nada ter nas mãos

5 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam o tempo,
o corpo e a febre
e o que medi-los

 

 

arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já nem existe.

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

 

 

homem: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse homem que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

 

 

(umbrosos verdes arbustos,
os cães,
farfalhantes os cães em seus campos de preás Baleias todos eles
farfalhante o tempo também, e até
suspenso de sua roda habitual
sobre arbustos,
ausente nos cães sob arbustos, umbrosos cães felizes
e o bicho-homem olha, semiparticipante
provisório e terrivelmente humano, mas
feliz.)

Na chácara com Pedrito, 7-1-2017

 

 

abrir a portaedarcomou-
tra porta e darcomoutr-
a e
até não haver mais porta e muro e abrir e mão

 

Matheus Guménin Barreto (1992) nasceu em Cuiabá, Mato Grosso. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017). Publicou em agosto de 2017 seu livro de poemas A máquina de carregar nadas pela Editora 7Letras. E-mail para contato: matheusgumenin@hotmail.com.

23 de novembro, 2017
Categoria: Poesia
 Tags: Matheus Guménin Barreto

Imagem de capa: Mark Rothko