nada ter nas mãos

nada ter nas mãos

5 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam o tempo,
o corpo e a febre
e o que medi-los

 

*

 

arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já nem existe.

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

 

*

 

homem: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse homem que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

 

*

 

(umbrosos verdes arbustos,
os cães,
farfalhantes os cães em seus campos de preás Baleias todos eles
farfalhante o tempo também, e até
suspenso de sua roda habitual
sobre arbustos,
ausente nos cães sob arbustos, umbrosos cães felizes
e o bicho-homem olha, semiparticipante
provisório e terrivelmente humano, mas
feliz.)

Na chácara com Pedrito, 7-1-2017

 

*

 

abrir a portaedarcomou-
tra porta e darcomoutr-
a e
até não haver mais porta e muro e abrir e mão


Matheus Guménin Barreto

Nasceu em 1992, em Cuiabá, Mato Grosso. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017). Publicou em agosto de 2017 seu livro de poemas A máquina de carregar nadas pela Editora 7Letras. E-mail para contato: matheusgumenin@hotmail.com.

23 de novembro, 2017. Volume: 1Seção: Poesia Index: Matheus Guménin BarretoPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: Mark Rothko