Estudos de Vida

4 poemas de Isabela Benassi

não se pode
forçar a organização
redonda das coisas
que não são
redondas
há quem alise
as quinas das
paredes
para evitar
os machucados
há quem force
a união dos corpos
e a consumação
do sexo mas
é inútil
forçá-los
é inútil

olha
o sol, a barriga
grávida e a moeda
igualmente redondos
de uma mulher
sentada na praça central
ela inclina trinta graus
à esquerda seu rosto
aos moldes da
iconografia cristã
olha
como suas mãos
pendem ao olhar
para o céu
como seus olhos
pedem dinheiro
pelo amor de deus
colocando dentro
de um terço
os cinco mistérios
do rosário que
hão de livrar-nos do fogo do inferno,
hão de levar-nos todos pro céu

certa vez ouvi
que a humanidade
é completamente
redonda
e penso
que agora
é inútil negar
está aqui
bem na nossa frente
no arremesso da esmola
na parábola
que a moeda faz
no ar
olha
como a forma
do desconforto acerta
em dar o mesmo
molde circular
às moedas
ao corpo
ao terço
– à fé:
todos
redondos
todos aqui
tentando não
furar as mãos
e os bolsos
(mas escapando entre os dedos)

 

 

escudo

abandona o escudo
abandona a batalha
livra-se

é preciso separar
os que aceitam sujar as mãos
com os problemas do seu tempo
daqueles que oferecem
apenas aos amigos
o escudo do herói
e olhar
os inimigos nos olhos
sozinhos
como quem olha
aquele homem que espera
sentado horas a fio
sair daqui
em uma rua do centro
ele abraça seus próprios joelhos
e dorme
porque talvez ele não possa
olhar
os inimigos nos olhos
como a gente

a dança dos dias
consiste em
vestir ou não
o escudo
sujar ou não
as mãos
(lavá-las
talvez)
mas antes
é preciso assumir
que ninguém
consegue
sujar as mãos
e segurar
um escudo
ao mesmo tempo

 

 

à Patti Smith
(com coisas de Ruy Belo)

contigo aprendi coisas tão simples como
suportar lentamente o ritmo do outro
e o peso que afunda nossos joelhos
eu gostaria de lhe dar um lugar marcado
além deste que nos resta
de suportar pesos maiores
que os nossos
eu gostaria de lhe dar um lugar quente
dentro dos meus ossos para que nem eu
nem você
quebremos
com a ruptura do tempo,

mas eu não posso.

 

 

life studies

há primeiro que nascer
e escorregar da barriga
ao chão
até que caia

uma barriga capaz de prover mulheres
e alguns rituais de cura
trocando o cortar da cana
pelo esbanjar em riste uma espingarda
– caso necessário.

espadas de são jorge
na porta de casa
e punhados de arrudas
(sente-se o cheiro ao longe)
rasgam as carrancas
na sorte do livramento
de uma memória pobre
que alinha-se agora
à pemba do parapeito,

não há linhagem que
sobreviva aos futuros da infância:
nasce uma criança loira
no meio do mato

— como pode ser tão loira?
como pode
ser daqui?
um corpo tão pequeno e loiro,
há de ter algo errado.

abrem a carne da criança loira
todos os dias
certificam se são ossos
que estão ali
são órgãos mesmo e
se tem sangue.

ela cresce
no sangrar da terra
e segue
em salgar o corpo
(a terra puxa
o que lhe pertence),
não importa, vive sua infância,

traz os agouros de morte à velhice,
pois é isso que um corpo novo faz
com quem está há muito tempo
caindo.

 

Isabela Benassi nasceu em São Paulo, no extremo sul da cidade. É formada em Letras e, atualmente, estuda poesia portuguesa e artes plásticas de autoria feminina.

24 de outubro, 2017
Categoria: Poesia
 Tags: Isabela Benassi