Os escritores e o futebol

Os escritores e o futebol

Do repúdio à paixão, a bola e as letras

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Machado de Assis não escreveu sobre futebol. O ludopédio ainda não havia se alastrado pelo país enquanto viveu o Bruxo. Sua estética do drible, no entanto, prenuncia Garrincha. O vai e vem dos romances machadianos, com direito a piparotes no leitor, é o mais perfeito correlato linguístico do vai e vem do Anjo das Pernas Tortas, que chegava a retardar o gol para dar meia-volta e driblar novamente o marcador já caído. Garrincha, além do mais, teve sua vida escrita com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Ninguém encarnou melhor do que ele a frase de Paulo Prado sobre o Brasil e os brasileiros: “Numa terra radiante vive um povo triste”. Seu estilo foi o de Machado, mas a sua biografia trágica foi a de um Lima Barreto. E diga-se de passagem: goste ou não de futebol, quem não leu a biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, Estrela solitária, está perdendo tempo.

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Mas Lima Barreto odiava o futebol, chegando a fazer parte de uma liga contra o esporte bretão. Apesar dessa aversão, Lima nos ensinou a ver mais do que a bola, pensando o futebol para além das quatro linhas. O elitismo, a violência e o racismo que apontava no ludopédio de seu tempo certamente estavam lá, como estão no futebol de hoje. O que Lima diria da transformação de nossos estádios em arenas, da selvageria de nossas torcidas e do embranquecimento de nossos craques?

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A aversão de nosso Lima ao futebol lembra a aversão do argentino Jorge Luis Borges, que teria sido um grande torcedor do River Plate e um cronista esportivo para a eternidade, ao melhor estilo Nelson, se tivesse se deixado arrebatar pela magia. “O futebol é popular porque a estupidez é popular”, disse certa vez, e aos 79 anos chegou a cometer a heresia de dar uma conferência sobre a Imortalidade no exato momento em que a seleção argentina abria a Copa de 78, sediada no país.

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Como metáfora futebolística, a conferência de Borges foi um perfeito gol contra. E aqui chegamos a Bolaño, torcedor do extinto Ferrobádminton, no Chile (pode haver algo mais bolañesco do que torcer para um time extinto?), e do Barcelona, na Espanha: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro”.

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Mas voltemos aos escritores brasileiros. Graciliano Ramos, em 1921, pensava que o futebol não vingaria. No litoral, até podia ser; mas no sertão, terra avessa a estrangeirismos, nem um mês duraria a moda.

Mário e Oswald de Andrade, até onde sei, deram pouco bola ao ludopédio. Uma pena. Mas seus sucessores modernistas não deixaram barato.

Os textos sobre futebol do vascaíno Drummond podem ser lidos em Quando é dia de futebol. Já João Cabral de Melo Neto foi meia do time juvenil do Santa Cruz e escreveu belíssimos poemas que giram em torno do futebol. Nesses poemas – que espero um dia sejam publicados em conjunto, em forma de plaquette – João Cabral faz na poesia o que Nelson fez na crônica.

Rachel de Queiroz, vascaína como Drummond, também escreveu sobre o futebol. E Clarice Lispector tem um conto, “À procura de uma dignidade”, que se passa nos subterrâneos do Maracanã.

Há certamente vários outros escritores que se debruçaram sobre o ludopédio, e há também jogadores que se aventuraram pelas letras. Mas meu repertório literário sempre foi menor que meu repertório futebolístico, e deixo ao leitor o prazer da pesquisa.

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E, por fim, Nelson Rodrigues, o Pelé da crônica esportiva (sem esquecer de seu irmão, Mário Filho, que devemos louvar todos os dias). As mil melhores frases já escritas sobre futebol saíram da pena de Nelson. A melhor delas resume todo o futebol: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”.

O que seria de Borges se tivesse lido em um jornal essa frase?


Caique Zen

Coeditor.


Antes do busto de mármore

Antes do busto de mármore

Uma nota à toa sobre Bolaño

POR TARSO DE MELO


Cuidado. Quando uma grande editora adquire os direitos para publicar a obra de algum autor, é bem provável que ela transforme nanicos em gigantes, trastes em gênios, fraudes em sumidades. Um incrível arranjo entre editora, imprensa, livrarias, crítica etc. torna quase todo tipo de distorção possível. Todo cuidado é pouco. No entanto, por mais que a malha do marketing recubra tudo, dizendo que estamos sempre diante do “maior dos maiores”, e todo o discurso ao redor pareça estar de certo modo contaminado pelos mesmos interesses comerciais dos editores, o leitor tem que saber nadar em meio a essa corrente toda, como quem tenta respirar enquanto é atacado por ondas e mais ondas de um mar que não descansa enquanto não consegue engolir sua presa.

Digo tudo isso para afirmar que, no caso desse escritor esquisito que é Roberto Bolaño (1953-2003), tão unanimemente aclamado, cada leitura parece confirmar que estamos mesmo diante de um mito que, até pouco tempo, tinha ossos, carne e uma capacidade impressionante de transformar em textos tudo aquilo que mais profundamente nos atormenta – em política, em cultura, em literatura. Na vida. Depois de muitas e muitas páginas, mesmo ao leitor mais desconfiado é quase inevitável confessar que “Bolaño é isso tudo mesmo”. Para nossa alegria.

Caí ontem à noite novamente nas tramas de Bolaño após me deparar com quatro fotos em que o escritor participa de uma leitura de poesia numa livraria (encontrei-as no facebook do Eduardo Sterzi, mas são de Mónica Maristain Melussi, última pessoa a entrevistar Bolaño, pelo que me consta). São muito impactantes.

A não ser que, estranhamente, se abra diante daqueles senhores (Bolaño, para quem não o conhece, é o de cabelos cacheados) um largo pátio cheio de fãs e curiosos, tudo indica que era um evento desses em que um grupo de 10, talvez 15 pessoas dá atenção a um outro grupo, não muito menor, que expõe ali suas vísceras, enquanto na calçada em frente passa sem espanto todo o restante da humanidade. Eventos como esses que escritores estão acostumadíssimos a fazer, creio que em todo o mundo. Nada da grandiosidade que o peso atual de seu nome poderia fazer supor. Nada dos holofotes que seu corpo literário recebe hoje.

Talvez as fotos (me?) impactem tanto porque estamos acostumados a ver os gigantes quando já foram transformados em bustos de mármore ou fazem poses quase antinaturais nos poucos momentos de glamour a que a literatura costuma levar. Em resumo: quando não são mais eles mesmos que estão ali. Sim, fotos não são mais exatamente uma novidade, mas na longa história da literatura universal é pequena a fração que foi acompanhada por imagens – imagens comuns de escritores absolutamente incomuns, não aquelas tão solenes que mais facilmente encontramos. Mesmo no século XX, tão fotografado e filmado, fotos como estas de Bolaño são raras. E é triste que sejam raras, porque são elas que nos permitem ver, com mais clareza, onde estão os pés dessas cabeças geniais. Bem perto dos nossos.


Tarso de Melo

Santo André/SP, 1976. Poeta, advogado, mestre e doutor em filosofia do direito pela Faculdade de Direito da USP.

19 de junho, 2018. Volume: 2. Seção: Tópicos. Dossiê: Bolaño. Index: Roberto Bolaño, Eduardo Sterzi, Mónica Maristain, Tarso de Melo. Publicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan. Texto originalmente publicado em Contra Tanto Silêncio e cedido pelo autor para publicação na Vigília.


A literatura latino-americana nos estertores da tradição

A literatura
latino-americana
nos estertores da tradição

O sistema Machado de Assis de Roberto Bolaño, segundo João Cezar de Castro Rocha

POR LUAN MAITAN


Eduardo Wolf disse que João Cezar de Castro Rocha é o maior professor de literatura do Brasil – e quem o diz é o editor e professor Sergius Gonzaga. A esse disse me disse, antecede a conclusão de João Cezar sobre o realismo mágico, podcast preciosíssimo do Estado da Arte, do jornal O Estado de S. Paulo. Toda a discussão é de enorme importância a quem procura conhecer um pouco melhor o boom da literatura latino-americana na segunda metade do século XX. O fechamento de João Cezar de Castro Rocha, entretanto, merece recorte e transcrição para ler e reler quando possível.

Vou destacar um aspecto que pode ser interessante para a nossa discussão, e que permitiria associar Roberto Bolaño e Machado de Assis. Eu creio que a contribuição fundamental dessa geração do boom ou do realismo mágico, como se desejar, é o fato de ter sido sobretudo uma comunidade de leitores críticos.

Já em 1971, Vargas Llosa, em seu doutorado na Espanha, publica uma tese, García Márquez: historia de un deicídio. No mesmo ano, Carlos Fuentes publica La nueva novela latinoamericana. Há ensaios sobre Cortázar, sobre García Márquez, sobre Vargas Llosa… Graças a Carlos Fuentes, o primeiro romance de José Donoso, Coronación, que hoje não é mais lido, foi traduzido ao inglês. Era uma geração de uma comunidade crítica de leitores de suas próprias obras.

Sobre o primeiro romance de Carlos Fuentes, que é excepcional, La región más transparente, uma espécie de história simultânea da Cidade do México – simultânea no sentido de abarcar várias temporalidades –, Julio Cortázar envia a Fuentes uma carta minuciosa, detalhada, dizendo estar impressionado por seu talento narrativo, mas fazendo questão de apontar todos os aspectos que ele cria equivocados. O primeiro, ele diz: “as suas primeiras cinquenta, cem páginas, são impossíveis. Se você não é um chilango” – na gíria, quem é da Cidade do México, como o carioca é do Rio de Janeiro –, diz o Cortázar, “ninguém entende o que você está dizendo”. Numa edição comemorativa, não lembro agora se de trinta ou quarenta anos, de La región más transparente, Fuentes pede autorização a Cortázar para publicar a carta, essencialmente crítica ao romance primeiro e dos mais importantes de Fuentes. Havia, então, entre essa geração, esse sistema constante de leitura.

A primeira pessoa a ler as cem páginas iniciais de Cien años de soledad, chama-se Carlos Fuentes. García Márquez duvidava se deveria seguir escrevendo, já que ele estava em condições financeiras muito precárias na Cidade do México. Fuentes responde, tendo lido somente cem páginas: “por favor, Gabo, siga; estas cem páginas colocam você no patamar de Cervantes”. Só tinha lido cem páginas.

Parece-me que, da literatura hispano-americana mais recente, o único autor que manteve essa tradição de leitura minuciosa da tradição europeia e norte-americana, e da própria tradição, é Roberto Bolaño, que na verdade é o mais potente leitor das últimas duas, três décadas, da literatura hispano-americana. É o sistema Machado de Assis.

Machado de Assis torna-se Machado de Assis quando lê minuciosamente toda a tradição e a literatura brasileira. Não é casual que um dos ensaios mais agudos sobre Machado de Assis seja de Carlos Fuentes, um ensaio pequeno, precioso, que se chama “Machado de La Mancha”. E diz o Fuentes: “em toda a América Latina, o primeiro a realmente retomar a tradición cervantina é um brasileiro chamado Machado de Assis”.

Esse gesto de leitura crítica dos pares, dos mais próximos, é algo que hoje faz profundamente falta na literatura latino-americana. Tenho a impressão de que as gerações mais jovens não se leem criticamente, ou, quando se leem, é apenas para uma espécie de jogo de compadres em que você é tanto mais genial quanto você me considerar maravilhoso. Sem nenhum realismo, no caso.


Luan Maitan

Editor.

18 de abril, 2018. Volume: 2Seção: Tópicos Dossiê: Bolaño. Index: Machado de Assis, Roberto Bolaño, João Cezar de Castro Rocha, Eduardo Wolf, Sergius Gonzaga, Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, José Donoso, Julio Cortázar, Miguel de Cervantes. Publicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenImagem de capa: Ilustração de Luisa Rivera para edição comemorativa de 50 anos do livro Cien años de soledad, de Gabriel García Márquez


Poemas para meu filho

Poemas para meu filho

De Roberto Bolaño, como o lema de um bando invicto de gângsteres

Lê os velhos poetas

Lê os velhos poetas, meu filho
e não te arrependerás
Entre as teias de aranha e a madeira apodrecida
de barcos encalhados no Purgatório
ali estão eles
cantando!
heroicos e ridículos!
Os velhos poetas
Palpitantes em suas oferendas
Nômades partidos ao meio e ofertados
ao Nada!
(mas não, não é no Nada onde eles vivem
e sim nos Sonhos)
Lê os velhos poetas
e cuida de seus livros
Esse é um dos poucos conselhos
que pode dar este teu pai

*

Biblioteca

Livros que compro
Entre as estranhas chuvas
E o calor
De 1992
Livros que já li
Ou que jamais lerei
Livros para meu filho
A biblioteca de Lautaro
Que deverá resistir
A outras chuvas
e outros calores infernais
– Assim, que seja este o nosso lema:
Resistam, queridos livros
Atravessem os dias como cavaleiros medievais
E cuidem do meu filho
Nos anos que hão de vir

*

Biblioteca e Lê os velhos poetas foram escritos logo depois que saí do Hospital Valle Hebrón, em Barcelona, no verão de 1992, ou talvez quando eu ainda estava ali, com os velhos de fígado destroçado, com os doentes de aids e com as garotas internadas depois de uma overdose de heroína, e que a partir de então – o pavilhão estava cheio de predicadores de todo tipo – reencontraram Deus.

São dois poemas muito simples, bastante desajeitados em sua execução e com vontade de clareza no significado. O destinatário original da mensagem é meu filho Lautaro – e estas palavras, no fundo, também são para ele. Os dois poemas recolhem não apenas bons desejos e bons conselhos. Desesperado com a perspectiva de não voltar a ver meu filho, a quem encarregar seu cuidado, se não aos livros? Simples assim: um poeta pede aos livros que amou e que lhe inquietaram proteção para seu filho nos anos que virão. No outro poema, pelo contrário, o poeta pede a seu filho que cuide dos livros no futuro. Quer dizer: que leia esses livros. Proteção mútua. Como o lema de um bando invicto de gângsteres.

Blanes, janeiro de 1993

 

—Tradução dos poemas e da nota de Roberto Bolaño por Caique Zen.


Roberto Bolaño

foi um escritor chileno (1953–2003), considerado por seus pares como o mais importante autor latino-americano de sua geração.

Caique Zen

Coeditor.

27 de março, 2018. Volume: 2Seção: Poesia Dossiê: Bolaño. Index: Roberto Bolaño. Publicação: Caique Zen. Revisão: Luan Maitan.


Leitor clássico, leitor moderno

Leitor clássico, leitor moderno

Notas sobre leitores

POR CAIQUE ZEN


Lá pelas tantas, em O jogo da amarelinha, Horacio Oliveira prende ao abajur de seu quarto um punhado de folhas secas colhidas no Quai des Celéstins em um de seus passeios. Terminado o arranjo, dois amigos o visitam: Ossip, que fica por duas horas e sequer olha para o abajur, e Etienne, que examina as folhas e se entusiasma com tanta beleza: “Durer, as nervuras, etcétera”.

Tomado pelo espanto ao constatar a disparidade das percepções, Oliveira compara o homem a “uma simples ameba que estende pseudópodes para alcançar e envolver os seus alimentos”, um ser necessariamente limitado, condenado a perceber somente uma parcela restrita da realidade e a ignorar folhas e abajures pela vida afora. Segundo Holiveira, existiriam “pseudópodes compridos e curtos, movimentos, rodeios”, modos variados de interagir com o mundo que nos rodeia, todos insuficientes.

Os efeitos desta limitação fundamental, inerente à condição humana, são entretanto bastante diversos, a depender da personalidade de cada sujeito. E é aqui que chegamos à distinção, apenas sugerida por Cortázar, entre leitores clássicos e modernos (questão especificamente literária, mas que, ao mesmo tempo, pode nos servir de metáfora mais ampla para dois modos diversos de ser e estar no mundo).

Comecemos pela figura do leitor clássico, exemplarmente encarnado por Goethe, que, por escolha ou aptidão, forma parte do grupo seleto de amebas “com os pseudópodes estendidos ao máximo em todas as direções”, amebas que abrangem com um diâmetro uniforme a totalidade de uma área e “não parecem precisar desejar aquilo que começa (ou continua) mais além da sua enorme esfera”.

Espécie de latifundiário do intelecto, o leitor clássico cerca um terreno de grandes proporções e, ignorando deliberadamente aquilo que está para além de sua propriedade, se empenha em levar à perfeição o conhecimento de cada centímetro de seu quinhão de terra. O leitor clássico é quase sempre um erudito, alguém profundamente convencido de que a arte é longa, a vida breve, e é preciso determinar, segundo parâmetros muito bem definidos, o que vale ou não a pena ser lido.

Thoreau, amante dos antigos e detrator do romance, o eremita que parte para os bosques levando consigo apenas um livro (a Ilíada de Homero, no original) é quem nos fornece, em um dos melhores capítulos de Walden, um bom exemplo da tomada de posição do leitor clássico frente à aparente abundância da literatura: “Só é leitura em sentido elevado, não aquela que nos embala como um luxo e permite que as faculdades mais nobres adormeçam, e sim aquela que temos de ficar na ponta dos pés para ler e à qual devotamos nossas horas mais despertas e alertas. Penso que, tendo aprendido as letras, deveríamos ler o que há de melhor na literatura, e não ficar eternamente repetindo nossos bê-a-bás e monossílabos, no quarto ou quinto ano, sentados a vida inteira nos bancos mais baixos da fila da frente”.

É esta também a postura de Proust (leitor clássico, escritor moderno), que coloca na boca do esnobe Swann (todo leitor clássico é, no fundo, um esnobe) a mais lapidar das imprecações contra a banalidade dos jornais: “O que censuro aos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. De vez que rasgamos febrilmente cada manhã a faixa do jornal, deviam-se mudar as coisas e pôr no jornal digamos… os Pensamentos de Pascal! E no volume de corte dourado que só abrimos uma vez a cada dez anos é que leríamos que a rainha da Grécia foi a Cannes, ou que a princesa de León deu um baile à fantasia. Com isto, estaria restabelecida a justa proporção”.

E também a postura de Flaubert (ao que tudo indica, um leitor clássico frustrado): “Que sábios seríamos se conhecêssemos bem apenas cinco ou seis livros!”.

O leitor moderno, por sua vez, jamais se contentaria com cinco ou seis livros, e provavelmente morreria de inanição em uma cabana isolada em que tivesse acesso apenas à Ilíada, no original. (O leitor moderno, ademais, seria incapaz de decifrar sequer um verso em grego clássico).

Para o leitor moderno, como escreveu Cortázar, “o desconhecido aproxima-se por todos os lados. Posso saber muito ou viver muito num sentido determinado, mas então o outro se aproxima pelo lado das minhas carências e arranha-me a cabeça com a sua unha fria. O pior é que me arranha quando não está me picando, e, na hora da comichão – quando eu desejaria conhecer –, tudo o que me rodeia encontra-se tão firme, tão situado, tão completo e maciço etiquetado, que chego a pensar que estava sonhando, que estou bem assim, que me defendo bastante bem e que não devo deixar-me levar pela imaginação”.

Sempre angustiado, às voltas com seus pseudópodes curtos demais, o leitor moderno é um ser consciente, talvez até demais, de sua própria pobreza. Quiçá o único leitor possível em tempos de internet, o leitor moderno sente que “há linhas de ar em volta da sua cabeça, do seu olhar, zonas de detenção dos seus olhos” que se impõem como miragens que tenta, mas jamais consegue atravessar. O leitor moderno sonha em ler a Odisseia enquanto lê Ulysses e sonha em ler Ulysses enquanto lê a Odisseia. Sabe que enquanto lê Joyce está “sacrificando automaticamente outro livro e vice-versa, etc.”, como um espectador de televisão que, ao assistir ao programa A na emissora B deve lidar com a sensação angustiante de que um programa C, muito mais interessante ou divertido que A, está passando neste exato momento em outra emissora.

Em suas piores versões, o leitor moderno é quase sempre um melancólico, um suicida em potencial. Em suas melhores versões, aceita com estoicismo sua vocação à inquietude, assumindo sobriamente o trabalho de Sísifo que é a leitura.

Se o leitor clássico pode ser visto como um latifundiário do intelecto, o leitor moderno seria um expansionista, um tipo benigno de imperialista que, como Cecil Rhodes, anexaria as estrelas, se pudesse. Para o leitor moderno, a literatura é um grande mapa, um território a ser conquistado, ainda que a vida seja curta demais para isso. Como um rizoma deleuziano (leitores clássicos, quem sabe com razão, ignorariam Deleuze), procedem os leitores modernos “por variação, expansão, conquista, captura, picada”.

Aqui, Roberto Bolaño, com seu desejo infinito de expansão, pode nos servir de modelo. Em sua última entrevista, ao ser perguntado sobre quem lê mais, ele ou seu amigo Rodrigo Fresán, Bolaño responde: “Depende. O Oeste é para o Rodrigo. O Leste, para mim. Logo contamos um ao outro os livros de nossas áreas correspondentes e acaba parecendo que lemos tudo”.

A metáfora geográfica vem bem a calhar, e, de fato, Bolaño nos dá a impressão de ter lido todos os livros do mundo. O que mais impressiona, porém, é que não deixe transparecer, em nenhum momento, o desespero impotente de um Oliveira. Como um fleumático jogador de War, vai pouco a pouco ganhando terreno, avançando com firmeza, lendo tudo o que lhe cai nas mãos, de obras canônicas à ficção científica, de poesia modernista a romances policiais (ao leitor moderno, tudo vale a pena se a alma não é pequena).

O famoso verso de Mallarmé – “A carne é triste, sim, e eu li todos os livros” –  talvez nos ajude a compreender o expansionismo apaziguado de Bolaño. Em Os detetives selvagens, María Teresa Solsona Ribot e Arturo Belano (ela, uma fisioculturista; ele, um poeta, alterego do próprio autor) discutem o significado do verso e sua pertinência. Seria mesmo possível que Mallarmé tivesse lido todos os livros? E quanto à tristeza da carne, o que é que queria dizer com isso? Teria Mallarmé se deitado com todas as mulheres do mundo?

Para María Teresa, o poema é um autêntico disparate, e o “fulano” que o escreveu, presume, deve ter se deitado com pouquíssimas mulheres. E, seguramente, tampouco chegou a ler tantos livros como imaginava.

Frente ao ceticismo de María, Arturo Belano se limita a rir e dizer que sim, é possível ler todos os livros e fazer amor com todas as mulheres. E, dito isso, Belano se cala, num silêncio típico dos personagens bolañescos. Depreende-se, porém, que para o poeta real visceralista, a literatura é uma só, e todos os livros, no que pese a aparente diversidade, contam as mesmas histórias, abordam os mesmos temas e formam parte de uma única tradição. (Por isso, diga-se de passagem, recusou Bolaño com tanta veemência a ideia provinciana de uma literatura nacional.)

Segundo tal concepção, baseada fortemente na ideia de “literatura universal”, todo livro é um-livro-a-mais, e toda leitura, uma releitura, a surpreendente descoberta de verdades já conhecidas, porém pouco lembradas. E é só a partir dessa consciência (a consciência de que a literatura não é um conjunto de textos, e sim um único texto de proporções colossais) que se pode lidar com a angustiante ausência dos livros que jamais leremos: “Os livros são finitos” – diz Bolaño, em “Literatura+enfermedad=enfermedad” – “os encontros sexuais são finitos, mas o desejo de ler e de foder é infinito, ultrapassa nossa própria morte, nossos medos, nossas esperanças de paz”.

Bolaño, é claro, remete a Borges e sua visão de literatura: a obsessão pelo infinito, pelo retorno do mesmo, pelos indícios de uma eternidade que revelaria a falsidade da progressão linear do tempo histórico. Também Borges leu todos os livros e se deitou com todas as mulheres (com Matilde Urbach, até), pois livros, homens e mulheres são meras manifestações daquilo que é, foi e será.

E a simples menção ao Mestre faz vacilar todos os esquemas: seria Borges um leitor clássico ou moderno?

A resposta é: Borges, que se orgulhava mais dos livros que leu do que da obra que escreveu, foi um leitor clássico e moderno, reunindo o que há de melhor nos dois modos de leitura.

Como bom leitor clássico, Borges seleciona com mão de ferro suas leituras, cercando escrupulosamente o grande terreno que transformará em propriedade. Mas, como bom leitor moderno, pressente que o desconhecido se aproxima por todos os lados e que todo terreno, por maior que seja, esconde para além de seus limites uma extensão infinita a ser explorada. Pois, ainda que Borges, como bem percebeu Ricardo Piglia, leia isolado em uma enorme biblioteca, cercado pelas obras-primas que elegeu por companhia, há sempre a sensação levemente incômoda de que algo lhe falta: “uma citação que se extraviou, uma página que se espera encontrar e que está em algum outro lugar”.

A concentração do erudito é contagiada uma e outra vez pela dispersão, pelo desejo insatisfeito. Em um ambiente clássico, Borges lê como um moderno; em um ambiente moderno, lê como um clássico (vide a famigerada cena de leitura em que Borges, dia após dia, sacrifica sua vista para ler A Comédia no bonde, a caminho do trabalho, decifrando com absorção mística o italiano de Dante).

E, sendo clássico, Borges inaugura a tradição moderna de um leitor que se move “perante o infinito e a proliferação”. Não mais o leitor monogâmico, que dedica toda a sua atenção e libido a um único livro, “mas o leitor perdido numa rede de signos”, abrindo abas e mais abas em seu navegador.

Ou, nos termos das metáforas aqui propostas, Borges anda por seu latifúndio como um nômade, explorando os limites de sua biblioteca com a ânsia expansionista de leitores da estirpe de um Bolaño.

Selvagem, saído de um sonho, um tigre caminha, com elegância irrepreensível, pelos labirintos da biblioteca…


Caique Zen

Coeditor.