As felicidades de Mário de Andrade

As felicidades de Mário de Andrade

Confissões a Manuel Bandeira e Newton Freitas

Mário de Andrade é um dos pilares em que se assenta o modernismo brasileiro. Sem ele, a história das artes brasileiras no século XX seria outra. A primeira e maior biblioteca de São Paulo é batizada com o seu nome, e lá há um busto do escritor na entrada principal. Em frente ao prédio da biblioteca, uma estátua imponente de Luís Vaz de Camões, símbolo que sustenta a tradição que o paulistano guardou em sua força motriz de modernização da literatura em língua portuguesa.

Muito já se disse sobre Mário, inclusive sobre sua suposta homossexualidade, porque a sexualidade ainda gera mais interesse que a obra.  Mas não é raro ouvir que sua obra talvez tenha tido, de fato, menor importância que suas interlocuções. A correspondência com Carlos Drummond de Andrade é documento de valor inestimável para a história de nossa literatura, e talvez o futuro dê maior destaque às cartas que a Macunaíma ou a Pauliceia desvairada. Mário foi também um crítico que filtrou e expôs aos leitores o que de melhor estava sendo feito em seu tempo. Ele encarna, parece-me, a figura de um deus-mensageiro sem o qual jamais seríamos o que somos; a arquitetura precisa de uma obra em infindável execução.

As suas correspondências não nos contam apenas sobre sua época, mas nos dão acesso a uma intimidade ao mesmo tempo pujante e sombria: a humanidade intensa que o autor desdobrava minuciosamente em sua trajetória. Transcrevo abaixo dois recortes desse mapa subjetivo que dizem respeito a uma das maiores questões do pensamento: a felicidade. E Mário de Andrade nos lega, com a mão pesada de sua sensibilidade, verdadeiros tesouros em forma de confissão.

 

*

a Manuel Bandeira

… a bem dizer não sou feliz. Até, cá pra nós, quando você escreveu aquele artigo sobre Remate de males e me chamou de feliz, concedeu então que eu tinha a minha felicidade criada a força de muque e vontade, coisa verdadeiríssima, confesso agora a você que meio sorri, porque francamente conquistada a felicidade e posta ela em prática cotidiana principiei achando ela tão medíocre, tão mesquinha, não só egoística socialmente porque ela não invalidava as dores e compaixões minhas pra com o mundo, mas egoística ou pelo menos besta pra comigo mesmo: prova se você quiser da existência de Deus. Já andava pois com uma vontade danada de abandonar a felicidade, que hoje considero uma conquista pessoal profundamente medíocre. Não sei bem como que vou fazer, isto tudo até parece diletantismo, dança de espírito. Não é não. Estou mesmo seriamente disposto a acabar com, pelo menos com as preocupações de ventura pessoal.

 

a Newton Freitas, 16 de abril de 1944

Lhe mando meu retrato que mais gosto, mas exijo troca. Gosto mais porque marca no meu rosto os caminhos do sofrimento, você repare, cara vincada, não de rugas ainda, mas de caminhos, de ruas, praças, como uma cidade. Às vezes, quando espio esse retrato, eu me perdoo e até me vem um vago assomo de chorar. De dó. Porque ele denuncia todo o sofrimento dum homem feliz. Porque de fato desde muito cedo eu atingi a transcendência da felicidade, mas me lembro, desde 1922, a raiva desesperada em que fiquei com a besteira de Graça Aranha, em A estética da vida, confundindo a dor, o sofrimento com a infelicidade. Ao passo que é desse ano mesmo aquele meu verso dizendo que “A própria dor é uma felicidade”. Mas sucedeu o castigo. Essa transubstanciação dos sentimentos foi tão bem conseguida em mim que por muitos anos, perto de quinze anos, vivi num delírio eufórico de felicidades e de felicidade. As lutas, os insultos, os erros, as dificuldades, as derrotas (a cada derrota, eu dizia alegre: “Um a zero, vamos principiar outro jogo!”), eram pra mim motivos de tanta, não alegria, mas dinâmica de ser a superação até física, que me esqueci que sofria. Até que tiraram essa fotografia. E fiquei horrorizado de tudo o que eu sofri. Sem saber.

Mário de Andrade

Retrato de Mário de Andrade pelo fotógrafo Benedito Duarte, por volta de 1935.

A inscrição na imagem data de 1942 e é dirigida a Newton Freitas, intelectual capixaba com quem Mário trocou dezenas de cartas ao longo de 15 anos.


Mário de Andrade

(1893-1945), foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro e figura central do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Ele foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia desvairada em 1922.

Luan Maitan

é editor da Vigília.

20 de setembro, 2018 Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Luís Vaz de Camões, Manuel Bandeira, Newton Freitas. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho. Imagem de capa: Kobra.


La muerte de la muerte

La muerte de la muerte

Máximas de César Vallejo

Na verdade, o céu não fica nem longe nem perto da terra. Na verdade, a morte não fica nem perto nem longe da vida. Estamos sempre diante do rio de Heráclito.

*

Com o advento do avião e da radiotelegrafia, o sentimento de nostalgia despertado pela distância vai, de certo modo e até nova ordem, enfraquecendo ou desaparecendo. O que não desaparece, com os progressos científicos e industriais, é a nostalgia do tempo.

*

Entre as mil ou mais vozes simultâneas de um coro, ouve-se apenas duas delas.

*

Não há nada a temer. Não há nada a esperar. Sempre se está mais ou menos vivo. Sempre se está mais ou menos morto.

*

A música vem do relógio. A música, como arte, nasceu no momento em que o homem se deu conta, pela primeira vez, da existência do tempo, digo, da marcha das coisas, do movimento universal. Um! Dois! E a escala nasceu.


César Vallejo

Nasceu no Peru, em 1892, e morreu na França, em 1938. É um dos grandes poetas da língua espanhola, e certamente o maior de seu país.

30 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: César Vallejo, Heráclito. Tradução e publicação: Caique Zen.


O salto de Franz Reichelt

O salto de Franz Reichelt

Notas sobre estreias e abismos

[1]

Quando algo estreia, deixa de ser apenas potência – condição comum a tudo o que não foi – e passa a ganhar existência, dura, irrevogável. Quando um autor estreia, deixa de ser aquele que gosta de escrever e passa a ser aquele que escreve.

O lançamento do primeiro livro é o rito de passagem a uma espécie de maioridade – fase em que alguém se torna para sempre penalmente imputável, estando ou não maduro para tal carga. Essa passagem provoca duas coisas incontornáveis: a primeira, todas as leituras que o escritor não concebeu; a segunda, todas as críticas distanciadas, os olhares inquisidores do julgamento. O jovem escritor (na maioria dos casos) se coloca com ímpeto e sem conhecimento ao lado de tantas e variadas estaturas na selva implacável da autoria.

Estrear guarda uma violência sob a forma leve do verbo. É sempre um salto, e é preciso ter brio para dá-lo. Mas coragem só não basta.

 

[2]

O alfaiate austríaco Franz Reichelt costurou uma roupa que – na fronteira entre a lucidez e a miragem – o faria flutuar até o solo. Havia no desejo de Reichelt ao mesmo tempo uma nobreza arcaica e um sonho ingênuo. Se a cruel natureza deu-nos cérebro suficiente para percebermos que ela não nos deu asas, então há uma conta por acertar. Nenhuma razão passa impune por um animal que sonha.

Mais que o batido domínio da natureza, o alfaiate aliava a técnica do adulto à fantasia da criança. Era um homem que havia condensado sua existência, e que portanto merecia qualquer coisa parecida com o triunfo de um pássaro. Ter seu nome nos anais da História já era uma fina ironia contra a mortalidade.

E então, aos 4 de fevereiro de 1912, em Paris, depois de tempos de sentimentos desatados, testes e recosturas, trocas de tecido, cálculos e medidas, chega o dia de pôr à prova a natureza e a coragem. Uma equipe da imprensa estava lá para registrar a passagem do mito de Ícaro à perenidade da História de Franz.

O alfaiate Franz Reichelt enfartou antes de abrir um buraco ao pé da Torre Eiffel, e deve estar saltando até agora naquele segundo. Sua obra é para sempre um modelo de falha.

 

[3]

Há os que nunca passam da estreia mas constroem uma obra, como Augusto dos Anjos, que publicou apenas o volume Eu em vida e com ele figura entre os maiores poetas da língua do século 20. Há outros que jamais estrearam mas erigiram monumentos mais perenes que o bronze: os heterônimos de Fernando Pessoa, por exemplo.

Silviano Santiago certa vez afirmou: “Nunca saberemos quem são os maiores escritores da humanidade. Ou seja, são alguns ilustres desconhecidos cujos livros foram engolidos pelo tempo. Lemos e elogiamos os melhores da média geral”.

Numa carta de 1926 a Mário de Andrade, nosso poeta maior sugere que essa ideia tem alguma razão. O sensato Drummond escreve: “Não me sinto capaz de grandes coisas, por isso também não sinto dificuldade em renunciar a executá-las. E não me queira mal, se um dia eu te escrever que rasguei o meu caderno de versos”. É claro que Mário de Andrade respondeu com feroz reprovação, pois já havia lido alguns dos poemas que mudariam a história da língua. Dali a quatro anos o mineiro lançava Alguma poesia.

Não fosse a traição de Max Brod, o mui amigo de Kafka, boa parte da obra do autor de A metamorfose e O processo (esse título, inclusive) não chegaria até nós, e quiçá seu nome também não tivesse a repercussão e a influência que teve. Kafka virou adjetivo, mas poderia ser apenas uma das incontáveis sequências de letras jamais pronunciadas.

É bem possível que amigos não traídos encerraram sua obra como se nunca a tivessem escrito. E talvez todos com a lucidez de que grandeza nenhuma poderia salvá-los.

 

[4]

Quando um filhote de pássaro salta, na ânsia do céu, ainda com asas despreparadas, torna-se no instante um pássaro que falhou no primeiro voo. E se desenha claro o seu destino: Eis um pássaro que caiu do ninho.

Certa vez, encontrei um desses desafortunados. Estava num pio incessante, envolto de mato num jardim de calçada. Ali seria presa fácil. Para poupá-lo de outro algoz, pois seu tempo já estava selado, levei-o para casa. A experiência foi transformadora. Cuidar de um selvagem, alimentá-lo e fornecer-lhe calor e abrigo até perceber o quanto isso nos liga a sua existência, tudo é de uma delicadeza inexprimível. Era sempre uma dor deixá-lo no ninho improvisado. E surpreendente notar que o bicho me reconhecia e sentia por minha presença uma necessidade brutal. Mas já não cabia à minha ingênua boa vontade e afetividade animal a existência do pequeno pássaro, ele não chegou a completar um terceiro dia nessas condições.

O outro lado da minha rua não tem casa, é um filete de terra e árvore em meio ao concreto. Eu o cobri com folhas secas ao pé da árvore que me pareceu a mais alta. Por cima das folhas, uma pedra triangular, com uma das pontas apontando para o tronco – o raio congelado que nasceu na terra e relampejou em direção ao céu. Lá estava a morte: o pássaro que nunca voou, a voz cujo canto jamais se ouviu.

 

[5]

Num lapso de fantasia, fico triste por toda luz que se apagou sem chegar às retinas, e relembro – e relembro incansavelmente – do monólogo derradeiro do replicante Roy Batty, do primeiro Blade Runner. Vale lembrar também que essa foi uma intervenção do ator Rutger Hauer, que encarnava o replicante, no texto de Phillip K. Dick então adaptado para o cinema:

Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Que angustioso exercício o de imaginar os amores eternos que desaguaram no vão do tempo – o buraco negro da trajetória. O próprio Fernando Pessoa, em seu imenso “Mar português”, lança às ondas a questão:

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

E prossegue com a mais famosa pergunta (pela mais famosa resposta) em verso da língua portuguesa: Valeu a pena?

 

[6]

E de repente sou tomado pelas ideias sem brilho do pragmatismo. A vida então é breve demais para nos dedicarmos a fantasias. Os maiores escritores da humanidade – conclui a desembriagada razão – são esses que chegaram até nós.

Mas os que chegaram até nós – insiste em mim qualquer revelação teimosa – guardam aquela coincidência brutal com os que não chegaram; há um ponto de partida onde todos os que foram e os que não foram permanecem ligados pela incurável eternidade:

Todos eles ousaram passar pela prova de Franz Reichelt.

Todos se lançaram para o abismo.


Luan Maitan

Luan Maitan

Editor.

22 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Silviano Santiago, Phillip K. Dick, Fernando Pessoa. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho.


A arte de vagabundar

A arte de vagabundar

Crônica de Roberto Arlt

Começo por declarar que para vagabundar são necessários atributos excepcionais de sonhador. Como disse o ilustre Macedonio Fernández: “Nem tudo é vigília de olhos abertos”.

Digo isso porque há desocupados e desocupados. E me explico: entre o “pé-rapado” de botinas estropiadas, cabeleira ensebada e pança mais gordurosa que carro de magarefe, e o vagabundo bem-vestido, sonhador e cético, há mais distância que entre a Lua e a Terra. A não ser que esse vagabundo se chame Máximo Gorki, ou Jack London, ou Richepin.

Antes de mais nada, para vagar por aí é preciso estar completamente despido de preconceitos, e também ser um pouquinho cético, cético como esses cães com olhar faminto que quando chamados balançam o rabo mas, em vez de se aproximar, se afastam, guardando entre seu corpo e a humanidade uma respeitável distância.

É claro que a nossa cidade não é das mais apropriadas para a vadiagem sentimental, mas o que se pode fazer?

Para um cego, desses cegos que têm as orelhas e os olhos inutilmente bem abertos, não há nada para ver em Buenos Aires. Mas quão grandes, quão cheias de novidades são as ruas da cidade para um sonhador irônico e pouco desperto! Quantos dramas escondidos nos sinistros apartamentos! Quantas histórias cruéis no semblante de certas mulheres que passam! Quanta canalhice em outras caras! Porque há semblantes que são como o mapa do inferno humano. Olhos que parecem poços. Olhares que fazem pensar nas chuvas do fogo bíblico. Idiotas que são um poema da imbecilidade. Tratantes que merecem uma estátua pela arte de sobreviver. Assaltantes que elaboram suas trapaças atrás da vidraça turva, sempre turva, de uma leiteria.

O profeta, ante este espetáculo, se indigna. O sociólogo constrói indigestas teorias. O otário não vê nada, e o vagabundo se regozija. Me explico: o vagabundo se regozija com a diversidade de tipos humanos. Sobre cada um desses tipos, pode-se construir um mundo. Tanto os que levam escrito na testa o que pensam quanto aqueles mais fechados que um túmulo revelam seu pequeno segredo… o segredo que os move como fantoches pela vida.

Às vezes o inesperado é um homem que pensa em se matar e que o mais gentilmente possível oferece seu suicídio como um espetáculo admirável, cujo preço de entrada é o terror e o compromisso na delegacia. Outras vezes, o inesperado é que uma senhora troque tapas com sua vizinha enquanto um coro de remelentos se agarra às saias das fúrias e o sapateiro da rua assoma a cabeça à porta de sua biboca para não perder a refeição.

Os extraordinários encontros da rua. As coisas que se vê. As palavras que se ouve. As tragédias que se pode conhecer. E então a rua, a rua lisa, que parecia destinada a ser uma artéria de tráfico com calçadas para homens e pavimento para bestas e carros, transforma-se em uma vitrine, ou melhor, em um cenário grotesco e espantoso onde, como nas gravuras de Goya, os endemoniados, os enforcados, os possuídos e os enfeitiçados dançam sua sarabanda infernal.

Pois na verdade quem foi Goya, senão um pintor das ruas da Espanha? O Goya pintor de três aristocratas regalões não interessa. Mas o Goya animador da escória de Moncloa, das bruxas de Sierra Divieso, dos madraços monstruosos, esse é um gênio. E um gênio que dá medo.

E tudo isso Goya viu vagabundando pelas ruas.

A cidade desaparece. Parece mentira, mas a cidade desaparece e se transforma em um empório infernal. As lojas, os letreiros luminosos, as casas, todas essas aparências bonitas e agradáveis aos sentidos se desvanecem para deixar flutuando no ar os nervos da dor universal. E do espectador se afugenta o afã de viajar. E mais ainda: cheguei à conclusão de que aquele que não encontra todo o universo nas ruas de sua cidade não encontrará uma rua original em nenhuma cidade do mundo. E não a encontrará pois o cego em Buenos Aires é cego também em Madri ou Calcutá…

Sei perfeitamente que os manuais escolares pintam os senhores e os cavalheirinhos que vagam pelas ruas como futuros perdulários, mas, de minha parte, aprendi que a escola mais útil para o entendimento é a escola da rua, escola amarga que deixa no paladar um prazer agridoce e ensina tudo aquilo que os livros nunca dizem. Porque, lamentavelmente, os livros são escritos por poetas ou idiotas.

Ainda assim, muito tempo passará até que as pessoas percebam a utilidade de uns banhos de rua e multidão. No dia em que aprenderem isso serão mais sábias, mais perfeitas e, sobretudo, mais indulgentes. Sim, indulgentes. Porque mais de uma vez pensei que a magnífica indulgência que fez de Jesus eterno derivava de sua contínua vida na rua. E de sua comunhão com homens bons ou maus e com mulheres que eram ou não honestas.


Roberto Arlt

argentino, nasceu em 1900 e morreu em 1942. Enquanto tentava a sorte como inventor (chegou a patentear um tipo de meia feminina com calcanhares de borracha), escreveu romances, peças, contos e crônicas.

Caique Zen

é coeditor da Vigília.

8 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Roberto Arlt, Macedonio Fernández, Maksim Gorki, Jack London, Jean Richepin, Francisco de Goya. Publicação: Caique Zen. Tradução: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


O leitor frígido

O leitor frígido

Mais um texto sobre a crise do romance

[1]

Sempre me encheu de inveja o relato de Nelson Rodrigues sobre seu primeiro encontro com Dostoiévski: “Um dia, meu pai trouxe para casa o Crime e castigo. Fui ler o livro no quarto trancado. Comecei às sete da noite, antes do jantar, e não jantei. Não parei mais. Eram oito horas da manhã, ou nove, quando os deixei na Sibéria. Ou por outra: era eu que estava na Sibéria”.

Mais de uma vez comecei a ler Crime e castigo, sempre sem chegar ao fim. Por um motivo qualquer, interrompia a leitura prometendo retomá-la o mais breve possível, atento à recomendação (borgiana talvez) de que é preciso ler Dostoiévski ainda na juventude.

Por fim – é duro assumir – capitulei covardemente. Assisti à minissérie da BBC, com o britânico John Simm estrelando Raskólnikov, e me dei por contente. Há algo no romance, afinal, mais forte que a linguagem, algo que sobrevive na transição da escrita para a imagem, e não há dia que passe sem me lembrar de alguma cena, cenário ou personagem de Crime e castigo.

Mas não tem a ver com Dostoiévski a minha inveja do velho Nelson. Não é o livro em si, mas a cena de leitura, a absorção mística com que Nelson atravessa a noite decifrando os signos, que me enche de admiração.

Há tempos não me sinto transferido para dentro de um romance dessa maneira. Boas leituras há, é verdade, algumas até muito interessantes; mas nem uma delas capaz de me fazer sacrificar o jantar ou uma noite de sono.

[2]

Quando penso em minha recente incapacidade de me deixar impactar por um livro, busco conforto em racionalizações de todo tipo; a preferida delas, sem dúvida, a que versa sobre a crise da literatura, especialmente sobre a crise do romance. Há quantos autores contemporâneos, afinal, que merecem ser lidos? Quantos sobreviverão ao tempo? Sendo o tempo tão escasso, por que não ler somente os clássicos? – pergunto a mim mesmo com a arrogância do leitor blasé, assistindo indiferente à luta dos escritores. E, convenientemente, esqueço que minha falta de entusiasmo se estende até os livros mais incontestáveis.

Mas o Balzac abandonado sobre a mesa, A montanha mágica fazendo as vezes de apoio para o notebook e os sete tomos de Proust decorando a estante sempre vêm lembrar a verdade que me esforço em negar: sou um leitor frígido.
Um leitor frígido, sim, mas não por natureza. Afinal, também já tive minhas noites rodriguianas, repletas de prazeres literários. Nem sempre abandonei livros ao meio, nem sempre abri um livro apenas como quem mantém um hábito.

[3]

Mas antes de falar em crise da literatura, é preciso falar em crise da leitura. Um sistema literário, como mostrou Antonio Candido, é feito de autores, obras e leitores. Sem autores não há obras, sem obras não há leitores, e sem leitores não há autores. O sistema literário é um organismo vivo, com estruturas que interagem fisiologicamente. Qualquer desordem em uma dessas estruturas trará consequências para o todo.

O lugar-comum (verdadeiro) de que todo grande autor é antes de mais nada um grande leitor confirma essa ideia de sistema. Como formar autores sem formar leitores?

Estamos no Brasil, é claro, lugar onde o sistema literário – por motivos que todos sabemos (ou deveríamos saber) – sempre se manteve a duras penas. Sempre tivemos poucos leitores. A crise, no entanto, parece ser ainda mais profunda, atingindo estratos sociais que, mesmo com amplas condições de acesso, se interessam cada vez menos pela literatura. E contrariando a síndrome de vira-lata vigente é preciso dizer: isso não ocorre só no Brasil.

Assistimos a um processo – inédito talvez – de regressão da leitura, que para além do fracasso em ampliar seu público, perde espaço entre grupos onde já gozou de alguma popularidade, ainda que superficial. E, entre os leitores que restam, muitas vezes predomina a frigidez de que me acuso: a leitura como mero hábito, como costume social meio anacrônico mas digno de respeito, e que portanto deve ser preservado.

Como os personagens de Fahrenheit 451, defendemos a literatura em tempos absolutamente hostis. Um ato belo, é verdade, mas também triste, pois é sempre ambígua a defesa de um patrimônio: quando tombamos um monumento, por um lado preservamos o direito permanente de renovar o maravilhamento que experimentamos ao contemplá-lo. Mas, por outro, não corremos também o risco de visitá-lo como meros turistas, registrando tudo com nossas câmeras indiferentes?

[4]

Em After the future, Franco Berardi separa os conceitos de ciberespaço – ilimitado e em processo de constante expansão – e de cibertempo – a habilidade humana da atenção que processa informações no tempo e que, sendo orgânica, cultural e subjetiva, pode ser tudo, menos ilimitada. Dito de modo mais simples, o ciberespaço é a totalidade da informação disponível no mundo digital, e o cibertempo, nossa capacidade limitada de consumir essa informação.

O cibertempo, é claro, não consegue abarcar o ciberespaço. Milhões de usuários e meios de comunicação alimentam o Big Data ininterruptamente, enquanto nossa capacidade de absorver dados – sejam simples como um meme ou complexos como um parágrafo da Crítica da razão – continua basicamente a mesma de nossos antepassados, sem avanços consideráveis.

A passagem do modelo de página ou fórum, predominante no começo da internet, para o atual modelo do feed infinito ilustra bem a discrepância entre cibertempo e ciberespaço. Podíamos ler um tópico do Orkut do início ao fim, mais ou menos como lemos uma matéria de jornal ou um artigo, mas dificilmente podemos aplicar esse verbo ao ato de rolar a timeline do Facebook buscando um fragmento de informação que mereça a nossa curtida. O caos que iguala gatinhos fofos e selfies com denúncia social e crítica de arte é infinito. Jamais chegaremos ao fim de nossa timeline.

O ciberespaço se expande; o cibertempo permanece o mesmo. Sujeita à hiperaceleração dos “infoestímulos”, nossa mente ou entra em pânico ou bloqueia sua sensibilidade. Para não colapsar, desenvolvemos uma atitude blasé. Não deixamos de ler a matéria que denuncia a relação entre a guerra no Congo e os smartphones ou a notícia sobre a venda de escravos em feiras-livres de São Paulo. Não deixamos de ler nem de compartilhar – e mesmo de nos impactar – por informações como essas. Mas, registrado algum sentimento (vergonha, indignação, descrença na humanidade), seguimos em frente. Quando falamos em crise da leitura, é preciso levar em conta essa perda de sensibilidade, certamente transferida do ciberespaço para a literatura.

A sensibilidade, diz Franco Berardi, é “a habilidade de compreender o que as palavras não dizem”, o poder de interpretar signos não verbais que fundamenta a empatia. “Essa faculdade, que permite ao ser humano entender mensagens ambíguas no contexto das relações sociais, parece estar prestes a desaparecer. Testemunhamos o desenvolvimento de uma geração de humanos à qual falta sensibilidade, a habilidade de compreender o outro e decodificar signos não codificados em um sistema binário”.

E se aceitamos que o romance, como quer James Wood, é sobretudo empatia e complexidade – isto é, “a melhor apresentação da complexidade de nossa estrutura moral” e a consequente empatia ao reconhecer essa complexidade –, devemos considerar que a crise da leitura passa pelo modo como navegamos pelo ciberespaço.

Nada mais distante de um monólogo interior, que disseca e expõe a psique de um personagem, do que a superficialidade de uma selfie. Nada mais distante da profundidade de análise do romance realista do que o imediatismo do mercado de notícias. Nada mais distante das contradições humanas presentes na boa ficção do que os bate-bocas virtuais que opõem petralhas e coxinhas. Não estaríamos nos acostumando com a futilidade das redes sociais e, consequentemente, nos desinteressando pela literatura?

A pergunta, portanto, não é “por que a literatura deixou de nos apaixonar?”, mas “por que perdemos a capacidade de nos apaixonar pela literatura?”. Ou, dito de outro modo: por que nos tornamos tão frígidos?


Caique Zen

Coeditor.

31 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index: Nelson Rodrigues, Antonio Candido, Franco Berardi, James Wood. Publicação: Caique Zen. Revisão: Mônica Silva, Caio Ramalho.


Hora de football

Hora de football

Uma crônica de João do Rio

É o novo ground.[1] O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma. Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça quando um dos meninos arranjava um haltere. Estava perdido. Rapaz sem pincenez,[2] sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era homem estragado.

E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports. O Flamengo era o parapeito sobre o mar. A sede do club estava a dois passos da casa de Júlio Furtado, que protetoramente amparava o delírio muscular da rapaziada. As pessoas graves olhavam “aquilo” a princípio com susto. O povo encheu-se de simpatia. E os rapazes passavam de calção e camisa-de-meia dentro do mar a manhã inteira e a noite inteira.

Então, de repente, veio outro club, depois outro, mais outro, enfim, uma porção. O Boqueirão, a Misericórdia, Botafogo, Icaraí, estavam cheios de centros de regatas. Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing,[3] era a paixão dos sports. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos. Faltava apenas a sagração de um poeta. Olavo Bilac escreveu a sua celebrada ode “Salamina”.

– Rapazes, foi assim que os gregos venceram em Salamina! Depois disso, há dezesseis anos, o Rio compreendeu definitivamente a necessidade dos exercícios, e o entusiasmo pelo football, pelo tennis, por todos os outros jogos – sem diminuir o da natação e das regatas – é o único entusiasmo latente do carioca. Rendamos homenagem às Regatas do Flamengo!

O meu velho amigo, fraco e pálido, falava com ardor. Interrompeu-se para tossir. Continuou:

– Pois é este club que inaugura hoje o seu campo de jogos. Haverá acontecimento maior? O Rio estará todo inteiro ali… – Engasgou-se.

O automóvel que passara a correr pelo palácio de José Carlos Rodrigues, onde se realizava a primeira recepção do inverno do ilustre jornalista, estacara. Estávamos à porta do novo campo de jogos. E o meu velho amigo precipita-se. A custo acompanhei-o por entre a multidão e, imprensado, quase esmagado, icei-me à arquibancada. Mas o aspecto era tal na sua duplicidade, que logo eu não soube se devia olhar o jogo do campo em que Galo[4] triunfava ou se devia comover-me diante do frenesi romano da multidão.

Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football! Tenho assistido a meetings[5] colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes gestas de saúde, de força e de ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo, o entusiasmo, a ebriez da multidão assim. Só pensando em antigas leituras, só recordando o Coliseu de Roma e o Hipódromo de Bizâncio.[6]

O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano, era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo.

– Está uma arquibancada estupenda! – murmurou-me Isaac Elbas.

Pinto Lima, no outro extremo, com as duas gentilíssimas filhas, dizia-me adeus, e o dr. Arnaldo Guinle, do Fluminense, parecia almejar a vitória do Fluminense.[7]

Os gritos, as exclamações cruzavam-se numa balbúrdia. Os jogadores destacavam-se mais na luz do ocaso. E de todos os lados subia o clamor da turba, um clamor de circo romano, um clamor de Hipódromo no tempo em que era basilissa Teodora, a maravilhosa…[8]

Nervoso, agitado, sem querer, ia também gritar por Galo, que vencia e que eu via pela primeira vez. Mas o delírio chegara ao auge. O meu velho amigo dizia, quase desmaiado:

– Venceu o Flamengo num score[9] de quatro a um…

À porta quinhentos automóveis buzinavam, bufavam, sirenavam. E as duas portas do campo golfavam para a frente do Guanabara mais de seis mil pessoas arrasadas da emoção paroxismada do football.

 

*

 

[1] Novo ground = novo campo.

[2] Pince-nez = pincenê (óculos sem haste), em francês.

[3] Rowing = remo.

[4] Referência ao jogador Armando de Almeida, o “Galo”, veterano dos primeiros times do Flamengo.

[5] Meetings = encontros. Neste caso, encontros esportivos.

[6] Hipódromo de Constantinopla, onde se realizavam grandes espetáculos para o povo.

[7] A sede do Clube Fluminense fora construída na chácara do empresário Arnaldo Guinle, nas Laranjeiras.

[8] Basilissa (de “basileus”, título usado pelos imperadores bizantinos) Teodora = mulher do Imperador Justiniano I (527-565), cujo reinado assinalou um dos períodos mais brilhantes da história bizantina e que teve grande influência de Teodora.

[9] Score = escore, contagem.


João do Rio

viveu entre 1881 e 1921 no Rio de Janeiro. Jornalista, ingressando na imprensa ainda moço, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou Paulo Barreto, logo se tornou célebre com o pseudônimo. Sua atividade, febril, abarcou os mais diversos rumos. Em reportagens, entrevistas e ensaios, nos deu as tendências literárias da época, o panorama das religiões primitivas cariocas, ou a galeria das figuras de uma conferência de paz. Talvez esse cunho documental seja o mais importante do seu legado.

15 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Dossiê: Copa russa. Index: João do Rio. Publicação: Luan Maitan, Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Elogio da derrota

Elogio da derrota

Uma ode ao choro de alambrado

Em “Nota para um conto fantástico”, Jorge Luis Borges diz haver na derrota uma dignidade que a vitória não conhece. Concordo. Mas Borges, não fosse tão indiferente ao futebol, poderia ir mais além. Pois no esporte jogado com os pés, há derrotas não só mais dignas, mas também muito mais gloriosas que a própria vitória. E não falo aqui de meros prêmios de consolação.

O caráter do verdadeiro torcedor é forjado pela derrota, pelo choro no alambrado. Quem quiser amar um time, deverá amá-lo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. E há clubes que chegam a construir toda a sua mística em torno da derrota. No Brasil, temos na Ponte Preta o caso mais notório. Em 2020, o clube campineiro completará 120 anos sem um título. E falem o que quiser: entre o Bugre e a Macaca, somos todos alvinegros.

Isso para não falar em clubes vitoriosos que, por vocação, se orgulham mais de suas derrotas. Meu pai, um corintiano fanático que viveu parte dos 23 anos de jejum e cresceu ouvindo de meu avô a história épica das derrotas para o Santos de Pelé, me dizia em 2012, na final da Libertadores, que não ficaria triste se perdêssemos aquele título para o Boca Juniors. A mística, segundo ele, só aumentaria, e seríamos mais felizes ainda quando chegasse a vitória – como fomos felizes em 77, quando lavamos a alma sem eira nem beira. Forjado no choro de alambrado, meu pai não olhava para o jogo, mas para a História.

E o que dizer então do Botafogo, o clube que recusa a triste vulgaridade da vitória a qualquer custo? Também o Fogão ostenta um jejum, 21 anos, e seus torcedores se autodenominam sofredores. Pode haver coisa mais bela? Até seu apelido, “Estrela Solitária”, recende a melancolia. Garrincha e Heleno de Freitas são ídolos feitos à sua imagem e semelhança. E Borges, se gostasse de futebol e fosse brasileiro, certamente seria botafoguense.

Quanto às seleções, não posso deixar de dizer que a Espanha pode até ter alegrado seu povo ao ganhar a Copa de 2010, mas todo o resto do mundo se sentiu traído com essa vitória. Ganhar que ganhem as Itálias e as Inglaterras, com seu futebol pragmático. Mas a Espanha?! A função da Espanha, até então, era levar poesia às copas do mundo. E não há nada de menor nisso. Em 2010, apesar de derrotada, quem ganhou foi a Holanda. Hoje, oito anos depois, a Laranja Mecânica continua ostentando a sua mística.

E falando em Espanha, um bom exemplo de que a derrota pode ser mais gloriosa que a vitória está em sua poesia – sua poesia feita com palavras, não com os pés. Falo de dois poemas: “Ode a Platko”, de Rafael Alberti, e “Contraode ao poeta da Real Sociedad”, de Gabriel Celaya. Ambos os poemas tratam da histórica final da Copa del Rey de 1928, entre Real Sociedad e Barcelona.

Alberti não se interessava tanto por futebol, mas, na ocasião, passava uma temporada na Cantábria, local da primeira partida da final. Acompanhando ninguém mais ninguém que Carlos Gardel, o poeta acabou indo ao jogo. Seu poema é uma ode olímpica, à la Pindaro, dedicada a Franz Platko, lendário goleiro do Barcelona. O mote é uma breve cena do jogo, em que Platko, depois de uma dividida com o atacante da Real Sociedad, levanta ensanguentado em meio aos jogadores adversários, agarrando a bola como quem leva à sua polis o velocino de ouro. Eternizado pela ode de Alberti, o goleiro entraria para a história como o herói daquela final, vencida pelos catalães após três jogos acirradíssimos, violentos até.

Gabriel Celaya, então com 18 anos, também assistiu àquela primeira partida. Mas seu poema, como indica o título, é uma “contraode”, uma visão desencantada do jogo, em tudo distinta à de Alberti. Celaya – nem preciso dizer – era torcedor da Real Sociedad, e em seu poema o foco passa de Platko, o herói épico, para a figura do juiz ladrão, clássico personagem do drama futebolístico.

Pessoalmente, prefiro o poema de Celaya, que cheira mais a cancha, mais a choro de alambrado e a ressentimento curtido em barris de carvalho do que a grandiloquente ode de Alberti. Traduzo-o aqui como prova cabal da superioridade da derrota:

E lembro também nossa tripla derrota
naqueles jogos contra o Barcelona,
que se ganharam de nós, não foi por Platko
mas por dez pênaltis claros, roubados.
Camisas azuis e brancas voavam
no ar, felizes, como pássaros livres
assaltavam a meta defendida com fúria
e nada pôde então toda a inteligência
e toda a entrega dos bascos
que lutavam contra a raiva cega
e o barro e as entradas criminosas e um árbitro comprado.
Disso todos lembramos, e talvez melhor que você,
meu querido Alberti, me lembro eu,
porque lá estava e porque vi o que vi –
o que você esqueceu, mas sempre
recordaremos: ganhamos. Justiça feita, ganhamos,
e há coisas que não mudam os falsos resultados.


Caique Zen

Coeditor.

8 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index:  Jorge Luis Borges, Rafael Alberti, Gabriel Celaya. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


O dilema de Neymar

O dilema de Neymar

O nosso Hamlet

Neymar está para o futebol como Hamlet para a literatura. Me explico: Hamlet deve matar Cláudio, seu tio, e se vingar do pai. A missão é clara. Neymar deve ganhar o hexa e vingar o 7×1, provando que ainda podemos ser os melhores em alguma coisa, ainda que haja algo de podre no reino da Dinamarca. A missão é clara.

Mas tanto Hamlet quanto Neymar estão perdidos no prodigioso mundo de suas cabeças. Hamlet perdido em elucubrações sobre tudo e sobre todos – a natureza humana, a vida e a morte, o suicídio. Neymar perdido entre parças, penteados excêntricos e interesses monetários. Um perfeito pós-humano, movido mais a likes e views do que a dribles e gols.
Quatro séculos depois de Shakespeare, a hipertrofia da consciência que fazia Hamlet protelar a vingança do pai pode acabar com o futebol de Neymar. Pois para jogar bola ou matar o tio é preciso deixar a autoconsciência em casa. Dentro das quatro linhas, por noventa minutos, não há espaço para o ego nem tempo para pensar em fazer história.

Todo grande atleta, em seus melhores momentos, parece experimentar a absorção mística de um monge tibetano em plena meditação. Falo de iluminados como Federer e Nadal, capazes de aniquilar o ego e manter a concentração durante horas, ou de Bolt e Phelps, que fazem o mesmo, mas de forma ainda mais intensa, por alguns segundos. Para esses bodhisattvas, no momento sagrado da competição, há mente mas não há mente, há corpo mas não há corpo. Numa Copa do Mundo, cultivar um estado parecido de transcendência é essencial.

Mais além do desempenho esportivo, vale lembrar que a autoconsciência exacerbada de Neymar vai contra seus próprios interesses. É sabido que o jogador aspira ao cargo de embaixador universal e legítimo herdeiro da linhagem do “futebol-moleque”, cujos grandes santos padroeiros são Garrincha e, mais recentemente, Ronaldinho Gaúcho. Mas, ao agir em campo de acordo com uma semiótica pensada em seus mínimos detalhes (da carretilha para a galera do Youtube à comemoração-com-recado-para-os-detratores), Neymar parece ignorar que o grande atributo dessa discutível abstração chamada “futebol-moleque” sempre foi a espontaneidade.

E vejam: quando se fala no fla-flu entre admiradores e críticos de Neymar, há muito mais em jogo do que parece. O futebol, como bem sabem os sociólogos, define nossa identidade. E quando Neymar degrada o refinado senso estético do “futebol-moleque” com firulas inócuas e confunde inteligência com malandragem, toda a imagem de um povo é manchada aos olhos do mundo. Pode parecer exagero, mas é assim que nos sentimos, ofendidos em nosso já maltratado senso de nacionalidade.

Mergulhado em sua autoficção, Neymar tira de nós, brasileiros, a possibilidade de amar alguém que mostre ao mundo que existimos. Daí as paixões que envolvem seu nome, do ódio ao amor.

Hoje, jogamos contra a Sérvia. Neymar talvez se esqueça de si mesmo e mostre o que o levou à Rússia. Veremos. Até lá, somos o Brasil de Coutinho. Sem Hamlet.


Caique Zen

Coeditor.

27 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index: William Shakespeare. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Os russos somos nós

Os russos somos nós

O espelho multiforme da alma russa

Do “fundador da literatura nacional russa”, Alexander Púchkin (1799-1837), até o “primeiro modernismo” de Tchekhov e Górki (início do século XX), a literatura russa (ao menos até sua virtual devastação a partir do totalitarismo stalinista dos anos 1930), deu ao mundo uma enormidade de obras que se tornaram “clássicos” da literatura universal. Por clássico não se entende aqui, obviamente, o estilo que a história literária dispõe antes do romantismo e do naturalismo. Trata-se, na verdade, de uma acepção mais geral, apontando em certa tradição os autores que, apesar do tempo em que escreveram, reencontram no presente elementos e potências que os tornam contemporâneos.

Além disso, no caso dos clássicos russos, para além de suas diferenças de época e estilo, há algo que os unifica e os contrapõem à nova literatura russa nascida depois, com a Revolução e as vanguardas. É que eles são, ou pretendem ser, nas palavras de um provérbio russo usado por Gógol (1809-1852) em uma epígrafe, um “espelho”, feito para lançar alguma luz sobre as sombras da sociedade russa de seu tempo.[1]

Mas como a sociedade é feita de indivíduos, essas luzes se lançariam não apenas sobre a sociedade em si, ou seja, as formas e os modos das interações de classe e interpessoais (cujo exemplo máximo é a obra de Tolstói), mas também sobre a própria “alma russa” – certa especificidade eslava quase metafísica, que marcaria e determinaria o caráter dos membros de tal sociedade (numa palavra, a “russificidade”).

Ocorre que literatura não é, felizmente, sociologia. E se tampouco é psicologia, isso não impede que ao menos a grande literatura tenha o poder de ser mais do que apenas literatura. Ela pode então, de fato, espelhar essa “alma” – que é russa em parte, e em parte universal, para parafrasear a famosa frase atribuída a Tolstói (1828-1910).[2] Será, em todo caso, dessa literatura que emergirá aquele considerado, ao lado de Shakespeare, o maior analista da psique do homem moderno, Dostoiévski (1821-1881).

Um fractal é uma figura geométrica em que cada parte recupera a estrutura do todo, assim como a figura de ramos divergentes de um pequeno galho incorpora a figura maior de toda a árvore. De modo semelhante, cada texto da grande literatura russa contém toda a grandeza da literatura russa de seu tempo. Um espelho multifacetado, além de cristalino o bastante para também lançar suas luzes sobre as sombras de nosso próprio tempo.

Mas, espelho ou não, literatura é forma literária. A literatura russa posterior ao século XIX (o dos grandes clássicos) seria dominada pelos radicais e radicalmente fundamentais experimentos do período vanguardista – iniciados na primeira década do século XX, e abruptamente encerrados nos anos 1930, com a imposição do “realismo socialista”. Felizmente, houve tempo para o primeiro modernismo russo, entre muitas outras coisas, revolucionar a narrativa curta.

Se na vida civil Tchekhov (1860-1904) era um médico que atuava como clínico, na literatura foi um cirurgião que amputou do conto tudo que não fosse sua medula. Os contos de Tchekhov, como regra, não têm enredo, “intriga”, nem caminham para um clímax ou uma resolução. São um recorte de tempo e de circunstâncias, uma câmera que de repente passa a acompanhar seus personagens (principalmente suas falas cotidianas) e de repente os abandona. O radical realismo de Tchekhov determina a própria estrutura (ou quase desestrutura) de suas narrativas. William Gerhardie, escritor, crítico e acadêmico anglo-russo (1895-1977), faz uma síntese precisa ao dizer que a grande conquista de Tchekhov foi o abandono do “enredo de eventos” por algo “desfocado, interrompido; […] a fluidez e a aleatoriedade dão forma às histórias”.[3] O conto do século XX, de Hemingway a Cortázar, para citar apenas dois marcos possíveis, é fortemente tchekhoviano.

Já o romance será, em grande parte, dostoievskiano. Dostoiévski, a fim de dotar a prosa ficcional de instrumentos calibrados para registrar os mecanismos mentais do indivíduo moderno (e não a sociedade moderna, como fizeram o realismo e o naturalismo), teria, entre outras coisas, de criar ritmos narrativos e uma maleabilidade de linguagem (prenunciando o “fluxo de consciência”) que abririam caminho tanto para Joseph Conrad, Joyce, Virgínia Woolf e Faulkner quanto para Phillip Roth, ou seja, a ficção mainstream do século XX.

O “realismo socialista” de Stálin foi venenoso o bastante para quase matar a literatura russa em seu próprio solo. Mas não para impedir que seu vigor viesse a nutrir boa parte da literatura mundial. Assim como Shakespeare é um dos “inventores” do homem moderno, o homem “hamletiano”, cuja autoespeculação hipertrófica atrofia sua resolução e inibe sua ação, a literatura russa é uma das “criadoras” do homem contemporâneo. Entre outras coisas, somos fragmentários, circunstanciais e inconclusos como Tchekhov e presas de densas incertezas cheias de palavras como Dostoiévski (além de incuravelmente saudosos de certa grandeza utópica de Tolstói). Os russos, de alguma forma, somos nós.

 

*

 

[1] “Não culpe o espelho se a cara é torta”. Em contraponto, a nova literatura russa do início do século XX teria outros objetos e objetivos: não refletir o presente e muito menos o passado, mas educar as massas para o futuro socialista, ajudar a criar o “homem novo” nascido da Revolução e adequar a linguagem aos tempos industriais.

[2] “Se pretende ser universal, comece por pintar a sua aldeia”.

[3] Anton Chekhov: a critical study (1924), citado por William Boyd, “A Chekhov lexicon”, The Guardian, 3 de julho de 2004 (acessível em < http://www.theguardian.com/books/2004/jul/03/classics>).

 

*

 

Este texto, com modificações, foi primeiramente publicado como introdução ao volume Os russos, antologia dos maiores autores da literatura russa do século XIX, publicado pela Hedra, em 2015, com organização de Luis Dolhnikoff. Sua publicação na Vigília é fruto da parceria com a editora Hedra.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).


Os escritores e o futebol

Os escritores e o futebol

Do repúdio à paixão, a bola e as letras

[1]

Machado de Assis não escreveu sobre futebol. O ludopédio ainda não havia se alastrado pelo país enquanto viveu o Bruxo. Sua estética do drible, no entanto, prenuncia Garrincha. O vai e vem dos romances machadianos, com direito a piparotes no leitor, é o mais perfeito correlato linguístico do vai e vem do Anjo das Pernas Tortas, que chegava a retardar o gol para dar meia-volta e driblar novamente o marcador já caído. Garrincha, além do mais, teve sua vida escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Ninguém encarnou melhor do que ele a frase de Paulo Prado sobre o Brasil e os brasileiros: “Numa terra radiante vive um povo triste”. Seu estilo foi o de Machado, mas a sua biografia trágica foi a de um Lima Barreto. E diga-se de passagem: goste ou não de futebol, quem não leu a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, Estrela solitária, está perdendo tempo.

[2]

Mas Lima Barreto odiava o futebol, chegando a fazer parte de uma liga contra o esporte bretão. Apesar dessa aversão, Lima nos ensinou a ver mais do que a bola, pensando o futebol para além das quatro linhas. O elitismo, a violência e o racismo que apontava no ludopédio de seu tempo certamente estavam lá, como estão no futebol de hoje. O que Lima diria da transformação de nossos estádios em arenas, da selvageria de nossas torcidas e do embranquecimento de nossos craques?

[3]

A aversão de nosso Lima ao futebol lembra a aversão do argentino Jorge Luis Borges, que teria sido um grande torcedor do River Plate e um cronista esportivo para a eternidade, ao melhor estilo Nelson, se tivesse se deixado arrebatar pela magia. “O futebol é popular porque a estupidez é popular”, disse certa vez, e aos 79 anos chegou a cometer a heresia de dar uma conferência sobre a Imortalidade no exato momento em que a seleção argentina abria a Copa de 78, sediada no país.

[4]

Como metáfora futebolística, a conferência de Borges foi um perfeito gol contra. E aqui chegamos a Bolaño, torcedor do extinto Ferrobádminton, no Chile (pode haver algo mais bolañesco do que torcer para um time extinto?), e do Barcelona, na Espanha: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro”.

[5]

Mas voltemos aos escritores brasileiros. Graciliano Ramos, em 1921, pensava que o futebol não vingaria. No litoral, até podia ser; mas no sertão, terra avessa a estrangeirismos, nem um mês duraria a moda.

Mário e Oswald de Andrade, até onde sei, deram pouco bola ao ludopédio. Uma pena. Mas seus sucessores modernistas não deixaram barato.

Os textos sobre futebol do vascaíno Drummond podem ser lidos em Quando é dia de futebol. Já João Cabral de Melo Neto foi meia do time juvenil do Santa Cruz e escreveu belíssimos poemas que giram em torno do futebol. Nesses poemas – que espero um dia sejam publicados em conjunto, em forma de plaquette – João Cabral faz na poesia o que Nelson fez na crônica.

Rachel de Queiroz, vascaína como Drummond, também escreveu sobre o futebol. E Clarice Lispector tem um conto, “À procura de uma dignidade”, que se passa nos subterrâneos do Maracanã.

Há certamente vários outros escritores que se debruçaram sobre o ludopédio, e há também jogadores que se aventuraram pelas letras. Mas meu repertório literário sempre foi menor que meu repertório futebolístico, e deixo ao leitor o prazer da pesquisa.

[6]

E, por fim, Nelson Rodrigues, o Pelé da crônica esportiva (sem esquecer de seu irmão, Mário Filho, que devemos louvar todos os dias). As mil melhores frases já escritas sobre futebol saíram da pena de Nelson. A melhor delas resume todo o futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

O que seria de Borges se tivesse lido em um jornal essa frase?


Caique Zen

Coeditor.