eu queria ser uma baleia

E outros poemas de Martina Sohn Fischer

Na cidade
Nem tempestade
Lava o sangue

 

 

eu queria ser uma baleia

Pra falar outra língua, que não fosse a nossa
Pra nunca fechar os olhos
Pra deslizar uma vida toda
Pra ser peixe grande no infinito
E pequeno então

até desaparecer
de carcaça e tudo
bem lá no fundo do mar

num adeus silencioso
indecifrável

virar oceano

 

 

O dia mais triste

São todos
que ainda levam minha memória de você
para longe
o lugar no tempo onde não há lembrança

o dia mais triste
é este
que cresce numa memória inventada
de nós
jogando cartas nas mãos
eu criança
sabendo de tudo, sobre um mundo todo
que não existe mais

o dia mais triste
é hoje
onde todas as saudades estão
num coração só

 

 

flor de cúpula

raízes no vidro, não há terra nem mundo suficientes
caindo para o lado da janela, cresce torta, esperando que o vidro se parta
na força de sua existência, mesmo no mínimo espaço, ela existe para tudo
mais que todos
deito na minha cama, pequena, sendo pequena,
caindo para o lado da janela
buscamos a vida e no fim
admito que a morte não cabe aqui
não mais que minhas pernas e braços
sou inteira de existir
e memória
criando tudo feito raízes

 

 

caça

me fiz
olhando a teia que sobe a árvore
grudada nos galhos, começa no tronco
nada me fez
olhando as gotas finas
delicada aranha
prendendo o vento
e asas
eu presa olhando
a árvore toda
caçando

 

 

De quatro
Para algo de você
que só toco assim

e algo de mim
que nunca sou

só assim

 

Martina Sohn Fischer está cursando psicologia com foco em psicanálise. Teve duas peças encenadas: Casa de inverno, pela Produções Artísticas Artrupe de Manaus, e Aqui, pela companhia de teatro Club Noir de São Paulo, peça também publicada pela editora 7 Letras. Escreveu para o site Caos Descrito e para a revista Jandique, além do livro de poemas Fruto Estranho, pela editora Dybbuk. Mantém também o blog domargo.wordpress.com como lastro de si.

10 de julho, 2017
Categoria: Poesia
 Tags: Martina Sohn Fischer

Imagem de capa: False Start, de Jessica Brilli