em preto e branco // roteiro

henri cartier-bresson & a arte oriental

[Entrevista de Cartier-Bresson em L’Amour tout court, de 54:57 a 55:20: https://bit.ly/2R1g6Z9]

– Podemos aprender a ver?

– Podemos aprender a fazer amor?

– Corte isso!

[Vinheta da Vigília]

[Plano de Cartier-Bresson em L’Amour tout court, a partir de 00:19: https://bit.ly/2R1g6Z9]

Esse é Henri Cartier-Bresson. Talvez o maior fotógrafo da história.  Ou – por que não? – um dos maiores artistas da história.

[Entram fotos de Cartier-Bresson]

O Tolstói da fotografia. O olho do século. O pai do fotojornalismo.

Mas o que dizem esses títulos grandiloquentes? O próprio Cartier-Bresson jamais concordaria com eles.

[Trecho sobre “etiquetas” da entrevista de Cartier-Bresson, de 6:30 a 6:59: https://bit.ly/2R55hFs]

[Depois da fala de Cartier-Bresson, há uma breve pausa, um momento sem imagens]

Talvez seja melhor voltar pro começo…

[Plano de Cartier-Bresson em L’Amour tout court, a partir de 00:19, sendo rebobinado]

Esse é Henri Cartier-Bresson. Um senhor simpático.

[Entram as imagens de Cartier-Bresson no filme L’aventure moderne: https://bit.ly/2P9KJ1i]

E este é Cartier-Bresson alguns anos antes, preparando sua Leica.

Dançando pelas ruas de Paris em busca de uma imagem.

[Fotos de Cartier-Bresson]

Essas são algumas das milhares de fotos que Cartier-Bresson tirou ao longo da vida.

Todas em preto e branco, como se pode ver.

Cartier-Bresson nasceu em 1908 e morreu em 2004, aos 95 anos. Atravessou o século XX.

Durante todo o tempo que fotografou, fotografou em preto e branco. Na verdade, não seria nenhum exagero classificar Cartier-Bresson como um verdadeiro militante da fotografia em preto e branco, contra a fotografia colorida.

Ao longo do tempo, foram muitos os argumentos do fotógrafo a favor do preto e branco. O primeiro deles, presente em seu livro O momento decisivo, de 1952, é um argumento estritamente técnico: a baixa velocidade do filme colorido, uma novidade naquela época, reduziria a profundidade do foco.

Uma explicação plausível, embora, pra ser sincero, eu não a entenda.

Quando a tecnologia do filme colorido evolui e suas deficiências são corrigidas, Cartier-Bresson se vê obrigado a mudar de argumento. O uso do preto e branco passa a ser então uma questão de princípio. A cor pertence à pintura, dizia Cartier-Bresson, somente a ela, e cabe ao fotógrafo respeitar esse limite.

Um argumento plausível, e que se enquadra em um debate importante para os artistas do século XX: o debate sobre a especificidade de cada uma das artes, sobre o que há de realmente específico em cada uma delas. E, por extensão, um debate sobre a função do artista.

Mas a verdade é que esse argumento de Cartier-Bresson não me convence. Ele ainda me parece técnico demais, uma versão um pouco mais elaborada do argumento que acusava as limitações do filme colorido.

Para uma explicação mais convincente, talvez tenhamos que recorrer a outro fotógrafo: Robert Frank.

 

[Foto de Robert Frank e fotos de sua autoria]

A fotografia de Robert Frank é muito diferente da fotografia de Cartier-Bresson. No entanto, os dois compartilham a mesma preferência pelo preto e branco. Certa vez, explicando essa preferência, Robert Frank disse:

“Preto e branco são as cores da fotografia. Para mim, elas simbolizam as duas possibilidades, esperança e desespero, a que a humanidade estará para sempre sujeita. A maioria de minhas fotos é de pessoas; elas são vistas com simplicidade, como se através dos olhos do homem da rua. Há uma coisa que a fotografia precisa conter: a humanidade do momento.”

[Voltam as fotos de Cartier-Bresson]

As composições geométricas de Cartier-Bresson talvez não falem de esperança e desespero. Mas, certamente, há em suas fotos a simplicidade de que fala Robert Frank. Uma simplicidade que busca o que há de essencial no momento fotografado, dispensando tudo o que pode haver de supérfluo – a cor, inclusive.

Essa busca pela essência do momento, ou, em outras palavras, essa busca por passar o máximo de significado com o mínimo de meios me faz lembrar de outras formas de arte. Todas elas, por acaso, vindas do oriente.

Penso, por exemplo, no haikai, uma forma de poesia japonesa em que cada poema deve se limitar a dezessete sons. Com apenas dezessete sons, o poeta deve colocar o leitor no aqui e no agora, despertando com umas poucas palavras um estado contemplativo que não pode ser explicado por palavras.

Com o mínimo de meios, o máximo de significado. Como no “Haikai da rã”, de Bashô, traduzido por Cecília Meirelles:

“Velho tanque.

Uma rã mergulha.

Barulho da água.

Com o mínimo de meios, o suficiente. Como nessa famosa foto de Cartier-Bresson: “Atrás da Estação de Saint-Lazare”.

[Entra a foto https://mo.ma/2ynqSlF]

A simplicidade da fotografia de Cartier-Bresson e sua defesa do preto e branco me fazem lembrar também do sumi-ê, uma antiga técnica oriental de pintura.

[Entram pinturas sumi-ê ou usar planos-detalhe de vídeos como esse: https://bit.ly/2q3pcZS]

Conhecido como a “arte do essencial”, o sumi-ê surgiu na China e chegou ao Japão, onde foi levado à perfeição dentro de monastérios.

O sumi-ê é quase inteiramente preto e branco, mas sua monocromia não se confunde com a negação absoluta da cor. Seus vários tons de cinza e preto aludem à visibilidade da mente, e na imaginação de quem contempla a pintura esses tons podem assumir qualquer cor. Tudo depende do olhar do observador.

[Transição de pinturas sumi-ê para paisagens coloridas, parecidas com as que as pinturas representam]

Tanto o sumi-ê quanto os haikais são considerados caminhos possíveis para se experimentar o zen. As duas formas de arte podem ser consideradas um tipo de meditação.

No sumi-ê e no haikai, assim como na fotografia, há um apagamento do sujeito, um esforço do ego para deixar de existir e se transformar em pura percepção. Ou, como disse Alice Ruiz:

“O fotógrafo não aparece na foto, mas sua sensibilidade sim”.

[Trecho da entrevista de Cartier-Bresson, de 5:13 a 6:20 (até “life in general”): https://bit.ly/2R55hFs]

[Após a entrevista, entram fotos de Cartier-Bresson, como essas: https://bit.ly/2EyG2tP e https://bit.ly/2PJQCiB]

A simplicidade da fotografia de Cartier-Bresson e a simplicidade que o próprio fotógrafo transparece em suas entrevistas aparece também nas fotos em que Cartier-Bresson está na frente, e não atrás da câmera. É sobretudo nessas imagens que os títulos grandiloquentes, como “olhar do século” ou “o maior fotógrafo da história”, parecem fora de lugar. Nesses retratos, Henri é só um senhor simpático, sorrindo bondoso para a câmera, sem a máscara do “gênio”, do “grande artista”.

[Breve pausa]

Toda a riqueza de sua visão de mundo expressa em um sorriso. O máximo de significado, com o mínimo de meios.

[Entra a última foto do vídeo: https://i.pinimg.com/originals/72/c0/64/72c06448706bb99f02c9c5c28218dd6c.jpg]

Nessa foto – por sinal, minha preferida – Henri aparece ao lado de sua esposa, Martine Franck, também fotógrafa. Os dois caminhando, com as câmeras penduradas, em busca de uma imagem.

[Breve pausa]

Acho que essa é uma boa imagem para encerrar este vídeo.

[Fade out da foto. A tela fica preto por um momento, como se o vídeo fosse acabar, mas entra o trecho da entrevista de Cartier-Bresson no filme L’Amour tout court, o mesmo do começo, mas agora de 54:57 a 56:13: https://bit.ly/2R1g6Z9]


∝ genoma // esta publicação deriva e complementa o vídeo-ensaio em preto e branco. clique no título para acessar a página do vídeo ou no player abaixo para assistir.


Caique Zen

Coeditor.

16 de dezembro, 2018. Seção: Ensaios. Index: henri cartier-bresson, robert frank, bashô, cecília meireles, alice ruiz, martine franck. Publicação: Zen.