Os centauros

Os centauros

Conto inédito de Luis Dolhnikoff


Todos os fins de tarde, na volta do escritório, ele parava de pé ao lado dela, deitada em um divã, e observava demoradamente a pele pálida, quase translúcida, dos seus seios. Fazia já três meses. Tempo insuficiente para descobrir se a fisiologia da fome levara o bebê a acordar repetidas vezes, à noite e de dia, de modo a que a rotina afinal estabelecida fizesse com que a amamentação do final de tarde por acaso coincidisse com a hora de sua chegada em casa, ou se a fisiologia e a fome foram sutilmente assim guiadas pela mãe, como os lábios do bebê para os mamilos, ou seus olhos dirigidos por si mesmos para os mamilos e o bebê.

Um dia, quando ela afastou a pequena cabeça do segundo seio, e uma gota de leite aflorou na ponta do mamilo tenso, ele pousou levemente a mão aberta sobre a gota, depois esfregou uma mão na outra, e segurou seu rosto, e se abaixou, e a beijou.

No dia seguinte, outra gota aflorou na ponta exposta do mamilo, e ele outra vez pôs devagar a palma sobre ela. Mas não levou a mão aberta à outra, e sim aos próprios lábios, enquanto, em silêncio, se olhavam.

No terceiro dia, outra gota se expôs, mas ele não moveu a mão. Abaixou a cabeça, sugou-a e, em seguida, abriu um pouco os lábios, descendo-os ao longo do mamilo úmido.

No quarto dia, ele se ajoelhou ao seu lado, aproximou os lábios do mamilo, envolveu-o e sugou seu leite pelo tempo de contrair a boca. Então o soltou, ficou de pé e sorriu. Ela sorriu também.

No quinto dia, assim que ela pôs o bebê no berço ao seu lado, segurou um seio por baixo, comprimindo-o e erguendo-o, como fazia quando o oferecia ao filho. Ele se ajoelhou e mamou por um longo tempo.

 

Logo se tornou um novo hábito. Ela amamentava o filho, depois o pai. Ele não se sentia quebrando qualquer esquecido tabu, ou desnutrindo sua maturidade. Não sentia nada de moral, incluindo a imoralidade. Na verdade, sentia somente o gosto do leite, o cheiro dela, seu calor. Ela gostava de seu homem poder ser, também, seu menino.

Um dia, ela amamentou o bebê depois do banho, vestindo um longo roupão branco. Depois de o bebê mamar, ele, que a olhava de pé ao seu lado, tirou a roupa antes de se ajoelhar.

Mamou por um momento, e então, em silêncio, sem tirar os lábios do mamilo, ergueu-se um pouco, apenas o suficiente para pôr uma perna, depois a outra, e então o resto do corpo, sobre o divã, deitando-se devagar ao lado dela. Então, em um movimento rápido, mas delicado, se virou sobre ela, e se deitou sobre seu corpo, e afastou suas pernas com as dele, e a penetrou.

 

Ela se sentiu cortada ao meio como se por uma serra elétrica. A metade de cima do seu corpo, cujas sensações convergiam todas e inteiramente para o mamilo que ele ainda sugava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções jorravam mais forte do que o leite, mas sem qualquer direção, eram as de uma mãe, de uma mãe quando mais intensamente maternal. A metade de baixo do seu corpo, cujas sensações convergiam inteiras e totalmente para a boceta que ele penetrava, e a metade correspondente da sua mente, cujas emoções transbordavam mais intensas do que o sêmen no auge do orgasmo, e como ele em espasmos, eram as de uma fêmea, de uma fêmea quando mais repletamente feminina.

Ele, ao contrário, ao mesmo tempo o macho no ato da cópula e o bebê no gesto de sugar o seio, se fundiu em um novo ser, que era ele. Ele que fora, durante cada dia e cada noite da sua vida, uma parte dele. E se sentiu unido, reunido a si mesmo, como não se sentia desde que esquecera como era não se sentir dividido, ao adquirir a inteira consciência de si mesmo, e a quase consciência da perda.

Agora a parte perdida se reintegrava à parte mantida que ele fora, que ele era até aquele instante. Ao bebê que fora um dia, e que um dia assim conhecera o mundo, e que deixara de existir para deixar nascer o adulto que se tornaria. Ele matara devagar o que fora de início, o que ele próprio fora de início, o início dele próprio, o início, ele próprio, para se tornar lentamente outro ele, mais e menos do que havia sido. Agora tudo se reintegrava, não havia mais partes, perdas nem passado, e ele parou de pensar.

Seu cérebro se esvaziou de todo pensamento, toda palavra, toda recordação, todo desejo, e se encheu inteiramente de sensações. De tudo aquilo, e de tudo aquilo apenas, que seus sentidos lhe ofereciam naquele momento, como um animal. Tudo era calor, cor, luz, cheiro, paladar, tato, som. E nada que não fosse som, tato, paladar, cheiro, luz, cor ou calor existia. Nele, ou no mundo. Mundo que era ele, ele que era o mundo, ou, ao menos, a parte do mundo que seus sentidos introjetavam, uma parte que agora era tudo.

Então ele ejaculou, e sugou mais forte o mamilo. E se tornou um círculo, o homem e o bebê no ápice simultâneo de sua percepção de sê-lo. E o círculo que ele era se tornou um círculo com ela, lançando nela seu sêmen enquanto absorvia dela seu leite. E ela se reintegrou a si mesma, ao se tornar, plena e simultaneamente, inteiramente mãe e inteiramente fêmea. Ao se tornar, inteiramente. Enquanto, ao mesmo tempo, se dissolvia e se reintegrava no círculo dele com ele, que era o círculo dela com ela e com ele.

 

Depois de alguns segundos, ele saiu devagar, em silêncio, de dentro e de cima dela, e se deitou de novo ao seu lado. Calados, os olhos abertos, olhavam para o teto perfeitamente branco. Então, sussurrante, ela disse:

– Meu Deus.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).

25 de julho, 2018. Volume: 2. Seção: Ficções. Index: Luis DolhnikoffPublicação: Luan Maitan. Imagem de capa: Battle Between the Lapiths and Centaurs, de Luca Giordano (1634-1705). Este conto faz parte do volume inédito Depois do sol.


Os russos somos nós

Os russos somos nós

O espelho multiforme da alma russa

Do “fundador da literatura nacional russa”, Alexander Púchkin (1799-1837), até o “primeiro modernismo” de Tchekhov e Górki (início do século XX), a literatura russa (ao menos até sua virtual devastação a partir do totalitarismo stalinista dos anos 1930), deu ao mundo uma enormidade de obras que se tornaram “clássicos” da literatura universal. Por clássico não se entende aqui, obviamente, o estilo que a história literária dispõe antes do romantismo e do naturalismo. Trata-se, na verdade, de uma acepção mais geral, apontando em certa tradição os autores que, apesar do tempo em que escreveram, reencontram no presente elementos e potências que os tornam contemporâneos.

Além disso, no caso dos clássicos russos, para além de suas diferenças de época e estilo, há algo que os unifica e os contrapõem à nova literatura russa nascida depois, com a Revolução e as vanguardas. É que eles são, ou pretendem ser, nas palavras de um provérbio russo usado por Gógol (1809-1852) em uma epígrafe, um “espelho”, feito para lançar alguma luz sobre as sombras da sociedade russa de seu tempo.[1]

Mas como a sociedade é feita de indivíduos, essas luzes se lançariam não apenas sobre a sociedade em si, ou seja, as formas e os modos das interações de classe e interpessoais (cujo exemplo máximo é a obra de Tolstói), mas também sobre a própria “alma russa” – certa especificidade eslava quase metafísica, que marcaria e determinaria o caráter dos membros de tal sociedade (numa palavra, a “russificidade”).

Ocorre que literatura não é, felizmente, sociologia. E se tampouco é psicologia, isso não impede que ao menos a grande literatura tenha o poder de ser mais do que apenas literatura. Ela pode então, de fato, espelhar essa “alma” – que é russa em parte, e em parte universal, para parafrasear a famosa frase atribuída a Tolstói (1828-1910).[2] Será, em todo caso, dessa literatura que emergirá aquele considerado, ao lado de Shakespeare, o maior analista da psique do homem moderno, Dostoiévski (1821-1881).

Um fractal é uma figura geométrica em que cada parte recupera a estrutura do todo, assim como a figura de ramos divergentes de um pequeno galho incorpora a figura maior de toda a árvore. De modo semelhante, cada texto da grande literatura russa contém toda a grandeza da literatura russa de seu tempo. Um espelho multifacetado, além de cristalino o bastante para também lançar suas luzes sobre as sombras de nosso próprio tempo.

Mas, espelho ou não, literatura é forma literária. A literatura russa posterior ao século XIX (o dos grandes clássicos) seria dominada pelos radicais e radicalmente fundamentais experimentos do período vanguardista – iniciados na primeira década do século XX, e abruptamente encerrados nos anos 1930, com a imposição do “realismo socialista”. Felizmente, houve tempo para o primeiro modernismo russo, entre muitas outras coisas, revolucionar a narrativa curta.

Se na vida civil Tchekhov (1860-1904) era um médico que atuava como clínico, na literatura foi um cirurgião que amputou do conto tudo que não fosse sua medula. Os contos de Tchekhov, como regra, não têm enredo, “intriga”, nem caminham para um clímax ou uma resolução. São um recorte de tempo e de circunstâncias, uma câmera que de repente passa a acompanhar seus personagens (principalmente suas falas cotidianas) e de repente os abandona. O radical realismo de Tchekhov determina a própria estrutura (ou quase desestrutura) de suas narrativas. William Gerhardie, escritor, crítico e acadêmico anglo-russo (1895-1977), faz uma síntese precisa ao dizer que a grande conquista de Tchekhov foi o abandono do “enredo de eventos” por algo “desfocado, interrompido; […] a fluidez e a aleatoriedade dão forma às histórias”.[3] O conto do século XX, de Hemingway a Cortázar, para citar apenas dois marcos possíveis, é fortemente tchekhoviano.

Já o romance será, em grande parte, dostoievskiano. Dostoiévski, a fim de dotar a prosa ficcional de instrumentos calibrados para registrar os mecanismos mentais do indivíduo moderno (e não a sociedade moderna, como fizeram o realismo e o naturalismo), teria, entre outras coisas, de criar ritmos narrativos e uma maleabilidade de linguagem (prenunciando o “fluxo de consciência”) que abririam caminho tanto para Joseph Conrad, Joyce, Virgínia Woolf e Faulkner quanto para Phillip Roth, ou seja, a ficção mainstream do século XX.

O “realismo socialista” de Stálin foi venenoso o bastante para quase matar a literatura russa em seu próprio solo. Mas não para impedir que seu vigor viesse a nutrir boa parte da literatura mundial. Assim como Shakespeare é um dos “inventores” do homem moderno, o homem “hamletiano”, cuja autoespeculação hipertrófica atrofia sua resolução e inibe sua ação, a literatura russa é uma das “criadoras” do homem contemporâneo. Entre outras coisas, somos fragmentários, circunstanciais e inconclusos como Tchekhov e presas de densas incertezas cheias de palavras como Dostoiévski (além de incuravelmente saudosos de certa grandeza utópica de Tolstói). Os russos, de alguma forma, somos nós.

 

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[1] “Não culpe o espelho se a cara é torta”. Em contraponto, a nova literatura russa do início do século XX teria outros objetos e objetivos: não refletir o presente e muito menos o passado, mas educar as massas para o futuro socialista, ajudar a criar o “homem novo” nascido da Revolução e adequar a linguagem aos tempos industriais.

[2] “Se pretende ser universal, comece por pintar a sua aldeia”.

[3] Anton Chekhov: a critical study (1924), citado por William Boyd, “A Chekhov lexicon”, The Guardian, 3 de julho de 2004 (acessível em < http://www.theguardian.com/books/2004/jul/03/classics>).

 

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Este texto, com modificações, foi primeiramente publicado como introdução ao volume Os russos, antologia dos maiores autores da literatura russa do século XIX, publicado pela Hedra, em 2015, com organização de Luis Dolhnikoff. Sua publicação na Vigília é fruto da parceria com a editora Hedra.


Luis Dolhnikoff

é poeta, crítico e editor. Publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).


A revelação

A revelação

O cão que mordeu Descartes

POR LUIS DOLHNIKOFF


Diógenes, dito o cínico, não era cínico – no sentido moderno. A palavra cínico vem do grego kýon, cão. Mas os cães, como o filósofo grego, tampouco são cínicos: o adjetivo cínico é, na verdade, um simples sinônimo de canino. Então os cães são, afinal, cínicos – tanto quanto são caninos. O que mais poderiam ser? Mas isso ainda não explica que uma expressão como “fidelidade canina” possa ter alguma relação com “cinismo”.

Diógenes era um cético. Via na velha comédia humana, menos que uma velha comédia, uma farsa interminável. Todos estavam o tempo todo interpretando o papel de si mesmos, o de um personagem que os demais acreditavam ou pareciam acreditar ser aquele homem – um homem que também acreditava, ou parecia acreditar, ou queria acreditar, ou parecer acreditar, ser seu próprio personagem. O certo é que Diógenes, o canino, preferia os cães aos homens. Dizia que os cães eram sempre honestos. Os homens, nunca. Então renunciou ao convívio humano e foi viver como um mendigo, cercado de cães. Suas ideias e atos teriam sido a origem da escola filosófica chamada canismo, ou melhor, cinismo (e deste termo), que pregava o desprezo pelo mundo, a indiferença pelo destino e a autonomia do indivíduo. Como um bom cachorro de rua. E assim ele caminhava pela cidade, cercado de cães e carregando uma lâmpada a óleo. Quando lhe perguntavam o motivo, dizia: “Procuro um homem honesto”. Depreende-se que a busca era tão difícil que a luz do dia não bastava.

Sou mais cínico que Diógenes, no sentido moderno do cinismo. Nunca sequer tentei achar um homem honesto – como jamais procurei pelo unicórnio. Mas sou tão cínico quanto Diógenes no sentido etimológico do cinismo, pois também prefiro os cães (e, eventualmente, as mulheres) aos homens.

Depois de conviver com cães por muitos anos, creio ter feito algumas descobertas verdadeiramente revolucionárias, que nem o filósofo grego, os etólogos modernos, os biólogos, os veterinários, os passeadores de cães e os vendedores de ração jamais conceberam.

Decidi, então, expor nestas poucas páginas a minha imensa e imensamente surpreendente contribuição ao imenso saber humano e à vasta honradez canina.

Não havendo homens honestos, não existem verdadeiros cristãos. Pois se não há honestidade, não há verdadeira verdade. Tudo é falso – incluindo, naturalmente, o cristianismo dos cristãos. Os cristãos – e o cristianismo – no entanto existem.

Mesmo se a imagem de Cristo como o “Cordeiro de Deus” esteja errada. Ele é – ou seria, se tivesse sido – o “Cão de Deus”. Pois os cães são os únicos e os verdadeiros cristãos. Eles amam incondicional e honestamente o próximo mais do que a si mesmos. E esse próximo pode ser qualquer um, um mendigo, um milionário, um alcoólatra, um psicopata, um criador de patos, uma puta, uma freira, um feirante, um farsante, uma cartomante, uma benzedeira, um padre pedófilo, um dentista devasso, um ortopedista celibatário, um artista solitário, um popstar, um vendedor de pipoca, um vendedor de seguros, um pedicuro. Os cães amam honestamente todos e cada um. Eles amam, a priori, a humanidade. Cada canil é uma igreja, e o veterinário o seu pastor. Daí eu ter ido adiante de Diógenes, que, tendo vivido antes de Cristo, não poderia somar à pura honestidade canina o honesto cristianismo dos cães.

Mas essa não é, apesar de tudo, minha maior nem mais revolucionária descoberta.

Bóris Borishenko, meu vira-lata preto achado na praia, vivia por lá até que, depois de vários encontros casuais e amistosos, dois solitários fazendo-se companhia silenciosamente numa praia deserta, observando o mar e sua infinita indiferença, decidi atraí-lo para minha casa carregando a bola rasgada que ele sempre trazia consigo. Assim que entrou em casa, fez o que muitos cães fariam. Andou por tudo e tudo farejou. Depois pareceu ter concluído que era um bom lugar para viver. Mesmo porque, tinha com ele sua bola rasgada.

Eu a arrancava da sua boca e a atirava longe. Ele corria para pegá-la. Mas não estava ansioso ou irritado. Estava, simplesmente, brincando. Pedras não brincam. Árvores não brincam. Vacas não brincam. Homens brincam. Cães também. A brincadeira ficava mais divertida com os latidos dele, que eu respondia com gritos. Gritos de “Pega a bola, Bóris”, o que ele faria com ou sem gritos. Ao menos, era o que eu acreditava.

Um dia, brincando não no jardim, mas na sala, atirei a bola pela janela. Ela dava para o jardim. Mas ficava longe da porta, e não tinha vista para um cão de tamanho médio como o grande Bóris. Ele nem piscou. Em vez de tentar alcançar a janela arranhando a parede ou dar pulos inúteis agarrando o ar, correu imediatamente para a porta, contornou a parede da casa, pegou a bola sob a janela e voltou com ela na boca, triunfante, a cauda erguida como um estandarte.

Dias depois, estávamos os dois entediados na mesma sala, sem bola e sem ânimo, quando decidi, preguiçosa e irracionalmente, dizer em voz alta: “A bola, Bóris. Pega a bola!”. Ele ergueu as orelhas e depois o corpo, e saiu correndo para o jardim. Voltou em seguida. Com a bola.

Ele não ficou deitado. Não voltou sem nada. Não voltou com um galho. Ouvida a frase, saiu e voltou com a bola. Portanto sabia, quando saiu para pegá-la, que estava saindo para pegá-la. Além de saber, obviamente, que “bola” significava bola.

Então passei a aumentar seu vocabulário. Sentar ao ouvir a ordem foi fácil. Também descer do sofá (onde eu não o deixava ficar, por causa dos pelos) quando eu dizia “desce” de modo seco, mostrando meu desagrado. Mas o que era “descer”? Sair do sofá ou ir para baixo? Naturalmente, no início era sair do sofá. Mas como sair do sofá sempre era ir para baixo, talvez descer fosse afinal ir para baixo, como sair do sofá. E como minha casa tem vários pequenos lances de escada e dois mezaninos, pude testar a possível amplitude semântica de “descer”. Quando ele estava num mezanino e eu disse “desce”, desde a primeira vez, ele não ficou parado como um parvo ou como um surdo, não se sentou, não subiu numa cama, não procurou um sofá. Ele desceu. “Descer” era ir para baixo – como sair do sofá.

Parecia, então, haver um padrão. Sob um comando conhecido, Bóris agia sabendo o que estava fazendo. “Pegar a bola” não era outra coisa senão pegar a bola. “Descer” era sempre e somente descer, de que lugar fosse.

Então aumentei a aposta. Se se desce uma escada, também se sobe por ela. E eu tinha um laboratório perfeito para esse teste.

Há na minha casa um lugar onde, atrás de uma porta, existe um pequeno átrio. Ele serve de acesso, ao mesmo tempo, a dois lances de escada, que saem diretamente dele. Um sobe para o mezanino. O outro desce para o escritório. Bóris tinha o hábito de, assim que eu abria a porta, tomar a escada que desce e ir para o escritório, e por uma boa razão: era onde ele passava muitas horas do dia comigo (em outro ato nada aleatório, mas claramente motivado). Além disso, na imensa maioria das vezes, eu também descia, ao longo do dia, vindo da sala, da cozinha, da biblioteca. Mas acontece que, uma vez por dia, eu tomava o outro lance de escada e subia para o mezanino, para me deitar. Bóris, muito mais rápido, já estava no escritório quando me via subir, e voltava.

Um dia parei no pequeno átrio, e Bóris parou ao meu lado. Daí apontei com o braço estendido a escada que subia e disse: “Sobe”. E ele subiu.

Depois disso, sempre digo “sobe” quando estou indo para o mezanino, e Bóris nunca mais desceu para o escritório nessas horas. Mas durante o dia, quando não digo nada, ele sempre toma a escada que desce.

Mas “subir” era, afinal, “ir para cima” ou “ir por essa escada”? O teste seguinte foi vê-lo esperando ansioso ao lado da minha cama que eu me levantasse depois de acordar. Mas em vez de sair da cama, eu lhe disse: “Sobe”. Ele, imediatamente, pulou alegremente nela. Subir era ir por aquela escada, que ia para cima. Então, subir era ir para cima, como aquela escada.

Sempre que uma buzina toca no portão, Bóris corre… para o portão. Ele não fica parado. Não corre pelo jardim. Não busca a bola. Ele corre para o portão. E o que mais deveria fazer, se há, ora, alguém no portão?

Então veio a Grande Revelação. Passei a observá-lo ao longo do dia. E nada do que ele fazia era arbitrário, aleatório ou automático. Sim, nenhum animal faz algo sem motivo, ao contrário. Não vemos seus motivos porque nãos vemos seus motivos. Mas um inseto que sobe por uma árvore está em busca de frutas, ou em fuga de um predador terrestre, ou à caça feromônica de uma fêmea aninhada em uma folha. Tudo muito natural e, mais ainda, inteiramente fisiológico. Não há surpresa. Não há variação. Não há razões novas e variadas. Não há, na verdade, razões. Apenas reações aos determinismos fisiológicos.

Mas qual a razão fisiológica para o Bóris se pôr à frente da porta de vidro do escritório que dá para o jardim e olhar para mim, para sair assim que eu a abro? Fazer xixi? Mas por que, irracional e fisiologicamente, não fazê-lo na sala? Na verdade, ele normalmente pede para sair, com sua posição, sua postura e seu olhar, por querer se deitar ou se esfregar na grama. Uma relação de causa e efeito muito clara. Um motivo específico. Uma razão determinada, e determinada pela vontade: brincar na grama num fim de tarde.

Quando estou comendo, ele se senta ao meu lado no chão, esperando ganhar alguma coisa. Dependendo da comida, ele ganha. Mas em seguida eu digo: “Acabou”, acompanhado de um gesto horizontal do braço, de corte ou basta. Ele então se desinteressa pela minha refeição e se afasta da mesa.

Bóris não gosta de tomar banho. Portanto, sabe o que é um banho e sabe que não gosta de banhos. Por isso lentamente se distancia de mim quando eu lentamente me aproximo da mangueira do jardim. Ou se distanciava, até eu passar a pôr a guia em sua coleira antes de ir até a mangueira. Ele fica claramente desconfortável enquanto o molho, ensaboo e enxáguo, mesmo que esteja sol e faça calor. Mas jamais tentou fugir ou sequer se deitar ou fazer outra manha qualquer. Fica ali de pé, rígido e mudo, como um soldado de sentinela sob a chuva. Ele sabe o que é um banho. Ele não o amedronta ou surpreende. Apenas o desgosta. Mas não a ponto de se agitar ou se irritar. Além disso, ele também sabe que todo banho é curto. Então, simplesmente, espera que acabe.

O mercado daqui não fica longe, e vou a pé. Bóris sempre corre para o portão quando estou saindo para o mercado, porque ele sempre vai comigo. Mas não corre sempre para o portão, quando me aproximo dele. Pois se apesar disso eu não estou saindo, ele tampouco está – então correr até o portão não faria sentido. É que algumas vezes vou ao portão para pegar uma conta na caixa encaixada ao seu lado no muro. Ou para checar se o portão está trancado. Nessas horas, Bóris fica sentado ao lado da porta da frente da casa. E só se levanta se, imprevisivelmente, abro o portão por alguma razão. Mas sempre corre até o portão quando estou indo ao mercado.

O que ele sabe de antemão – por dois motivos diferentes, que associa igualmente a ir ao mercado (sei que são dois porque já os testei separados): pôr a mochila no ombro; pegar a guia que fica pendurada junto à porta. Se há mochila ou guia ou mochila e guia, estamos indo ao mercado. Se estamos indo ao mercado, corra-se para o portão.

Bóris Borishenko, meu bravo, belo, sóbrio e superesperto vira-lata achado na praia, não faz nada sem motivo, sem causa, sem razão. Ele não é um inseto vagando fisiologicamente pela grama, ou um boneco batendo automaticamente numa parede e se voltando para bater na parede oposta. Ele é racional.

Lancem por terra todos os ídolos, pois o homem não está mais próximo dos deuses do que o Bóris. Ele é pouco mais do que um cão bípede.

Ponham todas as bíblias, todos os corões e outras mitologias na seção de literatura das bibliotecas, pois seus deuses são falsos: um deus verdadeiro não ignoraria um ser assim – religioso perfeito, perfeitamente honesto na ação, na intenção e na emoção, e religiosamente racional – enquanto se devota inteiramente a outro, cuja racionalidade é vasta, como é vasta sua irracionalidade. Reescrevam todos seus livros científicos, todas suas filosofias, todas suas moralidades; pois são monumentos erguidos sobre a gosma escura do erro, espalhada sobre o chão escorregadio da ilusão.


Luis Dolhnikoff

Poeta, crítico e editor, publicou os livros Lodo (Ateliê Editorial) e As rugosidades do caos (Quatro Cantos, finalista do Jabuti na categoria Poesia).

10 de junho, 2017. Volume: 1.  Seção: Tópicos Index: Luis DolhnikoffDiógenes de Sinope, René Descartes. Publicação e revisão: Luan MaitanImagem de capa: Dog carrying dinner to its master, Joseph Stevens.