Poemas para meu filho

De Roberto Bolaño, como o lema de um bando invicto de gângsteres

Lê os velhos poetas

Lê os velhos poetas, meu filho
e não te arrependerás
Entre as teias de aranha e a madeira apodrecida
de barcos encalhados no Purgatório
ali estão eles
cantando!
heroicos e ridículos!
Os velhos poetas
Palpitantes em suas oferendas
Nômades partidos ao meio e ofertados
ao Nada!
(mas não, não é no Nada onde eles vivem
e sim nos Sonhos)
Lê os velhos poetas
e cuida de seus livros
Esse é um dos poucos conselhos
que pode dar este teu pai

*

Biblioteca

Livros que compro
Entre as estranhas chuvas
E o calor
De 1992
Livros que já li
Ou que jamais lerei
Livros para meu filho
A biblioteca de Lautaro
Que deverá resistir
A outras chuvas
e outros calores infernais
– Assim, que seja este o nosso lema:
Resistam, queridos livros
Atravessem os dias como cavaleiros medievais
E cuidem do meu filho
Nos anos que hão de vir

*

Biblioteca e Lê os velhos poetas foram escritos logo depois que saí do Hospital Valle Hebrón, em Barcelona, no verão de 1992, ou talvez quando eu ainda estava ali, com os velhos de fígado destroçado, com os doentes de aids e com as garotas internadas depois de uma overdose de heroína, e que a partir de então – o pavilhão estava cheio de predicadores de todo tipo – reencontraram Deus.

São dois poemas muito simples, bastante desajeitados em sua execução e com vontade de clareza no significado. O destinatário original da mensagem é meu filho Lautaro – e estas palavras, no fundo, também são para ele. Os dois poemas recolhem não apenas bons desejos e bons conselhos. Desesperado com a perspectiva de não voltar a ver meu filho, a quem encarregar seu cuidado, se não aos livros? Simples assim: um poeta pede aos livros que amou e que lhe inquietaram proteção para seu filho nos anos que virão. No outro poema, pelo contrário, o poeta pede a seu filho que cuide dos livros no futuro. Quer dizer: que leia esses livros. Proteção mútua. Como o lema de um bando invicto de gângsteres.

Blanes, janeiro de 1993

 

—Tradução dos poemas e da nota de Roberto Bolaño por Caique Zen.


Roberto Bolaño

foi um escritor chileno (1953–2003), considerado por seus pares como o mais importante autor latino-americano de sua geração.

Caique Zen

Coeditor.

27 de março, 2018. Volume: 2Seção: Poesia Dossiê: Bolaño. Index: Roberto Bolaño. Publicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan.