Gricha

Conto de Anton Tchékhov traduzido do russo por Pedro Augusto Pinto

Gricha,[1] rapazinho pequeno, gorducho, nascido há dois anos e oito meses atrás, está passeando com a ama pelo bulevar. Vestiram-no com um longo albornoz de lã, um cachecol, um gorro enorme com um pompomzinho felpudo, e galochas quentinhas. Está com calor e sem ar, е além de tudo o sol desperto de abril bate diretamente em seus olhos e lhe queima as pálpebras.

Toda a sua desajeitada figura, caminhando tímida e titubeante, expressa uma profunda perplexidade.

Até então, Gricha só conhecera um mundo composto por quatro cantos, onde em um canto jaz sua cama, em outro o baú da ama, no terceiro, uma cadeira, e no quarto arde uma lamparina. Espiando debaixo da cama, aí também se vê uma boneca de braço arrancado e um tambor, já por trás do baú da ama há uma enorme diversidade de coisas: carreteis de linha, papeizinhos, uma caixa sem tampa e um palhaço quebrado. Neste mundo, além da ama e de Gricha, frequentemente surgem mamãe e o gatinho. Mamãe parece com a boneca, e o gatinho com a peliça de papai, só que a peliça não tem nem olho nem rabo. Saindo do mundo que se chama “de criança”, a porta leva à amplidão onde almoçam e bebem chá. Ali fica a cadeira de Gricha com suas perninhas altas e pende o relógio, que existe apenas para balançar o pêndulo e tiquetaquear. Da sala de jantar pode-se ir para o cômodo onde ficam as poltronas vermelhas. Ali, sobre o tapete, há uma mancha negra, pela qual até hoje ameaçam Gricha com o dedo. Depois desse cômodo tem ainda um outro, onde não se pode entrar, em que se vislumbra papai – figura profundamente enigmática! A ama e mamãe são compreensíveis: vestem Gricha, alimentam-no e põem-no para dormir, mas por que razão existe papai – não se sabe. Há ainda outra figura enigmática, titia, que foi quem deu o tambor para Gricha. Ora surge, ora some. Some para onde? Gricha mais de uma vez espiou debaixo da cama, atrás do baú e sob o sofá, mas lá é que ela não estava…

Já neste mundo novo, em que o sol fere a vista, há tantos papais, mamães e titias que não dá para saber para quem a gente corre. Mas o mais estranho e incoerente são os cavalos. Gricha olha para as suas pernas andantes e não consegue compreender. Olha para a ama para que esta o oriente, mas ela cala.

De repente, ouve um terrível tropel… pelo bulevar, com passo regular, vem vindo diretamente para Gricha uma multidão de soldados, com rostos vermelhos e vassouras de banho debaixo do braço. Gricha, de terror, congela todo, e olha interrogativo para a ama: não é perigoso? Mas a ama não corre nem chora, logo, não é perigoso. Gricha segue os soldados com os olhos e começa ele próprio a andar conforme o compasso.

Pelo bulevar, vão correndo dois grandes gatos de focinho comprido, com a língua de fora e o rabo empinado. Gricha acha que também deve correr, e sai correndo atrás dos gatos.

– Espera aí! – grita-lhe a ama, segurando-o bruscamente pelos ombros. – Aonde pensa que vai? Quem foi que mandou você aprontar?

Eis que uma outra ama está sentada e segura uma pequena tina de laranjas. Gricha passa ao seu lado e, em silêncio, pega uma laranja para si.

– Para que isso? – grita-lhe a sua acompanhante, estapeando sua mão e arrancando dela a laranja. – Imbecil!

Agora Gricha poderia pegar com prazer um vidrinho caído debaixo dos seus pés, brilhante como a lamparina, mas tem medo que lhe batam de novo na mão.

– Meus cumprimentos! – súbito ouve Gricha, quase que em sua orelha, a voz forte e grossa de alguém, e enxerga uma pessoa alta com botões claros.

Para sua grande alegria, essa pessoa dá a mão à ama, se detém junto a ela e começa a conversar. O brilho do sol, o barulho das carruagens, os cavalos, os botões claros – tudo isso é tão surpreendentemente novo e pouco assustador, que a alma de Gricha se enche de um sentimento de regozijo e ele começa a gargalhar.

– Vamos! Vamos! – grita à pessoa de botões brilhantes, puxando-a pela aba.

– Vamos aonde? – pergunta a pessoa.

– Vamos! – insiste Gricha.

Tinha vontade de dizer que não seria nada mal também arrastar consigo papai, mamãe e o gatinho, mas a língua fala tudo menos o que deve.

Após certa espera, a ama deixa o bulevar e leva Gricha a um grande pátio, onde ainda há neve. Também a pessoa dos botões claros vai com eles. Contornam com cuidado poças e blocos de neve, passam por uma escada suja e escura e entram em um cômodo. Ali há muita fumaça, o ar é quente e uma mulher está junto ao fogão fritando croquetes. A cozinheira e a ama se beijam e se sentam com a pessoa num banco, e começam a falar baixinho. Gricha, todo encapotado, sente um calor e uma falta de ar insuportáveis.

“Por que isso?” pensa, olhando ao redor.

Vê o teto escuro, o atiçador com dois chifres, o fogão que parece uma enorme toca negra…

– Ma-a-mã! – diz, arrastando a voz.

– É, é, é! – grita a ama – Vai esperar!

A cozinheira põe sobre a mesa uma garrafa, dois cálices e uma torta. As duas mulheres e a pessoa de botões claros brindam e bebem algumas vezes, e a pessoa abraça ora a ama, ora a cozinheira. E depois o trio inteiro começa a cantar baixinho.

Gricha se estica até a torta, e lhe dão um pedacinho. Ele come e observa como a ama bebe. Também tem vontade de beber.

– Dá! Ama, dá!

A cozinheira lhe dá um golinho de seu cálice. Ele esbugalha os olhos, franze todo, tosse e depois agita longamente as mãos, enquanto a cozinheira olha para ele, rindo.

Ao voltar para casa, Gricha começa a contar a mamãe, às paredes e à cama, onde foi que esteve e o que foi que viu. Fala mais com rosto e com as mãos do que com a língua. Mostra como brilha o sol, como correm os cavalos, como se parece o terrível fogão e como a cozinheira bebe…

À noite, não consegue de jeito nenhum adormecer. Soldados com vassouras, gatos enormes, cavalos, o vidrinho, a tina com laranjas, os botões claros – tudo isso se ajuntou em uma massa, apertando o seu cérebro. Ele vira de um lado para o outro, agita-se e por fim, não suportando sua própria excitação, começa a chorar.

– Mas você está ardendo! – diz mamãe, encostando a mão em sua testa. – De onde é que isso pode ter vindo?

– Fogão! – chora Gricha – Sai, fogão!

– Deve ter comido demais…. – conclui a mamãe.

E Gricha, sufocado pelas impressões da vida nova, e recém experimentada, recebe da mamãe uma colherinha de xarope.

*

[1] Diminutivo de Grigori.


Pedro Augusto Pinto

é paulista nascido em 1992 e trabalha como tradutor e pesquisador da literatura russa. Traduziu textos de Tchékhov, de Gógol e sobretudo de Liérmontov, cujos maiores poemas traduziu ao português pela primeira vez (alguns publicados pelo jornal Rascunho), recebendo menção honrosa pelo seu trabalho em alguns eventos acadêmicos. Em 2018, publicou pela editora 7 Letras seu primeiro livro de poesia, Um bicho de circo, que teve alguns de seus poemas publicados nas revistas Lavoura e Ruído Manifesto.

4 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Ficções. Dossiê: Copa Russa. Index: Anton Tchékhov, Pedro Augusto Pinto. Publicação: Luan Maitan. Esse conto foi originalmente publicado no volume Os russos, antologia de literatura russa da editora Hedra. Sua publicação na Vigília é fruto de parceria com a editora.