a subida que interminável

a subida que interminável

Seis poemas inéditos de Jeanne Callegari

alicate

sobre o que se pode cortar. pele que se derretida em brancos e azuis, que coisa é o vermelho, uma cor tão escolhida. preferencialmente sem escalavrar grandes granduras, o mar é raso, o tesouro sutil rutilado, trabalho a liquefazer antes que o sol –

na boca apodrecem, fora da mão apodrecem, endurecem, metal guarda os portões, mais que guarda, garante, mais que garante, decide. é de cuidar, não jeito, não força, milênios delicada e todas aquelas fomes no deserto, todas as fogueiras e vigias, para aqui. cutículas e um guindaste, um teto, tudo isso e tanto –

 

*

 

tábua escriva

sangue retângulo algumas linhas e pés. manchas pretas, o menor modelo, superiorando o laranja em couro, em burros. finos de poemas, não em pé, antigas uma, duas, três, uma quatro de quase cem dozes. teto preto sobre rosa, deserto branco de dentro. carpiderias no cinza, no sal, listras e marinhos. azul, ó, resistores. teia em luna, noturna e pantera e guindaste. compridos fazem ligar a coisa branca à coisona, turva toda. embaixo bispa e uma boca triste, bola vermelha madrigal, essas coisas de sangue nos lados e em cima, topo lunar. clown e tolos, caio. cores e retangulinos. amarelo e azul constitucional. amuletos de falsa, um que outro, de envolver. as contas já, e a caixinha vermelha com as teras todas. mais comprida e é preta e menor, outra pretura e menor, uma não, dois morritos pontudos irmãos, e as bolas. também, laminado azul, doce que quadrados brancos ajuntarem, amarelo e preto linolando preto, quatro linhas brancas e mais tantas, ligadas pontos e fechadas. um rato lógico; pretuinza; evoé –

 

*

 

turbinas de algodão

em que pese serem várias e desviadas, domésticas não e definidas: voam sim dentro, vestígios vislumbres e vários, vestígios e que maçada, vínculo vácuo. envasam-se as veias e o visto, ave improvável. viaja só, no travesseiro.

 

*

 

trepadeira

antiga a duras penas. como que engasga, tropeça. eleva o trecho, espiralam sons, dna na lisa ininterrupta. fuligem o que sai nos ares, fuligem o surdo e ritmado, arredondado, metal esfarelado no ar, plúmbeo arco-íris monocromo, duotom. nove dedos massageiam o engasgado, a subida que interminável. na garganta, nos olhos, um peixe que se afoga, a falta de que nunca –

 

*

 

ferrugem

a guirlanda no pescoço do pássaro, o girassol cromado em sacrifício. guitarra, dobradiça embriagada. um ramalhete, um alheiro, um micróbio. um bracelete, cidreira, um acrílico. a brevidade do barril edredom. o assobio cromado na acrópole, mangueira a quatrocentos, heroína hesitante no hospício. uma harpa, uma hélice, uma várzea. em caracol, como um beque no drible, nem capaz de tanta –

 

*

 

manjar

escapa, aos íons escapa, às substâncias. um metal conjectura um sacrifício, rogai por todos de quem a água foge, sequiosos. alguém pode sentar-se, um sofá e seu tubérculo, veemente suave nos poros o casulo. perturbar de silva e bragança, contanto o tamanho e também não, uma irrealizável em adornos, aparelho com que tantas vezes, sem tamanho, e não –


Os poemas acima foram extraídos de Botões (Corsário-Satã, 2018), que será lançado em São Paulo em agosto.

Jeanne Callegari

Nasceu em Uberaba (MG) em 1981. Escreveu Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho, e os livros de poemas Miolos Frescos (Patuá, 2015) e Botões (Corsário-Satã, 2018). Tem textos publicados nas antologias Primeiras vozes (Quelônio, 2018), Golpe: antologia-manifesto (Nosotros, 2017), Sierra Tropicália: poesía contemporánea de Brasil e México (Cielo Aberto, 2016) e É que os Hussardos chegam hoje (Patuá, 2014). Com Raul Costa Duarte, tem o projeto poético-sonoro Botões, que sobrepõe palavra a ruídos e paisagens sonoras; com Maíra Mendes Galvão, forma o duo Pingues Ovelhas, de pesquisa em poesia, performance e tradução. Junto a Reuben da Rocha, organiza o Macrofonia!, noite mensal de poesia intermídia ao vivo em São Paulo.

13 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Poesia. Index: Jeanne Callegari. Publicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan Maitan. Fotografia da autora: Liliane Callegari.


Uma festa de exéquias profanas

Uma festa de exéquias profanas

Cinco poemas de Mikhail Liérmontov traduzidos do russo por Pedro Augusto Pinto

Mikhail Iúrevitch Liérmontov (1814-1841) é considerado um dos principais autores russos do século XIX, tendo inaugurado o romance psicológico na literatura russa e representando, nesta, o ponto alto da expressão romântica – e tudo em apenas 26 anos de vida, dado que com esta idade seria morto em um duelo. Apesar da morte prematura, foi considerado ainda em vida o herdeiro poético de Aleksandr Púchkin, cujo assassinato pelas mãos do embaixador francês denunciou em seu poema de estreia literária, “A morte de um poeta”. Dedicou-se à prosa, ao teatro e sobretudo à poesia, publicando relativamente pouco mas deixando um imenso legado literário, que influenciaria nomes do porte de Fiódor Dostoiévski e Vladimir Maiakóvski.

К друзьям

Я рожден с душою пылкой,
Я люблю с друзьями быть,
А подчас и за бутылкой
Быстро время проводить.

Я не склонен к славе громкой,
Сердце греет лишь любовь;
Лиры звук дрожащий, звонкой
Мне волнует также кровь.

Но нередко средь веселья
Дух мой страждет и грустит,
В шуме буйного похмелья
Дума на сердце лежит.

Aos amigos

Já nasci com um peito ardente,
Gosto de estar entre os meus;
Copo cheio e, entrementes,
Passa o tempo qual corcel.

Não sou dado às altas glórias,
Só me aquece mesmo o amor;
Som de lira encantatória
Dá em meu sangue igual calor.

Mas, na festa, algo me ataca,
Vai-se o enlevo em um momento,
Na algazarra da ressaca
Jaz no peito um pensamento.

*

Еврейская мелодия

Я видал иногда, как ночная звезда
В зеркальном заливе блестит,
Как трепещет в струях и серебряный прах
От неё, рассыпаясь, бежит.

Но поймать ты не льстись и ловить не берись:
Обманчивы луч и волна.
Мрак тени твоей только ляжет на ней —
Отойди ж — и заблещет она.

Светлой радости так беспокойный призра́к
Нас манит под хладною мглой.
Ты схватить — он шутя убежит от тебя!
Ты обманут — он вновь пред тобой.

Melodia judaica

Certas vezes eu via, se a noite caía,
‘ma estrela no espelho do mar
Oscilando na enseada, e uma cinza prateada
Eu a vi, feito vento, espalhar.

Mas não tentes pegá-la, nem queiras guardá-la:
Seu raio te engana e a onda mente
Se tu chegas mais perto, o seu brilho é coberto –
Se te afastas, reluz novamente.

A mais clara alegria p’ra treva mais fria
Nos leva – fantasma agitado;
Se o agarras, risonho, ele some num sonho!
Enganou-te – e já surge ao teu lado.

*

Пророк

С тех пор как вечный судия
Мне дал всеведенье пророка,
В очах людей читаю я
Страницы злобы и порока.

Провозглашать я стал любви
И правды чистые ученья:
В меня все ближние мои
Бросали бешено каменья.

Посыпал пеплом я главу,
Из городов бежал я нищий,
И вот в пустыне я живу,
Как птицы, даром божьей пищи;

Завет предвечного храня,
Мне тварь покорна там земная;
И звезды слушают меня,
Лучами радостно играя.

Когда же через шумный град
Я пробираюсь торопливо,
То старцы детям говорят
С улыбкою самолюбивой:

«Смотрите: вот пример для вас!
Он горд был, не ужился с нами:
Глупец, хотел уверить нас,
Что бог гласит его устами!

Смотрите ж, дети, на него:
Как он угрюм, и худ, и бледен!
Смотрите, как он наг и беден,
Как презирают все его!»

O profeta

Desde quando o Juiz Eterno
Deu-me o dom da onividência
Leio os olhos qual cadernos
Da maldade e da indecência.

Pus-me a pregar o amor,
E a verdade, limpa e pura:
E os meus, ao meu redor
Jogaram pedras e juras.

Coberto de cinzas, eu,
Miserável, pus-me a andar,
Como com as aves de céu:
Fiz do deserto o meu lar.

Obediente às leis eternas,
Seguem-me as feras, pacatas.
As estrelas me ouvem, ternas,
Dançando em raios de prata.

Se por ruidosa cidade
Eu corro em minhas andanças,
Com um sorriso de vaidade
Dizem os velhos às crianças:

“Eis um exemplo pra vocês!
Não quis ouvir-nos, os sábios!
O imbecil diz que Deus fez
As palavras dos seus lábios!

“Olhem crianças, pra ele!
Como é sombrio, ressequido,
Como é pobre e mal vestido,
Como ninguém gosta dele!”

*

Не верь себе

Que nous font après tout les vulgaires abois
De tous ces charlatans, qui donnent de la voix,
Les marchands de pathos et les faiseurs d’emphase
Et tous les baladins qui dansent sur la phrase?
A. Barbier

Не верь, не верь себе, мечтатель молодой,
‎ Как язвы, бойся вдохновенья…
Оно — тяжелый бред души твоей больной
‎ Иль пленной мысли раздраженье.
В нём признака небес напрасно не ищи:
‎ То кровь кипит, то сил избыток!
Скорее жизнь свою в заботах истощи,
‎ Разлей отравленный напиток!

Случится ли тебе в заветный, чудный миг
Отрыть в душе, давно безмолвной,
Ещё неведомый и девственный родник,
‎ Простых и сладких звуков полный, —
Не вслушивайся в них, не предавайся им,
‎ Набрось на них покров забвенья:
Стихом размеренным и словом ледяным
‎ Не передашь ты их значенья.

Закра́дется ль печаль в тайник души твоей,
‎Зайдёт ли страсть с грозой и вьюгой —
Не выходи тогда на шумный пир людей
С своею бешеной подругой;
Не унижай себя. Стыдися торговать
‎ То гневом, то тоской послушной
И гной душевных ран надменно выставлять
‎ На диво черни простодушной.

Какое дело нам, страдал ты или нет?
‎ На что́ нам знать твои волненья,
Надежды глупые первоначальных лет,
‎ Рассудка злые сожаленья?
Взгляни: перед тобой играючи идёт
‎ Толпа дорогою привычной,
На лицах праздничных чуть виден след забот,
‎ Слезы не встретишь неприличной.

А между тем из них едва ли есть один,
‎ Тяжёлой пыткой не измятый,
До преждевременных добравшийся морщин
‎ Без преступленья иль утраты!..
Поверь: для них смешон твой плач и твой укор,
‎ С своим напевом заучённым,
Как разрумяненный трагический актер,
Махающий мечом картонным…

Não creias em si

Que nous font après tout les vulgaires abois
De tous ces charlatans, qui donnent de la voix,
Les marchands de pathos et les faiseurs d’emphase
Et tous les baladins qui dansent sur la phrase?
A. Barbier

Não creias, não, em si, ó jovem sonhador,
Qual chaga, foge da inspiração:
É um delírio febril de tua alma em torpor
Ou uma irritante fixação.
Não busques nela, em vão, desígnios do céu –
É sangue quente, ou força excessiva!
Gasta antes teu ser em infindável tropel,
Arremessa esta taça nociva!

Quando quer que te ocorra, num instante celeste
Escavar, na alma há muito calada,
Secreto manancial, ainda virgem e agreste,
Rico em música simples, alada,
Não lhe dês atenção, não te deixes vivê-lo,
Cobre-o com o véu do esquecimento:
Em cadências iguais, ou palavras de gelo,
Não transmitirás seu sentimento.

Em teu peito abrigou-se tristeza amargosa?
A paixão vem com ventos, procelas?
Não procures, então, gente ou festa ruidosa –
Que não te vejam junto com ela!
Não sofra a humilhação, a infâmia de vender
Qualquer raiva ou aflição irrisória,
Ou de chagas morais tirar pus e of’recer
Para o espanto da massa simplória.

Que é que temos a ver, se tu sofreste ou não?
P’ra que saber dos problemas teus,
Tua estúpida, infantil, risível ilusão,
E tuas falsas lamúrias de adeus?
Vê: bem em frente a ti, segue inerte seu passo
A turba, em seu rumo trivial;
Na alegria do olhar mal se vê seu cansaço,
De choro indecente, nem sinal.

Entre eles, porém, não verás um qualquer
Que não pene em pesada tortura,
Com rugas temporãs, sem um crime sequer,
Sem anseios, ausências, loucuras!…
É ridículo, crê!, para eles teu choro,
Teu reproche, ensaiado refrão,
Qual um trágico ator maquiado ante o coro,
Brandindo um punhal de papelão…

*

Тамара

В глубокой теснине Дарьяла,
Где роется Терек во мгле,
Старинная башня стояла,
Чернея на черной скале.

В той башне высокой и тесной
Царица Тамара жила:
Прекрасна, как ангел небесный,
Как демон, коварна и зла.

И там сквозь туман полуночи
Блистал огонек золотой,
Кидался он путнику в очи,
Манил он на отдых ночной.

И слышался голос Тамары:
Он весь был желанье и страсть,
В нем были всесильные чары,
Была непонятная власть.

На голос невидимой пери
Шел воин, купец и пастух;
Пред ним отворялися двери,
Встречал его мрачный евнух.

На мягкой пуховой постели,
В парчу и жемчу́г убрана,
Ждала она гостя… Шипели
Пред нею два кубка вина.

Сплетались горячие руки,
Уста прилипали к устам,
И странные, дикие звуки
Всю ночь раздавалися там.

Как будто в ту башню пустую
Сто юношей пылких и жен
Сошлися на свадьбу ночную,
На тризну больших похорон.

Но только что утра сиянье
Кидало свой луч по горам,
Мгновенно и мрак и молчанье
Опять воцарялися там.

Лишь Терек в теснине Дарьяла,
Гремя, нарушал тишину;
Волна на волну набегала,
Волна погоняла волну;

И с плачем безгласное тело
Спешили они унести;
В окне тогда что-то белело,
Звучало оттуда: прости.

И было так нежно прощанье,
Так сладко тот голос звучал,
Как будто восторги свиданья
И ласки любви обещал.

Tamara

No Darial, sobre um desfiladeiro
Onde corre o Terek, agitado,
Uma torre se avista no outeiro,
Velha e escura, num canto assombrado.

Nessa torre, tão alta e estreita,
A rainha Tamara vivia:
Com a beleza de um anjo, perfeita,
Qual demônio, cruel, falsa e fria.

E de lá, meia-noite, entre a névoa,
Cintilava uma chama dourada,
Que atraiu o viajante e o leva
A buscar lá repouso e pousada.

E ouvia-se a voz de Tamara:
Ele ardeu em desejo e paixão.
Tais feitiços jamais encontrara,
Tal poder de obscura atração.

Sob a voz misteriosa da péri
Foi o mascate e guerreiro viril;
Já se abre o portão, sem que espere,
O recebe um eunuco sombrio.

Numa cama forrada, macia,
Toda em pérolas feita, e brocado,
Aguardava Tamara, e se via
Rubro vinho servido ao seu lado.

Entrelaçam-se os dedos ardentes
E os lábios aos lábios se colam,
E barulhos bravios, estridentes,
Pela noite, entre as trevas, evolam.

E então toda esta torre, deserta,
Pareceu ter cem pares em chamas,
Pr’um casório noturno desperta,
Ou uma festa de exéquias profanas.

Mas tão logo a manhã reluziu
Com seus raios nos picos serranos,
Eis que a treva, o silêncio e o vazio
Lá voltaram a imperar soberanos.

Só o Terek troveja entre as pedras,
Interrompe o silente Darial;
Uma onda na outra se quebra,
Se dissolve na cheia caudal.

E, aos prantos, com o corpo já quieto,
A criadagem depressa desceu;
Da janela então viu-se, discreto,
Algo branco, e ouviu-se um “adeus”.

E este adeus era tão carinhoso,
E tão doce o seu som ecoou,
Que um encontro, um amor venturoso,
Qual promessa, em sua voz se escutou.


Mikhail Liérmontov

(1814-1841), enfant terrible da literatura russa do século 19, morto aos 26 anos em um duelo, já então considerado o herdeiro legítimo de Púchkin. Seus 26 anos lhe bastaram para tornar-se um dos pilares da literatura russa moderna, tanto na prosa quanto na poesia, figurando ao lado de Púchkin e de Gógol no que se convencionou chamar a “primeira plêiade” da literatura russa do século 19.

Pedro Augusto Pinto

é paulista nascido em 1992 e trabalha como tradutor e pesquisador da literatura russa. Traduziu textos de Tchékhov, de Gógol e sobretudo de Liérmontov, cujos maiores poemas traduziu ao português pela primeira vez (alguns publicados pelo jornal Rascunho), recebendo menção honrosa pelo seu trabalho em alguns eventos acadêmicos. Em 2018, publicou pela editora 7 Letras seu primeiro livro de poesia, Um bicho de circo, que teve alguns de seus poemas publicados nas revistas Lavoura e Ruído Manifesto.

19 de julho, 2018. Volume: 2Seção: Poesia Index: Mikhail Liérmontov, Aleksandr Púchkin, Fiódor Dostoiévski, Vladimir Maiakóvski, Pedro Augusto PintoPublicação: Luan Maitan. Imagem de capa: La Mort de Sardanapale (1827), Eugène Delacroix.


[quem vai embora]

[quem vai embora]

E outros poemas de André Oviedo

a primeira letra do seu nome
é a segunda do meu
e a terceira coincide entre ambos
era ali que nos encontrávamos
como no terceiro degrau de uma pequena escada
das que se usam para trocar uma lâmpada
aguar as plantas penduradas no teto
ou guardar as compras nos armários mais altos
e então descobrir com alguma surpresa
aquela geleia deliciosa
que não sabíamos onde tinha ido parar

*

penso no que já não está aqui
muito mais demoradamente
do que quando estava
como se a ausência
pregasse no tempo a coisa perdida
e tornasse possível observar
tudo se apurando
à medida em que se afasta
numa espécie de quadro movediço

*

 Alguma coisa acontece em uma região de mim da qual estou ausente
Paul Valéry

me surpreendo
quando em mim acontece algo
justamente em um ponto
para onde eu não estava olhando
uma área até então desconhecida
ou muito pouco habitada
é como se o que acontece
quisesse acontecer em paz
quisesse justamente me surpreender
então me surpreendo
e durante um breve momento
nos olhamos com certa expressão
de dever cumprido

*

quem vai embora
se parece muito pouco consigo mesmo
enquanto estava aqui
os olhos aparentam estar mais fechados
como se ventasse muito
as mãos descobrem uma vocação
infalível para o aceno
o jeito de andar revela
um passo rápido antes desconhecido
aos poucos as semelhanças
vão se abreviando
feito um grande nome
que mais precisa caber num documento
do que nomear o sujeito
no final fica talvez
apenas um ingresso de show
esquecido num bolso
ou o trem
que não alcançamos aquele dia

*

Joan Brossa
deixava as cartas urgentes
para amanhã
pois seriam mais urgentes ainda
o que ele esqueceu
é que as cartas mais urgentes
são as que nunca chegaram


André Oviedo

é de São Paulo e nasceu em 1989. É autor de Formol (selo doburro, 2014), corpo do poema (independente, 2017) e do zine Meditations over distance (independente, 2018).

24 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Poesia. Index: André Oviedo, Paul ValéryPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: Ballygunge Station, de Rohit Munshi. 


Poemas para meu filho

Poemas para meu filho

De Roberto Bolaño, como o lema de um bando invicto de gângsteres

Lê os velhos poetas

Lê os velhos poetas, meu filho
e não te arrependerás
Entre as teias de aranha e a madeira apodrecida
de barcos encalhados no Purgatório
ali estão eles
cantando!
heroicos e ridículos!
Os velhos poetas
Palpitantes em suas oferendas
Nômades partidos ao meio e ofertados
ao Nada!
(mas não, não é no Nada onde eles vivem
e sim nos Sonhos)
Lê os velhos poetas
e cuida de seus livros
Esse é um dos poucos conselhos
que pode dar este teu pai

*

Biblioteca

Livros que compro
Entre as estranhas chuvas
E o calor
De 1992
Livros que já li
Ou que jamais lerei
Livros para meu filho
A biblioteca de Lautaro
Que deverá resistir
A outras chuvas
e outros calores infernais
– Assim, que seja este o nosso lema:
Resistam, queridos livros
Atravessem os dias como cavaleiros medievais
E cuidem do meu filho
Nos anos que hão de vir

*

Biblioteca e Lê os velhos poetas foram escritos logo depois que saí do Hospital Valle Hebrón, em Barcelona, no verão de 1992, ou talvez quando eu ainda estava ali, com os velhos de fígado destroçado, com os doentes de aids e com as garotas internadas depois de uma overdose de heroína, e que a partir de então – o pavilhão estava cheio de predicadores de todo tipo – reencontraram Deus.

São dois poemas muito simples, bastante desajeitados em sua execução e com vontade de clareza no significado. O destinatário original da mensagem é meu filho Lautaro – e estas palavras, no fundo, também são para ele. Os dois poemas recolhem não apenas bons desejos e bons conselhos. Desesperado com a perspectiva de não voltar a ver meu filho, a quem encarregar seu cuidado, se não aos livros? Simples assim: um poeta pede aos livros que amou e que lhe inquietaram proteção para seu filho nos anos que virão. No outro poema, pelo contrário, o poeta pede a seu filho que cuide dos livros no futuro. Quer dizer: que leia esses livros. Proteção mútua. Como o lema de um bando invicto de gângsteres.

Blanes, janeiro de 1993

 

—Tradução dos poemas e da nota de Roberto Bolaño por Caique Zen.


Roberto Bolaño

foi um escritor chileno (1953–2003), considerado por seus pares como o mais importante autor latino-americano de sua geração.

Caique Zen

Coeditor.

27 de março, 2018. Volume: 2Seção: Poesia Dossiê: Bolaño. Index: Roberto Bolaño. Publicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan.


Poemas acerca de (des)graças

Poemas acerca de (des)graças

Seis poemas de Laura Švedaitė traduzidos do lituano por Caio Borges

Persų patarlė

Lotoso pėdos,
ilgieji Karenų kaklai,
randai,
tatuiruotės,
Labret lūpų lėkštės,
chna,
plunksnų karūnos,
liūto ilčių pakabukai,
kaukės,
korsetai,
šinjonai,
auskarai,
perlų karoliai,
auksinės apyrankės,
smaragdiniai žiedai,
kvepalai,
smilkalai,
aliejai,
rožių kvapnieji vandenys,
krūtų implantai,
užmuškite
mane,
bet
padarykite
gražią.

Provérbio persa

Pés de lótus,
longos pescoços dos Karen,
cicatrizes,
tatuagens,
alargadores de lábio Labret,
hena,
cocares de penas,
pingentes de dente de leão,
máscaras,
corsetes,
chignons,
brincos,
colares de pérolas,
braceletes de ouro,
anéis de esmeralda,
perfumes,
incensos,
óleos,
água aromatizada de rosas,
implantes de mama
matem-me,
mas
façam-me
bela.

*

Apie bučinius

Per visą savo gyvenimą
Moteris
Suvalgo
Apie dvidešimt kilogramų
Lūpdažio.
O vyras
Apie tris
kilogramus.

Acerca dos beijos

em toda sua vida
a mulher
ingere
cerca de vinte quilogramas
de batom.
Já o homem
cerca de três
quilogramas.

*


Minareto

Yra tik vienas
dievas ir jis kviečia
pasaulį melstis, o aš esu
motina dešimčiai vaikų ir labai
noriu miego

Do
Minarete

Há um único
deus e ele convida
o mundo para orar, já eu sou
mãe de dez bebês e quero
muito dormir

*

Muziejuje

Zaratustra dega
amžinai
už stiklo
darbo dienomis
galima ateiti
pažiūrėti

No museu

Zaratustra arde
pra sempre
atrás do vidro
nos dias de semana
podes vir
observá-lo.

*

Marina Abramovič

padėjo
septyniasdešimt du daiktus
ant stalo,
tuomet pati šešioms valandoms
pavirto į „daiktą“
ir leido galerijos lankytojams su ja daryti
ką panorėjusiems.
Ant stalo gulėjo
duonos gabalėlis,
vynas,
gėlės,
plunksnos,
kvepalai,
prezervatyvas,
žirklės,
peilis,
užtaisytas pistoletas
ir kt.
Iš pradžių,
žmonės žaidė su Marina,
maitino Mariną,
kuteno Mariną,
bučiavo Mariną,
vėliau jie nurengė Mariną,
lietė Mariną,
su skutimosi peiliuku įpjovė Marinos odą,
ragavo Marinos kraujo,
tuomet paguldė Mariną ant stalo
ir vaizdavo norintys papjauti Mariną,
nušauti Mariną,
sudeginti Mariną.

Galiausiai atsirado
vienas vyras,
užsimanęs
pabūti Marinoje
(tačiau buvo sustabdytas).

Atleisk jiems Marina,
jie nesuprato,
ką daro.

Marina Abramovič

dispôs
setenta e duas coisas
sobre a mesa
então, por seis horas, ela mesma
fez-se coisa
e deixou os visitantes da galeria fazerem com ela
o que quisessem.
sobre a mesa deixou
um pedaço de pão,
vinho,
flores,
penas,
perfume,
preservativos,
tesouras,
facas,
uma pistola carregada,
etecetera.
de início
as pessoas brincaram com Marina,
alimentaram Marina,
fizeram cócegas em Marina,
beijaram Marina,
mais pra frente despiram Marina,
tocaram Marina,
com uma lâmina de barbear perfuraram a pele de Marina,
provaram o sangue de Marina,
então deitaram Marina sobre a mesa
e encenaram desejar matar Marina,
atirar em Marina,
queimar Marina.

Por fim apareceu
um homem
que desejava
estar em Marina
(mas foi interrompido).

Perdoe-os, Marina,
eles não sabem
o que fazem.

*

Dabar – 21-mas amžius
ir galima sakyti,
kad viską išbandžiau:
biotronikos seansus,
akupunktūrą,
akupresūrą,
sąmoningą kvėpavimą,
transcendentinę meditaciją,
jogą, karatė, taiči,
laimės medelį, akmenukus su skyle,
povo plunksnas,
laimės drambliukus,
pakabukus su gyvate,
Atlantidos žiedą,
egiptietišką skarabėjų,
turkišką laimės akį,
bioenergetiką,
Filipinų gydymą,
reiki, fengšui,
radiosteziją,
homeopatiją,
šlapimą, iridologiją,
būrėjus ir kerėtojus,
Kašpirovskį, Taro kortas, egzorcistą,
gal ir dar ką.
Dabar sėdžiu pas psichiatrą
ir šis nieko nebesako.
Tik išrašo tablečių.

Hoje, século 21.
E poderia dizer
que tentei de tudo.
sessões de biotrônica,
acupuntura,
acupressura,
respiração consciente,
meditação transcendente,
yoga, caratê, tai-chi,
planta da sorte, pedrinha furada,
pena de pavão,
elefantinho da sorte,
pendente de cobra,
anel do Atlântico,
escaravelho egípcios,
olho da sorte grego,
tratamento bioenergético,
filipino,
reiki, feng-shui,
radiônica,
urina, iridologia,
vidente e feiticeiro,
Kashpirovisky, cartas de tarô, exorcista,
e talvez algo mais.
Hoje sento no psiquiatra
e isso não diz nada.
Apenas tome as pílulas.


Lina Laura Švedaitė

(Vilnius, 1989) é escritora, atriz e dançarina. Estudou Tradutologia na Vilniaus Universitetas e morou em Londres, Paris, Lisboa, Coimbra e Teerã. Recebeu prêmios literários e tem trechos do livro Laiškai hipokampui (Cartas ao hipocampo, 2017) publicados em revistas virtuais como a Nemunas e Šiaurės Atėnai. Deste livro, cuja publicação, apoiada pelo Conselho Cultural Lituano, acontecerá em 2018, faz parte a seleção feita por ela para a Vigília: “Eilėraščiai apie (ne)gražius dalykus” (“Poemas acerca de (des)graças”).

Caio Borges

é formado em Letras com habilitação em Grego e mestrando em linguística histórica. Estudou algumas línguas, entre elas o lituano.

6 de março, 2018. Volume: 2Seção: Poesia Index: Laura Švedaitė, Marina Abramovič, Caio BorgesPublicação: Lucas R. Gaspar, Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan. Imagem de capa: Royal Dreams, foto de Niki Feijen.


nada ter nas mãos

nada ter nas mãos

5 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam o tempo,
o corpo e a febre
e o que medi-los

 

*

 

arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já nem existe.

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

 

*

 

homem: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse homem que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

 

*

 

(umbrosos verdes arbustos,
os cães,
farfalhantes os cães em seus campos de preás Baleias todos eles
farfalhante o tempo também, e até
suspenso de sua roda habitual
sobre arbustos,
ausente nos cães sob arbustos, umbrosos cães felizes
e o bicho-homem olha, semiparticipante
provisório e terrivelmente humano, mas
feliz.)

Na chácara com Pedrito, 7-1-2017

 

*

 

abrir a portaedarcomou-
tra porta e darcomoutr-
a e
até não haver mais porta e muro e abrir e mão


Matheus Guménin Barreto

Nasceu em 1992, em Cuiabá, Mato Grosso. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017). Publicou em agosto de 2017 seu livro de poemas A máquina de carregar nadas pela Editora 7Letras. E-mail para contato: matheusgumenin@hotmail.com.

23 de novembro, 2017. Volume: 1Seção: Poesia Index: Matheus Guménin BarretoPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: Mark Rothko


Estudos de Vida

Estudos de Vida

4 poemas de Isabela Benassi

não se pode
forçar a organização
redonda das coisas
que não são
redondas
há quem alise
as quinas das
paredes
para evitar
os machucados
há quem force
a união dos corpos
e a consumação
do sexo mas
é inútil
forçá-los
é inútil

olha
o sol, a barriga
grávida e a moeda
igualmente redondos
de uma mulher
sentada na praça central
ela inclina trinta graus
à esquerda seu rosto
aos moldes da
iconografia cristã
olha
como suas mãos
pendem ao olhar
para o céu
como seus olhos
pedem dinheiro
pelo amor de deus
colocando dentro
de um terço
os cinco mistérios
do rosário que
hão de livrar-nos do fogo do inferno,
hão de levar-nos todos pro céu

certa vez ouvi
que a humanidade
é completamente
redonda
e penso
que agora
é inútil negar
está aqui
bem na nossa frente
no arremesso da esmola
na parábola
que a moeda faz
no ar
olha
como a forma
do desconforto acerta
em dar o mesmo
molde circular
às moedas
ao corpo
ao terço
– à fé:
todos
redondos
todos aqui
tentando não
furar as mãos
e os bolsos
(mas escapando entre os dedos)

 

*

 

escudo

abandona o escudo
abandona a batalha
livra-se

é preciso separar
os que aceitam sujar as mãos
com os problemas do seu tempo
daqueles que oferecem
apenas aos amigos
o escudo do herói
e olhar
os inimigos nos olhos
sozinhos
como quem olha
aquele homem que espera
sentado horas a fio
sair daqui
em uma rua do centro
ele abraça seus próprios joelhos
e dorme
porque talvez ele não possa
olhar
os inimigos nos olhos
como a gente

a dança dos dias
consiste em
vestir ou não
o escudo
sujar ou não
as mãos
(lavá-las
talvez)
mas antes
é preciso assumir
que ninguém
consegue
sujar as mãos
e segurar
um escudo
ao mesmo tempo

 

*

 

à Patti Smith
(com coisas de Ruy Belo)

contigo aprendi coisas tão simples como
suportar lentamente o ritmo do outro
e o peso que afunda nossos joelhos
eu gostaria de lhe dar um lugar marcado
além deste que nos resta
de suportar pesos maiores
que os nossos
eu gostaria de lhe dar um lugar quente
dentro dos meus ossos para que nem eu
nem você
quebremos
com a ruptura do tempo,

mas eu não posso.

 

*

 

life studies

há primeiro que nascer
e escorregar da barriga
ao chão
até que caia

uma barriga capaz de prover mulheres
e alguns rituais de cura
trocando o cortar da cana
pelo esbanjar em riste uma espingarda
– caso necessário.

espadas de são jorge
na porta de casa
e punhados de arrudas
(sente-se o cheiro ao longe)
rasgam as carrancas
na sorte do livramento
de uma memória pobre
que alinha-se agora
à pemba do parapeito,

não há linhagem que
sobreviva aos futuros da infância:
nasce uma criança loira
no meio do mato

— como pode ser tão loira?
como pode
ser daqui?
um corpo tão pequeno e loiro,
há de ter algo errado.

abrem a carne da criança loira
todos os dias
certificam se são ossos
que estão ali
são órgãos mesmo e
se tem sangue.

ela cresce
no sangrar da terra
e segue
em salgar o corpo
(a terra puxa
o que lhe pertence),
não importa, vive sua infância,

traz os agouros de morte à velhice,
pois é isso que um corpo novo faz
com quem está há muito tempo
caindo.


Isabela Benassi

nasceu em São Paulo, no extremo sul da cidade. É formada em Letras e, atualmente, estuda poesia portuguesa e artes plásticas de autoria feminina.

24 de outubro, 2017. Volume: 1Seção: Poesia Index: Isabela BenassiPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan Maitan


Rota intermediária

Rota intermediária

4 poemas de Bobby Baq

Corresponder
ao mistério
com o canto do nariz
(que é a parte mais anônima
do rosto enquanto
registro
e do ser enquanto domínio).

Corresponder ao mistério
a partir do mínimo.

Corresponder ao mistério
como soa o que trinca no vidro,
com notas sem precisão.

Corresponder ao mistério
mesmo que ele

não.

 

*

 

Pra saber
que entre duas coisas
cabe uma pessoa,

entre três pessoas
talvez caiba
um sentido

e entre um e outro sentido
não fica espaço
pra mais nada:

É preciso
cair
de uma
escada.

 

*

 

Há semelhanças entre os quadrados
e o omitido.

A rota errada
espelhada
na correta.

A correta
espalhada pelo resto
do caminho.

Não estar com um pé em cada,
mas nas duas,
em ambas sozinho.

Através do retrovisor:

A rota intermediária
atravessa quem não veio
e aquele que já passou.

 

*

 

Como se fosse possível
mãos dadas
serem translúcidas,
preenchidas por transparência
se postas
sentido ao Sol.

Como se fosse possível
mãos dadas feito
concha
emprenharem de bicho
inseto
verme, líquen,
caracol.

Como se fosse possível
mãos dadas
de duas pessoas
serem toda de terceiros:

Unha, dedo
osso e pelo.
Linha, toque de precisão.

 

No entanto, parece plausível
que formem outro organismo
dado à falta de abrigo
e com triplo
de visão.


Bobby Baq

É poeta, roteirista e dramaturgo. Autor dos livros Nébula, Suspensivos e Eu findo mundo. Trabalha com o silêncio na palavra escrita e a performatividade na palavra oral. Desenvolveu experimentos cênicos com artistas de outras áreas misturando música, poesia oral e dança, além de spoken words, vídeo-poemas, colagens e algumas oficinas. Acredita na força das coisas que ainda não têm nome e trabalha para pari-las sem batizá-las.

22 de setembro, 2017. Volume: 1. Seção: Poesia Index: Bobby BaqPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: Colagem de Bobby Baq.


Diante do mar, flores abrem na primavera

Diante do mar, flores abrem na primavera

Dois poemas de Haizi traduzidos do chinês por Marcelo Medeiros e Zhou Chunlin

The death of the poet Haizi will become a myth of our age

Xichuan

 

Haizi (海子), a “criança do mar”, pseudônimo de Zha Haisheng (查海生), nasceu em 1964 em uma pequena vila rural na província de Anhui, China central. Em 1979 é aprovado na prestigiada Universidade de Pequim, onde estuda Direito. Após a graduação, passa a lecionar no departamento de Filosofia da Universidade de Política e de Lei, também em Pequim. Segundo testemunhos de amigos, Haizi, de temperamento tímido, dedicava-se à poesia com fervor, sendo praticamente sua única ocupação além do trabalho na faculdade. Sobre sua personalidade, diz Xichuan: “solitário, sensível, rico em criatividade e, ao mesmo tempo, intenso, fácil de se machucar e ardente amante da terra e da natureza”. Haizi é um poeta de veia lírica romântica, tendo sua poética marcada por uma sensibilidade transcendental, pela força comunicativa e pela clareza da linguagem, assim como pela recorrência de temas e imagens rurais que remetem à infância do autor, a exemplo dos campos de trigo. Segundo o próprio autor: “o ideal da minha poesia é realizar na China um tipo de poesia grandiosa da coletividade. Eu não desejo me tornar um poeta lírico, ou um poeta dramático, tampouco desejo me tornar um poeta da história da poesia [um poeta erudito ou acadêmico], eu só desejo fundir-me ao movimento da China, realizando uma espécie de síntese do folclore chinês e da humanidade, poesia e verdade unificados em um grande poema”. Em 26 de março de 1989, Haizi tirou sua própria vida deitando-se sobre uma linha de trem próxima a Pequim. Os comentadores de sua obra dividem-se quanto à causa de seu suicídio, sendo que alguns atribuem o ato a uma desilusão amorosa, enquanto outros o relacionam à sua condição mental. Além de poemas curtos, aos quais o autor deve sua celebridade, Haizi escreveu também poemas longos e prosa. Destacam-se em sua vasta obra os poemas Diante do mar, flores abrem na primavera, Azaroleiro e Pátria, ou poetas cujos sonhos são cavalos. Trazemos abaixo dois poemas deste autor, que permanece inédito em língua portuguesa, traduzidos diretamente do original.

TRIGAL E POETA

麦地与诗人

Pergunta

correndo no trigal verde
luz de neve e sol brilhando

poeta, você não tem como retribuir
os laços amigos do trigal e do brilho

um certo desejo
uma tal simpatia
você não tem como retribuir

você não tem como retribuir
uma estrela vai brilhando
sobre sua cabeça arde solitária

询问

在青麦地上跑着
雪和太阳的光芒

诗人,你无力偿还
麦地和光芒的情义

一种愿望
一种善良
你无力偿还

你无力偿还
一颗放射光芒的星辰
在你头顶寂寞燃烧

Réplica

trigal,
outras pessoas conseguem vê-lo
sentem-no belo e morno
porém eu permaneço
no coração de sua questão dolorosa
      sendo queimado por seu fogo
eu permaneço sob as agulhas duras do sol

ah, terra e trigo
inquiridor misterioso

quando permaneço com essa dor em sua frente
você não pode dizer que não tenho nada neste mundo
você não pode dizer que minhas duas mãos estão vazias

ah, trigal, a dor da humanidade
é a poesia e o brilho que ela irradia

答复

麦地
别人看见你
觉得你温暖,美丽
我则站在你痛苦质问的中心
     被你灼伤
我站在太阳   痛苦的芒上

麦地
神秘的质问者啊

当我痛苦地站在你的面前
你不能说我一无所有
你不能说我两手空空

麦地啊,人类的痛苦
是他放射的诗歌和光芒!

*

DIANTE DO MAR, FLORES ABREM NA PRIMAVERA

a partir de amanhã serei uma pessoa feliz
dar água aos cavalos, cortar lenha, viajar por todo o mundo
a partir de amanhã me preocuparei com grãos e vegetais
em uma casa em frente ao mar, onde flores abrem na primavera morna

a partir de amanhã escreverei para todos os meus amados
contarei a eles da minha felicidade
o que o raio da felicidade me contou
eu irei contar para todas as pessoas
e darei um nome doce a cada rio e montanha

desconhecido, eu também lhe desejo felicidades!
espero que você tenha um futuro esplêndido
espero que você encontre um amor para a vida toda
espero que você obtenha felicidade neste mundo efêmero
eu só desejo olhar o mar enquanto flores abrem na primavera

面朝大海,春暖花开

从明天起,做一个幸福的人
喂马,劈柴,周游世界
从明天起,关心粮食和蔬菜
我有一所房子,面朝大海,春暖花开

从明天起,和每一个亲人通信
告诉他们我的幸福
那幸福的闪电告诉我的
我将告诉每一个人
给每一条河每一座山取一个温暖的名字

陌生人,我也为你祝福
愿你有一个灿烂的前程
愿你有情人终成眷属
愿你在尘世获得幸福
我只愿面朝大海,春暖花开


Marcelo Medeiros

Estudante do curso de Letras com habilitação em Chinês na Universidade de São Paulo (USP), tendo realizado intercâmbio para a cidade de Xi’an, China, por um ano, entre 2016 e 2017. Suas principais áreas de estudo são a poesia e a filosofia chinesas. Além de traduzir poetas contemporâneos e atuar como professor de português para chineses, no momento realiza uma pesquisa na área de filosofia chinesa comparada.

Zhou Chunlin (周春林)

Graduada no curso de Português da Universidade de Estudos Internacionais de Xi’an da China, atualmente faz mestrado em Tradução Literária na Universidade de Macau. Suas principais áreas de interesse são a tradução literária (chinês-português) e a poesia moderna chinesa.

10 de agosto, 2017. Volume: 1. Seção: Poesia Index: Hai Zi, Xi Chuan, Marcelo MedeirosZhou ChunlinPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan Maitan


eu queria ser uma baleia

eu queria ser uma baleia

E outros poemas de Martina Sohn Fischer

Na cidade
Nem tempestade
Lava o sangue

 

*

 

eu queria ser uma baleia

Pra falar outra língua, que não fosse a nossa
Pra nunca fechar os olhos
Pra deslizar uma vida toda
Pra ser peixe grande no infinito
E pequeno então

até desaparecer
de carcaça e tudo
bem lá no fundo do mar

num adeus silencioso
indecifrável

virar oceano

 

*

 

O dia mais triste

São todos
que ainda levam minha memória de você
para longe
o lugar no tempo onde não há lembrança

o dia mais triste
é este
que cresce numa memória inventada
de nós
jogando cartas nas mãos
eu criança
sabendo de tudo, sobre um mundo todo
que não existe mais

o dia mais triste
é hoje
onde todas as saudades estão
num coração só

 

*

 

flor de cúpula

raízes no vidro, não há terra nem mundo suficientes
caindo para o lado da janela, cresce torta, esperando que o vidro se parta
na força de sua existência, mesmo no mínimo espaço, ela existe para tudo
mais que todos
deito na minha cama, pequena, sendo pequena,
caindo para o lado da janela
buscamos a vida e no fim
admito que a morte não cabe aqui
não mais que minhas pernas e braços
sou inteira de existir
e memória
criando tudo feito raízes

 

*

 

caça

me fiz
olhando a teia que sobe a árvore
grudada nos galhos, começa no tronco
nada me fez
olhando as gotas finas
delicada aranha
prendendo o vento
e asas
eu presa olhando
a árvore toda
caçando

 

*

 

De quatro
Para algo de você
que só toco assim

e algo de mim
que nunca sou

só assim


Martina Sohn Fischer

Cursa psicologia com foco em psicanálise. Teve duas peças encenadas: Casa de inverno, pela Produções Artísticas Artrupe de Manaus, e Aqui, pela companhia de teatro Club Noir de São Paulo, peça também publicada pela editora 7 Letras. Escreveu para o site Caos Descrito e para a revista Jandique, além do livro de poemas Fruto Estranho, pela editora Dybbuk. Mantém também o blog domargo.wordpress.com como lastro de si.

10 de julho, 2017. Volume: 1. Seção: Poesia. Index: Martina Sohn FischerPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: False Start, de Jessica Brilli