Hora de football

Hora de football

Uma crônica de João do Rio

É o novo ground.[1] O Club de Regatas do Flamengo tem, há vinte anos pelo menos, uma dívida a cobrar dos cariocas. Dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico para a saúde do corpo e a saúde da alma. Fazer sport há vinte anos ainda era para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça quando um dos meninos arranjava um haltere. Estava perdido. Rapaz sem pincenez,[2] sem discutir literatura dos outros, sem cursar as academias – era homem estragado.

E o Club de Regatas do Flamengo foi o núcleo de onde irradiou a avassaladora paixão pelos sports. O Flamengo era o parapeito sobre o mar. A sede do club estava a dois passos da casa de Júlio Furtado, que protetoramente amparava o delírio muscular da rapaziada. As pessoas graves olhavam “aquilo” a princípio com susto. O povo encheu-se de simpatia. E os rapazes passavam de calção e camisa-de-meia dentro do mar a manhã inteira e a noite inteira.

Então, de repente, veio outro club, depois outro, mais outro, enfim, uma porção. O Boqueirão, a Misericórdia, Botafogo, Icaraí, estavam cheios de centros de regatas. Rapazes discutiam muque em toda parte. Pela cidade, jovens, outrora raquíticos e balofos, ostentavam largos peitorais e a cinta fina e a perna nervosa e a musculatura herculana dos braços. Era o delírio do rowing,[3] era a paixão dos sports. Os dias de regatas tornavam-se acontecimentos urbanos. Faltava apenas a sagração de um poeta. Olavo Bilac escreveu a sua celebrada ode “Salamina”.

– Rapazes, foi assim que os gregos venceram em Salamina! Depois disso, há dezesseis anos, o Rio compreendeu definitivamente a necessidade dos exercícios, e o entusiasmo pelo football, pelo tennis, por todos os outros jogos – sem diminuir o da natação e das regatas – é o único entusiasmo latente do carioca. Rendamos homenagem às Regatas do Flamengo!

O meu velho amigo, fraco e pálido, falava com ardor. Interrompeu-se para tossir. Continuou:

– Pois é este club que inaugura hoje o seu campo de jogos. Haverá acontecimento maior? O Rio estará todo inteiro ali… – Engasgou-se.

O automóvel que passara a correr pelo palácio de José Carlos Rodrigues, onde se realizava a primeira recepção do inverno do ilustre jornalista, estacara. Estávamos à porta do novo campo de jogos. E o meu velho amigo precipita-se. A custo acompanhei-o por entre a multidão e, imprensado, quase esmagado, icei-me à arquibancada. Mas o aspecto era tal na sua duplicidade, que logo eu não soube se devia olhar o jogo do campo em que Galo[4] triunfava ou se devia comover-me diante do frenesi romano da multidão.

Não! Há de fato uma coisa séria para o carioca: o football! Tenho assistido a meetings[5] colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes gestas de saúde, de força e de ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo, o entusiasmo, a ebriez da multidão assim. Só pensando em antigas leituras, só recordando o Coliseu de Roma e o Hipódromo de Bizâncio.[6]

O campo do Flamengo é enorme. Da arquibancada eu via o outro lado, o das gerais, apinhado de gente, a gritar, a mover-se, a sacudir os chapéus. Essa gente subia para a esquerda, pedreira acima, enegrecendo a rocha viva. Embaixo a mesma massa compacta. E a arquibancada, o lugar dos patrícios no circo romano, era uma colossal, formidável corbelha de belezas vivas, de meninas que pareciam querer atirar-se e gritavam o nome dos jogadores, de senhoras pálidas de entusiasmo, entre cavalheiros como tontos de perfume e também de entusiasmo.

– Está uma arquibancada estupenda! – murmurou-me Isaac Elbas.

Pinto Lima, no outro extremo, com as duas gentilíssimas filhas, dizia-me adeus, e o dr. Arnaldo Guinle, do Fluminense, parecia almejar a vitória do Fluminense.[7]

Os gritos, as exclamações cruzavam-se numa balbúrdia. Os jogadores destacavam-se mais na luz do ocaso. E de todos os lados subia o clamor da turba, um clamor de circo romano, um clamor de Hipódromo no tempo em que era basilissa Teodora, a maravilhosa…[8]

Nervoso, agitado, sem querer, ia também gritar por Galo, que vencia e que eu via pela primeira vez. Mas o delírio chegara ao auge. O meu velho amigo dizia, quase desmaiado:

– Venceu o Flamengo num score[9] de quatro a um…

À porta quinhentos automóveis buzinavam, bufavam, sirenavam. E as duas portas do campo golfavam para a frente do Guanabara mais de seis mil pessoas arrasadas da emoção paroxismada do football.

 

*

 

[1] Novo ground = novo campo.

[2] Pince-nez = pincenê (óculos sem haste), em francês.

[3] Rowing = remo.

[4] Referência ao jogador Armando de Almeida, o “Galo”, veterano dos primeiros times do Flamengo.

[5] Meetings = encontros. Neste caso, encontros esportivos.

[6] Hipódromo de Constantinopla, onde se realizavam grandes espetáculos para o povo.

[7] A sede do Clube Fluminense fora construída na chácara do empresário Arnaldo Guinle, nas Laranjeiras.

[8] Basilissa (de “basileus”, título usado pelos imperadores bizantinos) Teodora = mulher do Imperador Justiniano I (527-565), cujo reinado assinalou um dos períodos mais brilhantes da história bizantina e que teve grande influência de Teodora.

[9] Score = escore, contagem.


João do Rio

viveu entre 1881 e 1921 no Rio de Janeiro. Jornalista, ingressando na imprensa ainda moço, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou Paulo Barreto, logo se tornou célebre com o pseudônimo. Sua atividade, febril, abarcou os mais diversos rumos. Em reportagens, entrevistas e ensaios, nos deu as tendências literárias da época, o panorama das religiões primitivas cariocas, ou a galeria das figuras de uma conferência de paz. Talvez esse cunho documental seja o mais importante do seu legado.

15 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Dossiê: Copa russa. Index: João do Rio. Publicação: Luan Maitan, Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Elogio da derrota

Elogio da derrota

Uma ode ao choro de alambrado

Em “Nota para um conto fantástico”, Jorge Luis Borges diz haver na derrota uma dignidade que a vitória não conhece. Concordo. Mas Borges, não fosse tão indiferente ao futebol, poderia ir mais além. Pois no esporte jogado com os pés, há derrotas não só mais dignas, mas também muito mais gloriosas que a própria vitória. E não falo aqui de meros prêmios de consolação.

O caráter do verdadeiro torcedor é forjado pela derrota, pelo choro no alambrado. Quem quiser amar um time, deverá amá-lo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. E há clubes que chegam a construir toda a sua mística em torno da derrota. No Brasil, temos na Ponte Preta o caso mais notório. Em 2020, o clube campineiro completará 120 anos sem um título. E falem o que quiser: entre o Bugre e a Macaca, somos todos alvinegros.

Isso para não falar em clubes vitoriosos que, por vocação, se orgulham mais de suas derrotas. Meu pai, um corintiano fanático que viveu parte dos 23 anos de jejum e cresceu ouvindo de meu avô a história épica das derrotas para o Santos de Pelé, me dizia em 2012, na final da Libertadores, que não ficaria triste se perdêssemos aquele título para o Boca Juniors. A mística, segundo ele, só aumentaria, e seríamos mais felizes ainda quando chegasse a vitória – como fomos felizes em 77, quando lavamos a alma sem eira nem beira. Forjado no choro de alambrado, meu pai não olhava para o jogo, mas para a História.

E o que dizer então do Botafogo, o clube que recusa a triste vulgaridade da vitória a qualquer custo? Também o Fogão ostenta um jejum, 21 anos, e seus torcedores se autodenominam sofredores. Pode haver coisa mais bela? Até seu apelido, “Estrela Solitária”, recende a melancolia. Garrincha e Heleno de Freitas são ídolos feitos à sua imagem e semelhança. E Borges, se gostasse de futebol e fosse brasileiro, certamente seria botafoguense.

Quanto às seleções, não posso deixar de dizer que a Espanha pode até ter alegrado seu povo ao ganhar a Copa de 2010, mas todo o resto do mundo se sentiu traído com essa vitória. Ganhar que ganhem as Itálias e as Inglaterras, com seu futebol pragmático. Mas a Espanha?! A função da Espanha, até então, era levar poesia às copas do mundo. E não há nada de menor nisso. Em 2010, apesar de derrotada, quem ganhou foi a Holanda. Hoje, oito anos depois, a Laranja Mecânica continua ostentando a sua mística.

E falando em Espanha, um bom exemplo de que a derrota pode ser mais gloriosa que a vitória está em sua poesia – sua poesia feita com palavras, não com os pés. Falo de dois poemas: “Ode a Platko”, de Rafael Alberti, e “Contraode ao poeta da Real Sociedad”, de Gabriel Celaya. Ambos os poemas tratam da histórica final da Copa del Rey de 1928, entre Real Sociedad e Barcelona.

Alberti não se interessava tanto por futebol, mas, na ocasião, passava uma temporada na Cantábria, local da primeira partida da final. Acompanhando ninguém mais ninguém que Carlos Gardel, o poeta acabou indo ao jogo. Seu poema é uma ode olímpica, à la Pindaro, dedicada a Franz Platko, lendário goleiro do Barcelona. O mote é uma breve cena do jogo, em que Platko, depois de uma dividida com o atacante da Real Sociedad, levanta ensanguentado em meio aos jogadores adversários, agarrando a bola como quem leva à sua polis o velocino de ouro. Eternizado pela ode de Alberti, o goleiro entraria para a história como o herói daquela final, vencida pelos catalães após três jogos acirradíssimos, violentos até.

Gabriel Celaya, então com 18 anos, também assistiu àquela primeira partida. Mas seu poema, como indica o título, é uma “contraode”, uma visão desencantada do jogo, em tudo distinta à de Alberti. Celaya – nem preciso dizer – era torcedor da Real Sociedad, e em seu poema o foco passa de Platko, o herói épico, para a figura do juiz ladrão, clássico personagem do drama futebolístico.

Pessoalmente, prefiro o poema de Celaya, que cheira mais a cancha, mais a choro de alambrado e a ressentimento curtido em barris de carvalho do que a grandiloquente ode de Alberti. Traduzo-o aqui como prova cabal da superioridade da derrota:

E lembro também nossa tripla derrota
naqueles jogos contra o Barcelona,
que se ganharam de nós, não foi por Platko
mas por dez pênaltis claros, roubados.
Camisas azuis e brancas voavam
no ar, felizes, como pássaros livres
assaltavam a meta defendida com fúria
e nada pôde então toda a inteligência
e toda a entrega dos bascos
que lutavam contra a raiva cega
e o barro e as entradas criminosas e um árbitro comprado.
Disso todos lembramos, e talvez melhor que você,
meu querido Alberti, me lembro eu,
porque lá estava e porque vi o que vi –
o que você esqueceu, mas sempre
recordaremos: ganhamos. Justiça feita, ganhamos,
e há coisas que não mudam os falsos resultados.


Caique Zen

Coeditor.

8 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index:  Jorge Luis Borges, Rafael Alberti, Gabriel Celaya. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Gricha

Gricha

Conto de Anton Tchékhov traduzido do russo por Pedro Augusto Pinto

Gricha,[1] rapazinho pequeno, gorducho, nascido há dois anos e oito meses atrás, está passeando com a ama pelo bulevar. Vestiram-no com um longo albornoz de lã, um cachecol, um gorro enorme com um pompomzinho felpudo, e galochas quentinhas. Está com calor e sem ar, е além de tudo o sol desperto de abril bate diretamente em seus olhos e lhe queima as pálpebras.

Toda a sua desajeitada figura, caminhando tímida e titubeante, expressa uma profunda perplexidade.

Até então, Gricha só conhecera um mundo composto por quatro cantos, onde em um canto jaz sua cama, em outro o baú da ama, no terceiro, uma cadeira, e no quarto arde uma lamparina. Espiando debaixo da cama, aí também se vê uma boneca de braço arrancado e um tambor, já por trás do baú da ama há uma enorme diversidade de coisas: carreteis de linha, papeizinhos, uma caixa sem tampa e um palhaço quebrado. Neste mundo, além da ama e de Gricha, frequentemente surgem mamãe e o gatinho. Mamãe parece com a boneca, e o gatinho com a peliça de papai, só que a peliça não tem nem olho nem rabo. Saindo do mundo que se chama “de criança”, a porta leva à amplidão onde almoçam e bebem chá. Ali fica a cadeira de Gricha com suas perninhas altas e pende o relógio, que existe apenas para balançar o pêndulo e tiquetaquear. Da sala de jantar pode-se ir para o cômodo onde ficam as poltronas vermelhas. Ali, sobre o tapete, há uma mancha negra, pela qual até hoje ameaçam Gricha com o dedo. Depois desse cômodo tem ainda um outro, onde não se pode entrar, em que se vislumbra papai – figura profundamente enigmática! A ama e mamãe são compreensíveis: vestem Gricha, alimentam-no e põem-no para dormir, mas por que razão existe papai – não se sabe. Há ainda outra figura enigmática, titia, que foi quem deu o tambor para Gricha. Ora surge, ora some. Some para onde? Gricha mais de uma vez espiou debaixo da cama, atrás do baú e sob o sofá, mas lá é que ela não estava…

Já neste mundo novo, em que o sol fere a vista, há tantos papais, mamães e titias que não dá para saber para quem a gente corre. Mas o mais estranho e incoerente são os cavalos. Gricha olha para as suas pernas andantes e não consegue compreender. Olha para a ama para que esta o oriente, mas ela cala.

De repente, ouve um terrível tropel… pelo bulevar, com passo regular, vem vindo diretamente para Gricha uma multidão de soldados, com rostos vermelhos e vassouras de banho debaixo do braço. Gricha, de terror, congela todo, e olha interrogativo para a ama: não é perigoso? Mas a ama não corre nem chora, logo, não é perigoso. Gricha segue os soldados com os olhos e começa ele próprio a andar conforme o compasso.

Pelo bulevar, vão correndo dois grandes gatos de focinho comprido, com a língua de fora e o rabo empinado. Gricha acha que também deve correr, e sai correndo atrás dos gatos.

– Espera aí! – grita-lhe a ama, segurando-o bruscamente pelos ombros. – Aonde pensa que vai? Quem foi que mandou você aprontar?

Eis que uma outra ama está sentada e segura uma pequena tina de laranjas. Gricha passa ao seu lado e, em silêncio, pega uma laranja para si.

– Para que isso? – grita-lhe a sua acompanhante, estapeando sua mão e arrancando dela a laranja. – Imbecil!

Agora Gricha poderia pegar com prazer um vidrinho caído debaixo dos seus pés, brilhante como a lamparina, mas tem medo que lhe batam de novo na mão.

– Meus cumprimentos! – súbito ouve Gricha, quase que em sua orelha, a voz forte e grossa de alguém, e enxerga uma pessoa alta com botões claros.

Para sua grande alegria, essa pessoa dá a mão à ama, se detém junto a ela e começa a conversar. O brilho do sol, o barulho das carruagens, os cavalos, os botões claros – tudo isso é tão surpreendentemente novo e pouco assustador, que a alma de Gricha se enche de um sentimento de regozijo e ele começa a gargalhar.

– Vamos! Vamos! – grita à pessoa de botões brilhantes, puxando-a pela aba.

– Vamos aonde? – pergunta a pessoa.

– Vamos! – insiste Gricha.

Tinha vontade de dizer que não seria nada mal também arrastar consigo papai, mamãe e o gatinho, mas a língua fala tudo menos o que deve.

Após certa espera, a ama deixa o bulevar e leva Gricha a um grande pátio, onde ainda há neve. Também a pessoa dos botões claros vai com eles. Contornam com cuidado poças e blocos de neve, passam por uma escada suja e escura e entram em um cômodo. Ali há muita fumaça, o ar é quente e uma mulher está junto ao fogão fritando croquetes. A cozinheira e a ama se beijam e se sentam com a pessoa num banco, e começam a falar baixinho. Gricha, todo encapotado, sente um calor e uma falta de ar insuportáveis.

“Por que isso?” pensa, olhando ao redor.

Vê o teto escuro, o atiçador com dois chifres, o fogão que parece uma enorme toca negra…

– Ma-a-mã! – diz, arrastando a voz.

– É, é, é! – grita a ama – Vai esperar!

A cozinheira põe sobre a mesa uma garrafa, dois cálices e uma torta. As duas mulheres e a pessoa de botões claros brindam e bebem algumas vezes, e a pessoa abraça ora a ama, ora a cozinheira. E depois o trio inteiro começa a cantar baixinho.

Gricha se estica até a torta, e lhe dão um pedacinho. Ele come e observa como a ama bebe. Também tem vontade de beber.

– Dá! Ama, dá!

A cozinheira lhe dá um golinho de seu cálice. Ele esbugalha os olhos, franze todo, tosse e depois agita longamente as mãos, enquanto a cozinheira olha para ele, rindo.

Ao voltar para casa, Gricha começa a contar a mamãe, às paredes e à cama, onde foi que esteve e o que foi que viu. Fala mais com rosto e com as mãos do que com a língua. Mostra como brilha o sol, como correm os cavalos, como se parece o terrível fogão e como a cozinheira bebe…

À noite, não consegue de jeito nenhum adormecer. Soldados com vassouras, gatos enormes, cavalos, o vidrinho, a tina com laranjas, os botões claros – tudo isso se ajuntou em uma massa, apertando o seu cérebro. Ele vira de um lado para o outro, agita-se e por fim, não suportando sua própria excitação, começa a chorar.

– Mas você está ardendo! – diz mamãe, encostando a mão em sua testa. – De onde é que isso pode ter vindo?

– Fogão! – chora Gricha – Sai, fogão!

– Deve ter comido demais…. – conclui a mamãe.

E Gricha, sufocado pelas impressões da vida nova, e recém experimentada, recebe da mamãe uma colherinha de xarope.

*

[1] Diminutivo de Grigori.


Anton Tchékhov

foi médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos.

Pedro Augusto Pinto

é paulista nascido em 1992 e trabalha como tradutor e pesquisador da literatura russa. Traduziu textos de Tchékhov, de Gógol e sobretudo de Liérmontov, cujos maiores poemas traduziu ao português pela primeira vez (alguns publicados pelo jornal Rascunho), recebendo menção honrosa pelo seu trabalho em alguns eventos acadêmicos. Em 2018, publicou pela editora 7 Letras seu primeiro livro de poesia, Um bicho de circo, que teve alguns de seus poemas publicados nas revistas Lavoura e Ruído Manifesto.

4 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Ficções. Dossiê: Copa Russa. Index: Anton Tchékhov, Pedro Augusto PintoPublicação: Luan Maitan. Esse conto foi originalmente publicado no volume Os russos, antologia de literatura russa da editora Hedra. Sua publicação na Vigília é fruto de parceria com a editora.


O dilema de Neymar

O dilema de Neymar

O nosso Hamlet

Neymar está para o futebol como Hamlet para a literatura. Me explico: Hamlet deve matar Cláudio, seu tio, e se vingar do pai. A missão é clara. Neymar deve ganhar o hexa e vingar o 7×1, provando que ainda podemos ser os melhores em alguma coisa, ainda que haja algo de podre no reino da Dinamarca. A missão é clara.

Mas tanto Hamlet quanto Neymar estão perdidos no prodigioso mundo de suas cabeças. Hamlet perdido em elucubrações sobre tudo e sobre todos – a natureza humana, a vida e a morte, o suicídio. Neymar perdido entre parças, penteados excêntricos e interesses monetários. Um perfeito pós-humano, movido mais a likes e views do que a dribles e gols.
Quatro séculos depois de Shakespeare, a hipertrofia da consciência que fazia Hamlet protelar a vingança do pai pode acabar com o futebol de Neymar. Pois para jogar bola ou matar o tio é preciso deixar a autoconsciência em casa. Dentro das quatro linhas, por noventa minutos, não há espaço para o ego nem tempo para pensar em fazer história.

Todo grande atleta, em seus melhores momentos, parece experimentar a absorção mística de um monge tibetano em plena meditação. Falo de iluminados como Federer e Nadal, capazes de aniquilar o ego e manter a concentração durante horas, ou de Bolt e Phelps, que fazem o mesmo, mas de forma ainda mais intensa, por alguns segundos. Para esses bodhisattvas, no momento sagrado da competição, há mente mas não há mente, há corpo mas não há corpo. Numa Copa do Mundo, cultivar um estado parecido de transcendência é essencial.

Mais além do desempenho esportivo, vale lembrar que a autoconsciência exacerbada de Neymar vai contra seus próprios interesses. É sabido que o jogador aspira ao cargo de embaixador universal e legítimo herdeiro da linhagem do “futebol-moleque”, cujos grandes santos padroeiros são Garrincha e, mais recentemente, Ronaldinho Gaúcho. Mas, ao agir em campo de acordo com uma semiótica pensada em seus mínimos detalhes (da carretilha para a galera do Youtube à comemoração-com-recado-para-os-detratores), Neymar parece ignorar que o grande atributo dessa discutível abstração chamada “futebol-moleque” sempre foi a espontaneidade.

E vejam: quando se fala no fla-flu entre admiradores e críticos de Neymar, há muito mais em jogo do que parece. O futebol, como bem sabem os sociólogos, define nossa identidade. E quando Neymar degrada o refinado senso estético do “futebol-moleque” com firulas inócuas e confunde inteligência com malandragem, toda a imagem de um povo é manchada aos olhos do mundo. Pode parecer exagero, mas é assim que nos sentimos, ofendidos em nosso já maltratado senso de nacionalidade.

Mergulhado em sua autoficção, Neymar tira de nós, brasileiros, a possibilidade de amar alguém que mostre ao mundo que existimos. Daí as paixões que envolvem seu nome, do ódio ao amor.

Hoje, jogamos contra a Sérvia. Neymar talvez se esqueça de si mesmo e mostre o que o levou à Rússia. Veremos. Até lá, somos o Brasil de Coutinho. Sem Hamlet.


Caique Zen

Coeditor.

27 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index: William Shakespeare. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Os russos somos nós

Os russos somos nós

O espelho multiforme da alma russa

Do “fundador da literatura nacional russa”, Alexander Púchkin (1799-1837), até o “primeiro modernismo” de Tchekhov e Górki (início do século XX), a literatura russa (ao menos até sua virtual devastação a partir do totalitarismo stalinista dos anos 1930), deu ao mundo uma enormidade de obras que se tornaram “clássicos” da literatura universal. Por clássico não se entende aqui, obviamente, o estilo que a história literária dispõe antes do romantismo e do naturalismo. Trata-se, na verdade, de uma acepção mais geral, apontando em certa tradição os autores que, apesar do tempo em que escreveram, reencontram no presente elementos e potências que os tornam contemporâneos.

Além disso, no caso dos clássicos russos, para além de suas diferenças de época e estilo, há algo que os unifica e os contrapõem à nova literatura russa nascida depois, com a Revolução e as vanguardas. É que eles são, ou pretendem ser, nas palavras de um provérbio russo usado por Gógol (1809-1852) em uma epígrafe, um “espelho”, feito para lançar alguma luz sobre as sombras da sociedade russa de seu tempo.[1]

Mas como a sociedade é feita de indivíduos, essas luzes se lançariam não apenas sobre a sociedade em si, ou seja, as formas e os modos das interações de classe e interpessoais (cujo exemplo máximo é a obra de Tolstói), mas também sobre a própria “alma russa” – certa especificidade eslava quase metafísica, que marcaria e determinaria o caráter dos membros de tal sociedade (numa palavra, a “russificidade”).

Ocorre que literatura não é, felizmente, sociologia. E se tampouco é psicologia, isso não impede que ao menos a grande literatura tenha o poder de ser mais do que apenas literatura. Ela pode então, de fato, espelhar essa “alma” – que é russa em parte, e em parte universal, para parafrasear a famosa frase atribuída a Tolstói (1828-1910).[2] Será, em todo caso, dessa literatura que emergirá aquele considerado, ao lado de Shakespeare, o maior analista da psique do homem moderno, Dostoiévski (1821-1881).

Um fractal é uma figura geométrica em que cada parte recupera a estrutura do todo, assim como a figura de ramos divergentes de um pequeno galho incorpora a figura maior de toda a árvore. De modo semelhante, cada texto da grande literatura russa contém toda a grandeza da literatura russa de seu tempo. Um espelho multifacetado, além de cristalino o bastante para também lançar suas luzes sobre as sombras de nosso próprio tempo.

Mas, espelho ou não, literatura é forma literária. A literatura russa posterior ao século XIX (o dos grandes clássicos) seria dominada pelos radicais e radicalmente fundamentais experimentos do período vanguardista – iniciados na primeira década do século XX, e abruptamente encerrados nos anos 1930, com a imposição do “realismo socialista”. Felizmente, houve tempo para o primeiro modernismo russo, entre muitas outras coisas, revolucionar a narrativa curta.

Se na vida civil Tchekhov (1860-1904) era um médico que atuava como clínico, na literatura foi um cirurgião que amputou do conto tudo que não fosse sua medula. Os contos de Tchekhov, como regra, não têm enredo, “intriga”, nem caminham para um clímax ou uma resolução. São um recorte de tempo e de circunstâncias, uma câmera que de repente passa a acompanhar seus personagens (principalmente suas falas cotidianas) e de repente os abandona. O radical realismo de Tchekhov determina a própria estrutura (ou quase desestrutura) de suas narrativas. William Gerhardie, escritor, crítico e acadêmico anglo-russo (1895-1977), faz uma síntese precisa ao dizer que a grande conquista de Tchekhov foi o abandono do “enredo de eventos” por algo “desfocado, interrompido; […] a fluidez e a aleatoriedade dão forma às histórias”.[3] O conto do século XX, de Hemingway a Cortázar, para citar apenas dois marcos possíveis, é fortemente tchekhoviano.

Já o romance será, em grande parte, dostoievskiano. Dostoiévski, a fim de dotar a prosa ficcional de instrumentos calibrados para registrar os mecanismos mentais do indivíduo moderno (e não a sociedade moderna, como fizeram o realismo e o naturalismo), teria, entre outras coisas, de criar ritmos narrativos e uma maleabilidade de linguagem (prenunciando o “fluxo de consciência”) que abririam caminho tanto para Joseph Conrad, Joyce, Virgínia Woolf e Faulkner quanto para Phillip Roth, ou seja, a ficção mainstream do século XX.

O “realismo socialista” de Stálin foi venenoso o bastante para quase matar a literatura russa em seu próprio solo. Mas não para impedir que seu vigor viesse a nutrir boa parte da literatura mundial. Assim como Shakespeare é um dos “inventores” do homem moderno, o homem “hamletiano”, cuja autoespeculação hipertrófica atrofia sua resolução e inibe sua ação, a literatura russa é uma das “criadoras” do homem contemporâneo. Entre outras coisas, somos fragmentários, circunstanciais e inconclusos como Tchekhov e presas de densas incertezas cheias de palavras como Dostoiévski (além de incuravelmente saudosos de certa grandeza utópica de Tolstói). Os russos, de alguma forma, somos nós.

 

*

 

[1] “Não culpe o espelho se a cara é torta”. Em contraponto, a nova literatura russa do início do século XX teria outros objetos e objetivos: não refletir o presente e muito menos o passado, mas educar as massas para o futuro socialista, ajudar a criar o “homem novo” nascido da Revolução e adequar a linguagem aos tempos industriais.

[2] “Se pretende ser universal, comece por pintar a sua aldeia”.

[3] Anton Chekhov: a critical study (1924), citado por William Boyd, “A Chekhov lexicon”, The Guardian, 3 de julho de 2004 (acessível em < http://www.theguardian.com/books/2004/jul/03/classics>).

 

*

 

Este texto, com modificações, foi primeiramente publicado como introdução ao volume Os russos, antologia dos maiores autores da literatura russa do século XIX, publicado pela Hedra, em 2015, com organização de Luis Dolhnikoff. Sua publicação na Vigília é fruto da parceria com a editora Hedra.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).


Os escritores e o futebol

Os escritores e o futebol

Do repúdio à paixão, a bola e as letras

[1]

Machado de Assis não escreveu sobre futebol. O ludopédio ainda não havia se alastrado pelo país enquanto viveu o Bruxo. Sua estética do drible, no entanto, prenuncia Garrincha. O vai e vem dos romances machadianos, com direito a piparotes no leitor, é o mais perfeito correlato linguístico do vai e vem do Anjo das Pernas Tortas, que chegava a retardar o gol para dar meia-volta e driblar novamente o marcador já caído. Garrincha, além do mais, teve sua vida escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Ninguém encarnou melhor do que ele a frase de Paulo Prado sobre o Brasil e os brasileiros: “Numa terra radiante vive um povo triste”. Seu estilo foi o de Machado, mas a sua biografia trágica foi a de um Lima Barreto. E diga-se de passagem: goste ou não de futebol, quem não leu a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, Estrela solitária, está perdendo tempo.

[2]

Mas Lima Barreto odiava o futebol, chegando a fazer parte de uma liga contra o esporte bretão. Apesar dessa aversão, Lima nos ensinou a ver mais do que a bola, pensando o futebol para além das quatro linhas. O elitismo, a violência e o racismo que apontava no ludopédio de seu tempo certamente estavam lá, como estão no futebol de hoje. O que Lima diria da transformação de nossos estádios em arenas, da selvageria de nossas torcidas e do embranquecimento de nossos craques?

[3]

A aversão de nosso Lima ao futebol lembra a aversão do argentino Jorge Luis Borges, que teria sido um grande torcedor do River Plate e um cronista esportivo para a eternidade, ao melhor estilo Nelson, se tivesse se deixado arrebatar pela magia. “O futebol é popular porque a estupidez é popular”, disse certa vez, e aos 79 anos chegou a cometer a heresia de dar uma conferência sobre a Imortalidade no exato momento em que a seleção argentina abria a Copa de 78, sediada no país.

[4]

Como metáfora futebolística, a conferência de Borges foi um perfeito gol contra. E aqui chegamos a Bolaño, torcedor do extinto Ferrobádminton, no Chile (pode haver algo mais bolañesco do que torcer para um time extinto?), e do Barcelona, na Espanha: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro”.

[5]

Mas voltemos aos escritores brasileiros. Graciliano Ramos, em 1921, pensava que o futebol não vingaria. No litoral, até podia ser; mas no sertão, terra avessa a estrangeirismos, nem um mês duraria a moda.

Mário e Oswald de Andrade, até onde sei, deram pouco bola ao ludopédio. Uma pena. Mas seus sucessores modernistas não deixaram barato.

Os textos sobre futebol do vascaíno Drummond podem ser lidos em Quando é dia de futebol. Já João Cabral de Melo Neto foi meia do time juvenil do Santa Cruz e escreveu belíssimos poemas que giram em torno do futebol. Nesses poemas – que espero um dia sejam publicados em conjunto, em forma de plaquette – João Cabral faz na poesia o que Nelson fez na crônica.

Rachel de Queiroz, vascaína como Drummond, também escreveu sobre o futebol. E Clarice Lispector tem um conto, “À procura de uma dignidade”, que se passa nos subterrâneos do Maracanã.

Há certamente vários outros escritores que se debruçaram sobre o ludopédio, e há também jogadores que se aventuraram pelas letras. Mas meu repertório literário sempre foi menor que meu repertório futebolístico, e deixo ao leitor o prazer da pesquisa.

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E, por fim, Nelson Rodrigues, o Pelé da crônica esportiva (sem esquecer de seu irmão, Mário Filho, que devemos louvar todos os dias). As mil melhores frases já escritas sobre futebol saíram da pena de Nelson. A melhor delas resume todo o futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

O que seria de Borges se tivesse lido em um jornal essa frase?


Caique Zen

Coeditor.


O claro enigma de Tite

O claro enigma de Tite

Arcturo se deixará surpreender?

POR CAIQUE ZEN


Primeiro como tragédia, depois como farsa. Em 1950, assistimos à tragédia; em 2014, à farsa. Pois apesar dos esforços midiáticos para dar um tom trágico aos 7×1, a verdade é que não sofremos com o passeio alemão em solo pátrio. Quem ousaria um gracejo sobre o Maracanaço no calor da hora, quando um país inteiro chorava? Já em 2014, não faltaram memes, e a verdade é que muitos de nós estávamos indiferentes à Copa (isso para não falar nos secadores, que por aversão à CBF ou aos desmandos do “padrão Fifa”, torceram contra a canarinho do primeiro ao último jogo). Mas, passados quatro anos da farsa dos 7×1 e a um dia da copa, em que pé estamos?

Quanto à torcida, certamente aumentaram os votos nulos, e as ruas não respiram o clima de Copa, presente apenas nas peças publicitárias com Tite, Neymar e – pasmem! –  Dunga. A indiferença pode ser explicada pela composição do escrete, formado quase inteiramente por atletas de times estrangeiros, muitos deles sem identificação anterior com grandes clubes brasileiros, e todos destituídos do carisma fácil de um Ronaldo Fenômeno, da verve polêmica de um Romário ou do estilo pé no chão de um Cafu, 100% Jardim Irene. Neymar, manchado por inúmeras polêmicas, dentre elas o contrato de exclusividade com a Rede Globo, não é unanimidade, e diante da carência de ídolos tenta-se elevar a figura de Tite – misto de coach neurolinguista com pastor da  Universal e tecnocrata alemão – ao panteão dos deuses outrora ocupado por Pelé, Garrincha, Riva et al. E todos sabemos que, assim como a ascensão do “gestor” representa a morte da política, o primado do treinador sobre os jogadores é a derradeira pá de terra sobre o futebol.

Contribui ainda para a modorra generalizada o aviltamento da camisa amarela, outrora motivo de orgulho, usada nos protestos que levaram ao golpe de 2016. Ante o verde-amarelismo que timidamente, aqui e ali, começa a dar as caras, o macunaímico torcedor brasileiro resmunga: “Ai que preguiça!”.

Quanto à seleção, estamos mais bem preparados do que em 2014. Ainda assim, temos um dos times menos criativos de nossa história, sem um meia que possa, em um passe de mágica, mudar a história de um jogo, e a “neymardependência” de que falam os especialistas é tão real quanto a alta da inflação, a queda do PIB e os 13,4 milhões de desempregados.

A verdade, com o perdão da obviedade, é que podemos ganhar ou perder a copa. Se ganharmos, ganharemos sem o brilho dos três primeiros títulos, quando jogávamos e encantávamos. E se perdermos, perderemos sem a grandeza trágica de 50 ou 82. Perderemos discretamente, como em 2010, ou ganharemos pragmáticos, como em 94, com Neymar fazendo as vezes de Romário.

Estamos longe de 1970, quando Pasolini, após os 4×1 do Brasil sobre a Itália, propunha a distinção entre futebol de prosa e futebol de poesia: “Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol”. Naqueles tempos, nos contrapúnhamos ao esquema de retranca e triangulação italiano, abertos ao inesperado e à subversão prazerosa da linguagem futebolística. Hoje, nos inspiramos na prosa europeia.

Tite já revelou seu sonho de treinar um time italiano e, não por acaso, a palavra “triangulação” é um dos trending topics de seu vocabulário (o termo “retranca”, é claro, está vetado). “Poesia é risco”, como disse Augusto de Campos, e não estamos dispostos a correr riscos após os 7×1.

Por fim, para terminar em poesia ao menos aqui, encerro este texto à toa, de um não especialista, com um poema do vascaíno Drummond, “Oficina irritada”. Tentem imaginar a voz de Tite recitando o poema e percebam como as potencialidades e os limites do escrete canarinho estão cifrados no claro enigma drummondiano:

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.


Caique Zen

Coeditor.

13 de junho, 2018. Volume: 2Seção: Tópicos Dossiê: Copa russa. Index: Carlos Drummond de Andrade, Pier Paolo Pasolini, Augusto de CamposPublicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan, Caio Ramalho. Imagem de capa: Pier Paolo Pasolini jogando futebol em Quarticciolo, Roma.