Os escritores e o futebol

Do repúdio à paixão, a bola e as letras

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Machado de Assis não escreveu sobre futebol. O ludopédio ainda não havia se alastrado pelo país enquanto viveu o Bruxo. Sua estética do drible, no entanto, prenuncia Garrincha. O vai e vem dos romances machadianos, com direito a piparotes no leitor, é o mais perfeito correlato linguístico do vai e vem do Anjo das Pernas Tortas, que chegava a retardar o gol para dar meia-volta e driblar novamente o marcador já caído. Garrincha, além do mais, teve sua vida escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Ninguém encarnou melhor do que ele a frase de Paulo Prado sobre o Brasil e os brasileiros: “Numa terra radiante vive um povo triste”. Seu estilo foi o de Machado, mas a sua biografia trágica foi a de um Lima Barreto. E diga-se de passagem: goste ou não de futebol, quem não leu a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, Estrela solitária, está perdendo tempo.

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Mas Lima Barreto odiava o futebol, chegando a fazer parte de uma liga contra o esporte bretão. Apesar dessa aversão, Lima nos ensinou a ver mais do que a bola, pensando o futebol para além das quatro linhas. O elitismo, a violência e o racismo que apontava no ludopédio de seu tempo certamente estavam lá, como estão no futebol de hoje. O que Lima diria da transformação de nossos estádios em arenas, da selvageria de nossas torcidas e do embranquecimento de nossos craques?

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A aversão de nosso Lima ao futebol lembra a aversão do argentino Jorge Luis Borges, que teria sido um grande torcedor do River Plate e um cronista esportivo para a eternidade, ao melhor estilo Nelson, se tivesse se deixado arrebatar pela magia. “O futebol é popular porque a estupidez é popular”, disse certa vez, e aos 79 anos chegou a cometer a heresia de dar uma conferência sobre a Imortalidade no exato momento em que a seleção argentina abria a Copa de 78, sediada no país.

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Como metáfora futebolística, a conferência de Borges foi um perfeito gol contra. E aqui chegamos a Bolaño, torcedor do extinto Ferrobádminton, no Chile (pode haver algo mais bolañesco do que torcer para um time extinto?), e do Barcelona, na Espanha: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro”.

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Mas voltemos aos escritores brasileiros. Graciliano Ramos, em 1921, pensava que o futebol não vingaria. No litoral, até podia ser; mas no sertão, terra avessa a estrangeirismos, nem um mês duraria a moda.

Mário e Oswald de Andrade, até onde sei, deram pouco bola ao ludopédio. Uma pena. Mas seus sucessores modernistas não deixaram barato.

Os textos sobre futebol do vascaíno Drummond podem ser lidos em Quando é dia de futebol. Já João Cabral de Melo Neto foi meia do time juvenil do Santa Cruz e escreveu belíssimos poemas que giram em torno do futebol. Nesses poemas – que espero um dia sejam publicados em conjunto, em forma de plaquette – João Cabral faz na poesia o que Nelson fez na crônica.

Rachel de Queiroz, vascaína como Drummond, também escreveu sobre o futebol. E Clarice Lispector tem um conto, “À procura de uma dignidade”, que se passa nos subterrâneos do Maracanã.

Há certamente vários outros escritores que se debruçaram sobre o ludopédio, e há também jogadores que se aventuraram pelas letras. Mas meu repertório literário sempre foi menor que meu repertório futebolístico, e deixo ao leitor o prazer da pesquisa.

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E, por fim, Nelson Rodrigues, o Pelé da crônica esportiva (sem esquecer de seu irmão, Mário Filho, que devemos louvar todos os dias). As mil melhores frases já escritas sobre futebol saíram da pena de Nelson. A melhor delas resume todo o futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

O que seria de Borges se tivesse lido em um jornal essa frase?


Caique Zen

Coeditor.