A primeira vez de Lila

A primeira vez de Lila

Conto de Natália Zuccala

1.

Senti que algo me tocava no ombro. Os ônibus estão sempre lotados, quase sempre. Quase sempre há coisas que tocam os seus ombros, as suas pernas, às vezes até suas coxas. Sem fazer disso uma decisão, permaneci com os olhos e a cabeça enterrados no livro que lia. Não me virei pra ver o que era. Não tinha por quê. Submersa de corpo inteiro na história daquela mulher que, em sua lua de mel. Não, não era uma mulher, menina era. Da minha idade talvez. Daquela menina que casara-se com um rapaz bacana, rico. Mas na noite de núpcias tinha sido estuprada e espancada por ele. É uma história que se passa há muito tempo.

Estava mergulhada naquelas linhas como se contassem a minha vida e sentia um prazer imenso em não ceder a quaisquer que fossem as seduções externas, da vida comum. Do transporte público, das ruas. Acompanhava os passos de Lila como se fossem os meus porque, pensava, eles eram muito mais intrigantes que a minha própria narrativa, tão pedestre. Casara-se. Livrara-se da casa dos pais. Viveria feliz. Seria mulher! Ao contrário de mim. Como seria casar-se? E ser mulher? Como seria ser estuprada daquela forma na noite de núpcias? Mal compreendia a dimensão daqueles acontecimentos, de todo inusitados para o leitor, quando, uma vez que insistentemente algo permanecia a cutucar meu ombro, tive de virar pro lado.

Apontava minha cabeça. Gritei. Uma arma. Mas o tiro foi mais rápido que o meu reflexo e, em poucos segundos, já havia sido atingida no pescoço por aquele homem. Homem que eu nunca vira na vida, nunca sequer imaginava poder vê-lo, nem em sonho ou pesadelo. Aquele homem. Feito de carne. Muito mais real que o marido de Lila. Stefano. Feito somente de palavras. Ejaculou em meu pescoço.

Simplesmente assim. Sacou o pau pra fora e gozou. Em mim. Era ele então que se esfregava contra o meu ombro, não uma bolsa uma pasta um casaco ou uma sacola. Aquele homem. Com aquela cara. Era o pau dele que, de tanto se friccionar contra mim, afinal ejaculava livremente. Assim, no meu pescoço. Feito um tiro. No meio do ônibus. Em plena avenida. Em mim.

Eu, assim como Lila, pela primeira vez na vida, recebia o sêmem de um homem em meu corpo e, assim como ela, involuntariamente, assim como ela, inadvertidamente, assim como ela, à contragosto, assim como ela, não sentira nem um pouco de prazer.

Parecia que tanto a literatura quanto a vida me ensinavam, sem um pingo de didática, como é que um homem goza.

 

2.

Mal posso reproduzir os acontecimentos que a este sucederam. Saíram em minha defesa os muitos homens e mulheres que ali estavam. Não sei em que momento, mas o ônibus parou. Não sei bem por quê, mas os justiceiros de plantão foram contidos para não fazer lei de próprio punho. Não sei bem como, mas aquele homem manteve-se ali, sem esboçar reações, olhando fixamente a adolescente meio sem jeito na qual ele havia acabado de ejacular. E pro seu livro. Num tempo que me pareceu eterno.

Será que ele leu o que eu estava lendo? Sabia do drama de Lila? Se identificava com Stefano?

Lembro-me dos seus olhos. Talvez essa tenha sido a imagem mais penetrante de toda a tarde. Entrevi em seus olhos, que me encaravam excruciantes e sem desvio, entrevi em suas retinas a primeira experiência sexual de todas as mulheres do mundo. Naquele ali, ou melhor, nele, contemplei a primeira vez que a minha mãe tocou no pênis do meu pai, a primeira vez que a minha avó foi penetrada, que a minha vizinha chupou um pau, que alguém enfiou a mão na calcinha da minha irmã, a primeira vez que Lila deitou-se com seu marido. Devia ser assim afinal. Só podia ser assim. Como uma esporrada à contragosto.

Faz tempo eu tentava vislumbrar tal ato. Como poderia ser a primeira vez. É claro que já tinha beijado na boca. Havia chegado mais longe, claro. Trocara uns apertos e já tinha me sentido excitada. Ou melhor, muito excitada. Da última vez, inclusive, em que estivera com alguém, havia sido tão excitante que estava decidida a perder a virgindade logo. Queria ser penetrada. Queria experimentar o sexo em sua plenitude e de muitas maneiras. Queria sentir o gosto de outro corpo na ponta da língua. Queria gemer de prazer. Queria gozar. Queria até, quem sabe, que alguém gozasse no meu pescoço! Mas não assim.

 

3.

Entendia a agressão que sofria sem bem entender. Enquanto seus olhos sumiam nas entranhas da multidão que o tragava, questionava-me sobre o seu ato. Eles queriam me vingar. Ouvia sirenes e me perguntava: que mal aquele homem havia feito afinal? Não tinha me batido, machucado, nem dirigido alguma palavra ofensiva. Que mal havia feito? O que eu poderia dizer quando os policiais me perguntassem o que ocorreu? E quando minha mãe me perguntasse, meus amigos perguntassem, os jornais? O que ele te fez? Esporrou na minha cara, ou melhor, não havia nem sido na cara, esporrou no meu pescoço. Que diabos significa isso? O que é que significa dizer isso? Tivesse esporrado em minha cara logo e não teria sido tão difícil. Por acaso tinha sido estuprada como Lila? Tinha sido roubada? Violentada? Machucada?

Não sabia o que era um estupro.

 

4.

Queria ter podido gritar enquanto eles te arrastavam pra viatura o que naquele então não entendia com clareza e hoje sei.

Queria que os jornais tivessem me filmado inflamada, dizendo: você não me machucou tanto assim! Eu não me sinto constrangida. Eu não tenho vergonha. Não por mim. Por você talvez. Acima de tudo, sei que não tenho culpa. Você não me feriu por dentro. Vou me regenerar tão rápido que não vai dar tempo de você sair da cadeia. Em pouco tempo, vou poder conhecer outros garotos, beijar, amar, ter prazer novamente. E você não vai mudar isso.

Você não desonrou o meu belo pescoço. Não feriu a minha moral. Seu pau pra fora não me humilha. Sua esporrada não me abrevia. O ódio que eu sinto por você é ter de pensar no seu pau quando pegar em outro. É ter de sentir o calor da sua ejaculação quando outro homem gozar em mim. É selar minha sorte com seu maldito azar. É você inscrever-se nas minhas retinas com o seu olhar. É ter de pensar em você quando tiver prazer. A força do seu ato é macular o meu e a sua violência reside tão somente em sua arbitrariedade.

Mas naquele momento eu não sabia nada disso.

 

5.

Naquele momento eu saí do ônibus conduzida por uma mulher de meia-idade. Seus dedos firmes agarravam meus braços com gentil firmeza, quando o meu ombro, o mesmo ombro que parecia pra aquele homem excitante ao ponto de fazê-lo ejacular, foi quando o meu ombro encaixou-se perfeitamente no espaço entre os seios dela. Olhei em seus olhos um tanto assustada, mais com a familiriadade com que me acolhia nos seios do que com o incidente do ônibus, e ela sorriu com doçura. Sorri de volta, respirei fundo e percebi em mim um desejo enorme de ser acolhida em seu colo. Larguei completamente minha cabeça em seu peito. Pude chorar. Ela também.

Fiquei feliz por ela ter seios, não pênis, e contente por tê-los também. Aconchegada num choro manso, lembrei-me da última fala de Lila: “Não estou nem aí pras surras. Passa um pouco de tempo e estou melhor do que antes”.

Ser mulher será isso? Ter de ser melhor do que antes?


Natália Zuccala

é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de Literatura. Escreveu as peças A e Fenda, montadas pelo coletivo de teatro Antessala. Publicou contos na antologia Alguma objeção? e em revistas como Jandique, Empena e Caos Descrito.

9 de setembro, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções Index: Natália ZuccalaPublicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenLuan MaitanImagem de capa: Nick Turpin.


Uma benção

Uma benção

Um conto de Natália Zuccala

1

 

Agora ele está com uma mulher magra. Magra mesmo. Pernas que não encostam uma na outra. Ela tem. Um espaço meio um vão acima dos joelhos. A mulher magra com quem ele está tem também o rosto magro. Magro assim pontudo e bem delineado. Sua silhueta anuncia que ela não é daquelas. Daquelas que fazem longas e restritivas dietas mas. Daquelas que nasceram magras. Do tipo de magra que não precisa nem de longas nem de restritivas nem de dietas. Ela é longa e restritiva. Sem precisar de uma dieta. Ela é a própria dieta. Será que comer uma mulher magra é estar de dieta? Tentei fazer dietas muitas vezes. Engordei muito em todas elas. Eu sim preciso de dietas. Mas não sei fazê-las.

Agora ele está com uma mulher geneticamente favorecida. Belos braços finos belos olhos delgados belas narinas. Será que agora ele vai querer ter filhos? Agora ele não vai mais andar por aí com uma mulher gorda. A mulher gorda é sempre observada enquanto come a mulher gorda é sempre observada enquanto beija a mulher gorda é sempre observada enquanto anda enquanto arfa enquanto ri. Nas dobras no suor e na gordura. É pesaroso estar ao lado de uma mulher gorda é. Como andar preso a um letreiro luminoso é. Aprendi isso com ele. Aprendi também muitas outras coisas e. Sigo aprendendo mesmo separada. Dele. Obrigada.

A mulher magra não causa desconfortos sociais nem problemas de digestão familiar não causa nenhum tipo de incomodidade súbita nenhum tipo de asco. Ao contrário. É bom de ver. Os familiares. A família não costuma gostar de mulheres gordas. Isso também eu aprendi com ele. Nenhum deles. Ainda mais se o moço é magro. Lembro sua mãe. Sua mãe dizia a ele você engordou e na verdade ele não tinha engordado eu. Ou tinha? Às vezes suspeito que sim. Suspeito que você engordou naquela época em que estávamos juntos que você engordou só pra poder justificar o fato de estar comigo só pra. Pra poder estar comigo mais à vontade você. Sempre pensou muito em mim e engordar sem dúvida foi um. Como posso dizer? Ato de filantropia. Obrigada.

Talvez eu devesse estar com um homem gordo. Talvez fosse mais adequado é. Mais adequado sim é mais adequado para mim para ele estar com uma mulher magra pra mim deve ser. Gordo. Será que um homem gordo suporta melhor uma mulher gorda? Suas dobras seu suor sua gordura. Como é que. Como é que um homem magro vai me levar colo adentro na noite de núpcias não. Um. Homem gordo talvez seja mais adequado. O problema há sempre um problema principalmente quando se trata de pessoas gordas elas têm. Sempre um problema. No coração nos rins nas costas. O problema é que um homem gordo ao lado de uma mulher gorda gera muitas perguntas em todos aqueles que não são gordos. Como transam? Como encontram suas genitálias? Como encostam suas genitálias? Os gordos fazem 69? Fazem sexo anal? Fazem sexo?

Melhor seria ser uma mulher magra. O sexo dos magros. Ah o sexo dos magros. Me pergunto. Será que o seu pênis se encaixa melhor na vagina esguia de sua nova mulher magra do que encaixava na minha vagina gorda? Ele alcança mais fundo a vagina de sua mulher magra? Você já sentiu o colo do útero da sua mulher magra? E o reto? Como é pra você agora andar por aí sem letreiro luminoso? Como é o nome disso o. Que você sente quando. Não precisa justificar todos os quilos que eu ganhei nos últimos anos a. Sua mulher está grávida o. Que aconteceu com vocês? Eu te pergunto eu. Sim agora eu é que pergunto. Eu pergunto. Você tirou um peso das suas costas? Do seu colo? Dos seus braços? Da sua alma? De si? Ou algo além de um peso? Um peso muito pesado. Como é o nome disso que você sente agora longe de mim e ao lado dela?

Eu. Nunca senti vergonha de você sempre me orgulhei mas. Talvez eu devesse.

 

2

 

Ela é muito bonita mesmo a. Sua mulher nova e magra. Ela é. Bem bonita. Quando eu os vejo é sempre. Muito curioso é sempre. Muito prazeroso talvez. Eu sinta algum prazer em. Olhar vocês. É.

Tenho vontade às vezes de. Espiá-los. Ver sem ser vista. O que você acharia disso? Se soubesse que eu. Tenho vontade de espioná-los. Ver sem ser vista. Ver vocês andando de mãos dadas por aí. Ver vocês se amando de mãos dadas por aí. Ver vocês beijando de mãos dadas por aí. Ver vocês vendo um ao outro de mãos dadas por aí. Ver vocês fodendo.

Dá vontade de ficar olhando pra sempre.

Olho e desejo estar no lugar de vocês. Dos dois. Não. No seu lugar. Somente no seu lugar. Ela é tão bonita eu. Acho que gostaria de estar no seu lugar quando vocês andam de mãos dadas. Amam de mãos dadas. Beijam de mãos dadas. Fodem. Acho que. Eu preferiria estar no seu lugar e dar as mãos pra ela. Do que no lugar dela e. Voltar a dar as mãos para você. Ela é tão bonita. Você.

Quando soube de vocês eu não. Não tinha vontade de ver nada. Tive justamente vontade de não ver de. Furar os olhos e. Não ter olhos. Naquela época não. Tinha vontade de ver nada. Nem de espioná-los eu. A vontade mesmo que eu tinha era de agredi-los. E agredir a mim mesma. É. Preferiria naquela época agredi-los. Ou a mim mesma. Ainda bem que passou. Agredi-los de verdade até machucá-los. Golpeá-los até ter certeza de que estavam feridos. Causar lesões no céu da boca na boca. Talvez feri-los gravemente. Ou me ferir. Talvez agredi-los até desmaiarem e então olhar para os dois estendidos no chão e agredir depois a mim mesma eu quis muito. Machucá-los. Mas passou. Ainda bem.

Passou e de uma hora pra outra eu. Percebi que. Seria uma pena machucá-la. Seria uma pena não beijá-la. Seria uma pena não poder tocá-la. Seria.

Está certo eu. Confesso. Nunca tive coragem de espioná-los de verdade. Não. Eu sou covarde demais pra isso eu. Gostaria muito mas. Só o que eu faço é imaginá-los. Na cabeça mesmo. Principalmente ela. Na verdade nunca vi vocês de mãos dadas por aí em lugar nenhum. Só imagino e imaginando eu sempre troco de lugar com você e aproveito pra fingir que sou homem também e. Tenho tudo o que um homem tem e. Que ela está nua é. Possível imaginar tantas coisas. Na cabeça. De olhos fechados. Sem olhar é. Possível ver tudo. Inclusive agredi-los. E agredir a mim mesma. É possível ver tudo. Não é mesmo? Ser tudo.

Na minha imaginação você não existe mais. Agora somos só eu e ela.

 

3

 

Procurei ela escapou pelos meus dedos. Com a memória. Agarrei ela escapou pelos meus dedos. Com a memória. Não a vejo mais ela. Não está mais aqui. Não tenho nenhuma memória dela mais. Nunca tive em realidade. Ela não me quis. A verdade é que ela não me quis nem mesmo presa na minha imaginação e mesmo na minha imaginação e mesmo sendo uma imaginação. Ela definitivamente não me quis. Assim como você não me quis definitivamente. Na realidade. A perdi assim como perdi você. A quem nunca tive. Sumiram os dois a. Minha imaginação me traiu foram pra dentro do buraco negro que é. Minha cabeça que sou. Eu. Onde estão. Vocês.

Foram embora vocês. Que bom que foram embora agora.  Vocês dois. Vão embora agora. Por favor vão embora. Vocês dois. Vão embora. Antes que eu. Volte a lembrar de vocês e. Volte a despi-los com olhos e. Agredi-los com os olhos e. Desejá-los com os olhos. O diabo que os carregue. Que os carregue. Que os carregue. Que leve consigo os dois e todos meus pesadelos. Os dois e todos os meus sonhos. Os dois e todos os meus desejos. Os desejos. Todos eles. Que carregue a todos eles e a si mesmo.

Eu os quis e. Com os mesmos olhos fechados não os quis mais. Eu os vi e. Com os mesmos olhos fechados não os vi mais. Eu os tive. Aqui. Quando quis e agora os mando embora. Bem como agradeço nunca ter sido desejada por vocês. Agradeço nunca ter sido desejada por você. Não ter sido verdadeiramente desejada nunca. Por nenhum homem ou mulher. Agradeço ter passado impune aos olhos dos desejos alheios que na verdade são os olhos dos olhos mesmos e ter desviado dos desejos alheios e ser aquela justo aquela que nunca foi desejada por ninguém. Nunca. Nem pelos olhos nem pelos olhos dos olhos dos outros.

E por ter sido desejada ao contrário eu também agradeço. Isto é. Por ter causado repulsa. Ou melhor. Ser desejada somente na medida em que causo repulsa e somente por aqueles que se atraem pela repulsa somente mesmo por aqueles que amam o que é repulsivo e atroz e indesejável. Agradeço a todos que sentiram repulsa e nojo e asco por mim. Agradeço ao avesso do desejo que é a própria verdade. A esses eu realmente agradeço.

Não ser uma mulher desejada me permitiu escrever sobre não ser uma mulher desejada. Me permitiu escrever sobre ser desejada. Me permitiu escrever. Não ser uma mulher desejada me permitiu ser. Algo além de uma mulher desejada e.  Não ser também. Não ser desejada é. Uma benção é. O melhor que uma mulher poderia querer para si.


Natália Zuccala

é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de Literatura. Escreveu as peças A e Fenda, montadas pelo coletivo de teatro Antessala. Publicou contos na antologia Alguma objeção? e em revistas como Jandique, Empena e Caos Descrito.

27 de junho, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções Index: Natália ZuccalaPublicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenLuan MaitanImagem de capa: Fernando Botero.