Os russos somos nós

Os russos somos nós

O espelho multiforme da alma russa

Do “fundador da literatura nacional russa”, Alexander Púchkin (1799-1837), até o “primeiro modernismo” de Tchekhov e Górki (início do século XX), a literatura russa (ao menos até sua virtual devastação a partir do totalitarismo stalinista dos anos 1930), deu ao mundo uma enormidade de obras que se tornaram “clássicos” da literatura universal. Por clássico não se entende aqui, obviamente, o estilo que a história literária dispõe antes do romantismo e do naturalismo. Trata-se, na verdade, de uma acepção mais geral, apontando em certa tradição os autores que, apesar do tempo em que escreveram, reencontram no presente elementos e potências que os tornam contemporâneos.

Além disso, no caso dos clássicos russos, para além de suas diferenças de época e estilo, há algo que os unifica e os contrapõem à nova literatura russa nascida depois, com a Revolução e as vanguardas. É que eles são, ou pretendem ser, nas palavras de um provérbio russo usado por Gógol (1809-1852) em uma epígrafe, um “espelho”, feito para lançar alguma luz sobre as sombras da sociedade russa de seu tempo.[1]

Mas como a sociedade é feita de indivíduos, essas luzes se lançariam não apenas sobre a sociedade em si, ou seja, as formas e os modos das interações de classe e interpessoais (cujo exemplo máximo é a obra de Tolstói), mas também sobre a própria “alma russa” – certa especificidade eslava quase metafísica, que marcaria e determinaria o caráter dos membros de tal sociedade (numa palavra, a “russificidade”).

Ocorre que literatura não é, felizmente, sociologia. E se tampouco é psicologia, isso não impede que ao menos a grande literatura tenha o poder de ser mais do que apenas literatura. Ela pode então, de fato, espelhar essa “alma” – que é russa em parte, e em parte universal, para parafrasear a famosa frase atribuída a Tolstói (1828-1910).[2] Será, em todo caso, dessa literatura que emergirá aquele considerado, ao lado de Shakespeare, o maior analista da psique do homem moderno, Dostoiévski (1821-1881).

Um fractal é uma figura geométrica em que cada parte recupera a estrutura do todo, assim como a figura de ramos divergentes de um pequeno galho incorpora a figura maior de toda a árvore. De modo semelhante, cada texto da grande literatura russa contém toda a grandeza da literatura russa de seu tempo. Um espelho multifacetado, além de cristalino o bastante para também lançar suas luzes sobre as sombras de nosso próprio tempo.

Mas, espelho ou não, literatura é forma literária. A literatura russa posterior ao século XIX (o dos grandes clássicos) seria dominada pelos radicais e radicalmente fundamentais experimentos do período vanguardista – iniciados na primeira década do século XX, e abruptamente encerrados nos anos 1930, com a imposição do “realismo socialista”. Felizmente, houve tempo para o primeiro modernismo russo, entre muitas outras coisas, revolucionar a narrativa curta.

Se na vida civil Tchekhov (1860-1904) era um médico que atuava como clínico, na literatura foi um cirurgião que amputou do conto tudo que não fosse sua medula. Os contos de Tchekhov, como regra, não têm enredo, “intriga”, nem caminham para um clímax ou uma resolução. São um recorte de tempo e de circunstâncias, uma câmera que de repente passa a acompanhar seus personagens (principalmente suas falas cotidianas) e de repente os abandona. O radical realismo de Tchekhov determina a própria estrutura (ou quase desestrutura) de suas narrativas. William Gerhardie, escritor, crítico e acadêmico anglo-russo (1895-1977), faz uma síntese precisa ao dizer que a grande conquista de Tchekhov foi o abandono do “enredo de eventos” por algo “desfocado, interrompido; […] a fluidez e a aleatoriedade dão forma às histórias”.[3] O conto do século XX, de Hemingway a Cortázar, para citar apenas dois marcos possíveis, é fortemente tchekhoviano.

Já o romance será, em grande parte, dostoievskiano. Dostoiévski, a fim de dotar a prosa ficcional de instrumentos calibrados para registrar os mecanismos mentais do indivíduo moderno (e não a sociedade moderna, como fizeram o realismo e o naturalismo), teria, entre outras coisas, de criar ritmos narrativos e uma maleabilidade de linguagem (prenunciando o “fluxo de consciência”) que abririam caminho tanto para Joseph Conrad, Joyce, Virgínia Woolf e Faulkner quanto para Phillip Roth, ou seja, a ficção mainstream do século XX.

O “realismo socialista” de Stálin foi venenoso o bastante para quase matar a literatura russa em seu próprio solo. Mas não para impedir que seu vigor viesse a nutrir boa parte da literatura mundial. Assim como Shakespeare é um dos “inventores” do homem moderno, o homem “hamletiano”, cuja autoespeculação hipertrófica atrofia sua resolução e inibe sua ação, a literatura russa é uma das “criadoras” do homem contemporâneo. Entre outras coisas, somos fragmentários, circunstanciais e inconclusos como Tchekhov e presas de densas incertezas cheias de palavras como Dostoiévski (além de incuravelmente saudosos de certa grandeza utópica de Tolstói). Os russos, de alguma forma, somos nós.

 

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[1] “Não culpe o espelho se a cara é torta”. Em contraponto, a nova literatura russa do início do século XX teria outros objetos e objetivos: não refletir o presente e muito menos o passado, mas educar as massas para o futuro socialista, ajudar a criar o “homem novo” nascido da Revolução e adequar a linguagem aos tempos industriais.

[2] “Se pretende ser universal, comece por pintar a sua aldeia”.

[3] Anton Chekhov: a critical study (1924), citado por William Boyd, “A Chekhov lexicon”, The Guardian, 3 de julho de 2004 (acessível em < http://www.theguardian.com/books/2004/jul/03/classics>).

 

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Este texto, com modificações, foi primeiramente publicado como introdução ao volume Os russos, antologia dos maiores autores da literatura russa do século XIX, publicado pela Hedra, em 2015, com organização de Luis Dolhnikoff. Sua publicação na Vigília é fruto da parceria com a editora Hedra.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).


A literatura latino-americana nos estertores da tradição

A literatura
latino-americana
nos estertores da tradição

O sistema Machado de Assis de Roberto Bolaño, segundo João Cezar de Castro Rocha

POR LUAN MAITAN


Eduardo Wolf disse que João Cezar de Castro Rocha é o maior professor de literatura do Brasil – e quem o diz é o editor e professor Sergius Gonzaga. A esse disse me disse, antecede a conclusão de João Cezar sobre o realismo mágico, podcast preciosíssimo do Estado da Arte, do jornal O Estado de S. Paulo. Toda a discussão é de enorme importância a quem procura conhecer um pouco melhor o boom da literatura latino-americana na segunda metade do século XX. O fechamento de João Cezar de Castro Rocha, entretanto, merece recorte e transcrição para ler e reler quando possível.

Vou destacar um aspecto que pode ser interessante para a nossa discussão, e que permitiria associar Roberto Bolaño e Machado de Assis. Eu creio que a contribuição fundamental dessa geração do boom ou do realismo mágico, como se desejar, é o fato de ter sido sobretudo uma comunidade de leitores críticos.

Já em 1971, Vargas Llosa, em seu doutorado na Espanha, publica uma tese, García Márquez: historia de un deicídio. No mesmo ano, Carlos Fuentes publica La nueva novela latinoamericana. Há ensaios sobre Cortázar, sobre García Márquez, sobre Vargas Llosa… Graças a Carlos Fuentes, o primeiro romance de José Donoso, Coronación, que hoje não é mais lido, foi traduzido ao inglês. Era uma geração de uma comunidade crítica de leitores de suas próprias obras.

Sobre o primeiro romance de Carlos Fuentes, que é excepcional, La región más transparente, uma espécie de história simultânea da Cidade do México – simultânea no sentido de abarcar várias temporalidades –, Julio Cortázar envia a Fuentes uma carta minuciosa, detalhada, dizendo estar impressionado por seu talento narrativo, mas fazendo questão de apontar todos os aspectos que ele cria equivocados. O primeiro, ele diz: “as suas primeiras cinquenta, cem páginas, são impossíveis. Se você não é um chilango” – na gíria, quem é da Cidade do México, como o carioca é do Rio de Janeiro –, diz o Cortázar, “ninguém entende o que você está dizendo”. Numa edição comemorativa, não lembro agora se de trinta ou quarenta anos, de La región más transparente, Fuentes pede autorização a Cortázar para publicar a carta, essencialmente crítica ao romance primeiro e dos mais importantes de Fuentes. Havia, então, entre essa geração, esse sistema constante de leitura.

A primeira pessoa a ler as cem páginas iniciais de Cien años de soledad, chama-se Carlos Fuentes. García Márquez duvidava se deveria seguir escrevendo, já que ele estava em condições financeiras muito precárias na Cidade do México. Fuentes responde, tendo lido somente cem páginas: “por favor, Gabo, siga; estas cem páginas colocam você no patamar de Cervantes”. Só tinha lido cem páginas.

Parece-me que, da literatura hispano-americana mais recente, o único autor que manteve essa tradição de leitura minuciosa da tradição europeia e norte-americana, e da própria tradição, é Roberto Bolaño, que na verdade é o mais potente leitor das últimas duas, três décadas, da literatura hispano-americana. É o sistema Machado de Assis.

Machado de Assis torna-se Machado de Assis quando lê minuciosamente toda a tradição e a literatura brasileira. Não é casual que um dos ensaios mais agudos sobre Machado de Assis seja de Carlos Fuentes, um ensaio pequeno, precioso, que se chama “Machado de La Mancha”. E diz o Fuentes: “em toda a América Latina, o primeiro a realmente retomar a tradición cervantina é um brasileiro chamado Machado de Assis”.

Esse gesto de leitura crítica dos pares, dos mais próximos, é algo que hoje faz profundamente falta na literatura latino-americana. Tenho a impressão de que as gerações mais jovens não se leem criticamente, ou, quando se leem, é apenas para uma espécie de jogo de compadres em que você é tanto mais genial quanto você me considerar maravilhoso. Sem nenhum realismo, no caso.


Luan Maitan

Editor.

18 de abril, 2018. Volume: 2Seção: Tópicos Dossiê: Bolaño. Index: Machado de Assis, Roberto Bolaño, João Cezar de Castro Rocha, Eduardo Wolf, Sergius Gonzaga, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, José Donoso, Julio Cortázar, Miguel de Cervantes. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenImagem de capa: Ilustração de Luisa Rivera para edição comemorativa de 50 anos do livro Cien años de soledad, de Gabriel García Márquez


Leitor clássico, leitor moderno

Leitor clássico, leitor moderno

Notas sobre leitores

POR CAIQUE ZEN


Lá pelas tantas, em O jogo da amarelinha, Horacio Oliveira prende ao abajur de seu quarto um punhado de folhas secas colhidas no Quai des Celéstins em um de seus passeios. Terminado o arranjo, dois amigos o visitam: Ossip, que fica por duas horas e sequer olha para o abajur, e Etienne, que examina as folhas e se entusiasma com tanta beleza: “Durer, as nervuras, etcétera”.

Tomado pelo espanto ao constatar a disparidade das percepções, Oliveira compara o homem a “uma simples ameba que estende pseudópodes para alcançar e envolver os seus alimentos”, um ser necessariamente limitado, condenado a perceber somente uma parcela restrita da realidade e a ignorar folhas e abajures pela vida afora. Segundo Holiveira, existiriam “pseudópodes compridos e curtos, movimentos, rodeios”, modos variados de interagir com o mundo que nos rodeia, todos insuficientes.

Os efeitos desta limitação fundamental, inerente à condição humana, são entretanto bastante diversos, a depender da personalidade de cada sujeito. E é aqui que chegamos à distinção, apenas sugerida por Cortázar, entre leitores clássicos e modernos (questão especificamente literária, mas que, ao mesmo tempo, pode nos servir de metáfora mais ampla para dois modos diversos de ser e estar no mundo).

Comecemos pela figura do leitor clássico, exemplarmente encarnado por Goethe, que, por escolha ou aptidão, forma parte do grupo seleto de amebas “com os pseudópodes estendidos ao máximo em todas as direções”, amebas que abrangem com um diâmetro uniforme a totalidade de uma área e “não parecem precisar desejar aquilo que começa (ou continua) mais além da sua enorme esfera”.

Espécie de latifundiário do intelecto, o leitor clássico cerca um terreno de grandes proporções e, ignorando deliberadamente aquilo que está para além de sua propriedade, se empenha em levar à perfeição o conhecimento de cada centímetro de seu quinhão de terra. O leitor clássico é quase sempre um erudito, alguém profundamente convencido de que a arte é longa, a vida breve, e é preciso determinar, segundo parâmetros muito bem definidos, o que vale ou não a pena ser lido.

Thoreau, amante dos antigos e detrator do romance, o eremita que parte para os bosques levando consigo apenas um livro (a Ilíada de Homero, no original) é quem nos fornece, em um dos melhores capítulos de Walden, um bom exemplo da tomada de posição do leitor clássico frente à aparente abundância da literatura: “Só é leitura em sentido elevado, não aquela que nos embala como um luxo e permite que as faculdades mais nobres adormeçam, e sim aquela que temos de ficar na ponta dos pés para ler e à qual devotamos nossas horas mais despertas e alertas. Penso que, tendo aprendido as letras, deveríamos ler o que há de melhor na literatura, e não ficar eternamente repetindo nossos bê-a-bás e monossílabos, no quarto ou quinto ano, sentados a vida inteira nos bancos mais baixos da fila da frente”.

É esta também a postura de Proust (leitor clássico, escritor moderno), que coloca na boca do esnobe Swann (todo leitor clássico é, no fundo, um esnobe) a mais lapidar das imprecações contra a banalidade dos jornais: “O que censuro aos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. De vez que rasgamos febrilmente cada manhã a faixa do jornal, deviam-se mudar as coisas e pôr no jornal digamos… os Pensamentos de Pascal! E no volume de corte dourado que só abrimos uma vez a cada dez anos é que leríamos que a rainha da Grécia foi a Cannes, ou que a princesa de León deu um baile à fantasia. Com isto, estaria restabelecida a justa proporção”.

E também a postura de Flaubert (ao que tudo indica, um leitor clássico frustrado): “Que sábios seríamos se conhecêssemos bem apenas cinco ou seis livros!”.

O leitor moderno, por sua vez, jamais se contentaria com cinco ou seis livros, e provavelmente morreria de inanição em uma cabana isolada em que tivesse acesso apenas à Ilíada, no original. (O leitor moderno, ademais, seria incapaz de decifrar sequer um verso em grego clássico).

Para o leitor moderno, como escreveu Cortázar, “o desconhecido aproxima-se por todos os lados. Posso saber muito ou viver muito num sentido determinado, mas então o outro se aproxima pelo lado das minhas carências e arranha-me a cabeça com a sua unha fria. O pior é que me arranha quando não está me picando, e, na hora da comichão – quando eu desejaria conhecer –, tudo o que me rodeia encontra-se tão firme, tão situado, tão completo e maciço etiquetado, que chego a pensar que estava sonhando, que estou bem assim, que me defendo bastante bem e que não devo deixar-me levar pela imaginação”.

Sempre angustiado, às voltas com seus pseudópodes curtos demais, o leitor moderno é um ser consciente, talvez até demais, de sua própria pobreza. Quiçá o único leitor possível em tempos de internet, o leitor moderno sente que “há linhas de ar em volta da sua cabeça, do seu olhar, zonas de detenção dos seus olhos” que se impõem como miragens que tenta, mas jamais consegue atravessar. O leitor moderno sonha em ler a Odisseia enquanto lê Ulysses e sonha em ler Ulysses enquanto lê a Odisseia. Sabe que enquanto lê Joyce está “sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa, etc.”, como um espectador de televisão que, ao assistir ao programa A na emissora B deve lidar com a sensação angustiante de que um programa C, muito mais interessante ou divertido que A, está passando neste exato momento em outra emissora.

Em suas piores versões, o leitor moderno é quase sempre um melancólico, um suicida em potencial. Em suas melhores versões, aceita com estoicismo sua vocação à inquietude, assumindo sobriamente o trabalho de Sísifo que é a leitura.

Se o leitor clássico pode ser visto como um latifundiário do intelecto, o leitor moderno seria um expansionista, um tipo benigno de imperialista que, como Cecil Rhodes, anexaria as estrelas, se pudesse. Para o leitor moderno, a literatura é um grande mapa, um território a ser conquistado, ainda que a vida seja curta demais para isso. Como um rizoma deleuziano (leitores clássicos, quem sabe com razão, ignorariam Deleuze), procedem os leitores modernos “por variação, expansão, conquista, captura, picada”.

Aqui, Roberto Bolaño, com seu desejo infinito de expansão, pode nos servir de modelo. Em sua última entrevista, ao ser perguntado sobre quem lê mais, ele ou seu amigo Rodrigo Fresán, Bolaño responde: “Depende. O Oeste é para o Rodrigo. O Leste, para mim. Logo contamos um ao outro os livros de nossas áreas correspondentes e acaba parecendo que lemos tudo”.

A metáfora geográfica vem bem a calhar, e, de fato, Bolaño nos dá a impressão de ter lido todos os livros do mundo. O que mais impressiona, porém, é que não deixe transparecer, em nenhum momento, o desespero impotente de um Oliveira. Como um fleumático jogador de War, vai pouco a pouco ganhando terreno, avançando com firmeza, lendo tudo o que lhe cai nas mãos, de obras canônicas à ficção científica, de poesia modernista a romances policiais (ao leitor moderno, tudo vale a pena se a alma não é pequena).

O famoso verso de Mallarmé – “A carne é triste, sim, e eu li todos os livros” –  talvez nos ajude a compreender o expansionismo apaziguado de Bolaño. Em Os detetives selvagens, María Teresa Solsona Ribot e Arturo Belano (ela, uma fisioculturista; ele, um poeta, alterego do próprio autor) discutem o significado do verso e sua pertinência. Seria mesmo possível que Mallarmé tivesse lido todos os livros? E quanto à tristeza da carne, o que é que queria dizer com isso? Teria Mallarmé se deitado com todas as mulheres do mundo?

Para María Teresa, o poema é um autêntico disparate, e o “fulano” que o escreveu, presume, deve ter se deitado com pouquíssimas mulheres. E, seguramente, tampouco chegou a ler tantos livros como imaginava.

Frente ao ceticismo de María, Arturo Belano se limita a rir e dizer que sim, é possível ler todos os livros e fazer amor com todas as mulheres. E, dito isso, Belano se cala, num silêncio típico dos personagens bolañescos. Depreende-se, porém, que para o poeta real visceralista, a literatura é uma só, e todos os livros, no que pese a aparente diversidade, contam as mesmas histórias, abordam os mesmos temas e formam parte de uma única tradição. (Por isso, diga-se de passagem, recusou Bolaño com tanta veemência a ideia provinciana de uma literatura nacional.)

Segundo tal concepção, baseada fortemente na ideia de “literatura universal”, todo livro é um-livro-a-mais, e toda leitura, uma releitura, a surpreendente descoberta de verdades já conhecidas, porém pouco lembradas. E é só a partir dessa consciência (a consciência de que a literatura não é um conjunto de textos, e sim um único texto de proporções colossais) que se pode lidar com a angustiante ausência dos livros que jamais leremos: “Os livros são finitos” – diz Bolaño, em “Literatura+enfermedad=enfermedad” – “os encontros sexuais são finitos, mas o desejo de ler e de foder é infinito, ultrapassa nossa própria morte, nossos medos, nossas esperanças de paz”.

Bolaño, é claro, remete a Borges e sua visão de literatura: a obsessão pelo infinito, pelo retorno do mesmo, pelos indícios de uma eternidade que revelaria a falsidade da progressão linear do tempo histórico. Também Borges leu todos os livros e se deitou com todas as mulheres (com Matilde Urbach, até), pois livros, homens e mulheres são meras manifestações daquilo que é, foi e será.

E a simples menção ao Mestre faz vacilar todos os esquemas: seria Borges um leitor clássico ou moderno?

A resposta é: Borges, que se orgulhava mais dos livros que leu do que da obra que escreveu, foi um leitor clássico e moderno, reunindo o que há de melhor nos dois modos de leitura.

Como bom leitor clássico, Borges seleciona com mão de ferro suas leituras, cercando escrupulosamente o grande terreno que transformará em propriedade. Mas, como bom leitor moderno, pressente que o desconhecido se aproxima por todos os lados e que todo terreno, por maior que seja, esconde para além de seus limites uma extensão infinita a ser explorada. Pois, ainda que Borges, como bem percebeu Ricardo Piglia, leia isolado em uma enorme biblioteca, cercado pelas obras-primas que elegeu por companhia, há sempre a sensação levemente incômoda de que algo lhe falta: “uma citação que se extraviou, uma página que se espera encontrar e que está em algum outro lugar”.

A concentração do erudito é contagiada uma e outra vez pela dispersão, pelo desejo insatisfeito. Em um ambiente clássico, Borges lê como um moderno; em um ambiente moderno, lê como um clássico (vide a famigerada cena de leitura em que Borges, dia após dia, sacrifica sua vista para ler A Comédia no bonde, a caminho do trabalho, decifrando com absorção mística o italiano de Dante).

E, sendo clássico, Borges inaugura a tradição moderna de um leitor que se move “perante o infinito e a proliferação”. Não mais o leitor monogâmico, que dedica toda a sua atenção e libido a um único livro, “mas o leitor perdido numa rede de signos”, abrindo abas e mais abas em seu navegador.

Ou, nos termos das metáforas aqui propostas, Borges anda por seu latifúndio como um nômade, explorando os limites de sua biblioteca com a ânsia expansionista de leitores da estirpe de um Bolaño.

Selvagem, saído de um sonho, um tigre caminha, com elegância irrepreensível, pelos labirintos da biblioteca…


Caique Zen

Coeditor.