Hora de football

Uma crônica de João do Rio

É o novo ground.[1] O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma. Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça quando um dos meninos arranjava um haltere. Estava perdido. Rapaz sem pincenez,[2] sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era homem estragado.

E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports. O Flamengo era o parapeito sobre o mar. A sede do club estava a dois passos da casa de Júlio Furtado, que protetoramente amparava o delírio muscular da rapaziada. As pessoas graves olhavam “aquilo” a princípio com susto. O povo encheu-se de simpatia. E os rapazes passavam de calção e camisa-de-meia dentro do mar a manhã inteira e a noite inteira.

Então, de repente, veio outro club, depois outro, mais outro, enfim, uma porção. O Boqueirão, a Misericórdia, Botafogo, Icaraí, estavam cheios de centros de regatas. Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing,[3] era a paixão dos sports. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos. Faltava apenas a sagração de um poeta. Olavo Bilac escreveu a sua celebrada ode “Salamina”.

– Rapazes, foi assim que os gregos venceram em Salamina! Depois disso, há dezesseis anos, o Rio compreendeu definitivamente a necessidade dos exercícios, e o entusiasmo pelo football, pelo tennis, por todos os outros jogos – sem diminuir o da natação e das regatas – é o único entusiasmo latente do carioca. Rendamos homenagem às Regatas do Flamengo!

O meu velho amigo, fraco e pálido, falava com ardor. Interrompeu-se para tossir. Continuou:

– Pois é este club que inaugura hoje o seu campo de jogos. Haverá acontecimento maior? O Rio estará todo inteiro ali… – Engasgou-se.

O automóvel que passara a correr pelo palácio de José Carlos Rodrigues, onde se realizava a primeira recepção do inverno do ilustre jornalista, estacara. Estávamos à porta do novo campo de jogos. E o meu velho amigo precipita-se. A custo acompanhei-o por entre a multidão e, imprensado, quase esmagado, icei-me à arquibancada. Mas o aspecto era tal na sua duplicidade, que logo eu não soube se devia olhar o jogo do campo em que Galo[4] triunfava ou se devia comover-me diante do frenesi romano da multidão.

Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football! Tenho assistido a meetings[5] colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes gestas de saúde, de força e de ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo, o entusiasmo, a ebriez da multidão assim. Só pensando em antigas leituras, só recordando o Coliseu de Roma e o Hipódromo de Bizâncio.[6]

O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano, era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo.

– Está uma arquibancada estupenda! – murmurou-me Isaac Elbas.

Pinto Lima, no outro extremo, com as duas gentilíssimas filhas, dizia-me adeus, e o dr. Arnaldo Guinle, do Fluminense, parecia almejar a vitória do Fluminense.[7]

Os gritos, as exclamações cruzavam-se numa balbúrdia. Os jogadores destacavam-se mais na luz do ocaso. E de todos os lados subia o clamor da turba, um clamor de circo romano, um clamor de Hipódromo no tempo em que era basilissa Teodora, a maravilhosa…[8]

Nervoso, agitado, sem querer, ia também gritar por Galo, que vencia e que eu via pela primeira vez. Mas o delírio chegara ao auge. O meu velho amigo dizia, quase desmaiado:

– Venceu o Flamengo num score[9] de quatro a um…

À porta quinhentos automóveis buzinavam, bufavam, sirenavam. E as duas portas do campo golfavam para a frente do Guanabara mais de seis mil pessoas arrasadas da emoção paroxismada do football.

 

*

 

[1] Novo ground = novo campo.

[2] Pince-nez = pincenê (óculos sem haste), em francês.

[3] Rowing = remo.

[4] Referência ao jogador Armando de Almeida, o “Galo”, veterano dos primeiros times do Flamengo.

[5] Meetings = encontros. Neste caso, encontros esportivos.

[6] Hipódromo de Constantinopla, onde se realizavam grandes espetáculos para o povo.

[7] A sede do Clube Fluminense fora construída na chácara do empresário Arnaldo Guinle, nas Laranjeiras.

[8] Basilissa (de “basileus”, título usado pelos imperadores bizantinos) Teodora = mulher do Imperador Justiniano I (527-565), cujo reinado assinalou um dos períodos mais brilhantes da história bizantina e que teve grande influência de Teodora.

[9] Score = escore, contagem.


João do Rio

viveu entre 1881 e 1921 no Rio de Janeiro. Jornalista, ingressando na imprensa ainda moço, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou Paulo Barreto, logo se tornou célebre com o pseudônimo. Sua atividade, febril, abarcou os mais diversos rumos. Em reportagens, entrevistas e ensaios, nos deu as tendências literárias da época, o panorama das religiões primitivas cariocas, ou a galeria das figuras de uma conferência de paz. Talvez esse cunho documental seja o mais importante do seu legado.

15 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Dossiê: Copa russa. Index: João do Rio. Publicação: Luan Maitan, Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.