Rota intermediária

4 poemas de Bobby Baq

Corresponder
ao mistério
com o canto do nariz
(que é a parte mais anônima
do rosto enquanto
registro
e do ser enquanto domínio).

Corresponder ao mistério
a partir do mínimo.

Corresponder ao mistério
como soa o que trinca no vidro,
com notas sem precisão.

Corresponder ao mistério
mesmo que ele

não.

 

 

Pra saber
que entre duas coisas
cabe uma pessoa,

entre três pessoas
talvez caiba
um sentido

e entre um e outro sentido
não fica espaço
pra mais nada:

É preciso
cair
de uma
escada.

 

 

Há semelhanças entre os quadrados
e o omitido.

A rota errada
espelhada
na correta.

A correta
espalhada pelo resto
do caminho.

Não estar com um pé em cada,
mas nas duas,
em ambas sozinho.

Através do retrovisor:

A rota intermediária
atravessa quem não veio
e aquele que já passou.

 

 

Como se fosse possível
mãos dadas
serem translúcidas,
preenchidas por transparência
se postas
sentido ao Sol.

Como se fosse possível
mãos dadas feito
concha
emprenharem de bicho
inseto
verme, líquen,
caracol.

Como se fosse possível
mãos dadas
de duas pessoas
serem toda de terceiros:

Unha, dedo
osso e pelo.
Linha, toque de precisão.

 

No entanto, parece plausível
que formem outro organismo
dado à falta de abrigo
e com triplo
de visão.

 

Bobby Baq é poeta, roteirista e dramaturgo. Autor dos livros Nébula, Suspensivos e Eu findo mundo. Trabalha com o silêncio na palavra escrita e a performatividade na palavra oral. Desenvolveu experimentos cênicos com artistas de outras áreas misturando música, poesia oral e dança, além de spoken words, vídeo-poemas, colagens e algumas oficinas. Acredita na força das coisas que ainda não têm nome e trabalha para pari-las sem batizá-las.

22 de setembro, 2017
Categoria: Poesia
 Tags: Bobby Baq

Imagem de capa: Colagem de Bobby Baq