O dilema de Neymar

O nosso Hamlet

Neymar está para o futebol como Hamlet para a literatura. Me explico: Hamlet deve matar Cláudio, seu tio, e se vingar do pai. A missão é clara. Neymar deve ganhar o hexa e vingar o 7×1, provando que ainda podemos ser os melhores em alguma coisa, ainda que haja algo de podre no reino da Dinamarca. A missão é clara.

Mas tanto Hamlet quanto Neymar estão perdidos no prodigioso mundo de suas cabeças. Hamlet perdido em elucubrações sobre tudo e sobre todos – a natureza humana, a vida e a morte, o suicídio. Neymar perdido entre parças, penteados excêntricos e interesses monetários. Um perfeito pós-humano, movido mais a likes e views do que a dribles e gols.
Quatro séculos depois de Shakespeare, a hipertrofia da consciência que fazia Hamlet protelar a vingança do pai pode acabar com o futebol de Neymar. Pois para jogar bola ou matar o tio é preciso deixar a autoconsciência em casa. Dentro das quatro linhas, por noventa minutos, não há espaço para o ego nem tempo para pensar em fazer história.

Todo grande atleta, em seus melhores momentos, parece experimentar a absorção mística de um monge tibetano em plena meditação. Falo de iluminados como Federer e Nadal, capazes de aniquilar o ego e manter a concentração durante horas, ou de Bolt e Phelps, que fazem o mesmo, mas de forma ainda mais intensa, por alguns segundos. Para esses bodhisattvas, no momento sagrado da competição, há mente mas não há mente, há corpo mas não há corpo. Numa Copa do Mundo, cultivar um estado parecido de transcendência é essencial.

Mais além do desempenho esportivo, vale lembrar que a autoconsciência exacerbada de Neymar vai contra seus próprios interesses. É sabido que o jogador aspira ao cargo de embaixador universal e legítimo herdeiro da linhagem do “futebol-moleque”, cujos grandes santos padroeiros são Garrincha e, mais recentemente, Ronaldinho Gaúcho. Mas, ao agir em campo de acordo com uma semiótica pensada em seus mínimos detalhes (da carretilha para a galera do Youtube à comemoração-com-recado-para-os-detratores), Neymar parece ignorar que o grande atributo dessa discutível abstração chamada “futebol-moleque” sempre foi a espontaneidade.

E vejam: quando se fala no fla-flu entre admiradores e críticos de Neymar, há muito mais em jogo do que parece. O futebol, como bem sabem os sociólogos, define nossa identidade. E quando Neymar degrada o refinado senso estético do “futebol-moleque” com firulas inócuas e confunde inteligência com malandragem, toda a imagem de um povo é manchada aos olhos do mundo. Pode parecer exagero, mas é assim que nos sentimos, ofendidos em nosso já maltratado senso de nacionalidade.

Mergulhado em sua autoficção, Neymar tira de nós, brasileiros, a possibilidade de amar alguém que mostre ao mundo que existimos. Daí as paixões que envolvem seu nome, do ódio ao amor.

Hoje, jogamos contra a Sérvia. Neymar talvez se esqueça de si mesmo e mostre o que o levou à Rússia. Veremos. Até lá, somos o Brasil de Coutinho. Sem Hamlet.


Caique Zen

Coeditor.

27 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index: William Shakespeare. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.