Entre a vigília e o sonho

Das formas que não são ainda a escuridão

POR LUAN MAITAN


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Insetos voadores de hábitos noturnos se guiam pela luz da lua. Qualquer outra fonte de luz os desorienta. É sabido, entretanto, que a lua não emite luz. Portanto os insetos notívagos orientam-se por um simulacro do sol. Adoradores do falso ou, de outra perspectiva, encantados pelo artifício, como escritores e leitores.

 

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Algo na atmosfera da metrópole parece esgotar toda possibilidade de presciência, a despeito ou em consequência de sua vasta iluminação. Parece não haver revelação capaz de alterar a banalidade do cotidiano. O que poderia ser visto a ponto de perturbar a ordem dos eventos e resgatar qualquer coisa que pareça ter sido perdida, e que no entanto não se mostraria senão em sonho?

Velada sob “uma ordem por decifrar”, como diria Saramago diante do caos, essa falta remete à própria faculdade ou dificuldade de ver. Uma espécie de espelho de Demócrito de Abdera, com a face reflexiva para trás. (Diz-se que o atomista grego se cegou para não sofrer as incursões da visão sobre seus pensamentos, desnublando-os.) Jorge Luis Borges sentencia: “Essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético”.

 

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Quando Lady Macbeth se levanta sonâmbula e insiste em esfregar as mãos na tentativa de limpar uma mancha que não sai, ela sonha ou vê? Ela sonha e vê: fora cúmplice de Macbeth – quando não agente –, das ações que o levaram ao lugar mais alto do reino e às margens da própria consciência.

O rei Édipo de Sófocles, à semelhança de Demócrito, cega-se ao lhe ser revelado aquilo que sempre esteve diante dos olhos. Ambas as personagens, Édipo e Macbeth, foram destinadas por prescientes e agiram, cada uma a seu modo, para escapar do implacável futuro ou, ao menos, de seu derradeiro ato –  a parte do sonho que se busca esquecer, mas que subjaz às imagens mais belas.

Em 1899, o criador da psicanálise, Sigmund Freud, publica sua obra magna, A interpretação dos sonhos, na qual afirma que “todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília”. Mais interessante, porém, que o mapeamento psíquico é a matéria de que o sonho é feito.

Por volta de 1610, William Shakespeare, o maior escritor da história, nos lega sua última comédia, A tempestade. É dessa peça o trecho em que Próspero, num intervalo de imensurável lucidez, descreve a matéria de todas as coisas: “Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos”.

Não muito distante da Inglaterra isabelina, reinava o Século de Ouro Espanhol, período em que irromperam o também dramaturgo Calderón de la Barca e sua comédia A vida é sonho. Na peça, o príncipe Segismundo está sujeito aos caprichos que o condenam a levar uma vida de prisioneiro a despeito de sua posição. Entre os cruéis experimentos que buscam confundir suas imagens de sonho e vigília, Segismundo protagoniza um dos mais belos monólogos da dramaturgia universal:

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver só é sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

A obra prima de Calderón traz ecos do clássico indiano Ramayana, em que o deus Indra é feito prisioneiro. Brahma, para libertá-lo, insere uma forma mental em sua cabeça: “estou livre”. E então Indra que as grades que o encerravam eram apenas ilusão.

Por tudo o que vemos, portanto, seríamos no mínimo testemunhas ou cúmplices, e mais: não podemos escapar do que vemos. Tudo o que vemos nos vê. Mas se todos os momentos no final se perderão no tempo, “como lágrimas na chuva” ou “como o canto dos pássaros no bosque”, o que de fato se perde e que tanto tememos a ponto de transcrever essas vaidades? Será não o que se vê, mas o ato de ver, a ação que só se pode registrar justamente com aquilo que vemos, isto é, com o que nunca tivemos e, portanto, jamais poderíamos perder?

 

[4]

J. W. Dunne, aviador que especulou sobre a natureza do tempo, afirma que em nossos sonhos confluem o passado imediato e o imediato futuro, e cada noite confirma que a eternidade já nos pertence. Borges, em seu ensaio sobre o filósofo que voava, aponta para a curiosa distinção de que “na vigília, percorremos o tempo sucessivo em velocidade uniforme; no sonho, abarcamos uma área que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar os relances dessa contemplação e com eles urdir uma história, ou uma série de histórias”.

Certa vez, Borges afirmou ser possível compreender a cegueira como uma dádiva. Ele não se cegou como Édipo ou Demócrito, mas foi cegado. Como o van Gogh de Artaud, suicidado pela sociedade, Borges foi cegado pelo tempo: “o tempo foi meu Demócrito”.

Em “O fazedor”, o argentino aproxima a cegueira e o sonho: “Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas […] Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estoico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. […] Dias e noites passaram sobre esse desespero na sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem espanto) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o encarara com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho”.

 

[5]

Em 1949, Emil Cioran apregoa, em seu Breviário de decomposição, que “habitualmente afundamos numa lama noturna, numa obscuridade tão medíocre como a luz… A vida é apenas um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luzes e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excelência sobre o resto da matéria”.

Nem a lúcida crueldade de Cioran nem a exuberante cegueira de Borges, nada disso poderia assaltar a mente zen de Alberto Caeiro, para quem ver era o sentido mais importante: “Pensar é estar doente dos olhos”. Muito depois de Demócrito, cujo tempo jamais poderia conceber o pensamento como doença, Caeiro nos oferece uma outra chave:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

 

[6]

Ver. Um verbo contido no próprio nome verbo. Assim como no verbo escrever ou nos nomes verdade e vertigem. Uma série de formas luminosas, não apropriadas para entes das sombras, como o morcego – bicho que carrega a qualidade cego no próprio nome –, o animal que nas mais variadas fantasias não vê, mas voa.

 

[7]

Um inseto erra em torno da lâmpada, no instante mesmo em que se redigem estas palavras cegas. Num voo louco, o pequeno bicho orbita em seu pequeno cosmos. Anseia por luz, mais luz, como um Goethe no leito de morte. Um inseto – que passa a vida breve em voo rasante. O único resquício de sol que lhe resta é essa lâmpada enfraquecida, esse fio de luz que se apaga e ao qual o pequeno bicho se agarra sem medo e sem esperança.

Percebo-me, de súbito, deslizando pela fronteira entre a vigília e o sonho. O inseto continua sua trajetória incerta, mas ordenada – “loucura, sim, mas tem seu método” –, e eu o observo atentamente, num estado constante de alarme, na tentativa de capturar um fragmento das formas que não são ainda a escuridão.