diário de um humano

vozes de tchernóbil & a sexta extinção


30 de outubro de 2018, terça-feira.

Os jornais noticiam o mais recente relatório: 60% dos animais do planeta Terra foram mortos nos últimos quarenta anos. No Caribe e na América do Sul, esse número chega a 89%. Algumas manchetes falam em “extinção em massa”.

A estatística computa apenas os animais vertebrados e silvestres. Não há dados sobre invertebrados, sobre animais domésticos ou criados para abate.

Publico a notícia no Facebook, com uma frase engraçadinha do Woody Allen:

“Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto; o outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de escolher”.

 

31 de outubro de 2018, quarta-feira.

O presidente eleito quer fundir o Ministério da Agricultura com o Ministério do Meio Ambiente. Em outras palavras, colocar o lobo pra cuidar da ovelha.

Sem perceber, entro em um looping autodestrutivo, lendo notícias ruins atrás de notícias ruins, como um fumante acendendo um cigarro no outro. Uma matéria diz que os microplásticos chegaram ao intestino humano; outra, que falta pouco para a Amazônia chegar ao ponto de não retorno.

Compartilho as más notícias seguidas de comentários irônicos. Sem um pouco de humor, seria impossível digerir tanto microplástico.

 

1º de novembro de 2018, quinta-feira.

Acordo com uma frase insistente na cabeça, que diz: “Os animais são outros povos”.

Passo a manhã inteira com essas palavras na cabeça, repetidas como um refrão, batendo como um martelo: “Os animais são outros povos”.

Quando procuro a frase no Google, descubro de onde ela vem: Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch. Um livro de entrevistas com anônimos que viveram o desastre nuclear.

“Os animais são outros povos”: é um homem responsável por enterrar a terra radioativa com terra não radioativa quem diz essas palavras ao lembrar que nesse trabalho também se enterrava toda a vida que ali sobrevivera.

“Enterrávamos o bosque… Serrávamos as árvores, reduzindo-as a metro e meio, envolvíamos em plástico e as empurrávamos para uma fossa. À noite, eu não conseguia dormir. Fechava os olhos, e algo negro se movia, dava voltas. Como se estivesse vivo. Camadas vivas de terra. Com besouros, aranhas, minhocas. Eu não sabia o nome de nada disso, como se chamavam. Eram besouros, aranhas. E formigas. Grandes e pequenas, amarelas e negras. De todas as cores.

Não sei em qual poeta li que os animais são outros povos. E eu os exterminava às dezenas, centenas, milhares, sem saber como se chamavam. Destruía as suas casas, os seus esconderijos, enterrava, enterrava…”.

 

3 de novembro de 2018, sábado.

Desisto de acompanhar as notícias. Que ser humano, em sã consciência, alimentaria a própria raiva e a própria dor?

Ligo o computador, mas não a internet. Por sorte, tenho salvas as fotos de Laurent Baheux.

Essas fotos me fazem bem. Laurent fotografa os animais como quem fotografa outros povos. Sem o voyeurismo meio pervertido dos documentários da TV, que buscam a todo custo o selvagem; mas também sem domesticar o animal ou fotografá-lo à imagem e semelhança do humano.

Há, é certo, algo de humano no olhar desses animais. Mas apenas na medida em que também há algo de selvagem em nosso olhar.

Dizem que há culturas indígenas para as quais animais, e até mesmo plantas ou acidentes naturais, têm alma idêntica à humana. Entre essas culturas, muitas sustentam que, apesar da aparência diferente, animais são gente como nós. E mais: sendo gente, os animais veriam a nós, humanos, como bichos. Para eles, nós é que somos os animais.

 

4 de novembro de 2018, domingo.

No livro de Aleksiévitch, há outro homem que fala sobre animais: um cinegrafista que  foi a Tchernóbil filmar a tragédia humana mas acabou fascinado com a natureza que a duras penas sobrevivia no local.

O cinegrafista conta a Aleksiévitch a ideia que tem para um livro, surgida das cenas que presenciou:

“Será uma parábola atual. A ação transcorre num planeta longínquo.

Um cosmonauta num traje espacial. Através dos auriculares, ouve um ruído. E vê que avança na sua direção algo enorme. Descomunal. Ainda sem entender do que se trata, o homem dispara.

Depois de um instante, vê novamente algo se aproximar. Ele o destrói.

Passado mais um instante, surge um rebanho. O homem organiza uma matança.

Mas o que acontece é que havia um incêndio ali perto, e os animais apenas tentavam se salvar correndo pelo caminho em que o cosmonauta estava.

Isso é o homem!

[Breve pausa].

Mas comigo… Comigo aconteceu uma coisa incomum. Eu passei a olhar os animais com outros olhos. E também as árvores. Os pássaros. Continuo viajando para a Tchernóbil todos esses anos. Das casas abandonadas e saqueadas saem javalis e alces. Isso eu filmei. É o que busco. Ver tudo pelos olhos dos animais”.


∝ genoma // esta publicação deriva e complementa o vídeo-ensaio os animais são outros povos. clique no título para acessar a página do vídeo ou no player abaixo para assistir.


Zen

Coeditor.

18 de novembro, 2018. seção: ensaios. index: woody allen, svetlana aleksiévitch, laurent baheux. publicação: zen. revisão: maitan.