[quem vai embora]

[quem vai embora]

E outros poemas de André Oviedo

a primeira letra do seu nome
é a segunda do meu
e a terceira coincide entre ambos
era ali que nos encontrávamos
como no terceiro degrau de uma pequena escada
das que se usam para trocar uma lâmpada
aguar as plantas penduradas no teto
ou guardar as compras nos armários mais altos
e então descobrir com alguma surpresa
aquela geleia deliciosa
que não sabíamos onde tinha ido parar

*

penso no que já não está aqui
muito mais demoradamente
do que quando estava
como se a ausência
pregasse no tempo a coisa perdida
e tornasse possível observar
tudo se apurando
à medida em que se afasta
numa espécie de quadro movediço

*

 Alguma coisa acontece em uma região de mim da qual estou ausente
Paul Valéry

me surpreendo
quando em mim acontece algo
justamente em um ponto
para onde eu não estava olhando
uma área até então desconhecida
ou muito pouco habitada
é como se o que acontece
quisesse acontecer em paz
quisesse justamente me surpreender
então me surpreendo
e durante um breve momento
nos olhamos com certa expressão
de dever cumprido

*

quem vai embora
se parece muito pouco consigo mesmo
enquanto estava aqui
os olhos aparentam estar mais fechados
como se ventasse muito
as mãos descobrem uma vocação
infalível para o aceno
o jeito de andar revela
um passo rápido antes desconhecido
aos poucos as semelhanças
vão se abreviando
feito um grande nome
que mais precisa caber num documento
do que nomear o sujeito
no final fica talvez
apenas um ingresso de show
esquecido num bolso
ou o trem
que não alcançamos aquele dia

*

Joan Brossa
deixava as cartas urgentes
para amanhã
pois seriam mais urgentes ainda
o que ele esqueceu
é que as cartas mais urgentes
são as que nunca chegaram


André Oviedo

é de São Paulo e nasceu em 1989. É autor de Formol (selo doburro, 2014), corpo do poema (independente, 2017) e do zine Meditations over distance (independente, 2018).

24 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Poesia. Index: André Oviedo, Paul ValéryPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: Ballygunge Station, de Rohit Munshi.