As felicidades de Mário de Andrade

As felicidades de Mário de Andrade

Confissões a Manuel Bandeira e Newton Freitas

Mário de Andrade é um dos pilares em que se assenta o modernismo brasileiro. Sem ele, a história das artes brasileiras no século XX seria outra. A primeira e maior biblioteca de São Paulo é batizada com o seu nome, e lá há um busto do escritor na entrada principal. Em frente ao prédio da biblioteca, uma estátua imponente de Luís Vaz de Camões, símbolo que sustenta a tradição que o paulistano guardou em sua força motriz de modernização da literatura em língua portuguesa.

Muito já se disse sobre Mário, inclusive sobre sua suposta homossexualidade, porque a sexualidade ainda gera mais interesse que a obra.  Mas não é raro ouvir que sua obra talvez tenha tido, de fato, menor importância que suas interlocuções. A correspondência com Carlos Drummond de Andrade é documento de valor inestimável para a história de nossa literatura, e talvez o futuro dê maior destaque às cartas que a Macunaíma ou a Pauliceia desvairada. Mário foi também um crítico que filtrou e expôs aos leitores o que de melhor estava sendo feito em seu tempo. Ele encarna, parece-me, a figura de um deus-mensageiro sem o qual jamais seríamos o que somos; a arquitetura precisa de uma obra em infindável execução.

As suas correspondências não nos contam apenas sobre sua época, mas nos dão acesso a uma intimidade ao mesmo tempo pujante e sombria: a humanidade intensa que o autor desdobrava minuciosamente em sua trajetória. Transcrevo abaixo dois recortes desse mapa subjetivo que dizem respeito a uma das maiores questões do pensamento: a felicidade. E Mário de Andrade nos lega, com a mão pesada de sua sensibilidade, verdadeiros tesouros em forma de confissão.

 

*

a Manuel Bandeira

… a bem dizer não sou feliz. Até, cá pra nós, quando você escreveu aquele artigo sobre Remate de males e me chamou de feliz, concedeu então que eu tinha a minha felicidade criada a força de muque e vontade, coisa verdadeiríssima, confesso agora a você que meio sorri, porque francamente conquistada a felicidade e posta ela em prática cotidiana principiei achando ela tão medíocre, tão mesquinha, não só egoística socialmente porque ela não invalidava as dores e compaixões minhas pra com o mundo, mas egoística ou pelo menos besta pra comigo mesmo: prova se você quiser da existência de Deus. Já andava pois com uma vontade danada de abandonar a felicidade, que hoje considero uma conquista pessoal profundamente medíocre. Não sei bem como que vou fazer, isto tudo até parece diletantismo, dança de espírito. Não é não. Estou mesmo seriamente disposto a acabar com, pelo menos com as preocupações de ventura pessoal.

 

a Newton Freitas, 16 de abril de 1944

Lhe mando meu retrato que mais gosto, mas exijo troca. Gosto mais porque marca no meu rosto os caminhos do sofrimento, você repare, cara vincada, não de rugas ainda, mas de caminhos, de ruas, praças, como uma cidade. Às vezes, quando espio esse retrato, eu me perdoo e até me vem um vago assomo de chorar. De dó. Porque ele denuncia todo o sofrimento dum homem feliz. Porque de fato desde muito cedo eu atingi a transcendência da felicidade, mas me lembro, desde 1922, a raiva desesperada em que fiquei com a besteira de Graça Aranha, em A estética da vida, confundindo a dor, o sofrimento com a infelicidade. Ao passo que é desse ano mesmo aquele meu verso dizendo que “A própria dor é uma felicidade”. Mas sucedeu o castigo. Essa transubstanciação dos sentimentos foi tão bem conseguida em mim que por muitos anos, perto de quinze anos, vivi num delírio eufórico de felicidades e de felicidade. As lutas, os insultos, os erros, as dificuldades, as derrotas (a cada derrota, eu dizia alegre: “Um a zero, vamos principiar outro jogo!”), eram pra mim motivos de tanta, não alegria, mas dinâmica de ser a superação até física, que me esqueci que sofria. Até que tiraram essa fotografia. E fiquei horrorizado de tudo o que eu sofri. Sem saber.

Mário de Andrade

Retrato de Mário de Andrade pelo fotógrafo Benedito Duarte, por volta de 1935.

A inscrição na imagem data de 1942 e é dirigida a Newton Freitas, intelectual capixaba com quem Mário trocou dezenas de cartas ao longo de 15 anos.


Mário de Andrade

(1893-1945), foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro e figura central do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Ele foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia desvairada em 1922.

Luan Maitan

é editor da Vigília.

20 de setembro, 2018 Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Luís Vaz de Camões, Manuel Bandeira, Newton Freitas. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho. Imagem de capa: Kobra.


O salto de Franz Reichelt

O salto de Franz Reichelt

Notas sobre estreias e abismos

[1]

Quando algo estreia, deixa de ser apenas potência – condição comum a tudo o que não foi – e passa a ganhar existência, dura, irrevogável. Quando um autor estreia, deixa de ser aquele que gosta de escrever e passa a ser aquele que escreve.

O lançamento do primeiro livro é o rito de passagem a uma espécie de maioridade – fase em que alguém se torna para sempre penalmente imputável, estando ou não maduro para tal carga. Essa passagem provoca duas coisas incontornáveis: a primeira, todas as leituras que o escritor não concebeu; a segunda, todas as críticas distanciadas, os olhares inquisidores do julgamento. O jovem escritor (na maioria dos casos) se coloca com ímpeto e sem conhecimento ao lado de tantas e variadas estaturas na selva implacável da autoria.

Estrear guarda uma violência sob a forma leve do verbo. É sempre um salto, e é preciso ter brio para dá-lo. Mas coragem só não basta.

 

[2]

O alfaiate austríaco Franz Reichelt costurou uma roupa que – na fronteira entre a lucidez e a miragem – o faria flutuar até o solo. Havia no desejo de Reichelt ao mesmo tempo uma nobreza arcaica e um sonho ingênuo. Se a cruel natureza deu-nos cérebro suficiente para percebermos que ela não nos deu asas, então há uma conta por acertar. Nenhuma razão passa impune por um animal que sonha.

Mais que o batido domínio da natureza, o alfaiate aliava a técnica do adulto à fantasia da criança. Era um homem que havia condensado sua existência, e que portanto merecia qualquer coisa parecida com o triunfo de um pássaro. Ter seu nome nos anais da História já era uma fina ironia contra a mortalidade.

E então, aos 4 de fevereiro de 1912, em Paris, depois de tempos de sentimentos desatados, testes e recosturas, trocas de tecido, cálculos e medidas, chega o dia de pôr à prova a natureza e a coragem. Uma equipe da imprensa estava lá para registrar a passagem do mito de Ícaro à perenidade da História de Franz.

O alfaiate Franz Reichelt enfartou antes de abrir um buraco ao pé da Torre Eiffel, e deve estar saltando até agora naquele segundo. Sua obra é para sempre um modelo de falha.

 

[3]

Há os que nunca passam da estreia mas constroem uma obra, como Augusto dos Anjos, que publicou apenas o volume Eu em vida e com ele figura entre os maiores poetas da língua do século 20. Há outros que jamais estrearam mas erigiram monumentos mais perenes que o bronze: os heterônimos de Fernando Pessoa, por exemplo.

Silviano Santiago certa vez afirmou: “Nunca saberemos quem são os maiores escritores da humanidade. Ou seja, são alguns ilustres desconhecidos cujos livros foram engolidos pelo tempo. Lemos e elogiamos os melhores da média geral”.

Numa carta de 1926 a Mário de Andrade, nosso poeta maior sugere que essa ideia tem alguma razão. O sensato Drummond escreve: “Não me sinto capaz de grandes coisas, por isso também não sinto dificuldade em renunciar a executá-las. E não me queira mal, se um dia eu te escrever que rasguei o meu caderno de versos”. É claro que Mário de Andrade respondeu com feroz reprovação, pois já havia lido alguns dos poemas que mudariam a história da língua. Dali a quatro anos o mineiro lançava Alguma poesia.

Não fosse a traição de Max Brod, o mui amigo de Kafka, boa parte da obra do autor de A metamorfose e O processo (esse título, inclusive) não chegaria até nós, e quiçá seu nome também não tivesse a repercussão e a influência que teve. Kafka virou adjetivo, mas poderia ser apenas uma das incontáveis sequências de letras jamais pronunciadas.

É bem possível que amigos não traídos encerraram sua obra como se nunca a tivessem escrito. E talvez todos com a lucidez de que grandeza nenhuma poderia salvá-los.

 

[4]

Quando um filhote de pássaro salta, na ânsia do céu, ainda com asas despreparadas, torna-se no instante um pássaro que falhou no primeiro voo. E se desenha claro o seu destino: Eis um pássaro que caiu do ninho.

Certa vez, encontrei um desses desafortunados. Estava num pio incessante, envolto de mato num jardim de calçada. Ali seria presa fácil. Para poupá-lo de outro algoz, pois seu tempo já estava selado, levei-o para casa. A experiência foi transformadora. Cuidar de um selvagem, alimentá-lo e fornecer-lhe calor e abrigo até perceber o quanto isso nos liga a sua existência, tudo é de uma delicadeza inexprimível. Era sempre uma dor deixá-lo no ninho improvisado. E surpreendente notar que o bicho me reconhecia e sentia por minha presença uma necessidade brutal. Mas já não cabia à minha ingênua boa vontade e afetividade animal a existência do pequeno pássaro, ele não chegou a completar um terceiro dia nessas condições.

O outro lado da minha rua não tem casa, é um filete de terra e árvore em meio ao concreto. Eu o cobri com folhas secas ao pé da árvore que me pareceu a mais alta. Por cima das folhas, uma pedra triangular, com uma das pontas apontando para o tronco – o raio congelado que nasceu na terra e relampejou em direção ao céu. Lá estava a morte: o pássaro que nunca voou, a voz cujo canto jamais se ouviu.

 

[5]

Num lapso de fantasia, fico triste por toda luz que se apagou sem chegar às retinas, e relembro – e relembro incansavelmente – do monólogo derradeiro do replicante Roy Batty, do primeiro Blade Runner. Vale lembrar também que essa foi uma intervenção do ator Rutger Hauer, que encarnava o replicante, no texto de Phillip K. Dick então adaptado para o cinema:

Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Que angustioso exercício o de imaginar os amores eternos que desaguaram no vão do tempo – o buraco negro da trajetória. O próprio Fernando Pessoa, em seu imenso “Mar português”, lança às ondas a questão:

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

E prossegue com a mais famosa pergunta (pela mais famosa resposta) em verso da língua portuguesa: Valeu a pena?

 

[6]

E de repente sou tomado pelas ideias sem brilho do pragmatismo. A vida então é breve demais para nos dedicarmos a fantasias. Os maiores escritores da humanidade – conclui a desembriagada razão – são esses que chegaram até nós.

Mas os que chegaram até nós – insiste em mim qualquer revelação teimosa – guardam aquela coincidência brutal com os que não chegaram; há um ponto de partida onde todos os que foram e os que não foram permanecem ligados pela incurável eternidade:

Todos eles ousaram passar pela prova de Franz Reichelt.

Todos se lançaram para o abismo.


Luan Maitan

Luan Maitan

Editor.

22 de agosto, 2018. Volume: 3. Seção: Tópicos. Index: Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Silviano Santiago, Phillip K. Dick, Fernando Pessoa. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caio Ramalho.


Os escritores e o futebol

Os escritores e o futebol

Do repúdio à paixão, a bola e as letras

[1]

Machado de Assis não escreveu sobre futebol. O ludopédio ainda não havia se alastrado pelo país enquanto viveu o Bruxo. Sua estética do drible, no entanto, prenuncia Garrincha. O vai e vem dos romances machadianos, com direito a piparotes no leitor, é o mais perfeito correlato linguístico do vai e vem do Anjo das Pernas Tortas, que chegava a retardar o gol para dar meia-volta e driblar novamente o marcador já caído. Garrincha, além do mais, teve sua vida escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Ninguém encarnou melhor do que ele a frase de Paulo Prado sobre o Brasil e os brasileiros: “Numa terra radiante vive um povo triste”. Seu estilo foi o de Machado, mas a sua biografia trágica foi a de um Lima Barreto. E diga-se de passagem: goste ou não de futebol, quem não leu a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, Estrela solitária, está perdendo tempo.

[2]

Mas Lima Barreto odiava o futebol, chegando a fazer parte de uma liga contra o esporte bretão. Apesar dessa aversão, Lima nos ensinou a ver mais do que a bola, pensando o futebol para além das quatro linhas. O elitismo, a violência e o racismo que apontava no ludopédio de seu tempo certamente estavam lá, como estão no futebol de hoje. O que Lima diria da transformação de nossos estádios em arenas, da selvageria de nossas torcidas e do embranquecimento de nossos craques?

[3]

A aversão de nosso Lima ao futebol lembra a aversão do argentino Jorge Luis Borges, que teria sido um grande torcedor do River Plate e um cronista esportivo para a eternidade, ao melhor estilo Nelson, se tivesse se deixado arrebatar pela magia. “O futebol é popular porque a estupidez é popular”, disse certa vez, e aos 79 anos chegou a cometer a heresia de dar uma conferência sobre a Imortalidade no exato momento em que a seleção argentina abria a Copa de 78, sediada no país.

[4]

Como metáfora futebolística, a conferência de Borges foi um perfeito gol contra. E aqui chegamos a Bolaño, torcedor do extinto Ferrobádminton, no Chile (pode haver algo mais bolañesco do que torcer para um time extinto?), e do Barcelona, na Espanha: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro”.

[5]

Mas voltemos aos escritores brasileiros. Graciliano Ramos, em 1921, pensava que o futebol não vingaria. No litoral, até podia ser; mas no sertão, terra avessa a estrangeirismos, nem um mês duraria a moda.

Mário e Oswald de Andrade, até onde sei, deram pouco bola ao ludopédio. Uma pena. Mas seus sucessores modernistas não deixaram barato.

Os textos sobre futebol do vascaíno Drummond podem ser lidos em Quando é dia de futebol. Já João Cabral de Melo Neto foi meia do time juvenil do Santa Cruz e escreveu belíssimos poemas que giram em torno do futebol. Nesses poemas – que espero um dia sejam publicados em conjunto, em forma de plaquette – João Cabral faz na poesia o que Nelson fez na crônica.

Rachel de Queiroz, vascaína como Drummond, também escreveu sobre o futebol. E Clarice Lispector tem um conto, “À procura de uma dignidade”, que se passa nos subterrâneos do Maracanã.

Há certamente vários outros escritores que se debruçaram sobre o ludopédio, e há também jogadores que se aventuraram pelas letras. Mas meu repertório literário sempre foi menor que meu repertório futebolístico, e deixo ao leitor o prazer da pesquisa.

[6]

E, por fim, Nelson Rodrigues, o Pelé da crônica esportiva (sem esquecer de seu irmão, Mário Filho, que devemos louvar todos os dias). As mil melhores frases já escritas sobre futebol saíram da pena de Nelson. A melhor delas resume todo o futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

O que seria de Borges se tivesse lido em um jornal essa frase?


Caique Zen

Coeditor.


O claro enigma de Tite

O claro enigma de Tite

Arcturo se deixará surpreender?

POR CAIQUE ZEN


Primeiro como tragédia, depois como farsa. Em 1950, assistimos à tragédia; em 2014, à farsa. Pois apesar dos esforços midiáticos para dar um tom trágico aos 7×1, a verdade é que não sofremos com o passeio alemão em solo pátrio. Quem ousaria um gracejo sobre o Maracanaço no calor da hora, quando um país inteiro chorava? Já em 2014, não faltaram memes, e a verdade é que muitos de nós estávamos indiferentes à Copa (isso para não falar nos secadores, que por aversão à CBF ou aos desmandos do “padrão Fifa”, torceram contra a canarinho do primeiro ao último jogo). Mas, passados quatro anos da farsa dos 7×1 e a um dia da copa, em que pé estamos?

Quanto à torcida, certamente aumentaram os votos nulos, e as ruas não respiram o clima de Copa, presente apenas nas peças publicitárias com Tite, Neymar e – pasmem! –  Dunga. A indiferença pode ser explicada pela composição do escrete, formado quase inteiramente por atletas de times estrangeiros, muitos deles sem identificação anterior com grandes clubes brasileiros, e todos destituídos do carisma fácil de um Ronaldo Fenômeno, da verve polêmica de um Romário ou do estilo pé no chão de um Cafu, 100% Jardim Irene. Neymar, manchado por inúmeras polêmicas, dentre elas o contrato de exclusividade com a Rede Globo, não é unanimidade, e diante da carência de ídolos tenta-se elevar a figura de Tite – misto de coach neurolinguista com pastor da  Universal e tecnocrata alemão – ao panteão dos deuses outrora ocupado por Pelé, Garrincha, Riva et al. E todos sabemos que, assim como a ascensão do “gestor” representa a morte da política, o primado do treinador sobre os jogadores é a derradeira pá de terra sobre o futebol.

Contribui ainda para a modorra generalizada o aviltamento da camisa amarela, outrora motivo de orgulho, usada nos protestos que levaram ao golpe de 2016. Ante o verde-amarelismo que timidamente, aqui e ali, começa a dar as caras, o macunaímico torcedor brasileiro resmunga: “Ai que preguiça!”.

Quanto à seleção, estamos mais bem preparados do que em 2014. Ainda assim, temos um dos times menos criativos de nossa história, sem um meia que possa, em um passe de mágica, mudar a história de um jogo, e a “neymardependência” de que falam os especialistas é tão real quanto a alta da inflação, a queda do PIB e os 13,4 milhões de desempregados.

A verdade, com o perdão da obviedade, é que podemos ganhar ou perder a copa. Se ganharmos, ganharemos sem o brilho dos três primeiros títulos, quando jogávamos e encantávamos. E se perdermos, perderemos sem a grandeza trágica de 50 ou 82. Perderemos discretamente, como em 2010, ou ganharemos pragmáticos, como em 94, com Neymar fazendo as vezes de Romário.

Estamos longe de 1970, quando Pasolini, após os 4×1 do Brasil sobre a Itália, propunha a distinção entre futebol de prosa e futebol de poesia: “Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol”. Naqueles tempos, nos contrapúnhamos ao esquema de retranca e triangulação italiano, abertos ao inesperado e à subversão prazerosa da linguagem futebolística. Hoje, nos inspiramos na prosa europeia.

Tite já revelou seu sonho de treinar um time italiano e, não por acaso, a palavra “triangulação” é um dos trending topics de seu vocabulário (o termo “retranca”, é claro, está vetado). “Poesia é risco”, como disse Augusto de Campos, e não estamos dispostos a correr riscos após os 7×1.

Por fim, para terminar em poesia ao menos aqui, encerro este texto à toa, de um não especialista, com um poema do vascaíno Drummond, “Oficina irritada”. Tentem imaginar a voz de Tite recitando o poema e percebam como as potencialidades e os limites do escrete canarinho estão cifrados no claro enigma drummondiano:

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.


Caique Zen

Coeditor.

13 de junho, 2018. Volume: 2Seção: Tópicos Dossiê: Copa russa. Index: Carlos Drummond de Andrade, Pier Paolo Pasolini, Augusto de CamposPublicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan, Caio Ramalho. Imagem de capa: Pier Paolo Pasolini jogando futebol em Quarticciolo, Roma.


Lembramos para você a preço de atacado

Lembramos para você a preço de atacado

Borges vs. Musk – a memória artificial e a literatura

[1]

Maio de 2017. Elon Musk, o homem que promete colonizar Marte, anuncia a criação da Neuralink, startup que conectará o cérebro humano a computadores. A ideia é viabilizar a simbiose entre homem e máquina ou, nas palavras exatas de Musk, permitir “a fusão mais próxima entre inteligência biológica e inteligência digital” por meio dos chamados neural laces, dispositivos que serão capazes de transferir arquivos (pensamentos, lembranças, conceitos) de hardwares para seres humanos e de seres humanos para hardwares.

Os objetivos de Musk, como sempre, são os mais nobres possíveis. Inicialmente, a tecnologia prestará serviços a pessoas com lesões cerebrais causadas por derrames, tumores ou outras enfermidades. Só depois de testados por essa população, é que os neural laces chegarão ao mercado.

Todos poderemos, então, “impulsionar a velocidade de conexão entre nosso cérebro e a versão digital de nós mesmos”, eliminando o inconveniente da arrastada expressão pela palavra. “Há um monte de conceitos nas nossas cabeças”, diz Musk, “que os nossos cérebros tentam comprimir nessa incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”. Caso tivéssemos “duas interfaces cerebrais”, poderíamos perder menos tempo com a troca entediante de signos linguísticos estabelecendo “uma comunicação conceitual não comprimida”, mais afeita à rapidez de nosso tempo.

 

[2]

Basta ler a palavra ciborgue, nessa incrivelmente baixa taxa de dados a que chamamos escrita, para que uma série de associações conceituais não comprimidas seja disparada em algum lugar de nossa mente. Imagens roubadas à ficção científica, certamente distópicas, monopolizam o significado do termo, e mal paramos para pensar que o ser humano normal, nômade ou sedentário, caçador-coletor, agricultor ou cliente-Walmart, nunca esteve muito longe de ser uma “criatura dotada de partes orgânicas e cibernéticas que utiliza tecnologia com a finalidade de potencializar suas capacidades” (definição da Wikipédia para o conceito de ciborgue).

Desde aquela primitiva startup, criada – ou roubada, diriam as más-línguas – pelo empreendedor Prometeu, o ser humano tem se valido das mais diversas bugigangas. Com a mesma entrega apaixonada de um nomofóbico que tateia seu iPhone, o Homo sapiens sempre esteve disposto a abrir mão de uma suposta pureza de sua humanidade para se entregar ao primeiro apetrecho, ao primeiro gadget ou app que o auxiliasse minimamente na labuta diária.

“Somos criaturas tecnológicas” – escreve Tom Chatfield, em Como viver na era digital. – “Faz parte de nossa natureza ampliar a nós mesmos e ao mundo – e ir além dos limites e nos adaptarmos”. Dificilmente, portanto, poderíamos separar o humano dos objetos que ele mesmo cria para atender às suas necessidades. Do osso voador de 2001: Uma Odisseia no Espaço aos neural laces de Musk, o mesmo instinto prometeico impulsiona o homo tecnologicus.

 

[3]

“Dos diversos instrumentos do homem”, diz Borges, “o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.

 

[4]

Em “A memória de Shakespeare”, Hermann Soergel, um professor cuja vida toda foi dedicada a “trivialidades eruditas”, recebe, de um melancólico colega de academia, a memória de Shakespeare. “Não era”, como esclarece Borges, autor do conto, “a memória de Shakespeare no sentido da fama de Shakespeare, isso teria sido muito trivial; tampouco era a glória de Shakespeare, mas sim a memória pessoal de Shakespeare”. Uma memória involuntária que pode irromper nos momentos de sonho ou de vigília, quando surge sorrateira enquanto seu depositário folheia as páginas de um livro, vira uma esquina ou prepara um café.

Hermann Soergel, então, recorda de repente certas palavras de Chaucer enquanto se barbeia em frente ao espelho; assobia uma melodia muito simples, que jamais havia ouvido, ao sair do Museu Britânico; relembra as feições de um homem, talvez um vizinho, que, embora não figure em nenhuma biografia, devia ser avistado com frequência por Shakespeare.

Com o tempo, porém, a memória de Shakespeare passa a oprimir Hermann: “A princípio as duas memórias não mesclaram suas águas. Com o tempo, o grande rio de Shakespeare ameaçou, e quase inundou, meu modesto caudal. Temeroso, percebi que estava esquecendo a língua de meus pais. Já que a identidade pessoal baseia-se na memória, temi por minha razão. À medida que transcorrem os anos, todo homem tem a obrigação de carregar o crescente fardo de sua memória. Duas me oprimem, confundindo-se às vezes: a minha e a do outro, incomunicável”.

Para Piglia, a visão borgiana de literatura estaria cifrada nesse conto derradeiro (sim, é possível que a “Memória de Shakespeare” tenha sido o último conto de Borges): “A figura da memória alheia é a chave que permite a Borges definir a tradição poética e a herança cultural. Recordar com uma memória alheia é uma metáfora perfeita da experiência literária. A leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias. As cenas dos livros lidos voltam como lembranças privadas. São acontecimentos entremeados ao fluir da vida, experiências inesquecíveis que voltam à memória, como uma música”.

A partir dessa ampla e certeira metáfora proposta por Piglia (em suma: ler é apropriar-se da memória alheia), podemos arriscar a proposição de duas consequências.

Primeiro: as ideias de tradição poética e herança cultural remetem à cena original do pacto fáustico, à oferta demoníaca de um bem extremamente precioso, mas que pode levar à ruína aquele que o aceita. Quando lemos, damos vida às palavras e aos autores semimortos na penumbra das estantes; aceitamos de boa vontade o perigoso intercâmbio entre nossa consciência e a consciência de um outro. Respeitando a solenidade do acordo, o detentor da memória de Shakespeare deve oferecê-la em voz alta a seu herdeiro, que, por sua vez, deve aceitá-la também em alto e bom tom. Só então o pacto pode ser consumado.

Segundo: a memória literária é viva, e, como tal, admite o intercâmbio entre o próprio e o alheio. Como um organismo de baixa imunidade, o bom livro, ao mesmo tempo em que contamina quem o lê, não costuma opor resistência às contaminações do ambiente. Livros são dispositivos de troca, e não de mera recepção. Por isso, um livro diz também sobre as circunstâncias de sua leitura: o local, a fase da vida, o estado de espírito de seu leitor.

E, last but not least, a memória literária, por seu caráter orgânico, admite o sagrado esquecimento. E é justamente por essa imperfeição da memória (como soube Borges mais que ninguém) que lembranças podem ser manipuladas, desviadas, distorcidas e inclusive enriquecidas pela imaginação.

 

[5]

Mas a leitura não é somente o diálogo privado entre autor e leitor (fosse isso, seria a mais banal das tecnologias, pertencente à frívola estirpe do WhatsApp ou do telefone): “Quando lemos um livro antigo”, diz Borges, “é como se estivéssemos lendo todo o tempo transcorrido do dia em que foi escrito até que chegasse a nós. Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século XVII, Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley”.

Os sucessivos atos de leitura enriquecem uma obra ao longo do tempo. A literatura é uma espécie de palimpsesto, ou memória coletiva, de código aberto, em que “cada nova escrita cobre a escrita anterior e é coberta pela que segue”.

 

[6]

Com a invenção do neural laces, substituiríamos nossas lentas interações verbais por transferências telepáticas de alta velocidade. Em um diálogo, por exemplo, “você não precisaria verbalizar, a menos que quisesse acrescentar um pequeno charme à conversa. Mas a conversa mesmo seria uma interação conceitual em um nível que é difícil conceber hoje”, diz Elon Musk.

E por que o mesmo não ocorreria com a leitura, esse hábito anacrônico, incompatível com o ritmo frenético da era digital? Para que leríamos Borges, para que leríamos Shakespeare, se pudéssemos transferir suas obras completas para nossos cérebros? Bastaria um clique em “adicionar ao carrinho”, e já não precisaríamos sacrificar à literatura nossas melhores horas de amor, como disse Drummond.

O que incomoda aos futuristas do século XXI, fiéis ao culto da velocidade, é que continuamos, em plena era digital, “lendo na mesma velocidade que nos tempos de Aristóteles” – como bem observa Piglia. E, embora a circulação da informação cresça vertiginosamente, não podemos fazer nada para tentar abarcá-la a não ser decifrar lentamente as palavras – “words, words, words” – a razão de 300 vocábulos por minuto (segundo as estatísticas mais otimistas).

Como pensar a leitura fora dos limites da “incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”? As ideias excêntricas de Musk remetem à famosa anedota de Woody Allen sobre a leitura dinâmica: “Fiz um curso e li Guerra e paz em 20 minutos. É sobre uns russos”.

 

[7]

“Fala-se no desaparecimento do livro”, diz Borges, “eu acho que é impossível. Alguém perguntará que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco. A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido, um disco, da mesma forma, é ouvido para ser esquecido, é uma coisa mecânica, e portanto frívola. Um livro é lido para a memória”.


Caique Zen

Coeditor.


Trilhas

Trilhas

Conto de Tadeu Renato

As flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis.
“Campo de Flores”, Carlos Drummond de Andrade

 

Primeira estação

tempo espaço tempo-espaço passos passos tempo tem? Talvez o tempo seja só uma ficção, um jeito de entender mudanças, aí só existiriam o espaço e suas coisas. Os corpos se deslocando e uma sucessão de movimentos que só podemos entender se inventarmos o tempo. Meu corpo inchando e caindo e levantando, a barriga crescendo e a Luiza saindo de dentro. De dentro do tempo, ou apenas desocupando espaço, tempo espaço, tempo espaço tempo-espaço espaçotempo, o trem encostando de leve na estação, vai lotar, o ar vai ficar pesado lá dentro, não tem janela, as pessoas não têm por onde sair. E esse calor insuportável, bem que podia cair uma chuva. Ninguém espera, todos querem entrar e sair de uma só vez, como se o bairro do Brás ainda estivesse sobre ataque aéreo, como nos remotos. Todos querem ocupar espaço, mas dois corpos não ocupam o mesmo espaço, somente na gravidez. Quinze anos não é idade pra ter filhos, mas eu queria o Davi, ele me queria e eu cedi. Cedo descobri que não estava nos seus planos durar em lugar algum. Fiquei com a menina e com minha mãe nos criando.

 

Segunda estação

– Vem, mãe.

No vagar do movimento, o vagão balança e os corpos são grãos numa peneira. A jovem vai na frente, empurrando com as sacolas, abrindo caminho até o corredor. Seu vestido enlaça no cabo do guarda-chuva de um homem, que murmura qualquer palavra, tanto pode ser caralho como desculpa. Catarina espreme-se a sua esquerda, os olhos voltados à porta, esperando que nas paradas um fio de vento fresco pouse em seu rosto. Luiza tem uma gota de suor descendo pelo pescoço, alcançando o decote, que ela mexe freneticamente esperando um alívio. O homem de há pouco observa com cautela. Catarina avisa com os olhos para que a filha não mostre demais os seios. Eu não vejo problemas em mostrar minha pele, este país tão quente. Davi queria só ver os seios, eu disse só ver, mas quando levantei a camiseta, ele apertou com avidez. Guardei, incomodada, enquanto ele se ria, pedindo outra chance. Mas não gosto que olhem demais, me sinto invadida, parece que meu corpo se desfaz entre tudo mais que tem no campo de visão. Só ver, eu disse, e mostrei novamente. Ele encostou de leve a boca, e um beijo fez calmaria. O trem dá um sinal e avisa o itinerário. Quando fecham as portas, os que se espremiam parecem encaixar de algum modo seus contornos e é até possível relaxar, ainda que todos se encostem e tornem-se uma só massa. O sacolejo do vagão empurra Luiza pra frente e seu decote se expõe com maior clareza diante dos olhos do homem que observa. A mãe a coloca de volta no lugar e silenciam conversas, apenas os olhos. Catarina olha a filha, suas curvas, seu tamanho, sua pressa em crescer. Teve pressa ou eu é que não memorizei todos os espaços por onde ela passou? Que acontece na vida: ver outra pessoa que se parece muito comigo quando eu era nova? Encontro de espelhos, não de fotografias, encontro de semente. É, uma planta que brotou de uma semente e esta planta dá semente e esta nova semente cai na terra, se acomoda na terra e lá descobre a semente original, imagina o susto desta primeira semente?

– Pensando em quê, mãe?

– … nada.

 

Terceira estação

Como faço pra não olhar pra ela, pensa o homem, enquanto busca uma imagem diferente nos velhos galpões que passam à margem. O trem acaba de deixar a estação Mooca, mas Luiza tem a impressão de que meia hora passou e nada mudou no percurso, chegaria a Santo André só depois de dois dias se continuasse assim. Continue assim, deste ângulo eu vejo melhor as curvas, a calça justa justificando minha distração…

– Falta de respeito.

A jovem tira os olhos da propaganda de faculdade que balança no vagão e volta atenção a Catarina, que estremece após o sussurro mal saído de seus lábios. Como a mãe não continua a fala, puxa do bolso de trás o celular e escreve qualquer mensagem pra qualquer pessoa que estiver ilhada em outro celular. Falta de respeito, tira os olhos da menina, um homem com idade de pai, o Davi te daria uma porrada se estivesse aqui e não em Minas Gerais. Precisa ir tão longe?, ficamos bem, segue a vida, cada um sua rota, mas não precisa inventar um caminho tão distante do nosso. Preciso de mais espaço, meu corpo agora é outro espaço e não adianta voltar, porque ele foi outro espaço em outro contexto, agora é uma forma neste instante, mas instante também é tempo. Tome tento, homem, arranca sua fome de cima dela. O vidro inviolável faz tela e pinta má impressão feita de respirações.

Na estação Ipiranga, duas pessoas descem e outras oito entram, além do homem que toca flauta e canta músicas evangélicas. Que é que esse cara quer, rumoreja o homem do guarda-chuva, dinheiro ou que eu me converta? Só quando deus me der um carro eu seguro na sua mão, até lá quero mais é um banho frio. O trem tranca com força as portas e, junto com o sinal de partida, um trovão ecoa longe.

 

Quarta estação

era quase, quero dizer, nem sempre era quase, às vezes multiplicava-se por quilômetros e como uma mola esticada ao extremo voltava com tal violência que o encontro gerava uma certa explosão silenciosa. Era amor aquilo ou o que era que depois me entregou o Jorge, tomando a filha como se dele, ele saindo do trabalho esta hora?

– Será que a gente encontra o pai aqui?

Catarina dá de ombros, sorrindo de leve, enquanto procura com os olhos a presença de Jorge entre os que entram e saem da estação Ipiranga. Gosta de ouvir a filha chamá-lo de pai, assim como chama Davi. Seus olhos cruzam os do homem, que disfarça procurando um problema imaginário no guarda-chuva. Catarina observa os próprios seios, observa os seios da filha, algo da pele transmitindo cheiro de fêmea, o homem também olha e volta a disfarçar. O trem volta ao sacolejo do trajeto e os passageiros encontram outros vãos, inclusive Luiza, que se afasta da mãe em busca de mais espaço abaixo do ar-condicionado. Fico aqui, que sou mesmo de ficar, gosto de criar jardim onde vivo, mas não fechar, jardim público que possa ser frequentado por outros, pois mesmo tirando folga do mundo vez e outra, quero mais é ver gente, mas não com os olhos deste homem, que agora não tem mais o que olhar. Um riso baixo escapa do canto da boca e ela espreita envergonhada a possibilidade de alguém tê-la ouvido.

Tamanduateí fica pra trás e a estação de São Caetano aponta logo mais, na curva. Meu presente de natal seria um pouco de chuva, espero ansiosamente, leio todas as previsões, mas estão todos perplexos com as ameaças que não se concretizam, sempre este suspense, só uma chuvinha de nada. A mulher passeia os olhos pelo vagão lotado e encontra e fixa em um rosto qualquer, sem notá-lo em suas expressões. Um pedaço de música passa em suas ideias, e antes que chegue ao refrão identifica no rosto o olhar do homem que a encara há tempo. Só então Catarina percebe que o homem do guarda-chuva vigiava a ela, e não a filha.

 

Quinta estação

Queria era dar um grito agora, não importando se a esta hora ninguém mais se incomodaria. Chegar em casa e tomar uma cerveja, eu que nem bebo álcool, mas talvez isso me traga felicidade, quem sabe tomar um banho pensando no cheiro dela. Falta de respeito, não vê que eu uso aliança, tanto tempo tanto tempo que outro não me alcança, mas comigo não. Outra mensagem chega no celular e Luíza olha incrédula para o aparelho. Com o indicador escreve célere uma longa resposta que termina Próxima estação: Utinga com um enviar raivoso. Quer ver o Jorge nervoso é alguém me olhar tateando, mapeando os espaços do meu corpo, não que tenha ciúme. Me pedir pra ficar demarcando todas as praças nuas numa sexta-feira, patrão é sempre uma merda, rosna o homem. E se eu jogasse o cabelo de lado, cobrisse meu rosto? Queria saber falar inglês, não entendo nada do que cantam. Brummmm. Tudo é um sinal, vai pensar que estou gostando. O trem para no meio do caminho por um minuto, mas o tempo se dilata com o calor. Se eu chegasse mais perto, se eu perguntasse seu nome, se eu dissesse algo, se eu…

– Afff…

Olhou para o outro lado, isso é bom, meu bom Jesus. I don’t speak nada. Será que me descabelei, por isso desistiu de espiar? You understand me? Jorge me levava sempre ao parque do museu, mas faz tanto tempo. No museu. Mais perto: e se eu?

Sexta estação

Pedreiros no trem planejam o próximo dia, mais uma construção que suspenderá a cidade, mantendo no ar uma possibilidade de vivência, embora apartada: só falta o acabemento interno. Aqui é interior ou ainda é capital? Luiza reflete-se no vidro do trem. Ele chegou perto demais agora, segurando o mesmo cano, não vê que sou casada? Se eu escorregasse a mão e sentisse sua pele, estar vivo é sentir a pele, sentir na pele. Amendoim, amendoiiiimmm, canta o ambulante, enquanto o trem pausa. O suor desaguando no decote de Catarina. Davi, Jorge, nomes a mais que não dizem nada sobre eles, nomes que não dizem deste homem que nada diz mas sabe que ouço seu gesto de querer minha mão, falta de respeito, alcançar meus dedos. Chegar em casa arranco a roupa, tomo banho, ligo a internet, procuro uma imagem qualquer, um apelido qualquer que queira conversar e deixar que eu mostre que meu corpo ainda é viril, ainda aguenta, mesmo que ele desapareça no uniforme. Chegar em casa entro na net e falo direito com ele, não gosto de conversar pelo celular, letras miúdas de comendo até sobrar vogais e. Não diz nada, ele não diz nada e eu também não consigo me mexer.

A porta tenta fechar, mas alguém chega no último movimento e a segura para que possa entrar no trem. O condutor reclama, sua voz que não se sabe máquina ou autônoma vazando na plataforma Prefeito Saladino. A mão deslizando no cano, Catarina se equilibra num único pé, mas o corpo não acompanha o que seria um passo. Desde as seis andando de trem, tanto tempo que não volto pra casa que já me esquecia como fazia isto. Não que não lembrasse o caminho (ele bate com a ponta do guarda-chuva no cano de ferro em que segurava, ritmando o pensamento), mas faz tempo não encontro na memória a maneira como eu chegava em outro tempo, qual ânimo eu tinha naquele tempo, hoje de manhã, tempo tempo tempo tempo tempo de mais para não pensar em nada e de menos para o corpo, olha o tamanho da minha filha. A composição segue dromedária pela trilha, enjoando alguns pelo balanço, navio em um mar de gente.

 

Sétima estação

O que nos liga: o chão, o ar, o cano frio onde escorego minha mão e sinto se avizinhando o calor dos dedos que ela não deixam fugir. Será que eu deixo ele encostar? Só falta chover agora, que tempo mais estranho, vou ouvir outra estação. O trem se equilibra lento nos trilhos, alguém talvez tenha se atirado na linha esperando a pancada da morte, mas o condutor – ou uma voz gravada – informa apenas a existência de problemas técnicos. Delicada esta forma de se aproximar, imagino uma paixão por milésimos de segundos, me deixe lembrar o susto das descobertas. Não entendi nada desta canção, mesmo sendo na minha língua. Claro que ela sabe de mim, dos meus planos futuros para nós que nunca sairão de mina boca, qual o limite que nos separa? Vamos, desce Estação Santo André, toque minha mão, um esbarrão, um sorriso. Ela poderia subir o dedo e roçar meus poros que se abrem para tudo. Mãe, a porta abriu. Luiza é levada pela enxurrada de corpos que se movimentam, Catarina desatenta do aviso de fechamento. O guarda-chuva vai ao chão e o homem se abaixa para pegá-lo, a mão deixando longe a pele de Catarina, que é conduzida pra fora pela pressa que não lhe pertence, a mão ressentindo do desencontro, ele se dispersando no espaço, ela se desmanchando no seu tempo:

– Falta de respeito.


Tadeu Renato

é poeta e dramaturgo. Publicou os livros Letras para melodias corporais e Lenz, um outro (Edições de Risco) e, em parceria com Daniel Gatti, o infantil Genésio: a cobra acrobática (Lamparina Luminosa). Escreve para diversos grupos, como Coletivo Quizumba, 28 Patas Furiosas, Cia. do Trailler, Cia. dos Inventivos, entre outros. Mantém o blog Varandeando e é coeditor da revista Saúva.

17 de julho, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções Index: Tadeu Renato, Carlos Drummond de AndradePublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan, Caique Zen.