Leitor clássico, leitor moderno

Notas sobre leitores

POR CAIQUE ZEN


Lá pelas tantas, em O jogo da amarelinha, Horacio Oliveira prende ao abajur de seu quarto um punhado de folhas secas colhidas no Quai des Celéstins em um de seus passeios. Terminado o arranjo, dois amigos o visitam: Ossip, que fica por duas horas e sequer olha para o abajur, e Etienne, que examina as folhas e se entusiasma com tanta beleza: “Durer, as nervuras, etcétera”.

Tomado pelo espanto ao constatar a disparidade das percepções, Oliveira compara o homem a “uma simples ameba que estende pseudópodes para alcançar e envolver os seus alimentos”, um ser necessariamente limitado, condenado a perceber somente uma parcela restrita da realidade e a ignorar folhas e abajures pela vida afora. Segundo Holiveira, existiriam “pseudópodes compridos e curtos, movimentos, rodeios”, modos variados de interagir com o mundo que nos rodeia, todos insuficientes.

Os efeitos desta limitação fundamental, inerente à condição humana, são entretanto bastante diversos, a depender da personalidade de cada sujeito. E é aqui que chegamos à distinção, apenas sugerida por Cortázar, entre leitores clássicos e modernos (questão especificamente literária, mas que, ao mesmo tempo, pode nos servir de metáfora mais ampla para dois modos diversos de ser e estar no mundo).

Comecemos pela figura do leitor clássico, exemplarmente encarnado por Goethe, que, por escolha ou aptidão, forma parte do grupo seleto de amebas “com os pseudópodes estendidos ao máximo em todas as direções”, amebas que abrangem com um diâmetro uniforme a totalidade de uma área e “não parecem precisar desejar aquilo que começa (ou continua) mais além da sua enorme esfera”.

Espécie de latifundiário do intelecto, o leitor clássico cerca um terreno de grandes proporções e, ignorando deliberadamente aquilo que está para além de sua propriedade, se empenha em levar à perfeição o conhecimento de cada centímetro de seu quinhão de terra. O leitor clássico é quase sempre um erudito, alguém profundamente convencido de que a arte é longa, a vida breve, e é preciso determinar, segundo parâmetros muito bem definidos, o que vale ou não a pena ser lido.

Thoreau, amante dos antigos e detrator do romance, o eremita que parte para os bosques levando consigo apenas um livro (a Ilíada de Homero, no original) é quem nos fornece, em um dos melhores capítulos de Walden, um bom exemplo da tomada de posição do leitor clássico frente à aparente abundância da literatura: “Só é leitura em sentido elevado, não aquela que nos embala como um luxo e permite que as faculdades mais nobres adormeçam, e sim aquela que temos de ficar na ponta dos pés para ler e à qual devotamos nossas horas mais despertas e alertas. Penso que, tendo aprendido as letras, deveríamos ler o que há de melhor na literatura, e não ficar eternamente repetindo nossos bê-a-bás e monossílabos, no quarto ou quinto ano, sentados a vida inteira nos bancos mais baixos da fila da frente”.

É esta também a postura de Proust (leitor clássico, escritor moderno), que coloca na boca do esnobe Swann (todo leitor clássico é, no fundo, um esnobe) a mais lapidar das imprecações contra a banalidade dos jornais: “O que censuro aos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. De vez que rasgamos febrilmente cada manhã a faixa do jornal, deviam-se mudar as coisas e pôr no jornal digamos… os Pensamentos de Pascal! E no volume de corte dourado que só abrimos uma vez a cada dez anos é que leríamos que a rainha da Grécia foi a Cannes, ou que a princesa de León deu um baile à fantasia. Com isto, estaria restabelecida a justa proporção”.

E também a postura de Flaubert (ao que tudo indica, um leitor clássico frustrado): “Que sábios seríamos se conhecêssemos bem apenas cinco ou seis livros!”.

O leitor moderno, por sua vez, jamais se contentaria com cinco ou seis livros, e provavelmente morreria de inanição em uma cabana isolada em que tivesse acesso apenas à Ilíada, no original. (O leitor moderno, ademais, seria incapaz de decifrar sequer um verso em grego clássico).

Para o leitor moderno, como escreveu Cortázar, “o desconhecido aproxima-se por todos os lados. Posso saber muito ou viver muito num sentido determinado, mas então o outro se aproxima pelo lado das minhas carências e arranha-me a cabeça com a sua unha fria. O pior é que me arranha quando não está me picando, e, na hora da comichão – quando eu desejaria conhecer –, tudo o que me rodeia encontra-se tão firme, tão situado, tão completo e maciço etiquetado, que chego a pensar que estava sonhando, que estou bem assim, que me defendo bastante bem e que não devo deixar-me levar pela imaginação”.

Sempre angustiado, às voltas com seus pseudópodes curtos demais, o leitor moderno é um ser consciente, talvez até demais, de sua própria pobreza. Quiçá o único leitor possível em tempos de internet, o leitor moderno sente que “há linhas de ar em volta da sua cabeça, do seu olhar, zonas de detenção dos seus olhos” que se impõem como miragens que tenta, mas jamais consegue atravessar. O leitor moderno sonha em ler a Odisseia enquanto lê Ulysses e sonha em ler Ulysses enquanto lê a Odisseia. Sabe que enquanto lê Joyce está “sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa, etc.”, como um espectador de televisão que, ao assistir ao programa A na emissora B deve lidar com a sensação angustiante de que um programa C, muito mais interessante ou divertido que A, está passando neste exato momento em outra emissora.

Em suas piores versões, o leitor moderno é quase sempre um melancólico, um suicida em potencial. Em suas melhores versões, aceita com estoicismo sua vocação à inquietude, assumindo sobriamente o trabalho de Sísifo que é a leitura.

Se o leitor clássico pode ser visto como um latifundiário do intelecto, o leitor moderno seria um expansionista, um tipo benigno de imperialista que, como Cecil Rhodes, anexaria as estrelas, se pudesse. Para o leitor moderno, a literatura é um grande mapa, um território a ser conquistado, ainda que a vida seja curta demais para isso. Como um rizoma deleuziano (leitores clássicos, quem sabe com razão, ignorariam Deleuze), procedem os leitores modernos “por variação, expansão, conquista, captura, picada”.

Aqui, Roberto Bolaño, com seu desejo infinito de expansão, pode nos servir de modelo. Em sua última entrevista, ao ser perguntado sobre quem lê mais, ele ou seu amigo Rodrigo Fresán, Bolaño responde: “Depende. O Oeste é para o Rodrigo. O Leste, para mim. Logo contamos um ao outro os livros de nossas áreas correspondentes e acaba parecendo que lemos tudo”.

A metáfora geográfica vem bem a calhar, e, de fato, Bolaño nos dá a impressão de ter lido todos os livros do mundo. O que mais impressiona, porém, é que não deixe transparecer, em nenhum momento, o desespero impotente de um Oliveira. Como um fleumático jogador de War, vai pouco a pouco ganhando terreno, avançando com firmeza, lendo tudo o que lhe cai nas mãos, de obras canônicas à ficção científica, de poesia modernista a romances policiais (ao leitor moderno, tudo vale a pena se a alma não é pequena).

O famoso verso de Mallarmé – “A carne é triste, sim, e eu li todos os livros” –  talvez nos ajude a compreender o expansionismo apaziguado de Bolaño. Em Os detetives selvagens, María Teresa Solsona Ribot e Arturo Belano (ela, uma fisioculturista; ele, um poeta, alterego do próprio autor) discutem o significado do verso e sua pertinência. Seria mesmo possível que Mallarmé tivesse lido todos os livros? E quanto à tristeza da carne, o que é que queria dizer com isso? Teria Mallarmé se deitado com todas as mulheres do mundo?

Para María Teresa, o poema é um autêntico disparate, e o “fulano” que o escreveu, presume, deve ter se deitado com pouquíssimas mulheres. E, seguramente, tampouco chegou a ler tantos livros como imaginava.

Frente ao ceticismo de María, Arturo Belano se limita a rir e dizer que sim, é possível ler todos os livros e fazer amor com todas as mulheres. E, dito isso, Belano se cala, num silêncio típico dos personagens bolañescos. Depreende-se, porém, que para o poeta real visceralista, a literatura é uma só, e todos os livros, no que pese a aparente diversidade, contam as mesmas histórias, abordam os mesmos temas e formam parte de uma única tradição. (Por isso, diga-se de passagem, recusou Bolaño com tanta veemência a ideia provinciana de uma literatura nacional.)

Segundo tal concepção, baseada fortemente na ideia de “literatura universal”, todo livro é um-livro-a-mais, e toda leitura, uma releitura, a surpreendente descoberta de verdades já conhecidas, porém pouco lembradas. E é só a partir dessa consciência (a consciência de que a literatura não é um conjunto de textos, e sim um único texto de proporções colossais) que se pode lidar com a angustiante ausência dos livros que jamais leremos: “Os livros são finitos” – diz Bolaño, em “Literatura+enfermedad=enfermedad” – “os encontros sexuais são finitos, mas o desejo de ler e de foder é infinito, ultrapassa nossa própria morte, nossos medos, nossas esperanças de paz”.

Bolaño, é claro, remete a Borges e sua visão de literatura: a obsessão pelo infinito, pelo retorno do mesmo, pelos indícios de uma eternidade que revelaria a falsidade da progressão linear do tempo histórico. Também Borges leu todos os livros e se deitou com todas as mulheres (com Matilde Urbach, até), pois livros, homens e mulheres são meras manifestações daquilo que é, foi e será.

E a simples menção ao Mestre faz vacilar todos os esquemas: seria Borges um leitor clássico ou moderno?

A resposta é: Borges, que se orgulhava mais dos livros que leu do que da obra que escreveu, foi um leitor clássico e moderno, reunindo o que há de melhor nos dois modos de leitura.

Como bom leitor clássico, Borges seleciona com mão de ferro suas leituras, cercando escrupulosamente o grande terreno que transformará em propriedade. Mas, como bom leitor moderno, pressente que o desconhecido se aproxima por todos os lados e que todo terreno, por maior que seja, esconde para além de seus limites uma extensão infinita a ser explorada. Pois, ainda que Borges, como bem percebeu Ricardo Piglia, leia isolado em uma enorme biblioteca, cercado pelas obras-primas que elegeu por companhia, há sempre a sensação levemente incômoda de que algo lhe falta: “uma citação que se extraviou, uma página que se espera encontrar e que está em algum outro lugar”.

A concentração do erudito é contagiada uma e outra vez pela dispersão, pelo desejo insatisfeito. Em um ambiente clássico, Borges lê como um moderno; em um ambiente moderno, lê como um clássico (vide a famigerada cena de leitura em que Borges, dia após dia, sacrifica sua vista para ler A Comédia no bonde, a caminho do trabalho, decifrando com absorção mística o italiano de Dante).

E, sendo clássico, Borges inaugura a tradição moderna de um leitor que se move “perante o infinito e a proliferação”. Não mais o leitor monogâmico, que dedica toda a sua atenção e libido a um único livro, “mas o leitor perdido numa rede de signos”, abrindo abas e mais abas em seu navegador.

Ou, nos termos das metáforas aqui propostas, Borges anda por seu latifúndio como um nômade, explorando os limites de sua biblioteca com a ânsia expansionista de leitores da estirpe de um Bolaño.

Selvagem, saído de um sonho, um tigre caminha, com elegância irrepreensível, pelos labirintos da biblioteca…