Hora de football

Hora de football

Uma crônica de João do Rio

É o novo ground.[1] O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma. Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça quando um dos meninos arranjava um haltere. Estava perdido. Rapaz sem pincenez,[2] sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era homem estragado.

E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports. O Flamengo era o parapeito sobre o mar. A sede do club estava a dois passos da casa de Júlio Furtado, que protetoramente amparava o delírio muscular da rapaziada. As pessoas graves olhavam “aquilo” a princípio com susto. O povo encheu-se de simpatia. E os rapazes passavam de calção e camisa-de-meia dentro do mar a manhã inteira e a noite inteira.

Então, de repente, veio outro club, depois outro, mais outro, enfim, uma porção. O Boqueirão, a Misericórdia, Botafogo, Icaraí, estavam cheios de centros de regatas. Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing,[3] era a paixão dos sports. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos. Faltava apenas a sagração de um poeta. Olavo Bilac escreveu a sua celebrada ode “Salamina”.

– Rapazes, foi assim que os gregos venceram em Salamina! Depois disso, há dezesseis anos, o Rio compreendeu definitivamente a necessidade dos exercícios, e o entusiasmo pelo football, pelo tennis, por todos os outros jogos – sem diminuir o da natação e das regatas – é o único entusiasmo latente do carioca. Rendamos homenagem às Regatas do Flamengo!

O meu velho amigo, fraco e pálido, falava com ardor. Interrompeu-se para tossir. Continuou:

– Pois é este club que inaugura hoje o seu campo de jogos. Haverá acontecimento maior? O Rio estará todo inteiro ali… – Engasgou-se.

O automóvel que passara a correr pelo palácio de José Carlos Rodrigues, onde se realizava a primeira recepção do inverno do ilustre jornalista, estacara. Estávamos à porta do novo campo de jogos. E o meu velho amigo precipita-se. A custo acompanhei-o por entre a multidão e, imprensado, quase esmagado, icei-me à arquibancada. Mas o aspecto era tal na sua duplicidade, que logo eu não soube se devia olhar o jogo do campo em que Galo[4] triunfava ou se devia comover-me diante do frenesi romano da multidão.

Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football! Tenho assistido a meetings[5] colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes gestas de saúde, de força e de ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo, o entusiasmo, a ebriez da multidão assim. Só pensando em antigas leituras, só recordando o Coliseu de Roma e o Hipódromo de Bizâncio.[6]

O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano, era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo.

– Está uma arquibancada estupenda! – murmurou-me Isaac Elbas.

Pinto Lima, no outro extremo, com as duas gentilíssimas filhas, dizia-me adeus, e o dr. Arnaldo Guinle, do Fluminense, parecia almejar a vitória do Fluminense.[7]

Os gritos, as exclamações cruzavam-se numa balbúrdia. Os jogadores destacavam-se mais na luz do ocaso. E de todos os lados subia o clamor da turba, um clamor de circo romano, um clamor de Hipódromo no tempo em que era basilissa Teodora, a maravilhosa…[8]

Nervoso, agitado, sem querer, ia também gritar por Galo, que vencia e que eu via pela primeira vez. Mas o delírio chegara ao auge. O meu velho amigo dizia, quase desmaiado:

– Venceu o Flamengo num score[9] de quatro a um…

À porta quinhentos automóveis buzinavam, bufavam, sirenavam. E as duas portas do campo golfavam para a frente do Guanabara mais de seis mil pessoas arrasadas da emoção paroxismada do football.

 

*

 

[1] Novo ground = novo campo.

[2] Pince-nez = pincenê (óculos sem haste), em francês.

[3] Rowing = remo.

[4] Referência ao jogador Armando de Almeida, o “Galo”, veterano dos primeiros times do Flamengo.

[5] Meetings = encontros. Neste caso, encontros esportivos.

[6] Hipódromo de Constantinopla, onde se realizavam grandes espetáculos para o povo.

[7] A sede do Clube Fluminense fora construída na chácara do empresário Arnaldo Guinle, nas Laranjeiras.

[8] Basilissa (de “basileus”, título usado pelos imperadores bizantinos) Teodora = mulher do Imperador Justiniano I (527-565), cujo reinado assinalou um dos períodos mais brilhantes da história bizantina e que teve grande influência de Teodora.

[9] Score = escore, contagem.


João do Rio

viveu entre 1881 e 1921 no Rio de Janeiro. Jornalista, ingressando na imprensa ainda moço, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou Paulo Barreto, logo se tornou célebre com o pseudônimo. Sua atividade, febril, abarcou os mais diversos rumos. Em reportagens, entrevistas e ensaios, nos deu as tendências literárias da época, o panorama das religiões primitivas cariocas, ou a galeria das figuras de uma conferência de paz. Talvez esse cunho documental seja o mais importante do seu legado.

15 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Dossiê: Copa russa. Index: João do Rio. Publicação: Luan Maitan, Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Elogio da derrota

Elogio da derrota

Uma ode ao choro de alambrado

Em “Nota para um conto fantástico”, Jorge Luis Borges diz haver na derrota uma dignidade que a vitória não conhece. Concordo. Mas Borges, não fosse tão indiferente ao futebol, poderia ir mais além. Pois no esporte jogado com os pés, há derrotas não só mais dignas, mas também muito mais gloriosas que a própria vitória. E não falo aqui de meros prêmios de consolação.

O caráter do verdadeiro torcedor é forjado pela derrota, pelo choro no alambrado. Quem quiser amar um time, deverá amá-lo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. E há clubes que chegam a construir toda a sua mística em torno da derrota. No Brasil, temos na Ponte Preta o caso mais notório. Em 2020, o clube campineiro completará 120 anos sem um título. E falem o que quiser: entre o Bugre e a Macaca, somos todos alvinegros.

Isso para não falar em clubes vitoriosos que, por vocação, se orgulham mais de suas derrotas. Meu pai, um corintiano fanático que viveu parte dos 23 anos de jejum e cresceu ouvindo de meu avô a história épica das derrotas para o Santos de Pelé, me dizia em 2012, na final da Libertadores, que não ficaria triste se perdêssemos aquele título para o Boca Juniors. A mística, segundo ele, só aumentaria, e seríamos mais felizes ainda quando chegasse a vitória – como fomos felizes em 77, quando lavamos a alma sem eira nem beira. Forjado no choro de alambrado, meu pai não olhava para o jogo, mas para a História.

E o que dizer então do Botafogo, o clube que recusa a triste vulgaridade da vitória a qualquer custo? Também o Fogão ostenta um jejum, 21 anos, e seus torcedores se autodenominam sofredores. Pode haver coisa mais bela? Até seu apelido, “Estrela Solitária”, recende a melancolia. Garrincha e Heleno de Freitas são ídolos feitos à sua imagem e semelhança. E Borges, se gostasse de futebol e fosse brasileiro, certamente seria botafoguense.

Quanto às seleções, não posso deixar de dizer que a Espanha pode até ter alegrado seu povo ao ganhar a Copa de 2010, mas todo o resto do mundo se sentiu traído com essa vitória. Ganhar que ganhem as Itálias e as Inglaterras, com seu futebol pragmático. Mas a Espanha?! A função da Espanha, até então, era levar poesia às copas do mundo. E não há nada de menor nisso. Em 2010, apesar de derrotada, quem ganhou foi a Holanda. Hoje, oito anos depois, a Laranja Mecânica continua ostentando a sua mística.

E falando em Espanha, um bom exemplo de que a derrota pode ser mais gloriosa que a vitória está em sua poesia – sua poesia feita com palavras, não com os pés. Falo de dois poemas: “Ode a Platko”, de Rafael Alberti, e “Contraode ao poeta da Real Sociedad”, de Gabriel Celaya. Ambos os poemas tratam da histórica final da Copa del Rey de 1928, entre Real Sociedad e Barcelona.

Alberti não se interessava tanto por futebol, mas, na ocasião, passava uma temporada na Cantábria, local da primeira partida da final. Acompanhando ninguém mais ninguém que Carlos Gardel, o poeta acabou indo ao jogo. Seu poema é uma ode olímpica, à la Pindaro, dedicada a Franz Platko, lendário goleiro do Barcelona. O mote é uma breve cena do jogo, em que Platko, depois de uma dividida com o atacante da Real Sociedad, levanta ensanguentado em meio aos jogadores adversários, agarrando a bola como quem leva à sua polis o velocino de ouro. Eternizado pela ode de Alberti, o goleiro entraria para a história como o herói daquela final, vencida pelos catalães após três jogos acirradíssimos, violentos até.

Gabriel Celaya, então com 18 anos, também assistiu àquela primeira partida. Mas seu poema, como indica o título, é uma “contraode”, uma visão desencantada do jogo, em tudo distinta à de Alberti. Celaya – nem preciso dizer – era torcedor da Real Sociedad, e em seu poema o foco passa de Platko, o herói épico, para a figura do juiz ladrão, clássico personagem do drama futebolístico.

Pessoalmente, prefiro o poema de Celaya, que cheira mais a cancha, mais a choro de alambrado e a ressentimento curtido em barris de carvalho do que a grandiloquente ode de Alberti. Traduzo-o aqui como prova cabal da superioridade da derrota:

E lembro também nossa tripla derrota
naqueles jogos contra o Barcelona,
que se ganharam de nós, não foi por Platko
mas por dez pênaltis claros, roubados.
Camisas azuis e brancas voavam
no ar, felizes, como pássaros livres
assaltavam a meta defendida com fúria
e nada pôde então toda a inteligência
e toda a entrega dos bascos
que lutavam contra a raiva cega
e o barro e as entradas criminosas e um árbitro comprado.
Disso todos lembramos, e talvez melhor que você,
meu querido Alberti, me lembro eu,
porque lá estava e porque vi o que vi –
o que você esqueceu, mas sempre
recordaremos: ganhamos. Justiça feita, ganhamos,
e há coisas que não mudam os falsos resultados.


Caique Zen

Coeditor.

8 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index:  Jorge Luis Borges, Rafael Alberti, Gabriel Celaya. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


O dilema de Neymar

O dilema de Neymar

O nosso Hamlet

Neymar está para o futebol como Hamlet para a literatura. Me explico: Hamlet deve matar Cláudio, seu tio, e se vingar do pai. A missão é clara. Neymar deve ganhar o hexa e vingar o 7×1, provando que ainda podemos ser os melhores em alguma coisa, ainda que haja algo de podre no reino da Dinamarca. A missão é clara.

Mas tanto Hamlet quanto Neymar estão perdidos no prodigioso mundo de suas cabeças. Hamlet perdido em elucubrações sobre tudo e sobre todos – a natureza humana, a vida e a morte, o suicídio. Neymar perdido entre parças, penteados excêntricos e interesses monetários. Um perfeito pós-humano, movido mais a likes e views do que a dribles e gols.
Quatro séculos depois de Shakespeare, a hipertrofia da consciência que fazia Hamlet protelar a vingança do pai pode acabar com o futebol de Neymar. Pois para jogar bola ou matar o tio é preciso deixar a autoconsciência em casa. Dentro das quatro linhas, por noventa minutos, não há espaço para o ego nem tempo para pensar em fazer história.

Todo grande atleta, em seus melhores momentos, parece experimentar a absorção mística de um monge tibetano em plena meditação. Falo de iluminados como Federer e Nadal, capazes de aniquilar o ego e manter a concentração durante horas, ou de Bolt e Phelps, que fazem o mesmo, mas de forma ainda mais intensa, por alguns segundos. Para esses bodhisattvas, no momento sagrado da competição, há mente mas não há mente, há corpo mas não há corpo. Numa Copa do Mundo, cultivar um estado parecido de transcendência é essencial.

Mais além do desempenho esportivo, vale lembrar que a autoconsciência exacerbada de Neymar vai contra seus próprios interesses. É sabido que o jogador aspira ao cargo de embaixador universal e legítimo herdeiro da linhagem do “futebol-moleque”, cujos grandes santos padroeiros são Garrincha e, mais recentemente, Ronaldinho Gaúcho. Mas, ao agir em campo de acordo com uma semiótica pensada em seus mínimos detalhes (da carretilha para a galera do Youtube à comemoração-com-recado-para-os-detratores), Neymar parece ignorar que o grande atributo dessa discutível abstração chamada “futebol-moleque” sempre foi a espontaneidade.

E vejam: quando se fala no fla-flu entre admiradores e críticos de Neymar, há muito mais em jogo do que parece. O futebol, como bem sabem os sociólogos, define nossa identidade. E quando Neymar degrada o refinado senso estético do “futebol-moleque” com firulas inócuas e confunde inteligência com malandragem, toda a imagem de um povo é manchada aos olhos do mundo. Pode parecer exagero, mas é assim que nos sentimos, ofendidos em nosso já maltratado senso de nacionalidade.

Mergulhado em sua autoficção, Neymar tira de nós, brasileiros, a possibilidade de amar alguém que mostre ao mundo que existimos. Daí as paixões que envolvem seu nome, do ódio ao amor.

Hoje, jogamos contra a Sérvia. Neymar talvez se esqueça de si mesmo e mostre o que o levou à Rússia. Veremos. Até lá, somos o Brasil de Coutinho. Sem Hamlet.


Caique Zen

Coeditor.

27 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index: William Shakespeare. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Os russos somos nós

Os russos somos nós

O espelho multiforme da alma russa

Do “fundador da literatura nacional russa”, Alexander Púchkin (1799-1837), até o “primeiro modernismo” de Tchekhov e Górki (início do século XX), a literatura russa (ao menos até sua virtual devastação a partir do totalitarismo stalinista dos anos 1930), deu ao mundo uma enormidade de obras que se tornaram “clássicos” da literatura universal. Por clássico não se entende aqui, obviamente, o estilo que a história literária dispõe antes do romantismo e do naturalismo. Trata-se, na verdade, de uma acepção mais geral, apontando em certa tradição os autores que, apesar do tempo em que escreveram, reencontram no presente elementos e potências que os tornam contemporâneos.

Além disso, no caso dos clássicos russos, para além de suas diferenças de época e estilo, há algo que os unifica e os contrapõem à nova literatura russa nascida depois, com a Revolução e as vanguardas. É que eles são, ou pretendem ser, nas palavras de um provérbio russo usado por Gógol (1809-1852) em uma epígrafe, um “espelho”, feito para lançar alguma luz sobre as sombras da sociedade russa de seu tempo.[1]

Mas como a sociedade é feita de indivíduos, essas luzes se lançariam não apenas sobre a sociedade em si, ou seja, as formas e os modos das interações de classe e interpessoais (cujo exemplo máximo é a obra de Tolstói), mas também sobre a própria “alma russa” – certa especificidade eslava quase metafísica, que marcaria e determinaria o caráter dos membros de tal sociedade (numa palavra, a “russificidade”).

Ocorre que literatura não é, felizmente, sociologia. E se tampouco é psicologia, isso não impede que ao menos a grande literatura tenha o poder de ser mais do que apenas literatura. Ela pode então, de fato, espelhar essa “alma” – que é russa em parte, e em parte universal, para parafrasear a famosa frase atribuída a Tolstói (1828-1910).[2] Será, em todo caso, dessa literatura que emergirá aquele considerado, ao lado de Shakespeare, o maior analista da psique do homem moderno, Dostoiévski (1821-1881).

Um fractal é uma figura geométrica em que cada parte recupera a estrutura do todo, assim como a figura de ramos divergentes de um pequeno galho incorpora a figura maior de toda a árvore. De modo semelhante, cada texto da grande literatura russa contém toda a grandeza da literatura russa de seu tempo. Um espelho multifacetado, além de cristalino o bastante para também lançar suas luzes sobre as sombras de nosso próprio tempo.

Mas, espelho ou não, literatura é forma literária. A literatura russa posterior ao século XIX (o dos grandes clássicos) seria dominada pelos radicais e radicalmente fundamentais experimentos do período vanguardista – iniciados na primeira década do século XX, e abruptamente encerrados nos anos 1930, com a imposição do “realismo socialista”. Felizmente, houve tempo para o primeiro modernismo russo, entre muitas outras coisas, revolucionar a narrativa curta.

Se na vida civil Tchekhov (1860-1904) era um médico que atuava como clínico, na literatura foi um cirurgião que amputou do conto tudo que não fosse sua medula. Os contos de Tchekhov, como regra, não têm enredo, “intriga”, nem caminham para um clímax ou uma resolução. São um recorte de tempo e de circunstâncias, uma câmera que de repente passa a acompanhar seus personagens (principalmente suas falas cotidianas) e de repente os abandona. O radical realismo de Tchekhov determina a própria estrutura (ou quase desestrutura) de suas narrativas. William Gerhardie, escritor, crítico e acadêmico anglo-russo (1895-1977), faz uma síntese precisa ao dizer que a grande conquista de Tchekhov foi o abandono do “enredo de eventos” por algo “desfocado, interrompido; […] a fluidez e a aleatoriedade dão forma às histórias”.[3] O conto do século XX, de Hemingway a Cortázar, para citar apenas dois marcos possíveis, é fortemente tchekhoviano.

Já o romance será, em grande parte, dostoievskiano. Dostoiévski, a fim de dotar a prosa ficcional de instrumentos calibrados para registrar os mecanismos mentais do indivíduo moderno (e não a sociedade moderna, como fizeram o realismo e o naturalismo), teria, entre outras coisas, de criar ritmos narrativos e uma maleabilidade de linguagem (prenunciando o “fluxo de consciência”) que abririam caminho tanto para Joseph Conrad, Joyce, Virgínia Woolf e Faulkner quanto para Phillip Roth, ou seja, a ficção mainstream do século XX.

O “realismo socialista” de Stálin foi venenoso o bastante para quase matar a literatura russa em seu próprio solo. Mas não para impedir que seu vigor viesse a nutrir boa parte da literatura mundial. Assim como Shakespeare é um dos “inventores” do homem moderno, o homem “hamletiano”, cuja autoespeculação hipertrófica atrofia sua resolução e inibe sua ação, a literatura russa é uma das “criadoras” do homem contemporâneo. Entre outras coisas, somos fragmentários, circunstanciais e inconclusos como Tchekhov e presas de densas incertezas cheias de palavras como Dostoiévski (além de incuravelmente saudosos de certa grandeza utópica de Tolstói). Os russos, de alguma forma, somos nós.

 

*

 

[1] “Não culpe o espelho se a cara é torta”. Em contraponto, a nova literatura russa do início do século XX teria outros objetos e objetivos: não refletir o presente e muito menos o passado, mas educar as massas para o futuro socialista, ajudar a criar o “homem novo” nascido da Revolução e adequar a linguagem aos tempos industriais.

[2] “Se pretende ser universal, comece por pintar a sua aldeia”.

[3] Anton Chekhov: a critical study (1924), citado por William Boyd, “A Chekhov lexicon”, The Guardian, 3 de julho de 2004 (acessível em < http://www.theguardian.com/books/2004/jul/03/classics>).

 

*

 

Este texto, com modificações, foi primeiramente publicado como introdução ao volume Os russos, antologia dos maiores autores da literatura russa do século XIX, publicado pela Hedra, em 2015, com organização de Luis Dolhnikoff. Sua publicação na Vigília é fruto da parceria com a editora Hedra.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).


Os escritores e o futebol

Os escritores e o futebol

Do repúdio à paixão, a bola e as letras

[1]

Machado de Assis não escreveu sobre futebol. O ludopédio ainda não havia se alastrado pelo país enquanto viveu o Bruxo. Sua estética do drible, no entanto, prenuncia Garrincha. O vai e vem dos romances machadianos, com direito a piparotes no leitor, é o mais perfeito correlato linguístico do vai e vem do Anjo das Pernas Tortas, que chegava a retardar o gol para dar meia-volta e driblar novamente o marcador já caído. Garrincha, além do mais, teve sua vida escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Ninguém encarnou melhor do que ele a frase de Paulo Prado sobre o Brasil e os brasileiros: “Numa terra radiante vive um povo triste”. Seu estilo foi o de Machado, mas a sua biografia trágica foi a de um Lima Barreto. E diga-se de passagem: goste ou não de futebol, quem não leu a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, Estrela solitária, está perdendo tempo.

[2]

Mas Lima Barreto odiava o futebol, chegando a fazer parte de uma liga contra o esporte bretão. Apesar dessa aversão, Lima nos ensinou a ver mais do que a bola, pensando o futebol para além das quatro linhas. O elitismo, a violência e o racismo que apontava no ludopédio de seu tempo certamente estavam lá, como estão no futebol de hoje. O que Lima diria da transformação de nossos estádios em arenas, da selvageria de nossas torcidas e do embranquecimento de nossos craques?

[3]

A aversão de nosso Lima ao futebol lembra a aversão do argentino Jorge Luis Borges, que teria sido um grande torcedor do River Plate e um cronista esportivo para a eternidade, ao melhor estilo Nelson, se tivesse se deixado arrebatar pela magia. “O futebol é popular porque a estupidez é popular”, disse certa vez, e aos 79 anos chegou a cometer a heresia de dar uma conferência sobre a Imortalidade no exato momento em que a seleção argentina abria a Copa de 78, sediada no país.

[4]

Como metáfora futebolística, a conferência de Borges foi um perfeito gol contra. E aqui chegamos a Bolaño, torcedor do extinto Ferrobádminton, no Chile (pode haver algo mais bolañesco do que torcer para um time extinto?), e do Barcelona, na Espanha: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro”.

[5]

Mas voltemos aos escritores brasileiros. Graciliano Ramos, em 1921, pensava que o futebol não vingaria. No litoral, até podia ser; mas no sertão, terra avessa a estrangeirismos, nem um mês duraria a moda.

Mário e Oswald de Andrade, até onde sei, deram pouco bola ao ludopédio. Uma pena. Mas seus sucessores modernistas não deixaram barato.

Os textos sobre futebol do vascaíno Drummond podem ser lidos em Quando é dia de futebol. Já João Cabral de Melo Neto foi meia do time juvenil do Santa Cruz e escreveu belíssimos poemas que giram em torno do futebol. Nesses poemas – que espero um dia sejam publicados em conjunto, em forma de plaquette – João Cabral faz na poesia o que Nelson fez na crônica.

Rachel de Queiroz, vascaína como Drummond, também escreveu sobre o futebol. E Clarice Lispector tem um conto, “À procura de uma dignidade”, que se passa nos subterrâneos do Maracanã.

Há certamente vários outros escritores que se debruçaram sobre o ludopédio, e há também jogadores que se aventuraram pelas letras. Mas meu repertório literário sempre foi menor que meu repertório futebolístico, e deixo ao leitor o prazer da pesquisa.

[6]

E, por fim, Nelson Rodrigues, o Pelé da crônica esportiva (sem esquecer de seu irmão, Mário Filho, que devemos louvar todos os dias). As mil melhores frases já escritas sobre futebol saíram da pena de Nelson. A melhor delas resume todo o futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

O que seria de Borges se tivesse lido em um jornal essa frase?


Caique Zen

Coeditor.


Antes do busto de mármore

Antes do busto de mármore

Uma nota à toa sobre Bolaño

POR TARSO DE MELO


Cuidado. Quando uma grande editora adquire os direitos para publicar a obra de algum autor, é bem provável que ela transforme nanicos em gigantes, trastes em gênios, fraudes em sumidades. Um incrível arranjo entre editora, imprensa, livrarias, crítica etc. torna quase todo tipo de distorção possível. Todo cuidado é pouco. No entanto, por mais que a malha do marketing recubra tudo, dizendo que estamos sempre diante do “maior dos maiores”, e todo o discurso ao redor pareça estar de certo modo contaminado pelos mesmos interesses comerciais dos editores, o leitor tem que saber nadar em meio a essa corrente toda, como quem tenta respirar enquanto é atacado por ondas e mais ondas de um mar que não descansa enquanto não consegue engolir sua presa.

Digo tudo isso para afirmar que, no caso desse escritor esquisito que é Roberto Bolaño (1953-2003), tão unanimemente aclamado, cada leitura parece confirmar que estamos mesmo diante de um mito que, até pouco tempo, tinha ossos, carne e uma capacidade impressionante de transformar em textos tudo aquilo que mais profundamente nos atormenta – em política, em cultura, em literatura. Na vida. Depois de muitas e muitas páginas, mesmo ao leitor mais desconfiado é quase inevitável confessar que “Bolaño é isso tudo mesmo”. Para nossa alegria.

Caí ontem à noite novamente nas tramas de Bolaño após me deparar com quatro fotos em que o escritor participa de uma leitura de poesia numa livraria (encontrei-as no facebook do Eduardo Sterzi, mas são de Mónica Maristain Melussi, última pessoa a entrevistar Bolaño, pelo que me consta). São muito impactantes.

A não ser que, estranhamente, se abra diante daqueles senhores (Bolaño, para quem não o conhece, é o de cabelos cacheados) um largo pátio cheio de fãs e curiosos, tudo indica que era um evento desses em que um grupo de 10, talvez 15 pessoas dá atenção a um outro grupo, não muito menor, que expõe ali suas vísceras, enquanto na calçada em frente passa sem espanto todo o restante da humanidade. Eventos como esses que escritores estão acostumadíssimos a fazer, creio que em todo o mundo. Nada da grandiosidade que o peso atual de seu nome poderia fazer supor. Nada dos holofotes que seu corpo literário recebe hoje.

Talvez as fotos (me?) impactem tanto porque estamos acostumados a ver os gigantes quando já foram transformados em bustos de mármore ou fazem poses quase antinaturais nos poucos momentos de glamour a que a literatura costuma levar. Em resumo: quando não são mais eles mesmos que estão ali. Sim, fotos não são mais exatamente uma novidade, mas na longa história da literatura universal é pequena a fração que foi acompanhada por imagens – imagens comuns de escritores absolutamente incomuns, não aquelas tão solenes que mais facilmente encontramos. Mesmo no século XX, tão fotografado e filmado, fotos como estas de Bolaño são raras. E é triste que sejam raras, porque são elas que nos permitem ver, com mais clareza, onde estão os pés dessas cabeças geniais. Bem perto dos nossos.


Tarso de Melo

Santo André/SP, 1976. Poeta, advogado, mestre e doutor em filosofia do direito pela Faculdade de Direito da USP.

19 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Dossiê: Bolaño. Index: Roberto Bolaño, Eduardo Sterzi, Mónica Maristain, Tarso de Melo. Publicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan. Texto originalmente publicado em Contra Tanto Silêncio e cedido pelo autor para publicação na Vigília.


O claro enigma de Tite

O claro enigma de Tite

Arcturo se deixará surpreender?

POR CAIQUE ZEN


Primeiro como tragédia, depois como farsa. Em 1950, assistimos à tragédia; em 2014, à farsa. Pois apesar dos esforços midiáticos para dar um tom trágico aos 7×1, a verdade é que não sofremos com o passeio alemão em solo pátrio. Quem ousaria um gracejo sobre o Maracanaço no calor da hora, quando um país inteiro chorava? Já em 2014, não faltaram memes, e a verdade é que muitos de nós estávamos indiferentes à Copa (isso para não falar nos secadores, que por aversão à CBF ou aos desmandos do “padrão Fifa”, torceram contra a canarinho do primeiro ao último jogo). Mas, passados quatro anos da farsa dos 7×1 e a um dia da copa, em que pé estamos?

Quanto à torcida, certamente aumentaram os votos nulos, e as ruas não respiram o clima de Copa, presente apenas nas peças publicitárias com Tite, Neymar e – pasmem! –  Dunga. A indiferença pode ser explicada pela composição do escrete, formado quase inteiramente por atletas de times estrangeiros, muitos deles sem identificação anterior com grandes clubes brasileiros, e todos destituídos do carisma fácil de um Ronaldo Fenômeno, da verve polêmica de um Romário ou do estilo pé no chão de um Cafu, 100% Jardim Irene. Neymar, manchado por inúmeras polêmicas, dentre elas o contrato de exclusividade com a Rede Globo, não é unanimidade, e diante da carência de ídolos tenta-se elevar a figura de Tite – misto de coach neurolinguista com pastor da  Universal e tecnocrata alemão – ao panteão dos deuses outrora ocupado por Pelé, Garrincha, Riva et al. E todos sabemos que, assim como a ascensão do “gestor” representa a morte da política, o primado do treinador sobre os jogadores é a derradeira pá de terra sobre o futebol.

Contribui ainda para a modorra generalizada o aviltamento da camisa amarela, outrora motivo de orgulho, usada nos protestos que levaram ao golpe de 2016. Ante o verde-amarelismo que timidamente, aqui e ali, começa a dar as caras, o macunaímico torcedor brasileiro resmunga: “Ai que preguiça!”.

Quanto à seleção, estamos mais bem preparados do que em 2014. Ainda assim, temos um dos times menos criativos de nossa história, sem um meia que possa, em um passe de mágica, mudar a história de um jogo, e a “neymardependência” de que falam os especialistas é tão real quanto a alta da inflação, a queda do PIB e os 13,4 milhões de desempregados.

A verdade, com o perdão da obviedade, é que podemos ganhar ou perder a copa. Se ganharmos, ganharemos sem o brilho dos três primeiros títulos, quando jogávamos e encantávamos. E se perdermos, perderemos sem a grandeza trágica de 50 ou 82. Perderemos discretamente, como em 2010, ou ganharemos pragmáticos, como em 94, com Neymar fazendo as vezes de Romário.

Estamos longe de 1970, quando Pasolini, após os 4×1 do Brasil sobre a Itália, propunha a distinção entre futebol de prosa e futebol de poesia: “Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol”. Naqueles tempos, nos contrapúnhamos ao esquema de retranca e triangulação italiano, abertos ao inesperado e à subversão prazerosa da linguagem futebolística. Hoje, nos inspiramos na prosa europeia.

Tite já revelou seu sonho de treinar um time italiano e, não por acaso, a palavra “triangulação” é um dos trending topics de seu vocabulário (o termo “retranca”, é claro, está vetado). “Poesia é risco”, como disse Augusto de Campos, e não estamos dispostos a correr riscos após os 7×1.

Por fim, para terminar em poesia ao menos aqui, encerro este texto à toa, de um não especialista, com um poema do vascaíno Drummond, “Oficina irritada”. Tentem imaginar a voz de Tite recitando o poema e percebam como as potencialidades e os limites do escrete canarinho estão cifrados no claro enigma drummondiano:

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.


Caique Zen

Coeditor.

13 de junho, 2018. Volume: 2Seção: Tópicos Dossiê: Copa russa. Index: Carlos Drummond de Andrade, Pier Paolo Pasolini, Augusto de CamposPublicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan, Caio Ramalho. Imagem de capa: Pier Paolo Pasolini jogando futebol em Quarticciolo, Roma.


A literatura latino-americana nos estertores da tradição

A literatura
latino-americana
nos estertores da tradição

O sistema Machado de Assis de Roberto Bolaño, segundo João Cezar de Castro Rocha

POR LUAN MAITAN


Eduardo Wolf disse que João Cezar de Castro Rocha é o maior professor de literatura do Brasil – e quem o diz é o editor e professor Sergius Gonzaga. A esse disse me disse, antecede a conclusão de João Cezar sobre o realismo mágico, podcast preciosíssimo do Estado da Arte, do jornal O Estado de S. Paulo. Toda a discussão é de enorme importância a quem procura conhecer um pouco melhor o boom da literatura latino-americana na segunda metade do século XX. O fechamento de João Cezar de Castro Rocha, entretanto, merece recorte e transcrição para ler e reler quando possível.

Vou destacar um aspecto que pode ser interessante para a nossa discussão, e que permitiria associar Roberto Bolaño e Machado de Assis. Eu creio que a contribuição fundamental dessa geração do boom ou do realismo mágico, como se desejar, é o fato de ter sido sobretudo uma comunidade de leitores críticos.

Já em 1971, Vargas Llosa, em seu doutorado na Espanha, publica uma tese, García Márquez: historia de un deicídio. No mesmo ano, Carlos Fuentes publica La nueva novela latinoamericana. Há ensaios sobre Cortázar, sobre García Márquez, sobre Vargas Llosa… Graças a Carlos Fuentes, o primeiro romance de José Donoso, Coronación, que hoje não é mais lido, foi traduzido ao inglês. Era uma geração de uma comunidade crítica de leitores de suas próprias obras.

Sobre o primeiro romance de Carlos Fuentes, que é excepcional, La región más transparente, uma espécie de história simultânea da Cidade do México – simultânea no sentido de abarcar várias temporalidades –, Julio Cortázar envia a Fuentes uma carta minuciosa, detalhada, dizendo estar impressionado por seu talento narrativo, mas fazendo questão de apontar todos os aspectos que ele cria equivocados. O primeiro, ele diz: “as suas primeiras cinquenta, cem páginas, são impossíveis. Se você não é um chilango” – na gíria, quem é da Cidade do México, como o carioca é do Rio de Janeiro –, diz o Cortázar, “ninguém entende o que você está dizendo”. Numa edição comemorativa, não lembro agora se de trinta ou quarenta anos, de La región más transparente, Fuentes pede autorização a Cortázar para publicar a carta, essencialmente crítica ao romance primeiro e dos mais importantes de Fuentes. Havia, então, entre essa geração, esse sistema constante de leitura.

A primeira pessoa a ler as cem páginas iniciais de Cien años de soledad, chama-se Carlos Fuentes. García Márquez duvidava se deveria seguir escrevendo, já que ele estava em condições financeiras muito precárias na Cidade do México. Fuentes responde, tendo lido somente cem páginas: “por favor, Gabo, siga; estas cem páginas colocam você no patamar de Cervantes”. Só tinha lido cem páginas.

Parece-me que, da literatura hispano-americana mais recente, o único autor que manteve essa tradição de leitura minuciosa da tradição europeia e norte-americana, e da própria tradição, é Roberto Bolaño, que na verdade é o mais potente leitor das últimas duas, três décadas, da literatura hispano-americana. É o sistema Machado de Assis.

Machado de Assis torna-se Machado de Assis quando lê minuciosamente toda a tradição e a literatura brasileira. Não é casual que um dos ensaios mais agudos sobre Machado de Assis seja de Carlos Fuentes, um ensaio pequeno, precioso, que se chama “Machado de La Mancha”. E diz o Fuentes: “em toda a América Latina, o primeiro a realmente retomar a tradición cervantina é um brasileiro chamado Machado de Assis”.

Esse gesto de leitura crítica dos pares, dos mais próximos, é algo que hoje faz profundamente falta na literatura latino-americana. Tenho a impressão de que as gerações mais jovens não se leem criticamente, ou, quando se leem, é apenas para uma espécie de jogo de compadres em que você é tanto mais genial quanto você me considerar maravilhoso. Sem nenhum realismo, no caso.


Luan Maitan

Editor.

18 de abril, 2018. Volume: 2Seção: Tópicos Dossiê: Bolaño. Index: Machado de Assis, Roberto Bolaño, João Cezar de Castro Rocha, Eduardo Wolf, Sergius Gonzaga, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, José Donoso, Julio Cortázar, Miguel de Cervantes. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenImagem de capa: Ilustração de Luisa Rivera para edição comemorativa de 50 anos do livro Cien años de soledad, de Gabriel García Márquez


Entre a vigília e o sonho

Entre a vigília e o sonho

Das formas que não são ainda a escuridão

[1]

Insetos voadores de hábitos noturnos se guiam pela luz da lua. Qualquer outra fonte de luz os desorienta. É sabido, entretanto, que a lua não emite luz. Portanto os insetos notívagos orientam-se por um simulacro do sol. Adoradores do falso ou, de outra perspectiva, encantados pelo artifício, como escritores e leitores.

 

[2]

Algo na atmosfera da metrópole parece esgotar toda possibilidade de presciência, a despeito ou em consequência de sua vasta iluminação. Parece não haver revelação capaz de alterar a banalidade do cotidiano. O que poderia ser visto a ponto de perturbar a ordem dos eventos e resgatar qualquer coisa que pareça ter sido perdida, e que no entanto não se mostraria senão em sonho?

Velada sob “uma ordem por decifrar”, como diria Saramago diante do caos, essa falta remete à própria faculdade ou dificuldade de ver. Uma espécie de espelho de Demócrito de Abdera, com a face reflexiva para trás. (Diz-se que o atomista grego se cegou para não sofrer as incursões da visão sobre seus pensamentos, desnublando-os.) Jorge Luis Borges sentencia: “Essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético”.

 

[3]

Quando Lady Macbeth se levanta sonâmbula e insiste em esfregar as mãos na tentativa de limpar uma mancha que não sai, ela sonha ou vê? Ela sonha e vê: fora cúmplice de Macbeth – quando não agente –, das ações que o levaram ao lugar mais alto do reino e às margens da própria consciência.

O rei Édipo de Sófocles, à semelhança de Demócrito, cega-se ao lhe ser revelado aquilo que sempre esteve diante dos olhos. Ambas as personagens, Édipo e Macbeth, foram destinadas por prescientes e agiram, cada uma a seu modo, para escapar do implacável futuro ou, ao menos, de seu derradeiro ato –  a parte do sonho que se busca esquecer, mas que subjaz às imagens mais belas.

Em 1899, o criador da psicanálise, Sigmund Freud, publica sua obra magna, A interpretação dos sonhos, na qual afirma que “todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília”. Mais interessante, porém, que o mapeamento psíquico é a matéria de que o sonho é feito.

Por volta de 1610, William Shakespeare, o maior escritor da história, nos lega sua última comédia, A tempestade. É dessa peça o trecho em que Próspero, num intervalo de imensurável lucidez, descreve a matéria de todas as coisas: “Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos”.

Não muito distante da Inglaterra isabelina, reinava o Século de Ouro Espanhol, período em que irromperam o também dramaturgo Calderón de la Barca e sua comédia A vida é sonho. Na peça, o príncipe Segismundo está sujeito aos caprichos que o condenam a levar uma vida de prisioneiro a despeito de sua posição. Entre os cruéis experimentos que buscam confundir suas imagens de sonho e vigília, Segismundo protagoniza um dos mais belos monólogos da dramaturgia universal:

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver só é sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

A obra prima de Calderón traz ecos do clássico indiano Ramayana, em que o deus Indra é feito prisioneiro. Brahma, para libertá-lo, insere uma forma mental em sua cabeça: “estou livre”. E então Indra que as grades que o encerravam eram apenas ilusão.

Por tudo o que vemos, portanto, seríamos no mínimo testemunhas ou cúmplices, e mais: não podemos escapar do que vemos. Tudo o que vemos nos vê. Mas se todos os momentos no final se perderão no tempo, “como lágrimas na chuva” ou “como o canto dos pássaros no bosque”, o que de fato se perde e que tanto tememos a ponto de transcrever essas vaidades? Será não o que se vê, mas o ato de ver, a ação que só se pode registrar justamente com aquilo que vemos, isto é, com o que nunca tivemos e, portanto, jamais poderíamos perder?

 

[4]

J. W. Dunne, aviador que especulou sobre a natureza do tempo, afirma que em nossos sonhos confluem o passado imediato e o imediato futuro, e cada noite confirma que a eternidade já nos pertence. Borges, em seu ensaio sobre o filósofo que voava, aponta para a curiosa distinção de que “na vigília, percorremos o tempo sucessivo em velocidade uniforme; no sonho, abarcamos uma área que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar os relances dessa contemplação e com eles urdir uma história, ou uma série de histórias”.

Certa vez, Borges afirmou ser possível compreender a cegueira como uma dádiva. Ele não se cegou como Édipo ou Demócrito, mas foi cegado. Como o van Gogh de Artaud, suicidado pela sociedade, Borges foi cegado pelo tempo: “o tempo foi meu Demócrito”.

Em “O fazedor”, o argentino aproxima a cegueira e o sonho: “Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas […] Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estoico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. […] Dias e noites passaram sobre esse desespero na sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem espanto) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o encarara com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho”.

 

[5]

Em 1949, Emil Cioran apregoa, em seu Breviário de decomposição, que “habitualmente afundamos numa lama noturna, numa obscuridade tão medíocre como a luz… A vida é apenas um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luzes e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excelência sobre o resto da matéria”.

Nem a lúcida crueldade de Cioran nem a exuberante cegueira de Borges, nada disso poderia assaltar a mente zen de Alberto Caeiro, para quem ver era o sentido mais importante: “Pensar é estar doente dos olhos”. Muito depois de Demócrito, cujo tempo jamais poderia conceber o pensamento como doença, Caeiro nos oferece uma outra chave:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

 

[6]

Ver. Um verbo contido no próprio nome verbo. Assim como no verbo escrever ou nos nomes verdade e vertigem. Uma série de formas luminosas, não apropriadas para entes das sombras, como o morcego – bicho que carrega a qualidade cego no próprio nome –, o animal que nas mais variadas fantasias não vê, mas voa.

 

[7]

Um inseto erra em torno da lâmpada, no instante mesmo em que se redigem estas palavras cegas. Num voo louco, o pequeno bicho orbita em seu pequeno cosmos. Anseia por luz, mais luz, como um Goethe no leito de morte. Um inseto – que passa a vida breve em voo rasante. O único resquício de sol que lhe resta é essa lâmpada enfraquecida, esse fio de luz que se apaga e ao qual o pequeno bicho se agarra sem medo e sem esperança.

Percebo-me, de súbito, deslizando pela fronteira entre a vigília e o sonho. O inseto continua sua trajetória incerta, mas ordenada – “loucura, sim, mas tem seu método” –, e eu o observo atentamente, num estado constante de alarme, na tentativa de capturar um fragmento das formas que não são ainda a escuridão.


Luan Maitan

Editor.


Lembramos para você a preço de atacado

Lembramos para você a preço de atacado

Borges vs. Musk – a memória artificial e a literatura

[1]

Maio de 2017. Elon Musk, o homem que promete colonizar Marte, anuncia a criação da Neuralink, startup que conectará o cérebro humano a computadores. A ideia é viabilizar a simbiose entre homem e máquina ou, nas palavras exatas de Musk, permitir “a fusão mais próxima entre inteligência biológica e inteligência digital” por meio dos chamados neural laces, dispositivos que serão capazes de transferir arquivos (pensamentos, lembranças, conceitos) de hardwares para seres humanos e de seres humanos para hardwares.

Os objetivos de Musk, como sempre, são os mais nobres possíveis. Inicialmente, a tecnologia prestará serviços a pessoas com lesões cerebrais causadas por derrames, tumores ou outras enfermidades. Só depois de testados por essa população, é que os neural laces chegarão ao mercado.

Todos poderemos, então, “impulsionar a velocidade de conexão entre nosso cérebro e a versão digital de nós mesmos”, eliminando o inconveniente da arrastada expressão pela palavra. “Há um monte de conceitos nas nossas cabeças”, diz Musk, “que os nossos cérebros tentam comprimir nessa incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”. Caso tivéssemos “duas interfaces cerebrais”, poderíamos perder menos tempo com a troca entediante de signos linguísticos estabelecendo “uma comunicação conceitual não comprimida”, mais afeita à rapidez de nosso tempo.

 

[2]

Basta ler a palavra ciborgue, nessa incrivelmente baixa taxa de dados a que chamamos escrita, para que uma série de associações conceituais não comprimidas seja disparada em algum lugar de nossa mente. Imagens roubadas à ficção científica, certamente distópicas, monopolizam o significado do termo, e mal paramos para pensar que o ser humano normal, nômade ou sedentário, caçador-coletor, agricultor ou cliente-Walmart, nunca esteve muito longe de ser uma “criatura dotada de partes orgânicas e cibernéticas que utiliza tecnologia com a finalidade de potencializar suas capacidades” (definição da Wikipédia para o conceito de ciborgue).

Desde aquela primitiva startup, criada – ou roubada, diriam as más-línguas – pelo empreendedor Prometeu, o ser humano tem se valido das mais diversas bugigangas. Com a mesma entrega apaixonada de um nomofóbico que tateia seu iPhone, o Homo sapiens sempre esteve disposto a abrir mão de uma suposta pureza de sua humanidade para se entregar ao primeiro apetrecho, ao primeiro gadget ou app que o auxiliasse minimamente na labuta diária.

“Somos criaturas tecnológicas” – escreve Tom Chatfield, em Como viver na era digital. – “Faz parte de nossa natureza ampliar a nós mesmos e ao mundo – e ir além dos limites e nos adaptarmos”. Dificilmente, portanto, poderíamos separar o humano dos objetos que ele mesmo cria para atender às suas necessidades. Do osso voador de 2001: Uma Odisseia no Espaço aos neural laces de Musk, o mesmo instinto prometeico impulsiona o homo tecnologicus.

 

[3]

“Dos diversos instrumentos do homem”, diz Borges, “o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.

 

[4]

Em “A memória de Shakespeare”, Hermann Soergel, um professor cuja vida toda foi dedicada a “trivialidades eruditas”, recebe, de um melancólico colega de academia, a memória de Shakespeare. “Não era”, como esclarece Borges, autor do conto, “a memória de Shakespeare no sentido da fama de Shakespeare, isso teria sido muito trivial; tampouco era a glória de Shakespeare, mas sim a memória pessoal de Shakespeare”. Uma memória involuntária que pode irromper nos momentos de sonho ou de vigília, quando surge sorrateira enquanto seu depositário folheia as páginas de um livro, vira uma esquina ou prepara um café.

Hermann Soergel, então, recorda de repente certas palavras de Chaucer enquanto se barbeia em frente ao espelho; assobia uma melodia muito simples, que jamais havia ouvido, ao sair do Museu Britânico; relembra as feições de um homem, talvez um vizinho, que, embora não figure em nenhuma biografia, devia ser avistado com frequência por Shakespeare.

Com o tempo, porém, a memória de Shakespeare passa a oprimir Hermann: “A princípio as duas memórias não mesclaram suas águas. Com o tempo, o grande rio de Shakespeare ameaçou, e quase inundou, meu modesto caudal. Temeroso, percebi que estava esquecendo a língua de meus pais. Já que a identidade pessoal baseia-se na memória, temi por minha razão. À medida que transcorrem os anos, todo homem tem a obrigação de carregar o crescente fardo de sua memória. Duas me oprimem, confundindo-se às vezes: a minha e a do outro, incomunicável”.

Para Piglia, a visão borgiana de literatura estaria cifrada nesse conto derradeiro (sim, é possível que a “Memória de Shakespeare” tenha sido o último conto de Borges): “A figura da memória alheia é a chave que permite a Borges definir a tradição poética e a herança cultural. Recordar com uma memória alheia é uma metáfora perfeita da experiência literária. A leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias. As cenas dos livros lidos voltam como lembranças privadas. São acontecimentos entremeados ao fluir da vida, experiências inesquecíveis que voltam à memória, como uma música”.

A partir dessa ampla e certeira metáfora proposta por Piglia (em suma: ler é apropriar-se da memória alheia), podemos arriscar a proposição de duas consequências.

Primeiro: as ideias de tradição poética e herança cultural remetem à cena original do pacto fáustico, à oferta demoníaca de um bem extremamente precioso, mas que pode levar à ruína aquele que o aceita. Quando lemos, damos vida às palavras e aos autores semimortos na penumbra das estantes; aceitamos de boa vontade o perigoso intercâmbio entre nossa consciência e a consciência de um outro. Respeitando a solenidade do acordo, o detentor da memória de Shakespeare deve oferecê-la em voz alta a seu herdeiro, que, por sua vez, deve aceitá-la também em alto e bom tom. Só então o pacto pode ser consumado.

Segundo: a memória literária é viva, e, como tal, admite o intercâmbio entre o próprio e o alheio. Como um organismo de baixa imunidade, o bom livro, ao mesmo tempo em que contamina quem o lê, não costuma opor resistência às contaminações do ambiente. Livros são dispositivos de troca, e não de mera recepção. Por isso, um livro diz também sobre as circunstâncias de sua leitura: o local, a fase da vida, o estado de espírito de seu leitor.

E, last but not least, a memória literária, por seu caráter orgânico, admite o sagrado esquecimento. E é justamente por essa imperfeição da memória (como soube Borges mais que ninguém) que lembranças podem ser manipuladas, desviadas, distorcidas e inclusive enriquecidas pela imaginação.

 

[5]

Mas a leitura não é somente o diálogo privado entre autor e leitor (fosse isso, seria a mais banal das tecnologias, pertencente à frívola estirpe do WhatsApp ou do telefone): “Quando lemos um livro antigo”, diz Borges, “é como se estivéssemos lendo todo o tempo transcorrido do dia em que foi escrito até que chegasse a nós. Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século XVII, Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley”.

Os sucessivos atos de leitura enriquecem uma obra ao longo do tempo. A literatura é uma espécie de palimpsesto, ou memória coletiva, de código aberto, em que “cada nova escrita cobre a escrita anterior e é coberta pela que segue”.

 

[6]

Com a invenção do neural laces, substituiríamos nossas lentas interações verbais por transferências telepáticas de alta velocidade. Em um diálogo, por exemplo, “você não precisaria verbalizar, a menos que quisesse acrescentar um pequeno charme à conversa. Mas a conversa mesmo seria uma interação conceitual em um nível que é difícil conceber hoje”, diz Elon Musk.

E por que o mesmo não ocorreria com a leitura, esse hábito anacrônico, incompatível com o ritmo frenético da era digital? Para que leríamos Borges, para que leríamos Shakespeare, se pudéssemos transferir suas obras completas para nossos cérebros? Bastaria um clique em “adicionar ao carrinho”, e já não precisaríamos sacrificar à literatura nossas melhores horas de amor, como disse Drummond.

O que incomoda aos futuristas do século XXI, fiéis ao culto da velocidade, é que continuamos, em plena era digital, “lendo na mesma velocidade que nos tempos de Aristóteles” – como bem observa Piglia. E, embora a circulação da informação cresça vertiginosamente, não podemos fazer nada para tentar abarcá-la a não ser decifrar lentamente as palavras – “words, words, words” – a razão de 300 vocábulos por minuto (segundo as estatísticas mais otimistas).

Como pensar a leitura fora dos limites da “incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”? As ideias excêntricas de Musk remetem à famosa anedota de Woody Allen sobre a leitura dinâmica: “Fiz um curso e li Guerra e paz em 20 minutos. É sobre uns russos”.

 

[7]

“Fala-se no desaparecimento do livro”, diz Borges, “eu acho que é impossível. Alguém perguntará que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco. A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido, um disco, da mesma forma, é ouvido para ser esquecido, é uma coisa mecânica, e portanto frívola. Um livro é lido para a memória”.


Caique Zen

Coeditor.