a morte e o olhar

a morte e o olhar

richard avedon & jorge luis borges

Richard Avedon fotografou por seis anos o envelhecimento e a morte do pai. Este ensaio parte das fotos de Richard e de uma entrevista com o escritor Jorge Luis Borges para refletir sobre as relações entre vida e morte, olhar e empatia.

Este vídeo-ensaio não seria possível sem o apoio imensurável dos amigos que se dispuseram a doar um pouco de seu tempo: Ju Malinverni e Antídoto (pela referência, pelo auxílio com os áudios e pela rara empatia); Nadja Morais (pela leitura sensível e a paixão pela vida, extremamente contagiantes); Suzana Salama (pelo olhar atencioso sobre o cuidado com as imagens); Bruna Escudero (pelas indispensáveis aulas de edição). Queridos, muito obrigado por toda a troca e generosidade.

canovaccio #1

Esta é uma publicação complementar ao vídeo-ensaio, em que reunimos o texto e todo o material que deu origem ao vídeo, além de informações e conteúdo extras. A ideia é criarmos um compêndio e enriquecer a experiência de cada ensaio.

Canovaccio era o roteiro de ações que companhias da Commedia dell’Arte usavam como base para suas apresentações, reunindo os personagens e um esboço da trama que seria improvisada.


Elogio da derrota

Elogio da derrota

Uma ode ao choro de alambrado

Em “Nota para um conto fantástico”, Jorge Luis Borges diz haver na derrota uma dignidade que a vitória não conhece. Concordo. Mas Borges, não fosse tão indiferente ao futebol, poderia ir mais além. Pois no esporte jogado com os pés, há derrotas não só mais dignas, mas também muito mais gloriosas que a própria vitória. E não falo aqui de meros prêmios de consolação.

O caráter do verdadeiro torcedor é forjado pela derrota, pelo choro no alambrado. Quem quiser amar um time, deverá amá-lo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. E há clubes que chegam a construir toda a sua mística em torno da derrota. No Brasil, temos na Ponte Preta o caso mais notório. Em 2020, o clube campineiro completará 120 anos sem um título. E falem o que quiser: entre o Bugre e a Macaca, somos todos alvinegros.

Isso para não falar em clubes vitoriosos que, por vocação, se orgulham mais de suas derrotas. Meu pai, um corintiano fanático que viveu parte dos 23 anos de jejum e cresceu ouvindo de meu avô a história épica das derrotas para o Santos de Pelé, me dizia em 2012, na final da Libertadores, que não ficaria triste se perdêssemos aquele título para o Boca Juniors. A mística, segundo ele, só aumentaria, e seríamos mais felizes ainda quando chegasse a vitória – como fomos felizes em 77, quando lavamos a alma sem eira nem beira. Forjado no choro de alambrado, meu pai não olhava para o jogo, mas para a História.

E o que dizer então do Botafogo, o clube que recusa a triste vulgaridade da vitória a qualquer custo? Também o Fogão ostenta um jejum, 21 anos, e seus torcedores se autodenominam sofredores. Pode haver coisa mais bela? Até seu apelido, “Estrela Solitária”, recende a melancolia. Garrincha e Heleno de Freitas são ídolos feitos à sua imagem e semelhança. E Borges, se gostasse de futebol e fosse brasileiro, certamente seria botafoguense.

Quanto às seleções, não posso deixar de dizer que a Espanha pode até ter alegrado seu povo ao ganhar a Copa de 2010, mas todo o resto do mundo se sentiu traído com essa vitória. Ganhar que ganhem as Itálias e as Inglaterras, com seu futebol pragmático. Mas a Espanha?! A função da Espanha, até então, era levar poesia às copas do mundo. E não há nada de menor nisso. Em 2010, apesar de derrotada, quem ganhou foi a Holanda. Hoje, oito anos depois, a Laranja Mecânica continua ostentando a sua mística.

E falando em Espanha, um bom exemplo de que a derrota pode ser mais gloriosa que a vitória está em sua poesia – sua poesia feita com palavras, não com os pés. Falo de dois poemas: “Ode a Platko”, de Rafael Alberti, e “Contraode ao poeta da Real Sociedad”, de Gabriel Celaya. Ambos os poemas tratam da histórica final da Copa del Rey de 1928, entre Real Sociedad e Barcelona.

Alberti não se interessava tanto por futebol, mas, na ocasião, passava uma temporada na Cantábria, local da primeira partida da final. Acompanhando ninguém mais ninguém que Carlos Gardel, o poeta acabou indo ao jogo. Seu poema é uma ode olímpica, à la Pindaro, dedicada a Franz Platko, lendário goleiro do Barcelona. O mote é uma breve cena do jogo, em que Platko, depois de uma dividida com o atacante da Real Sociedad, levanta ensanguentado em meio aos jogadores adversários, agarrando a bola como quem leva à sua polis o velocino de ouro. Eternizado pela ode de Alberti, o goleiro entraria para a história como o herói daquela final, vencida pelos catalães após três jogos acirradíssimos, violentos até.

Gabriel Celaya, então com 18 anos, também assistiu àquela primeira partida. Mas seu poema, como indica o título, é uma “contraode”, uma visão desencantada do jogo, em tudo distinta à de Alberti. Celaya – nem preciso dizer – era torcedor da Real Sociedad, e em seu poema o foco passa de Platko, o herói épico, para a figura do juiz ladrão, clássico personagem do drama futebolístico.

Pessoalmente, prefiro o poema de Celaya, que cheira mais a cancha, mais a choro de alambrado e a ressentimento curtido em barris de carvalho do que a grandiloquente ode de Alberti. Traduzo-o aqui como prova cabal da superioridade da derrota:

E lembro também nossa tripla derrota
naqueles jogos contra o Barcelona,
que se ganharam de nós, não foi por Platko
mas por dez pênaltis claros, roubados.
Camisas azuis e brancas voavam
no ar, felizes, como pássaros livres
assaltavam a meta defendida com fúria
e nada pôde então toda a inteligência
e toda a entrega dos bascos
que lutavam contra a raiva cega
e o barro e as entradas criminosas e um árbitro comprado.
Disso todos lembramos, e talvez melhor que você,
meu querido Alberti, me lembro eu,
porque lá estava e porque vi o que vi –
o que você esqueceu, mas sempre
recordaremos: ganhamos. Justiça feita, ganhamos,
e há coisas que não mudam os falsos resultados.


Caique Zen

Coeditor.

8 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Index:  Jorge Luis Borges, Rafael Alberti, Gabriel Celaya. Publicação: Caique Zen. Revisão: Caio Ramalho.


Os escritores e o futebol

Os escritores e o futebol

Do repúdio à paixão, a bola e as letras

[1]

Machado de Assis não escreveu sobre futebol. O ludopédio ainda não havia se alastrado pelo país enquanto viveu o Bruxo. Sua estética do drible, no entanto, prenuncia Garrincha. O vai e vem dos romances machadianos, com direito a piparotes no leitor, é o mais perfeito correlato linguístico do vai e vem do Anjo das Pernas Tortas, que chegava a retardar o gol para dar meia-volta e driblar novamente o marcador já caído. Garrincha, além do mais, teve sua vida escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Ninguém encarnou melhor do que ele a frase de Paulo Prado sobre o Brasil e os brasileiros: “Numa terra radiante vive um povo triste”. Seu estilo foi o de Machado, mas a sua biografia trágica foi a de um Lima Barreto. E diga-se de passagem: goste ou não de futebol, quem não leu a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, Estrela solitária, está perdendo tempo.

[2]

Mas Lima Barreto odiava o futebol, chegando a fazer parte de uma liga contra o esporte bretão. Apesar dessa aversão, Lima nos ensinou a ver mais do que a bola, pensando o futebol para além das quatro linhas. O elitismo, a violência e o racismo que apontava no ludopédio de seu tempo certamente estavam lá, como estão no futebol de hoje. O que Lima diria da transformação de nossos estádios em arenas, da selvageria de nossas torcidas e do embranquecimento de nossos craques?

[3]

A aversão de nosso Lima ao futebol lembra a aversão do argentino Jorge Luis Borges, que teria sido um grande torcedor do River Plate e um cronista esportivo para a eternidade, ao melhor estilo Nelson, se tivesse se deixado arrebatar pela magia. “O futebol é popular porque a estupidez é popular”, disse certa vez, e aos 79 anos chegou a cometer a heresia de dar uma conferência sobre a Imortalidade no exato momento em que a seleção argentina abria a Copa de 78, sediada no país.

[4]

Como metáfora futebolística, a conferência de Borges foi um perfeito gol contra. E aqui chegamos a Bolaño, torcedor do extinto Ferrobádminton, no Chile (pode haver algo mais bolañesco do que torcer para um time extinto?), e do Barcelona, na Espanha: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro”.

[5]

Mas voltemos aos escritores brasileiros. Graciliano Ramos, em 1921, pensava que o futebol não vingaria. No litoral, até podia ser; mas no sertão, terra avessa a estrangeirismos, nem um mês duraria a moda.

Mário e Oswald de Andrade, até onde sei, deram pouco bola ao ludopédio. Uma pena. Mas seus sucessores modernistas não deixaram barato.

Os textos sobre futebol do vascaíno Drummond podem ser lidos em Quando é dia de futebol. Já João Cabral de Melo Neto foi meia do time juvenil do Santa Cruz e escreveu belíssimos poemas que giram em torno do futebol. Nesses poemas – que espero um dia sejam publicados em conjunto, em forma de plaquette – João Cabral faz na poesia o que Nelson fez na crônica.

Rachel de Queiroz, vascaína como Drummond, também escreveu sobre o futebol. E Clarice Lispector tem um conto, “À procura de uma dignidade”, que se passa nos subterrâneos do Maracanã.

Há certamente vários outros escritores que se debruçaram sobre o ludopédio, e há também jogadores que se aventuraram pelas letras. Mas meu repertório literário sempre foi menor que meu repertório futebolístico, e deixo ao leitor o prazer da pesquisa.

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E, por fim, Nelson Rodrigues, o Pelé da crônica esportiva (sem esquecer de seu irmão, Mário Filho, que devemos louvar todos os dias). As mil melhores frases já escritas sobre futebol saíram da pena de Nelson. A melhor delas resume todo o futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

O que seria de Borges se tivesse lido em um jornal essa frase?


Caique Zen

Coeditor.


Entre a vigília e o sonho

Entre a vigília e o sonho

Das formas que não são ainda a escuridão

[1]

Insetos voadores de hábitos noturnos se guiam pela luz da lua. Qualquer outra fonte de luz os desorienta. É sabido, entretanto, que a lua não emite luz. Portanto os insetos notívagos orientam-se por um simulacro do sol. Adoradores do falso ou, de outra perspectiva, encantados pelo artifício, como escritores e leitores.

 

[2]

Algo na atmosfera da metrópole parece esgotar toda possibilidade de presciência, a despeito ou em consequência de sua vasta iluminação. Parece não haver revelação capaz de alterar a banalidade do cotidiano. O que poderia ser visto a ponto de perturbar a ordem dos eventos e resgatar qualquer coisa que pareça ter sido perdida, e que no entanto não se mostraria senão em sonho?

Velada sob “uma ordem por decifrar”, como diria Saramago diante do caos, essa falta remete à própria faculdade ou dificuldade de ver. Uma espécie de espelho de Demócrito de Abdera, com a face reflexiva para trás. (Diz-se que o atomista grego se cegou para não sofrer as incursões da visão sobre seus pensamentos, desnublando-os.) Jorge Luis Borges sentencia: “Essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético”.

 

[3]

Quando Lady Macbeth se levanta sonâmbula e insiste em esfregar as mãos na tentativa de limpar uma mancha que não sai, ela sonha ou vê? Ela sonha e vê: fora cúmplice de Macbeth – quando não agente –, das ações que o levaram ao lugar mais alto do reino e às margens da própria consciência.

O rei Édipo de Sófocles, à semelhança de Demócrito, cega-se ao lhe ser revelado aquilo que sempre esteve diante dos olhos. Ambas as personagens, Édipo e Macbeth, foram destinadas por prescientes e agiram, cada uma a seu modo, para escapar do implacável futuro ou, ao menos, de seu derradeiro ato –  a parte do sonho que se busca esquecer, mas que subjaz às imagens mais belas.

Em 1899, o criador da psicanálise, Sigmund Freud, publica sua obra magna, A interpretação dos sonhos, na qual afirma que “todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília”. Mais interessante, porém, que o mapeamento psíquico é a matéria de que o sonho é feito.

Por volta de 1610, William Shakespeare, o maior escritor da história, nos lega sua última comédia, A tempestade. É dessa peça o trecho em que Próspero, num intervalo de imensurável lucidez, descreve a matéria de todas as coisas: “Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos”.

Não muito distante da Inglaterra isabelina, reinava o Século de Ouro Espanhol, período em que irromperam o também dramaturgo Calderón de la Barca e sua comédia A vida é sonho. Na peça, o príncipe Segismundo está sujeito aos caprichos que o condenam a levar uma vida de prisioneiro a despeito de sua posição. Entre os cruéis experimentos que buscam confundir suas imagens de sonho e vigília, Segismundo protagoniza um dos mais belos monólogos da dramaturgia universal:

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver só é sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

A obra prima de Calderón traz ecos do clássico indiano Ramayana, em que o deus Indra é feito prisioneiro. Brahma, para libertá-lo, insere uma forma mental em sua cabeça: “estou livre”. E então Indra que as grades que o encerravam eram apenas ilusão.

Por tudo o que vemos, portanto, seríamos no mínimo testemunhas ou cúmplices, e mais: não podemos escapar do que vemos. Tudo o que vemos nos vê. Mas se todos os momentos no final se perderão no tempo, “como lágrimas na chuva” ou “como o canto dos pássaros no bosque”, o que de fato se perde e que tanto tememos a ponto de transcrever essas vaidades? Será não o que se vê, mas o ato de ver, a ação que só se pode registrar justamente com aquilo que vemos, isto é, com o que nunca tivemos e, portanto, jamais poderíamos perder?

 

[4]

J. W. Dunne, aviador que especulou sobre a natureza do tempo, afirma que em nossos sonhos confluem o passado imediato e o imediato futuro, e cada noite confirma que a eternidade já nos pertence. Borges, em seu ensaio sobre o filósofo que voava, aponta para a curiosa distinção de que “na vigília, percorremos o tempo sucessivo em velocidade uniforme; no sonho, abarcamos uma área que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar os relances dessa contemplação e com eles urdir uma história, ou uma série de histórias”.

Certa vez, Borges afirmou ser possível compreender a cegueira como uma dádiva. Ele não se cegou como Édipo ou Demócrito, mas foi cegado. Como o van Gogh de Artaud, suicidado pela sociedade, Borges foi cegado pelo tempo: “o tempo foi meu Demócrito”.

Em “O fazedor”, o argentino aproxima a cegueira e o sonho: “Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas […] Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estoico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. […] Dias e noites passaram sobre esse desespero na sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem espanto) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o encarara com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho”.

 

[5]

Em 1949, Emil Cioran apregoa, em seu Breviário de decomposição, que “habitualmente afundamos numa lama noturna, numa obscuridade tão medíocre como a luz… A vida é apenas um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luzes e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excelência sobre o resto da matéria”.

Nem a lúcida crueldade de Cioran nem a exuberante cegueira de Borges, nada disso poderia assaltar a mente zen de Alberto Caeiro, para quem ver era o sentido mais importante: “Pensar é estar doente dos olhos”. Muito depois de Demócrito, cujo tempo jamais poderia conceber o pensamento como doença, Caeiro nos oferece uma outra chave:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

 

[6]

Ver. Um verbo contido no próprio nome verbo. Assim como no verbo escrever ou nos nomes verdade e vertigem. Uma série de formas luminosas, não apropriadas para entes das sombras, como o morcego – bicho que carrega a qualidade cego no próprio nome –, o animal que nas mais variadas fantasias não vê, mas voa.

 

[7]

Um inseto erra em torno da lâmpada, no instante mesmo em que se redigem estas palavras cegas. Num voo louco, o pequeno bicho orbita em seu pequeno cosmos. Anseia por luz, mais luz, como um Goethe no leito de morte. Um inseto – que passa a vida breve em voo rasante. O único resquício de sol que lhe resta é essa lâmpada enfraquecida, esse fio de luz que se apaga e ao qual o pequeno bicho se agarra sem medo e sem esperança.

Percebo-me, de súbito, deslizando pela fronteira entre a vigília e o sonho. O inseto continua sua trajetória incerta, mas ordenada – “loucura, sim, mas tem seu método” –, e eu o observo atentamente, num estado constante de alarme, na tentativa de capturar um fragmento das formas que não são ainda a escuridão.


Luan Maitan

Editor.


Lembramos para você a preço de atacado

Lembramos para você a preço de atacado

Borges vs. Musk – a memória artificial e a literatura

[1]

Maio de 2017. Elon Musk, o homem que promete colonizar Marte, anuncia a criação da Neuralink, startup que conectará o cérebro humano a computadores. A ideia é viabilizar a simbiose entre homem e máquina ou, nas palavras exatas de Musk, permitir “a fusão mais próxima entre inteligência biológica e inteligência digital” por meio dos chamados neural laces, dispositivos que serão capazes de transferir arquivos (pensamentos, lembranças, conceitos) de hardwares para seres humanos e de seres humanos para hardwares.

Os objetivos de Musk, como sempre, são os mais nobres possíveis. Inicialmente, a tecnologia prestará serviços a pessoas com lesões cerebrais causadas por derrames, tumores ou outras enfermidades. Só depois de testados por essa população, é que os neural laces chegarão ao mercado.

Todos poderemos, então, “impulsionar a velocidade de conexão entre nosso cérebro e a versão digital de nós mesmos”, eliminando o inconveniente da arrastada expressão pela palavra. “Há um monte de conceitos nas nossas cabeças”, diz Musk, “que os nossos cérebros tentam comprimir nessa incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”. Caso tivéssemos “duas interfaces cerebrais”, poderíamos perder menos tempo com a troca entediante de signos linguísticos estabelecendo “uma comunicação conceitual não comprimida”, mais afeita à rapidez de nosso tempo.

 

[2]

Basta ler a palavra ciborgue, nessa incrivelmente baixa taxa de dados a que chamamos escrita, para que uma série de associações conceituais não comprimidas seja disparada em algum lugar de nossa mente. Imagens roubadas à ficção científica, certamente distópicas, monopolizam o significado do termo, e mal paramos para pensar que o ser humano normal, nômade ou sedentário, caçador-coletor, agricultor ou cliente-Walmart, nunca esteve muito longe de ser uma “criatura dotada de partes orgânicas e cibernéticas que utiliza tecnologia com a finalidade de potencializar suas capacidades” (definição da Wikipédia para o conceito de ciborgue).

Desde aquela primitiva startup, criada – ou roubada, diriam as más-línguas – pelo empreendedor Prometeu, o ser humano tem se valido das mais diversas bugigangas. Com a mesma entrega apaixonada de um nomofóbico que tateia seu iPhone, o Homo sapiens sempre esteve disposto a abrir mão de uma suposta pureza de sua humanidade para se entregar ao primeiro apetrecho, ao primeiro gadget ou app que o auxiliasse minimamente na labuta diária.

“Somos criaturas tecnológicas” – escreve Tom Chatfield, em Como viver na era digital. – “Faz parte de nossa natureza ampliar a nós mesmos e ao mundo – e ir além dos limites e nos adaptarmos”. Dificilmente, portanto, poderíamos separar o humano dos objetos que ele mesmo cria para atender às suas necessidades. Do osso voador de 2001: Uma Odisseia no Espaço aos neural laces de Musk, o mesmo instinto prometeico impulsiona o homo tecnologicus.

 

[3]

“Dos diversos instrumentos do homem”, diz Borges, “o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.

 

[4]

Em “A memória de Shakespeare”, Hermann Soergel, um professor cuja vida toda foi dedicada a “trivialidades eruditas”, recebe, de um melancólico colega de academia, a memória de Shakespeare. “Não era”, como esclarece Borges, autor do conto, “a memória de Shakespeare no sentido da fama de Shakespeare, isso teria sido muito trivial; tampouco era a glória de Shakespeare, mas sim a memória pessoal de Shakespeare”. Uma memória involuntária que pode irromper nos momentos de sonho ou de vigília, quando surge sorrateira enquanto seu depositário folheia as páginas de um livro, vira uma esquina ou prepara um café.

Hermann Soergel, então, recorda de repente certas palavras de Chaucer enquanto se barbeia em frente ao espelho; assobia uma melodia muito simples, que jamais havia ouvido, ao sair do Museu Britânico; relembra as feições de um homem, talvez um vizinho, que, embora não figure em nenhuma biografia, devia ser avistado com frequência por Shakespeare.

Com o tempo, porém, a memória de Shakespeare passa a oprimir Hermann: “A princípio as duas memórias não mesclaram suas águas. Com o tempo, o grande rio de Shakespeare ameaçou, e quase inundou, meu modesto caudal. Temeroso, percebi que estava esquecendo a língua de meus pais. Já que a identidade pessoal baseia-se na memória, temi por minha razão. À medida que transcorrem os anos, todo homem tem a obrigação de carregar o crescente fardo de sua memória. Duas me oprimem, confundindo-se às vezes: a minha e a do outro, incomunicável”.

Para Piglia, a visão borgiana de literatura estaria cifrada nesse conto derradeiro (sim, é possível que a “Memória de Shakespeare” tenha sido o último conto de Borges): “A figura da memória alheia é a chave que permite a Borges definir a tradição poética e a herança cultural. Recordar com uma memória alheia é uma metáfora perfeita da experiência literária. A leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias. As cenas dos livros lidos voltam como lembranças privadas. São acontecimentos entremeados ao fluir da vida, experiências inesquecíveis que voltam à memória, como uma música”.

A partir dessa ampla e certeira metáfora proposta por Piglia (em suma: ler é apropriar-se da memória alheia), podemos arriscar a proposição de duas consequências.

Primeiro: as ideias de tradição poética e herança cultural remetem à cena original do pacto fáustico, à oferta demoníaca de um bem extremamente precioso, mas que pode levar à ruína aquele que o aceita. Quando lemos, damos vida às palavras e aos autores semimortos na penumbra das estantes; aceitamos de boa vontade o perigoso intercâmbio entre nossa consciência e a consciência de um outro. Respeitando a solenidade do acordo, o detentor da memória de Shakespeare deve oferecê-la em voz alta a seu herdeiro, que, por sua vez, deve aceitá-la também em alto e bom tom. Só então o pacto pode ser consumado.

Segundo: a memória literária é viva, e, como tal, admite o intercâmbio entre o próprio e o alheio. Como um organismo de baixa imunidade, o bom livro, ao mesmo tempo em que contamina quem o lê, não costuma opor resistência às contaminações do ambiente. Livros são dispositivos de troca, e não de mera recepção. Por isso, um livro diz também sobre as circunstâncias de sua leitura: o local, a fase da vida, o estado de espírito de seu leitor.

E, last but not least, a memória literária, por seu caráter orgânico, admite o sagrado esquecimento. E é justamente por essa imperfeição da memória (como soube Borges mais que ninguém) que lembranças podem ser manipuladas, desviadas, distorcidas e inclusive enriquecidas pela imaginação.

 

[5]

Mas a leitura não é somente o diálogo privado entre autor e leitor (fosse isso, seria a mais banal das tecnologias, pertencente à frívola estirpe do WhatsApp ou do telefone): “Quando lemos um livro antigo”, diz Borges, “é como se estivéssemos lendo todo o tempo transcorrido do dia em que foi escrito até que chegasse a nós. Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século XVII, Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley”.

Os sucessivos atos de leitura enriquecem uma obra ao longo do tempo. A literatura é uma espécie de palimpsesto, ou memória coletiva, de código aberto, em que “cada nova escrita cobre a escrita anterior e é coberta pela que segue”.

 

[6]

Com a invenção do neural laces, substituiríamos nossas lentas interações verbais por transferências telepáticas de alta velocidade. Em um diálogo, por exemplo, “você não precisaria verbalizar, a menos que quisesse acrescentar um pequeno charme à conversa. Mas a conversa mesmo seria uma interação conceitual em um nível que é difícil conceber hoje”, diz Elon Musk.

E por que o mesmo não ocorreria com a leitura, esse hábito anacrônico, incompatível com o ritmo frenético da era digital? Para que leríamos Borges, para que leríamos Shakespeare, se pudéssemos transferir suas obras completas para nossos cérebros? Bastaria um clique em “adicionar ao carrinho”, e já não precisaríamos sacrificar à literatura nossas melhores horas de amor, como disse Drummond.

O que incomoda aos futuristas do século XXI, fiéis ao culto da velocidade, é que continuamos, em plena era digital, “lendo na mesma velocidade que nos tempos de Aristóteles” – como bem observa Piglia. E, embora a circulação da informação cresça vertiginosamente, não podemos fazer nada para tentar abarcá-la a não ser decifrar lentamente as palavras – “words, words, words” – a razão de 300 vocábulos por minuto (segundo as estatísticas mais otimistas).

Como pensar a leitura fora dos limites da “incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”? As ideias excêntricas de Musk remetem à famosa anedota de Woody Allen sobre a leitura dinâmica: “Fiz um curso e li Guerra e paz em 20 minutos. É sobre uns russos”.

 

[7]

“Fala-se no desaparecimento do livro”, diz Borges, “eu acho que é impossível. Alguém perguntará que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco. A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido, um disco, da mesma forma, é ouvido para ser esquecido, é uma coisa mecânica, e portanto frívola. Um livro é lido para a memória”.


Caique Zen

Coeditor.


Leitor clássico, leitor moderno

Leitor clássico, leitor moderno

Notas sobre leitores

POR CAIQUE ZEN


Lá pelas tantas, em O jogo da amarelinha, Horacio Oliveira prende ao abajur de seu quarto um punhado de folhas secas colhidas no Quai des Celéstins em um de seus passeios. Terminado o arranjo, dois amigos o visitam: Ossip, que fica por duas horas e sequer olha para o abajur, e Etienne, que examina as folhas e se entusiasma com tanta beleza: “Durer, as nervuras, etcétera”.

Tomado pelo espanto ao constatar a disparidade das percepções, Oliveira compara o homem a “uma simples ameba que estende pseudópodes para alcançar e envolver os seus alimentos”, um ser necessariamente limitado, condenado a perceber somente uma parcela restrita da realidade e a ignorar folhas e abajures pela vida afora. Segundo Holiveira, existiriam “pseudópodes compridos e curtos, movimentos, rodeios”, modos variados de interagir com o mundo que nos rodeia, todos insuficientes.

Os efeitos desta limitação fundamental, inerente à condição humana, são entretanto bastante diversos, a depender da personalidade de cada sujeito. E é aqui que chegamos à distinção, apenas sugerida por Cortázar, entre leitores clássicos e modernos (questão especificamente literária, mas que, ao mesmo tempo, pode nos servir de metáfora mais ampla para dois modos diversos de ser e estar no mundo).

Comecemos pela figura do leitor clássico, exemplarmente encarnado por Goethe, que, por escolha ou aptidão, forma parte do grupo seleto de amebas “com os pseudópodes estendidos ao máximo em todas as direções”, amebas que abrangem com um diâmetro uniforme a totalidade de uma área e “não parecem precisar desejar aquilo que começa (ou continua) mais além da sua enorme esfera”.

Espécie de latifundiário do intelecto, o leitor clássico cerca um terreno de grandes proporções e, ignorando deliberadamente aquilo que está para além de sua propriedade, se empenha em levar à perfeição o conhecimento de cada centímetro de seu quinhão de terra. O leitor clássico é quase sempre um erudito, alguém profundamente convencido de que a arte é longa, a vida breve, e é preciso determinar, segundo parâmetros muito bem definidos, o que vale ou não a pena ser lido.

Thoreau, amante dos antigos e detrator do romance, o eremita que parte para os bosques levando consigo apenas um livro (a Ilíada de Homero, no original) é quem nos fornece, em um dos melhores capítulos de Walden, um bom exemplo da tomada de posição do leitor clássico frente à aparente abundância da literatura: “Só é leitura em sentido elevado, não aquela que nos embala como um luxo e permite que as faculdades mais nobres adormeçam, e sim aquela que temos de ficar na ponta dos pés para ler e à qual devotamos nossas horas mais despertas e alertas. Penso que, tendo aprendido as letras, deveríamos ler o que há de melhor na literatura, e não ficar eternamente repetindo nossos bê-a-bás e monossílabos, no quarto ou quinto ano, sentados a vida inteira nos bancos mais baixos da fila da frente”.

É esta também a postura de Proust (leitor clássico, escritor moderno), que coloca na boca do esnobe Swann (todo leitor clássico é, no fundo, um esnobe) a mais lapidar das imprecações contra a banalidade dos jornais: “O que censuro aos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. De vez que rasgamos febrilmente cada manhã a faixa do jornal, deviam-se mudar as coisas e pôr no jornal digamos… os Pensamentos de Pascal! E no volume de corte dourado que só abrimos uma vez a cada dez anos é que leríamos que a rainha da Grécia foi a Cannes, ou que a princesa de León deu um baile à fantasia. Com isto, estaria restabelecida a justa proporção”.

E também a postura de Flaubert (ao que tudo indica, um leitor clássico frustrado): “Que sábios seríamos se conhecêssemos bem apenas cinco ou seis livros!”.

O leitor moderno, por sua vez, jamais se contentaria com cinco ou seis livros, e provavelmente morreria de inanição em uma cabana isolada em que tivesse acesso apenas à Ilíada, no original. (O leitor moderno, ademais, seria incapaz de decifrar sequer um verso em grego clássico).

Para o leitor moderno, como escreveu Cortázar, “o desconhecido aproxima-se por todos os lados. Posso saber muito ou viver muito num sentido determinado, mas então o outro se aproxima pelo lado das minhas carências e arranha-me a cabeça com a sua unha fria. O pior é que me arranha quando não está me picando, e, na hora da comichão – quando eu desejaria conhecer –, tudo o que me rodeia encontra-se tão firme, tão situado, tão completo e maciço etiquetado, que chego a pensar que estava sonhando, que estou bem assim, que me defendo bastante bem e que não devo deixar-me levar pela imaginação”.

Sempre angustiado, às voltas com seus pseudópodes curtos demais, o leitor moderno é um ser consciente, talvez até demais, de sua própria pobreza. Quiçá o único leitor possível em tempos de internet, o leitor moderno sente que “há linhas de ar em volta da sua cabeça, do seu olhar, zonas de detenção dos seus olhos” que se impõem como miragens que tenta, mas jamais consegue atravessar. O leitor moderno sonha em ler a Odisseia enquanto lê Ulysses e sonha em ler Ulysses enquanto lê a Odisseia. Sabe que enquanto lê Joyce está “sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa, etc.”, como um espectador de televisão que, ao assistir ao programa A na emissora B deve lidar com a sensação angustiante de que um programa C, muito mais interessante ou divertido que A, está passando neste exato momento em outra emissora.

Em suas piores versões, o leitor moderno é quase sempre um melancólico, um suicida em potencial. Em suas melhores versões, aceita com estoicismo sua vocação à inquietude, assumindo sobriamente o trabalho de Sísifo que é a leitura.

Se o leitor clássico pode ser visto como um latifundiário do intelecto, o leitor moderno seria um expansionista, um tipo benigno de imperialista que, como Cecil Rhodes, anexaria as estrelas, se pudesse. Para o leitor moderno, a literatura é um grande mapa, um território a ser conquistado, ainda que a vida seja curta demais para isso. Como um rizoma deleuziano (leitores clássicos, quem sabe com razão, ignorariam Deleuze), procedem os leitores modernos “por variação, expansão, conquista, captura, picada”.

Aqui, Roberto Bolaño, com seu desejo infinito de expansão, pode nos servir de modelo. Em sua última entrevista, ao ser perguntado sobre quem lê mais, ele ou seu amigo Rodrigo Fresán, Bolaño responde: “Depende. O Oeste é para o Rodrigo. O Leste, para mim. Logo contamos um ao outro os livros de nossas áreas correspondentes e acaba parecendo que lemos tudo”.

A metáfora geográfica vem bem a calhar, e, de fato, Bolaño nos dá a impressão de ter lido todos os livros do mundo. O que mais impressiona, porém, é que não deixe transparecer, em nenhum momento, o desespero impotente de um Oliveira. Como um fleumático jogador de War, vai pouco a pouco ganhando terreno, avançando com firmeza, lendo tudo o que lhe cai nas mãos, de obras canônicas à ficção científica, de poesia modernista a romances policiais (ao leitor moderno, tudo vale a pena se a alma não é pequena).

O famoso verso de Mallarmé – “A carne é triste, sim, e eu li todos os livros” –  talvez nos ajude a compreender o expansionismo apaziguado de Bolaño. Em Os detetives selvagens, María Teresa Solsona Ribot e Arturo Belano (ela, uma fisioculturista; ele, um poeta, alterego do próprio autor) discutem o significado do verso e sua pertinência. Seria mesmo possível que Mallarmé tivesse lido todos os livros? E quanto à tristeza da carne, o que é que queria dizer com isso? Teria Mallarmé se deitado com todas as mulheres do mundo?

Para María Teresa, o poema é um autêntico disparate, e o “fulano” que o escreveu, presume, deve ter se deitado com pouquíssimas mulheres. E, seguramente, tampouco chegou a ler tantos livros como imaginava.

Frente ao ceticismo de María, Arturo Belano se limita a rir e dizer que sim, é possível ler todos os livros e fazer amor com todas as mulheres. E, dito isso, Belano se cala, num silêncio típico dos personagens bolañescos. Depreende-se, porém, que para o poeta real visceralista, a literatura é uma só, e todos os livros, no que pese a aparente diversidade, contam as mesmas histórias, abordam os mesmos temas e formam parte de uma única tradição. (Por isso, diga-se de passagem, recusou Bolaño com tanta veemência a ideia provinciana de uma literatura nacional.)

Segundo tal concepção, baseada fortemente na ideia de “literatura universal”, todo livro é um-livro-a-mais, e toda leitura, uma releitura, a surpreendente descoberta de verdades já conhecidas, porém pouco lembradas. E é só a partir dessa consciência (a consciência de que a literatura não é um conjunto de textos, e sim um único texto de proporções colossais) que se pode lidar com a angustiante ausência dos livros que jamais leremos: “Os livros são finitos” – diz Bolaño, em “Literatura+enfermedad=enfermedad” – “os encontros sexuais são finitos, mas o desejo de ler e de foder é infinito, ultrapassa nossa própria morte, nossos medos, nossas esperanças de paz”.

Bolaño, é claro, remete a Borges e sua visão de literatura: a obsessão pelo infinito, pelo retorno do mesmo, pelos indícios de uma eternidade que revelaria a falsidade da progressão linear do tempo histórico. Também Borges leu todos os livros e se deitou com todas as mulheres (com Matilde Urbach, até), pois livros, homens e mulheres são meras manifestações daquilo que é, foi e será.

E a simples menção ao Mestre faz vacilar todos os esquemas: seria Borges um leitor clássico ou moderno?

A resposta é: Borges, que se orgulhava mais dos livros que leu do que da obra que escreveu, foi um leitor clássico e moderno, reunindo o que há de melhor nos dois modos de leitura.

Como bom leitor clássico, Borges seleciona com mão de ferro suas leituras, cercando escrupulosamente o grande terreno que transformará em propriedade. Mas, como bom leitor moderno, pressente que o desconhecido se aproxima por todos os lados e que todo terreno, por maior que seja, esconde para além de seus limites uma extensão infinita a ser explorada. Pois, ainda que Borges, como bem percebeu Ricardo Piglia, leia isolado em uma enorme biblioteca, cercado pelas obras-primas que elegeu por companhia, há sempre a sensação levemente incômoda de que algo lhe falta: “uma citação que se extraviou, uma página que se espera encontrar e que está em algum outro lugar”.

A concentração do erudito é contagiada uma e outra vez pela dispersão, pelo desejo insatisfeito. Em um ambiente clássico, Borges lê como um moderno; em um ambiente moderno, lê como um clássico (vide a famigerada cena de leitura em que Borges, dia após dia, sacrifica sua vista para ler A Comédia no bonde, a caminho do trabalho, decifrando com absorção mística o italiano de Dante).

E, sendo clássico, Borges inaugura a tradição moderna de um leitor que se move “perante o infinito e a proliferação”. Não mais o leitor monogâmico, que dedica toda a sua atenção e libido a um único livro, “mas o leitor perdido numa rede de signos”, abrindo abas e mais abas em seu navegador.

Ou, nos termos das metáforas aqui propostas, Borges anda por seu latifúndio como um nômade, explorando os limites de sua biblioteca com a ânsia expansionista de leitores da estirpe de um Bolaño.

Selvagem, saído de um sonho, um tigre caminha, com elegância irrepreensível, pelos labirintos da biblioteca…


Caique Zen

Coeditor.