A literatura latino-americana nos estertores da tradição

A literatura
latino-americana
nos estertores da tradição

O sistema Machado de Assis de Roberto Bolaño, segundo João Cezar de Castro Rocha

POR LUAN MAITAN


Eduardo Wolf disse que João Cezar de Castro Rocha é o maior professor de literatura do Brasil – e quem o diz é o editor e professor Sergius Gonzaga. A esse disse me disse, antecede a conclusão de João Cezar sobre o realismo mágico, podcast preciosíssimo do Estado da Arte, do jornal O Estado de S. Paulo. Toda a discussão é de enorme importância a quem procura conhecer um pouco melhor o boom da literatura latino-americana na segunda metade do século XX. O fechamento de João Cezar de Castro Rocha, entretanto, merece recorte e transcrição para ler e reler quando possível.

Vou destacar um aspecto que pode ser interessante para a nossa discussão, e que permitiria associar Roberto Bolaño e Machado de Assis. Eu creio que a contribuição fundamental dessa geração do boom ou do realismo mágico, como se desejar, é o fato de ter sido sobretudo uma comunidade de leitores críticos.

Já em 1971, Vargas Llosa, em seu doutorado na Espanha, publica uma tese, García Márquez: historia de un deicídio. No mesmo ano, Carlos Fuentes publica La nueva novela latinoamericana. Há ensaios sobre Cortázar, sobre García Márquez, sobre Vargas Llosa… Graças a Carlos Fuentes, o primeiro romance de José Donoso, Coronación, que hoje não é mais lido, foi traduzido ao inglês. Era uma geração de uma comunidade crítica de leitores de suas próprias obras.

Sobre o primeiro romance de Carlos Fuentes, que é excepcional, La región más transparente, uma espécie de história simultânea da Cidade do México – simultânea no sentido de abarcar várias temporalidades –, Julio Cortázar envia a Fuentes uma carta minuciosa, detalhada, dizendo estar impressionado por seu talento narrativo, mas fazendo questão de apontar todos os aspectos que ele cria equivocados. O primeiro, ele diz: “as suas primeiras cinquenta, cem páginas, são impossíveis. Se você não é um chilango” – na gíria, quem é da Cidade do México, como o carioca é do Rio de Janeiro –, diz o Cortázar, “ninguém entende o que você está dizendo”. Numa edição comemorativa, não lembro agora se de trinta ou quarenta anos, de La región más transparente, Fuentes pede autorização a Cortázar para publicar a carta, essencialmente crítica ao romance primeiro e dos mais importantes de Fuentes. Havia, então, entre essa geração, esse sistema constante de leitura.

A primeira pessoa a ler as cem páginas iniciais de Cien años de soledad, chama-se Carlos Fuentes. García Márquez duvidava se deveria seguir escrevendo, já que ele estava em condições financeiras muito precárias na Cidade do México. Fuentes responde, tendo lido somente cem páginas: “por favor, Gabo, siga; estas cem páginas colocam você no patamar de Cervantes”. Só tinha lido cem páginas.

Parece-me que, da literatura hispano-americana mais recente, o único autor que manteve essa tradição de leitura minuciosa da tradição europeia e norte-americana, e da própria tradição, é Roberto Bolaño, que na verdade é o mais potente leitor das últimas duas, três décadas, da literatura hispano-americana. É o sistema Machado de Assis.

Machado de Assis torna-se Machado de Assis quando lê minuciosamente toda a tradição e a literatura brasileira. Não é casual que um dos ensaios mais agudos sobre Machado de Assis seja de Carlos Fuentes, um ensaio pequeno, precioso, que se chama “Machado de La Mancha”. E diz o Fuentes: “em toda a América Latina, o primeiro a realmente retomar a tradición cervantina é um brasileiro chamado Machado de Assis”.

Esse gesto de leitura crítica dos pares, dos mais próximos, é algo que hoje faz profundamente falta na literatura latino-americana. Tenho a impressão de que as gerações mais jovens não se leem criticamente, ou, quando se leem, é apenas para uma espécie de jogo de compadres em que você é tanto mais genial quanto você me considerar maravilhoso. Sem nenhum realismo, no caso.


Luan Maitan

Editor.

18 de abril, 2018. Volume: 2Seção: Tópicos Dossiê: Bolaño. Index: Machado de Assis, Roberto Bolaño, João Cezar de Castro Rocha, Eduardo Wolf, Sergius Gonzaga, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, José Donoso, Julio Cortázar, Miguel de Cervantes. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenImagem de capa: Ilustração de Luisa Rivera para edição comemorativa de 50 anos do livro Cien años de soledad, de Gabriel García Márquez