Os centauros

Conto inédito de Luis Dolhnikoff


Todos os fins de tarde, na volta do escritório, ele parava de pé ao lado dela, deitada em um divã, e observava demoradamente a pele pálida, quase translúcida, dos seus seios. Fazia já três meses. Tempo insuficiente para descobrir se a fisiologia da fome levara o bebê a acordar repetidas vezes, à noite e de dia, de modo a que a rotina afinal estabelecida fizesse com que a amamentação do final de tarde por acaso coincidisse com a hora de sua chegada em casa, ou se a fisiologia e a fome foram sutilmente assim guiadas pela mãe, como os lábios do bebê para os mamilos, ou seus olhos dirigidos por si mesmos para os mamilos e o bebê.

Um dia, quando ela afastou a pequena cabeça do segundo seio, e uma gota de leite aflorou na ponta do mamilo tenso, ele pousou levemente a mão aberta sobre a gota, depois esfregou uma mão na outra, e segurou seu rosto, e se abaixou, e a beijou.

No dia seguinte, outra gota aflorou na ponta exposta do mamilo, e ele outra vez pôs devagar a palma sobre ela. Mas não levou a mão aberta à outra, e sim aos próprios lábios, enquanto, em silêncio, se olhavam.

No terceiro dia, outra gota se expôs, mas ele não moveu a mão. Abaixou a cabeça, sugou-a e, em seguida, abriu um pouco os lábios, descendo-os ao longo do mamilo úmido.

No quarto dia, ele se ajoelhou ao seu lado, aproximou os lábios do mamilo, envolveu-o e sugou seu leite pelo tempo de contrair a boca. Então o soltou, ficou de pé e sorriu. Ela sorriu também.

No quinto dia, assim que ela pôs o bebê no berço ao seu lado, segurou um seio por baixo, comprimindo-o e erguendo-o, como fazia quando o oferecia ao filho. Ele se ajoelhou e mamou por um longo tempo.

 

Logo se tornou um novo hábito. Ela amamentava o filho, depois o pai. Ele não se sentia quebrando qualquer esquecido tabu, ou desnutrindo sua maturidade. Não sentia nada de moral, incluindo a imoralidade. Na verdade, sentia somente o gosto do leite, o cheiro dela, seu calor. Ela gostava de seu homem poder ser, também, seu menino.

Um dia, ela amamentou o bebê depois do banho, vestindo um longo roupão branco. Depois de o bebê mamar, ele, que a olhava de pé ao seu lado, tirou a roupa antes de se ajoelhar.

Mamou por um momento, e então, em silêncio, sem tirar os lábios do mamilo, ergueu-se um pouco, apenas o suficiente para pôr uma perna, depois a outra, e então o resto do corpo, sobre o divã, deitando-se devagar ao lado dela. Então, em um movimento rápido, mas delicado, se virou sobre ela, e se deitou sobre seu corpo, e afastou suas pernas com as dele, e a penetrou.

 

Ela se sentiu cortada ao meio como se por uma serra elétrica. A metade de cima do seu corpo, cujas sensações convergiam todas e inteiramente para o mamilo que ele ainda sugava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções jorravam mais forte do que o leite, mas sem qualquer direção, eram as de uma mãe, de uma mãe quando mais intensamente maternal. A metade de baixo do seu corpo, cujas sensações convergiam inteiras e totalmente para a boceta que ele penetrava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções transbordavam mais intensas do que o sêmen no auge do orgasmo, e como ele em espasmos, eram as de uma fêmea, de uma fêmea quando mais repletamente feminina.

Ele, ao contrário, ao mesmo tempo o macho no ato da cópula e o bebê no gesto de sugar o seio, se fundiu em um novo ser, que era ele. Ele que fora, durante cada dia e cada noite da sua vida, uma parte dele. E se sentiu unido, reunido a si mesmo, como não se sentia desde que esquecera como era não se sentir dividido, ao adquirir a inteira consciência de si mesmo, e a quase consciência da perda.

Agora a parte perdida se reintegrava à parte mantida que ele fora, que ele era até aquele instante. Ao bebê que fora um dia, e que um dia assim conhecera o mundo, e que deixara de existir para deixar nascer o adulto que se tornaria. Ele matara devagar o que fora de início, o que ele próprio fora de início, o início dele próprio, o início, ele próprio, para se tornar lentamente outro ele, mais e menos do que havia sido. Agora tudo se reintegrava, não havia mais partes, perdas nem passado, e ele parou de pensar.

Seu cérebro se esvaziou de todo pensamento, toda palavra, toda recordação, todo desejo, e se encheu inteiramente de sensações. De tudo aquilo, e de tudo aquilo apenas, que seus sentidos lhe ofereciam naquele momento, como um animal. Tudo era calor, cor, luz, cheiro, paladar, tato, som. E nada que não fosse som, tato, paladar, cheiro, luz, cor ou calor existia. Nele, ou no mundo. Mundo que era ele, ele que era o mundo, ou, ao menos, a parte do mundo que seus sentidos introjetavam, uma parte que agora era tudo.

Então ele ejaculou, e sugou mais forte o mamilo. E se tornou um círculo, o homem e o bebê no ápice simultâneo de sua percepção de sê-lo. E o círculo que ele era se tornou um círculo com ela, lançando nela seu sêmen enquanto absorvia dela seu leite. E ela se reintegrou a si mesma, ao se tornar, plena e simultaneamente, inteiramente mãe e inteiramente fêmea. Ao se tornar, inteiramente. Enquanto, ao mesmo tempo, se dissolvia e se reintegrava no círculo dele com ele, que era o círculo dela com ela e com ele.

 

Depois de alguns segundos, ele saiu devagar, em silêncio, de dentro e de cima dela, e se deitou de novo ao seu lado. Calados, os olhos abertos, olhavam para o teto perfeitamente branco. Então, sussurrante, ela disse:

– Meu Deus.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).

25 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Ficções. Index: Luis DolhnikoffPublicação: Luan Maitan. Imagem de capa: Battle Between the Lapiths and Centaurs, de Luca Giordano (1634-1705). Este conto faz parte do volume inédito Depois do sol.