O salto de Franz Reichelt

Notas sobre estreias e abismos

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Quando algo estreia, deixa de ser apenas potência – condição comum a tudo o que não foi – e passa a ganhar existência, dura, irrevogável. Quando um autor estreia, deixa de ser aquele que gosta de escrever e passa a ser aquele que escreve.

O lançamento do primeiro livro é o rito de passagem a uma espécie de maioridade – fase em que alguém se torna para sempre penalmente imputável, estando ou não maduro para tal carga. Essa passagem provoca duas coisas incontornáveis: a primeira, todas as leituras que o escritor não concebeu; a segunda, todas as críticas distanciadas, os olhares inquisidores do julgamento. O jovem escritor (na maioria dos casos) se coloca com ímpeto e sem conhecimento ao lado de tantas e variadas estaturas na selva implacável da autoria.

Estrear guarda uma violência sob a forma leve do verbo. É sempre um salto, e é preciso ter brio para dá-lo. Mas coragem só não basta.

 

[2]

O alfaiate austríaco Franz Reichelt costurou uma roupa que – na fronteira entre a lucidez e a miragem – o faria flutuar até o solo. Havia no desejo de Reichelt ao mesmo tempo uma nobreza arcaica e um sonho ingênuo. Se a cruel natureza deu-nos cérebro suficiente para percebermos que ela não nos deu asas, então há uma conta por acertar. Nenhuma razão passa impune por um animal que sonha.

Mais que o batido domínio da natureza, o alfaiate aliava a técnica do adulto à fantasia da criança. Era um homem que havia condensado sua existência, e que portanto merecia qualquer coisa parecida com o triunfo de um pássaro. Ter seu nome nos anais da História já era uma fina ironia contra a mortalidade.

E então, aos 4 de fevereiro de 1912, em Paris, depois de tempos de sentimentos desatados, testes e recosturas, trocas de tecido, cálculos e medidas, chega o dia de pôr à prova a natureza e a coragem. Uma equipe da imprensa estava lá para registrar a passagem do mito de Ícaro à perenidade da História de Franz.

O alfaiate Franz Reichelt enfartou antes de abrir um buraco ao pé da Torre Eiffel, e deve estar saltando até agora naquele segundo. Sua obra é para sempre um modelo de falha.

 

[3]

Há os que nunca passam da estreia mas constroem uma obra, como Augusto dos Anjos, que publicou apenas o volume Eu em vida e com ele figura entre os maiores poetas da língua do século 20. Há outros que jamais estrearam mas erigiram monumentos mais perenes que o bronze: os heterônimos de Fernando Pessoa, por exemplo.

Silviano Santiago certa vez afirmou: “Nunca saberemos quem são os maiores escritores da humanidade. Ou seja, são alguns ilustres desconhecidos cujos livros foram engolidos pelo tempo. Lemos e elogiamos os melhores da média geral”.

Numa carta de 1926 a Mário de Andrade, nosso poeta maior sugere que essa ideia tem alguma razão. O sensato Drummond escreve: “Não me sinto capaz de grandes coisas, por isso também não sinto dificuldade em renunciar a executá-las. E não me queira mal, se um dia eu te escrever que rasguei o meu caderno de versos”. É claro que Mário de Andrade respondeu com feroz reprovação, pois já havia lido alguns dos poemas que mudariam a história da língua. Dali a quatro anos o mineiro lançava Alguma poesia.

Não fosse a traição de Max Brod, o mui amigo de Kafka, boa parte da obra do autor de A metamorfose e O processo (esse título, inclusive) não chegaria até nós, e quiçá seu nome também não tivesse a repercussão e a influência que teve. Kafka virou adjetivo, mas poderia ser apenas uma das incontáveis sequências de letras jamais pronunciadas.

É bem possível que amigos não traídos encerraram sua obra como se nunca a tivessem escrito. E talvez todos com a lucidez de que grandeza nenhuma poderia salvá-los.

 

[4]

Quando um filhote de pássaro salta, na ânsia do céu, ainda com asas despreparadas, torna-se no instante um pássaro que falhou no primeiro voo. E se desenha claro o seu destino: Eis um pássaro que caiu do ninho.

Certa vez, encontrei um desses desafortunados. Estava num pio incessante, envolto de mato num jardim de calçada. Ali seria presa fácil. Para poupá-lo de outro algoz, pois seu tempo já estava selado, levei-o para casa. A experiência foi transformadora. Cuidar de um selvagem, alimentá-lo e fornecer-lhe calor e abrigo até perceber o quanto isso nos liga a sua existência, tudo é de uma delicadeza inexprimível. Era sempre uma dor deixá-lo no ninho improvisado. E surpreendente notar que o bicho me reconhecia e sentia por minha presença uma necessidade brutal. Mas já não cabia à minha ingênua boa vontade e afetividade animal a existência do pequeno pássaro, ele não chegou a completar um terceiro dia nessas condições.

O outro lado da minha rua não tem casa, é um filete de terra e árvore em meio ao concreto. Eu o cobri com folhas secas ao pé da árvore que me pareceu a mais alta. Por cima das folhas, uma pedra triangular, com uma das pontas apontando para o tronco – o raio congelado que nasceu na terra e relampejou em direção ao céu. Lá estava a morte: o pássaro que nunca voou, a voz cujo canto jamais se ouviu.

 

[5]

Num lapso de fantasia, fico triste por toda luz que se apagou sem chegar às retinas, e relembro – e relembro incansavelmente – do monólogo derradeiro do replicante Roy Batty, do primeiro Blade Runner. Vale lembrar também que essa foi uma intervenção do ator Rutger Hauer, que encarnava o replicante, no texto de Phillip K. Dick então adaptado para o cinema:

Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Que angustioso exercício o de imaginar os amores eternos que desaguaram no vão do tempo – o buraco negro da trajetória. O próprio Fernando Pessoa, em seu imenso “Mar português”, lança às ondas a questão:

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

E prossegue com a mais famosa pergunta (pela mais famosa resposta) em verso da língua portuguesa: Valeu a pena?

 

[6]

E de repente sou tomado pelas ideias sem brilho do pragmatismo. A vida então é breve demais para nos dedicarmos a fantasias. Os maiores escritores da humanidade – conclui a desembriagada razão – são esses que chegaram até nós.

Mas os que chegaram até nós – insiste em mim qualquer revelação teimosa – guardam aquela coincidência brutal com os que não chegaram; há um ponto de partida onde todos os que foram e os que não foram permanecem ligados pela incurável eternidade:

Todos eles ousaram passar pela prova de Franz Reichelt.

Todos se lançaram para o abismo.


Luan Maitan

Luan Maitan

Editor.

22 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Silviano Santiago, Phillip K. Dick, Fernando Pessoa. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho.