gato Fellini, presente de grego da ex-namorada que mudou de estado para se casar com um cirurgião dentista que sempre exagera na loção de barbear. A mulher pretendia levar o gato junto, mas o animal protestou com fortes golpes de unha. Apesar de não ser lá muito apegado ao bicho, Miguel não teve escolha e precisou ficar com ele.

Todos os dias escreve algumas palavras no seu pequeno caderno de capa laranja. Aquilo que escuta e lê. O céu é o limite e as fontes são muitas. As estações de rádio, os áudios de celular enviados pelos amigos, a tagarelice dos desconhecidos na rua, as conversas no trabalho, os jornais impressos e todo tipo de texto que encontra na internet. Há dias de vacas gordas e dias de vacas magras. O final do ano é um período maravilhoso. Os bares e restaurantes ficam cheios, as pessoas falam alto e bebem mais, hábito que estimula a comunicação. Já as manhãs nos ônibus são áridas. O cansaço dos corpos se espraia pelo veículo e o mutismo é geral.

Há dias caudalosos em que Miguel preenche várias páginas do caderninho. A única regra é que as palavras sejam encontradas fora: na rua, na vida alheia, no mundo de consistência sólida. Não em sua cabeça gasosa. Abrir ao acaso o caderno significa encontrar lado a lado as palavras Símile, Carvão, Tapinha, Arrependida, Gárgula. Palavras estrangeiras incorporadas ao idioma entram na roda. Por isso à esquerda da Gorjeta está o Videogame e embaixo da Fera está a Selfie.

Ele gosta de variar e foge do comodismo. Se escolhe a banca em frente ao trabalho e abre o caderno de ciências, no dia seguinte folheia o caderno de esportes. Se primeiro presta atenção na conversa de mãe e filha na agência dos correios, depois entra na academia de ginástica, pergunta à recepcionista informações genéricas e dá uma volta na sala de musculação só para ouvir o que conversam os corpos brilhantes de suor. Todo espaço tem palavra: essa é a ética silenciosa de Miguel.

Tenta a todo custo não cair na repetição. Mas como a memória não é cofre de ferro, Miguel falha. Quando se dá conta que escreveu uma palavra repetida, se desfaz dela sem hesitação com um risco horizontal vigoroso no papel. Seu colecionismo começou há mais de três anos, primeiro como um hábito ingênuo, sem compromisso. Com o tempo a prática se adensou e não há um só dia em que Miguel não escreve pelo menos uma palavra no caderno. Alguns meses atrás viveu uma fase particularmente delicada, pois o que antes era costume inofensivo começou a se mostrar um perigoso vício. Não houve assunto capaz de penetrar a cabeça de Miguel com mais força do que essa coisa incessante das letras. Seu chefe mostrou preocupação com a queda no trabalho. Deixou clientes esperando e errou informações básicas. Os amigos ressentiram-se com sua ausência. Com muita força de vontade conseguiu controlar a obsessão e escapou dos malefícios do vício.

Chegando em casa Miguel gosta de organizar as palavras do dia em ordem alfabética, em um caderno maior, sem pauta, que fica em cima do criado mudo. O caderninho laranja e roxo é o viajante, está sempre dentro do bolso da calça indo de um lado para outro. Visitou portão de escola, livraria, fila de banco, praça abandonada, bloco de carnaval, restaurante coreano, posto de saúde, barbearia, loja de material de construção, pastelaria, cemitério e empório de salchichas alemãs. Já o caderno do criado mudo tem capa de veludo azul escuro, é austero, pacato, ermitão. Não sai nunca do lugar. Esse é o ritual que ele repete todos os dias, antes de dormir, junto com uma xícara de chá de camomila no inverno ou um copo de suco de maracujá no verão. Hoje está passando a limpo com caneta preta as palavras Apego, Câncer, Celulose, Celulite, Entendendo, Entrosada, Feita, Fiozinho, Omeprazol, Perfume e Paçoca. Sua companhia silenciosa antes de pegar no sono.

 

III

Acontece que o colecionismo de Miguel não é comum. Não se trata de juntar palavras como se acumulam chaveiros antigos, estátuas de coruja ou cartões postais. Durante a semana ele pinça as ditas cujas. Sábado e domingo, sob o olhar falsamente curioso do gato Fellini, escolhe algumas da lista alfabética, transcreve-as com cuidado em pedaços pequenos de papel e as espalha pela casa com fita crepe. A nova etapa leva tempo, às vezes o dia inteiro. É preciso pensar cuidadosamente no lugar que cada palavra merece ocupar. Uma vez dentro de casa, tanto faz a origem. Se vieram dos jornais, da boca do vendedor de parafusos, da estagiária do escritório ou da celebridade bêbada na internet, pouco importa. Miguel gosta de acreditar que dentro de casa não há hierarquia nem berço de ouro. Não importa se a palavra está no passado, no presente ou no futuro. E tanto faz se é substantivo, verbo ou adjetivo. Mas como nas famílias numerosas os pais têm cada um o filho preferido, assim também acontece aqui. Coisa difícil de admitir.

Todas as palavras começam sempre com letra maiúscula. Miguel as considera entidades únicas e inconfundíveis. Se os países têm geografias e conflitos particulares, por que seria diferente com  Paternidade, Zero ou Quiabo? Por trás dos nomes próprios existe uma pessoa de carne e osso com aflições enraizadas. A mesmíssima coisa acontece com o Gabinete, a Viscosa e o Maldizer.

O resultado de tudo isso é uma decoração doméstica impossível de se ignorar. No tampo da mesa da sala está a Escuridão, no box do banheiro estão Viagem, Licença, Descuido. Na gaveta de meias e cuecas, Comungar e Picadeiro. No pote de comida do gato Fellini o papel arranhado mostra Suficiente. Embaixo da fechadura da porta, Pêssegos.

Quando o apartamento está silencioso Miguel experimenta falar a palavra em voz alta. Como um vaga lume, algo aparece e desaparece deixando um rastro inquieto.

 

IV  

Até hoje, o dia em que Miguel está em dúvida sobre o que fazer com a Úlcera,  estava satisfeito com a dinâmica que encontrara. De tempos em tempos renova sua decoração, trocando algumas palavras por outras. Obviamente não todas, ele se afeiçoou a um bocado delas. Mas é inviável manter todos os papeizinhos, seria atordoante. O gato Fellini provavelmente perderia o apetite com tanta falação pelos cômodos. E é normalíssimo que certas palavras caiam em desuso.

Mas agora Miguel se sente fora do lugar. Pela primeira vez não tem vontade de se desfazer de nada. “Será que estou meio carente?” ele pensa. Descarta essa possibilidade enquanto come um misto quente e coloca a Úlcera apoiada na moringa de água. “Estou com medo de não encontrar novas palavras.” Mas no fundo ele sabe que não é isso. Sempre foi bom na caça e ao longo do tempo sua habilidade se aprimorou. Termina o sanduíche e toma coragem para assumir a si próprio o que realmente quer: arriscar. Fazer algo perigosamente novo. Talvez uma besteira. Está cansado do que já conhece. Da rotina tão organizada, do ronronar do gato e da prostração dos papéis escritos. Está cansado de sua vida cozinhando em fogo baixo.

Vai até a pia do banheiro e lava o rosto. Ajeita os óculos e arregaça as mangas como quem vai cortar lenha. Lê em cada perna da poltrona da sala o seguinte: Burros, Teu, Oceano, Agora.

Uma onda de calor invade o corpo de Miguel, ele sabe que esse é momento em que vai quebrar a ordem que se impôs até agora, e a sensação é boa, é estimulante. Vai eufórico até a poltrona e pega de uma só vez as quatro palavras. Quase tropeça. Nas coxas coloca Burros, Oceano. Depois experimenta Teu Oceano. Teu Burros. Agora Burros. Que delírio! O gato Fellini dorme e ele descobre uma nova galáxia. Neste momento subverter é muito bom, ele quer mais. A sensação de prazer é como um banho muito quente, daqueles em que a água quase queima a pele, deixando marcas vermelhas. Pega papel e caneta, não mais um pedaço mirrado de papel, mas uma folha inteira, branca, tão exposta em sua autoridade frágil. Agora pode caçar também dentro de sua cabeça. Vai começar com uma palavra aparentemente simples, pequena, de uma só letra. Uma palavra compacta como ele.

Tomada a decisão, escreve: Teu oceano agora é burro.


Livia Piccolo

formou-se em Artes Cênicas na ECA/USP. Trabalha como preparadora vocal, atriz e performer. Na mesma instituição desenvolveu sua pesquisa de mestrado, investigando o trabalho do ator com a palavra sob uma perspectiva interdisciplinar, entre a música contemporânea, o teatro e a performance. Estudou literatura nos cursos livres do escritor Cadão Volpato e atualmente trabalha em seu primeiro livro de contos. Tem textos publicados nas revistas Ensaia e Parêntesis.

18 de agosto, 2017.  Volume: 1. Seção: Ficções Index: Livia PiccoloPublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan.


Trilhas

Trilhas

Conto de Tadeu Renato

As flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis.
“Campo de Flores”, Carlos Drummond de Andrade

 

Primeira estação

tempo espaço tempo-espaço passos passos tempo tem? Talvez o tempo seja só uma ficção, um jeito de entender mudanças, aí só existiriam o espaço e suas coisas. Os corpos se deslocando e uma sucessão de movimentos que só podemos entender se inventarmos o tempo. Meu corpo inchando e caindo e levantando, a barriga crescendo e a Luiza saindo de dentro. De dentro do tempo, ou apenas desocupando espaço, tempo espaço, tempo espaço tempo-espaço espaçotempo, o trem encostando de leve na estação, vai lotar, o ar vai ficar pesado lá dentro, não tem janela, as pessoas não têm por onde sair. E esse calor insuportável, bem que podia cair uma chuva. Ninguém espera, todos querem entrar e sair de uma só vez, como se o bairro do Brás ainda estivesse sobre ataque aéreo, como nos remotos. Todos querem ocupar espaço, mas dois corpos não ocupam o mesmo espaço, somente na gravidez. Quinze anos não é idade pra ter filhos, mas eu queria o Davi, ele me queria e eu cedi. Cedo descobri que não estava nos seus planos durar em lugar algum. Fiquei com a menina e com minha mãe nos criando.

 

Segunda estação

– Vem, mãe.

No vagar do movimento, o vagão balança e os corpos são grãos numa peneira. A jovem vai na frente, empurrando com as sacolas, abrindo caminho até o corredor. Seu vestido enlaça no cabo do guarda-chuva de um homem, que murmura qualquer palavra, tanto pode ser caralho como desculpa. Catarina espreme-se a sua esquerda, os olhos voltados à porta, esperando que nas paradas um fio de vento fresco pouse em seu rosto. Luiza tem uma gota de suor descendo pelo pescoço, alcançando o decote, que ela mexe freneticamente esperando um alívio. O homem de há pouco observa com cautela. Catarina avisa com os olhos para que a filha não mostre demais os seios. Eu não vejo problemas em mostrar minha pele, este país tão quente. Davi queria só ver os seios, eu disse só ver, mas quando levantei a camiseta, ele apertou com avidez. Guardei, incomodada, enquanto ele se ria, pedindo outra chance. Mas não gosto que olhem demais, me sinto invadida, parece que meu corpo se desfaz entre tudo mais que tem no campo de visão. Só ver, eu disse, e mostrei novamente. Ele encostou de leve a boca, e um beijo fez calmaria. O trem dá um sinal e avisa o itinerário. Quando fecham as portas, os que se espremiam parecem encaixar de algum modo seus contornos e é até possível relaxar, ainda que todos se encostem e tornem-se uma só massa. O sacolejo do vagão empurra Luiza pra frente e seu decote se expõe com maior clareza diante dos olhos do homem que observa. A mãe a coloca de volta no lugar e silenciam conversas, apenas os olhos. Catarina olha a filha, suas curvas, seu tamanho, sua pressa em crescer. Teve pressa ou eu é que não memorizei todos os espaços por onde ela passou? Que acontece na vida: ver outra pessoa que se parece muito comigo quando eu era nova? Encontro de espelhos, não de fotografias, encontro de semente. É, uma planta que brotou de uma semente e esta planta dá semente e esta nova semente cai na terra, se acomoda na terra e lá descobre a semente original, imagina o susto desta primeira semente?

– Pensando em quê, mãe?

– … nada.

 

Terceira estação

Como faço pra não olhar pra ela, pensa o homem, enquanto busca uma imagem diferente nos velhos galpões que passam à margem. O trem acaba de deixar a estação Mooca, mas Luiza tem a impressão de que meia hora passou e nada mudou no percurso, chegaria a Santo André só depois de dois dias se continuasse assim. Continue assim, deste ângulo eu vejo melhor as curvas, a calça justa justificando minha distração…

– Falta de respeito.

A jovem tira os olhos da propaganda de faculdade que balança no vagão e volta atenção a Catarina, que estremece após o sussurro mal saído de seus lábios. Como a mãe não continua a fala, puxa do bolso de trás o celular e escreve qualquer mensagem pra qualquer pessoa que estiver ilhada em outro celular. Falta de respeito, tira os olhos da menina, um homem com idade de pai, o Davi te daria uma porrada se estivesse aqui e não em Minas Gerais. Precisa ir tão longe?, ficamos bem, segue a vida, cada um sua rota, mas não precisa inventar um caminho tão distante do nosso. Preciso de mais espaço, meu corpo agora é outro espaço e não adianta voltar, porque ele foi outro espaço em outro contexto, agora é uma forma neste instante, mas instante também é tempo. Tome tento, homem, arranca sua fome de cima dela. O vidro inviolável faz tela e pinta má impressão feita de respirações.

Na estação Ipiranga, duas pessoas descem e outras oito entram, além do homem que toca flauta e canta músicas evangélicas. Que é que esse cara quer, rumoreja o homem do guarda-chuva, dinheiro ou que eu me converta? Só quando deus me der um carro eu seguro na sua mão, até lá quero mais é um banho frio. O trem tranca com força as portas e, junto com o sinal de partida, um trovão ecoa longe.

 

Quarta estação

era quase, quero dizer, nem sempre era quase, às vezes multiplicava-se por quilômetros e como uma mola esticada ao extremo voltava com tal violência que o encontro gerava uma certa explosão silenciosa. Era amor aquilo ou o que era que depois me entregou o Jorge, tomando a filha como se dele, ele saindo do trabalho esta hora?

– Será que a gente encontra o pai aqui?

Catarina dá de ombros, sorrindo de leve, enquanto procura com os olhos a presença de Jorge entre os que entram e saem da estação Ipiranga. Gosta de ouvir a filha chamá-lo de pai, assim como chama Davi. Seus olhos cruzam os do homem, que disfarça procurando um problema imaginário no guarda-chuva. Catarina observa os próprios seios, observa os seios da filha, algo da pele transmitindo cheiro de fêmea, o homem também olha e volta a disfarçar. O trem volta ao sacolejo do trajeto e os passageiros encontram outros vãos, inclusive Luiza, que se afasta da mãe em busca de mais espaço abaixo do ar-condicionado. Fico aqui, que sou mesmo de ficar, gosto de criar jardim onde vivo, mas não fechar, jardim público que possa ser frequentado por outros, pois mesmo tirando folga do mundo vez e outra, quero mais é ver gente, mas não com os olhos deste homem, que agora não tem mais o que olhar. Um riso baixo escapa do canto da boca e ela espreita envergonhada a possibilidade de alguém tê-la ouvido.

Tamanduateí fica pra trás e a estação de São Caetano aponta logo mais, na curva. Meu presente de natal seria um pouco de chuva, espero ansiosamente, leio todas as previsões, mas estão todos perplexos com as ameaças que não se concretizam, sempre este suspense, só uma chuvinha de nada. A mulher passeia os olhos pelo vagão lotado e encontra e fixa em um rosto qualquer, sem notá-lo em suas expressões. Um pedaço de música passa em suas ideias, e antes que chegue ao refrão identifica no rosto o olhar do homem que a encara há tempo. Só então Catarina percebe que o homem do guarda-chuva vigiava a ela, e não a filha.

 

Quinta estação

Queria era dar um grito agora, não importando se a esta hora ninguém mais se incomodaria. Chegar em casa e tomar uma cerveja, eu que nem bebo álcool, mas talvez isso me traga felicidade, quem sabe tomar um banho pensando no cheiro dela. Falta de respeito, não vê que eu uso aliança, tanto tempo tanto tempo que outro não me alcança, mas comigo não. Outra mensagem chega no celular e Luíza olha incrédula para o aparelho. Com o indicador escreve célere uma longa resposta que termina Próxima estação: Utinga com um enviar raivoso. Quer ver o Jorge nervoso é alguém me olhar tateando, mapeando os espaços do meu corpo, não que tenha ciúme. Me pedir pra ficar demarcando todas as praças nuas numa sexta-feira, patrão é sempre uma merda, rosna o homem. E se eu jogasse o cabelo de lado, cobrisse meu rosto? Queria saber falar inglês, não entendo nada do que cantam. Brummmm. Tudo é um sinal, vai pensar que estou gostando. O trem para no meio do caminho por um minuto, mas o tempo se dilata com o calor. Se eu chegasse mais perto, se eu perguntasse seu nome, se eu dissesse algo, se eu…

– Afff…

Olhou para o outro lado, isso é bom, meu bom Jesus. I don’t speak nada. Será que me descabelei, por isso desistiu de espiar? You understand me? Jorge me levava sempre ao parque do museu, mas faz tanto tempo. No museu. Mais perto: e se eu?

Sexta estação

Pedreiros no trem planejam o próximo dia, mais uma construção que suspenderá a cidade, mantendo no ar uma possibilidade de vivência, embora apartada: só falta o acabemento interno. Aqui é interior ou ainda é capital? Luiza reflete-se no vidro do trem. Ele chegou perto demais agora, segurando o mesmo cano, não vê que sou casada? Se eu escorregasse a mão e sentisse sua pele, estar vivo é sentir a pele, sentir na pele. Amendoim, amendoiiiimmm, canta o ambulante, enquanto o trem pausa. O suor desaguando no decote de Catarina. Davi, Jorge, nomes a mais que não dizem nada sobre eles, nomes que não dizem deste homem que nada diz mas sabe que ouço seu gesto de querer minha mão, falta de respeito, alcançar meus dedos. Chegar em casa arranco a roupa, tomo banho, ligo a internet, procuro uma imagem qualquer, um apelido qualquer que queira conversar e deixar que eu mostre que meu corpo ainda é viril, ainda aguenta, mesmo que ele desapareça no uniforme. Chegar em casa entro na net e falo direito com ele, não gosto de conversar pelo celular, letras miúdas de comendo até sobrar vogais e. Não diz nada, ele não diz nada e eu também não consigo me mexer.

A porta tenta fechar, mas alguém chega no último movimento e a segura para que possa entrar no trem. O condutor reclama, sua voz que não se sabe máquina ou autônoma vazando na plataforma Prefeito Saladino. A mão deslizando no cano, Catarina se equilibra num único pé, mas o corpo não acompanha o que seria um passo. Desde as seis andando de trem, tanto tempo que não volto pra casa que já me esquecia como fazia isto. Não que não lembrasse o caminho (ele bate com a ponta do guarda-chuva no cano de ferro em que segurava, ritmando o pensamento), mas faz tempo não encontro na memória a maneira como eu chegava em outro tempo, qual ânimo eu tinha naquele tempo, hoje de manhã, tempo tempo tempo tempo tempo de mais para não pensar em nada e de menos para o corpo, olha o tamanho da minha filha. A composição segue dromedária pela trilha, enjoando alguns pelo balanço, navio em um mar de gente.

 

Sétima estação

O que nos liga: o chão, o ar, o cano frio onde escorego minha mão e sinto se avizinhando o calor dos dedos que ela não deixam fugir. Será que eu deixo ele encostar? Só falta chover agora, que tempo mais estranho, vou ouvir outra estação. O trem se equilibra lento nos trilhos, alguém talvez tenha se atirado na linha esperando a pancada da morte, mas o condutor – ou uma voz gravada – informa apenas a existência de problemas técnicos. Delicada esta forma de se aproximar, imagino uma paixão por milésimos de segundos, me deixe lembrar o susto das descobertas. Não entendi nada desta canção, mesmo sendo na minha língua. Claro que ela sabe de mim, dos meus planos futuros para nós que nunca sairão de mina boca, qual o limite que nos separa? Vamos, desce Estação Santo André, toque minha mão, um esbarrão, um sorriso. Ela poderia subir o dedo e roçar meus poros que se abrem para tudo. Mãe, a porta abriu. Luiza é levada pela enxurrada de corpos que se movimentam, Catarina desatenta do aviso de fechamento. O guarda-chuva vai ao chão e o homem se abaixa para pegá-lo, a mão deixando longe a pele de Catarina, que é conduzida pra fora pela pressa que não lhe pertence, a mão ressentindo do desencontro, ele se dispersando no espaço, ela se desmanchando no seu tempo:

– Falta de respeito.


Tadeu Renato

é poeta e dramaturgo. Publicou os livros Letras para melodias corporais e Lenz, um outro (Edições de Risco) e, em parceria com Daniel Gatti, o infantil Genésio: a cobra acrobática (Lamparina Luminosa). Escreve para diversos grupos, como Coletivo Quizumba, 28 Patas Furiosas, Cia. do Trailler, Cia. dos Inventivos, entre outros. Mantém o blog Varandeando e é coeditor da revista Saúva.

17 de julho, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções Index: Tadeu Renato, Carlos Drummond de AndradePublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan, Caique Zen.


Uma benção

Uma benção

Um conto de Natália Zuccala

1

 

Agora ele está com uma mulher magra. Magra mesmo. Pernas que não encostam uma na outra. Ela tem. Um espaço meio um vão acima dos joelhos. A mulher magra com quem ele está tem também o rosto magro. Magro assim pontudo e bem delineado. Sua silhueta anuncia que ela não é daquelas. Daquelas que fazem longas e restritivas dietas mas. Daquelas que nasceram magras. Do tipo de magra que não precisa nem de longas nem de restritivas nem de dietas. Ela é longa e restritiva. Sem precisar de uma dieta. Ela é a própria dieta. Será que comer uma mulher magra é estar de dieta? Tentei fazer dietas muitas vezes. Engordei muito em todas elas. Eu sim preciso de dietas. Mas não sei fazê-las.

Agora ele está com uma mulher geneticamente favorecida. Belos braços finos belos olhos delgados belas narinas. Será que agora ele vai querer ter filhos? Agora ele não vai mais andar por aí com uma mulher gorda. A mulher gorda é sempre observada enquanto come a mulher gorda é sempre observada enquanto beija a mulher gorda é sempre observada enquanto anda enquanto arfa enquanto ri. Nas dobras no suor e na gordura. É pesaroso estar ao lado de uma mulher gorda é. Como andar preso a um letreiro luminoso é. Aprendi isso com ele. Aprendi também muitas outras coisas e. Sigo aprendendo mesmo separada. Dele. Obrigada.

A mulher magra não causa desconfortos sociais nem problemas de digestão familiar não causa nenhum tipo de incomodidade súbita nenhum tipo de asco. Ao contrário. É bom de ver. Os familiares. A família não costuma gostar de mulheres gordas. Isso também eu aprendi com ele. Nenhum deles. Ainda mais se o moço é magro. Lembro sua mãe. Sua mãe dizia a ele você engordou e na verdade ele não tinha engordado eu. Ou tinha? Às vezes suspeito que sim. Suspeito que você engordou naquela época em que estávamos juntos que você engordou só pra poder justificar o fato de estar comigo só pra. Pra poder estar comigo mais à vontade você. Sempre pensou muito em mim e engordar sem dúvida foi um. Como posso dizer? Ato de filantropia. Obrigada.

Talvez eu devesse estar com um homem gordo. Talvez fosse mais adequado é. Mais adequado sim é mais adequado para mim para ele estar com uma mulher magra pra mim deve ser. Gordo. Será que um homem gordo suporta melhor uma mulher gorda? Suas dobras seu suor sua gordura. Como é que. Como é que um homem magro vai me levar colo adentro na noite de núpcias não. Um. Homem gordo talvez seja mais adequado. O problema há sempre um problema principalmente quando se trata de pessoas gordas elas têm. Sempre um problema. No coração nos rins nas costas. O problema é que um homem gordo ao lado de uma mulher gorda gera muitas perguntas em todos aqueles que não são gordos. Como transam? Como encontram suas genitálias? Como encostam suas genitálias? Os gordos fazem 69? Fazem sexo anal? Fazem sexo?

Melhor seria ser uma mulher magra. O sexo dos magros. Ah o sexo dos magros. Me pergunto. Será que o seu pênis se encaixa melhor na vagina esguia de sua nova mulher magra do que encaixava na minha vagina gorda? Ele alcança mais fundo a vagina de sua mulher magra? Você já sentiu o colo do útero da sua mulher magra? E o reto? Como é pra você agora andar por aí sem letreiro luminoso? Como é o nome disso o. Que você sente quando. Não precisa justificar todos os quilos que eu ganhei nos últimos anos a. Sua mulher está grávida o. Que aconteceu com vocês? Eu te pergunto eu. Sim agora eu é que pergunto. Eu pergunto. Você tirou um peso das suas costas? Do seu colo? Dos seus braços? Da sua alma? De si? Ou algo além de um peso? Um peso muito pesado. Como é o nome disso que você sente agora longe de mim e ao lado dela?

Eu. Nunca senti vergonha de você sempre me orgulhei mas. Talvez eu devesse.

 

2

 

Ela é muito bonita mesmo a. Sua mulher nova e magra. Ela é. Bem bonita. Quando eu os vejo é sempre. Muito curioso é sempre. Muito prazeroso talvez. Eu sinta algum prazer em. Olhar vocês. É.

Tenho vontade às vezes de. Espiá-los. Ver sem ser vista. O que você acharia disso? Se soubesse que eu. Tenho vontade de espioná-los. Ver sem ser vista. Ver vocês andando de mãos dadas por aí. Ver vocês se amando de mãos dadas por aí. Ver vocês beijando de mãos dadas por aí. Ver vocês vendo um ao outro de mãos dadas por aí. Ver vocês fodendo.

Dá vontade de ficar olhando pra sempre.

Olho e desejo estar no lugar de vocês. Dos dois. Não. No seu lugar. Somente no seu lugar. Ela é tão bonita eu. Acho que gostaria de estar no seu lugar quando vocês andam de mãos dadas. Amam de mãos dadas. Beijam de mãos dadas. Fodem. Acho que. Eu preferiria estar no seu lugar e dar as mãos pra ela. Do que no lugar dela e. Voltar a dar as mãos para você. Ela é tão bonita. Você.

Quando soube de vocês eu não. Não tinha vontade de ver nada. Tive justamente vontade de não ver de. Furar os olhos e. Não ter olhos. Naquela época não. Tinha vontade de ver nada. Nem de espioná-los eu. A vontade mesmo que eu tinha era de agredi-los. E agredir a mim mesma. É. Preferiria naquela época agredi-los. Ou a mim mesma. Ainda bem que passou. Agredi-los de verdade até machucá-los. Golpeá-los até ter certeza de que estavam feridos. Causar lesões no céu da boca na boca. Talvez feri-los gravemente. Ou me ferir. Talvez agredi-los até desmaiarem e então olhar para os dois estendidos no chão e agredir depois a mim mesma eu quis muito. Machucá-los. Mas passou. Ainda bem.

Passou e de uma hora pra outra eu. Percebi que. Seria uma pena machucá-la. Seria uma pena não beijá-la. Seria uma pena não poder tocá-la. Seria.

Está certo eu. Confesso. Nunca tive coragem de espioná-los de verdade. Não. Eu sou covarde demais pra isso eu. Gostaria muito mas. Só o que eu faço é imaginá-los. Na cabeça mesmo. Principalmente ela. Na verdade nunca vi vocês de mãos dadas por aí em lugar nenhum. Só imagino e imaginando eu sempre troco de lugar com você e aproveito pra fingir que sou homem também e. Tenho tudo o que um homem tem e. Que ela está nua é. Possível imaginar tantas coisas. Na cabeça. De olhos fechados. Sem olhar é. Possível ver tudo. Inclusive agredi-los. E agredir a mim mesma. É possível ver tudo. Não é mesmo? Ser tudo.

Na minha imaginação você não existe mais. Agora somos só eu e ela.

 

3

 

Procurei ela escapou pelos meus dedos. Com a memória. Agarrei ela escapou pelos meus dedos. Com a memória. Não a vejo mais ela. Não está mais aqui. Não tenho nenhuma memória dela mais. Nunca tive em realidade. Ela não me quis. A verdade é que ela não me quis nem mesmo presa na minha imaginação e mesmo na minha imaginação e mesmo sendo uma imaginação. Ela definitivamente não me quis. Assim como você não me quis definitivamente. Na realidade. A perdi assim como perdi você. A quem nunca tive. Sumiram os dois a. Minha imaginação me traiu foram pra dentro do buraco negro que é. Minha cabeça que sou. Eu. Onde estão. Vocês.

Foram embora vocês. Que bom que foram embora agora.  Vocês dois. Vão embora agora. Por favor vão embora. Vocês dois. Vão embora. Antes que eu. Volte a lembrar de vocês e. Volte a despi-los com olhos e. Agredi-los com os olhos e. Desejá-los com os olhos. O diabo que os carregue. Que os carregue. Que os carregue. Que leve consigo os dois e todos meus pesadelos. Os dois e todos os meus sonhos. Os dois e todos os meus desejos. Os desejos. Todos eles. Que carregue a todos eles e a si mesmo.

Eu os quis e. Com os mesmos olhos fechados não os quis mais. Eu os vi e. Com os mesmos olhos fechados não os vi mais. Eu os tive. Aqui. Quando quis e agora os mando embora. Bem como agradeço nunca ter sido desejada por vocês. Agradeço nunca ter sido desejada por você. Não ter sido verdadeiramente desejada nunca. Por nenhum homem ou mulher. Agradeço ter passado impune aos olhos dos desejos alheios que na verdade são os olhos dos olhos mesmos e ter desviado dos desejos alheios e ser aquela justo aquela que nunca foi desejada por ninguém. Nunca. Nem pelos olhos nem pelos olhos dos olhos dos outros.

E por ter sido desejada ao contrário eu também agradeço. Isto é. Por ter causado repulsa. Ou melhor. Ser desejada somente na medida em que causo repulsa e somente por aqueles que se atraem pela repulsa somente mesmo por aqueles que amam o que é repulsivo e atroz e indesejável. Agradeço a todos que sentiram repulsa e nojo e asco por mim. Agradeço ao avesso do desejo que é a própria verdade. A esses eu realmente agradeço.

Não ser uma mulher desejada me permitiu escrever sobre não ser uma mulher desejada. Me permitiu escrever sobre ser desejada. Me permitiu escrever. Não ser uma mulher desejada me permitiu ser. Algo além de uma mulher desejada e.  Não ser também. Não ser desejada é. Uma benção é. O melhor que uma mulher poderia querer para si.


Natália Zuccala

é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de Literatura. Escreveu as peças A e Fenda, montadas pelo coletivo de teatro Antessala. Publicou contos na antologia Alguma objeção? e em revistas como Jandique, Empena e Caos Descrito.

27 de junho, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções Index: Natália ZuccalaPublicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenLuan MaitanImagem de capa: Fernando Botero.