Cumprir-se

Cumprir-se

Texto de José Santana Filho

A vida inteira acreditou-se escritor, mas nesta manhã descobriu o engano. Justo agora quando se sentia à vontade com folhas e a tela em branco percebeu que necessita de respaldo, aprovação, julgamento. E um escritor deve escrever por coação interna, não para soar impactante, parecer inteligente ou levar o burro à sombra, aliviando a lida.

Aliás, é por não ter conhecimento da vida que um escritor escreve, um escultor esculpe, e mesmo uma bailarina rodopia na ponta do pé – alheios a respostas, tudo assim perguntas. Falou-se em técnica – “Você progride a cada vez” – mas ele toma vício por técnica, cometendo falácias, o rei segue nu e ele viu. Em um texto que se mostrava sólido avistou rachaduras e remendos, como se de um castelo enxergasse o calço segurando a torre, e avermelhou as bochechas.

Tempos atrás, o outro comentou depois de ler sua primeira coletânea de artigos: “Você não é jornalista, nem poeta, nem escritor, embora se assemelhe a todos. Nada pior para uma vocação do que assemelhar-se, peixe bicando o aquário sem jamais chegar ao mar. Jornalistas informam, poetas revelam, escritores se fuçam. Você passa por estas portas sem se deter em nenhuma.”

Artista é quem não poderia ser outra coisa – acreditou desde sempre. Não por incapacidade, mas por urgência de vasculhar o avesso, investigar, jogar a luz, e só então se perder em todo o breu. O artista executa a arte respondendo ao impulso orgânico, quem sabe moldar em barro a vertigem. Ou em palavras – em telas, bordados, sapatilhas e pincéis.

– Romântico demais – disse o um.

– A arte tem a inutilidade de praticamente tudo – o dois.

– Sem a arte padeceríamos da solidão espiritual – o três acudiu.

A vida inteira acreditou-se escritor. Errou de foco e destino. Não se trilha um caminho para a escrita, nem há graduação acadêmica definitiva. Labuta-se em silêncio como quem bate rede na beira do rio Tocantins, ouvindo apenas o atrito na pedra. Não será escritor pelo motivo mais raso: porque não escreve. Porque espera – e alardeia. A arte é pó flutuando à contraluz do sol: ou faz beleza ou faz tossir – quem sabe vire copos de cerveja.

 

(deveria tentar ainda uma vez. existe ali dentro, em alvoroço, uma criatura que precisa – por favor – libertar-se dela.

para então cumprir-se.)


José Santana Filho

Nasceu em Balsas, no interior do Maranhão. Foi criado em pequenas cidades às margens do rio Tocantins, e mora em São Paulo desde 1982, quando se formou em medicina. Atua como médico clínico e psicoterapeuta, dedicando-se também à literatura nos últimos anos. Publicou O Rio que corre estrelas (2012), seu livro de estreia, e a coletânea de contos O beijinho e outros crimes delicados (2013), ambos pela editora Terracota. A casa das marionetes (2015), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e Flor de algodão, lançado em outubro de 2017, saíram pela editora Reformatório. Faz parte do grupo de produção e discussão literária Clube das Três, onde, além de atividade acadêmica, promove-se encontros com autores de literatura contemporânea.

14 de dezembro, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções. Index: José Santana FilhoPublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan.


nada ter nas mãos

nada ter nas mãos

5 poemas inéditos de Matheus Guménin Barreto

o sexo
devir perpétuo: tempo enclausurado
o amado e seu amado inventam o tempo,
o corpo e a febre
e o que medi-los

 

*

 

arder a vida em palavras

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

que arde um instante e desce à terra.

arder a vida nos ecos

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

equidistante do fim e do início arder a vida

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

arder do verbo absoluto à procura

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

arder a vida pruma bosta qualquer

que mal nasce já nem existe.

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

 

*

 

homem: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse homem que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

 

*

 

(umbrosos verdes arbustos,
os cães,
farfalhantes os cães em seus campos de preás Baleias todos eles
farfalhante o tempo também, e até
suspenso de sua roda habitual
sobre arbustos,
ausente nos cães sob arbustos, umbrosos cães felizes
e o bicho-homem olha, semiparticipante
provisório e terrivelmente humano, mas
feliz.)

Na chácara com Pedrito, 7-1-2017

 

*

 

abrir a portaedarcomou-
tra porta e darcomoutr-
a e
até não haver mais porta e muro e abrir e mão


Matheus Guménin Barreto

Nasceu em 1992, em Cuiabá, Mato Grosso. Formou-se em Letras Português-Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde agora é mestrando da área de Língua e Literatura Alemãs na subárea de tradução. Suas traduções de Ingeborg Bachmann foram publicadas em Dito ao anoitecer (2017) e na antologia Lira argenta (2017), e suas traduções de Bertolt Brecht no livro Cântico de Orge (2017). Publicou em agosto de 2017 seu livro de poemas A máquina de carregar nadas pela Editora 7Letras. E-mail para contato: matheusgumenin@hotmail.com.

23 de novembro, 2017. Volume: 1Seção: Poesia Index: Matheus Guménin BarretoPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: Mark Rothko


Entre a vigília e o sonho

Entre a vigília e o sonho

Das formas que não são ainda a escuridão

[1]

Insetos voadores de hábitos noturnos se guiam pela luz da lua. Qualquer outra fonte de luz os desorienta. É sabido, entretanto, que a lua não emite luz. Portanto os insetos notívagos orientam-se por um simulacro do sol. Adoradores do falso ou, de outra perspectiva, encantados pelo artifício, como escritores e leitores.

 

[2]

Algo na atmosfera da metrópole parece esgotar toda possibilidade de presciência, a despeito ou em consequência de sua vasta iluminação. Parece não haver revelação capaz de alterar a banalidade do cotidiano. O que poderia ser visto a ponto de perturbar a ordem dos eventos e resgatar qualquer coisa que pareça ter sido perdida, e que no entanto não se mostraria senão em sonho?

Velada sob “uma ordem por decifrar”, como diria Saramago diante do caos, essa falta remete à própria faculdade ou dificuldade de ver. Uma espécie de espelho de Demócrito de Abdera, com a face reflexiva para trás. (Diz-se que o atomista grego se cegou para não sofrer as incursões da visão sobre seus pensamentos, desnublando-os.) Jorge Luis Borges sentencia: “Essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético”.

 

[3]

Quando Lady Macbeth se levanta sonâmbula e insiste em esfregar as mãos na tentativa de limpar uma mancha que não sai, ela sonha ou vê? Ela sonha e vê: fora cúmplice de Macbeth – quando não agente –, das ações que o levaram ao lugar mais alto do reino e às margens da própria consciência.

O rei Édipo de Sófocles, à semelhança de Demócrito, cega-se ao lhe ser revelado aquilo que sempre esteve diante dos olhos. Ambas as personagens, Édipo e Macbeth, foram destinadas por prescientes e agiram, cada uma a seu modo, para escapar do implacável futuro ou, ao menos, de seu derradeiro ato –  a parte do sonho que se busca esquecer, mas que subjaz às imagens mais belas.

Em 1899, o criador da psicanálise, Sigmund Freud, publica sua obra magna, A interpretação dos sonhos, na qual afirma que “todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília”. Mais interessante, porém, que o mapeamento psíquico é a matéria de que o sonho é feito.

Por volta de 1610, William Shakespeare, o maior escritor da história, nos lega sua última comédia, A tempestade. É dessa peça o trecho em que Próspero, num intervalo de imensurável lucidez, descreve a matéria de todas as coisas: “Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio. Somos feitos da matéria dos sonhos”.

Não muito distante da Inglaterra isabelina, reinava o Século de Ouro Espanhol, período em que irromperam o também dramaturgo Calderón de la Barca e sua comédia A vida é sonho. Na peça, o príncipe Segismundo está sujeito aos caprichos que o condenam a levar uma vida de prisioneiro a despeito de sua posição. Entre os cruéis experimentos que buscam confundir suas imagens de sonho e vigília, Segismundo protagoniza um dos mais belos monólogos da dramaturgia universal:

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver só é sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

A obra prima de Calderón traz ecos do clássico indiano Ramayana, em que o deus Indra é feito prisioneiro. Brahma, para libertá-lo, insere uma forma mental em sua cabeça: “estou livre”. E então Indra que as grades que o encerravam eram apenas ilusão.

Por tudo o que vemos, portanto, seríamos no mínimo testemunhas ou cúmplices, e mais: não podemos escapar do que vemos. Tudo o que vemos nos vê. Mas se todos os momentos no final se perderão no tempo, “como lágrimas na chuva” ou “como o canto dos pássaros no bosque”, o que de fato se perde e que tanto tememos a ponto de transcrever essas vaidades? Será não o que se vê, mas o ato de ver, a ação que só se pode registrar justamente com aquilo que vemos, isto é, com o que nunca tivemos e, portanto, jamais poderíamos perder?

 

[4]

J. W. Dunne, aviador que especulou sobre a natureza do tempo, afirma que em nossos sonhos confluem o passado imediato e o imediato futuro, e cada noite confirma que a eternidade já nos pertence. Borges, em seu ensaio sobre o filósofo que voava, aponta para a curiosa distinção de que “na vigília, percorremos o tempo sucessivo em velocidade uniforme; no sonho, abarcamos uma área que pode ser vastíssima. Sonhar é coordenar os relances dessa contemplação e com eles urdir uma história, ou uma série de histórias”.

Certa vez, Borges afirmou ser possível compreender a cegueira como uma dádiva. Ele não se cegou como Édipo ou Demócrito, mas foi cegado. Como o van Gogh de Artaud, suicidado pela sociedade, Borges foi cegado pelo tempo: “o tempo foi meu Demócrito”.

Em “O fazedor”, o argentino aproxima a cegueira e o sonho: “Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas […] Quando soube que estava a ficar cego, gritou; o pudor estoico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem deslustre. […] Dias e noites passaram sobre esse desespero na sua carne, mas uma manhã acordou, olhou (já sem espanto) as indistintas coisas que o rodeavam e inexplicavelmente sentiu, como quem reconhece uma música ou uma voz, que tudo isso já lhe tinha acontecido e que o encarara com temor, mas também com júbilo, esperança e curiosidade. Então desceu à sua memória, que lhe pareceu interminável, e conseguiu tirar daquela vertigem a recordação perdida que reluziu como uma moeda sob a chuva, talvez porque nunca a tivesse olhado, salvo, quem sabe, num sonho”.

 

[5]

Em 1949, Emil Cioran apregoa, em seu Breviário de decomposição, que “habitualmente afundamos numa lama noturna, numa obscuridade tão medíocre como a luz… A vida é apenas um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luzes e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excelência sobre o resto da matéria”.

Nem a lúcida crueldade de Cioran nem a exuberante cegueira de Borges, nada disso poderia assaltar a mente zen de Alberto Caeiro, para quem ver era o sentido mais importante: “Pensar é estar doente dos olhos”. Muito depois de Demócrito, cujo tempo jamais poderia conceber o pensamento como doença, Caeiro nos oferece uma outra chave:

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

 

[6]

Ver. Um verbo contido no próprio nome verbo. Assim como no verbo escrever ou nos nomes verdade e vertigem. Uma série de formas luminosas, não apropriadas para entes das sombras, como o morcego – bicho que carrega a qualidade cego no próprio nome –, o animal que nas mais variadas fantasias não vê, mas voa.

 

[7]

Um inseto erra em torno da lâmpada, no instante mesmo em que se redigem estas palavras cegas. Num voo louco, o pequeno bicho orbita em seu pequeno cosmos. Anseia por luz, mais luz, como um Goethe no leito de morte. Um inseto – que passa a vida breve em voo rasante. O único resquício de sol que lhe resta é essa lâmpada enfraquecida, esse fio de luz que se apaga e ao qual o pequeno bicho se agarra sem medo e sem esperança.

Percebo-me, de súbito, deslizando pela fronteira entre a vigília e o sonho. O inseto continua sua trajetória incerta, mas ordenada – “loucura, sim, mas tem seu método” –, e eu o observo atentamente, num estado constante de alarme, na tentativa de capturar um fragmento das formas que não são ainda a escuridão.


Luan Maitan

Editor.


Estudos de Vida

Estudos de Vida

4 poemas de Isabela Benassi

não se pode
forçar a organização
redonda das coisas
que não são
redondas
há quem alise
as quinas das
paredes
para evitar
os machucados
há quem force
a união dos corpos
e a consumação
do sexo mas
é inútil
forçá-los
é inútil

olha
o sol, a barriga
grávida e a moeda
igualmente redondos
de uma mulher
sentada na praça central
ela inclina trinta graus
à esquerda seu rosto
aos moldes da
iconografia cristã
olha
como suas mãos
pendem ao olhar
para o céu
como seus olhos
pedem dinheiro
pelo amor de deus
colocando dentro
de um terço
os cinco mistérios
do rosário que
hão de livrar-nos do fogo do inferno,
hão de levar-nos todos pro céu

certa vez ouvi
que a humanidade
é completamente
redonda
e penso
que agora
é inútil negar
está aqui
bem na nossa frente
no arremesso da esmola
na parábola
que a moeda faz
no ar
olha
como a forma
do desconforto acerta
em dar o mesmo
molde circular
às moedas
ao corpo
ao terço
– à fé:
todos
redondos
todos aqui
tentando não
furar as mãos
e os bolsos
(mas escapando entre os dedos)

 

*

 

escudo

abandona o escudo
abandona a batalha
livra-se

é preciso separar
os que aceitam sujar as mãos
com os problemas do seu tempo
daqueles que oferecem
apenas aos amigos
o escudo do herói
e olhar
os inimigos nos olhos
sozinhos
como quem olha
aquele homem que espera
sentado horas a fio
sair daqui
em uma rua do centro
ele abraça seus próprios joelhos
e dorme
porque talvez ele não possa
olhar
os inimigos nos olhos
como a gente

a dança dos dias
consiste em
vestir ou não
o escudo
sujar ou não
as mãos
(lavá-las
talvez)
mas antes
é preciso assumir
que ninguém
consegue
sujar as mãos
e segurar
um escudo
ao mesmo tempo

 

*

 

à Patti Smith
(com coisas de Ruy Belo)

contigo aprendi coisas tão simples como
suportar lentamente o ritmo do outro
e o peso que afunda nossos joelhos
eu gostaria de lhe dar um lugar marcado
além deste que nos resta
de suportar pesos maiores
que os nossos
eu gostaria de lhe dar um lugar quente
dentro dos meus ossos para que nem eu
nem você
quebremos
com a ruptura do tempo,

mas eu não posso.

 

*

 

life studies

há primeiro que nascer
e escorregar da barriga
ao chão
até que caia

uma barriga capaz de prover mulheres
e alguns rituais de cura
trocando o cortar da cana
pelo esbanjar em riste uma espingarda
– caso necessário.

espadas de são jorge
na porta de casa
e punhados de arrudas
(sente-se o cheiro ao longe)
rasgam as carrancas
na sorte do livramento
de uma memória pobre
que alinha-se agora
à pemba do parapeito,

não há linhagem que
sobreviva aos futuros da infância:
nasce uma criança loira
no meio do mato

— como pode ser tão loira?
como pode
ser daqui?
um corpo tão pequeno e loiro,
há de ter algo errado.

abrem a carne da criança loira
todos os dias
certificam se são ossos
que estão ali
são órgãos mesmo e
se tem sangue.

ela cresce
no sangrar da terra
e segue
em salgar o corpo
(a terra puxa
o que lhe pertence),
não importa, vive sua infância,

traz os agouros de morte à velhice,
pois é isso que um corpo novo faz
com quem está há muito tempo
caindo.


Isabela Benassi

nasceu em São Paulo, no extremo sul da cidade. É formada em Letras e, atualmente, estuda poesia portuguesa e artes plásticas de autoria feminina.

24 de outubro, 2017. Volume: 1Seção: Poesia Index: Isabela BenassiPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan Maitan


Um incerto Kafka & Perpetuum mobile

Um incerto Kafka & Perpetuum mobile

Dois contos de Carlos Neves

Um incerto Kafka

Eu o chamava de Kafka, embora seu nome fosse Celso. Fomos colegas de faculdade. Na época ele tinha idade para ser professor. Nunca me disse porque chegou tarde à escola, Kafka. Não disse, é? E não vou dizer enquanto não parar de me dizer Kafka. Sabes que sou Celso. Ou não sabes?

Sei, sempre soube. Também ele nunca me pediu para explicar porque Kafka. Nem eu lhe expliquei, não havia razão, e ele provavelmente não aceitaria justificativas, caso lhe contasse.

Mas digo aqui: ele não era um Kafka legítimo, dado a desatinos e extravagâncias surreais, embora fosse um pouco excêntrico, algo pachorrento, de um conformismo estoico, certamente indolente, quase um despropósito. No meio de suas aparentes esquisitices havia um método. E como vocês sabem, todo método traz no bojo algum tipo de esquisitice.

Quando lhe contei que pensava ler Proust, ele riu daquele seu jeito imperturbável. És um bobo, disse. Vais perder tempo lendo Proust. Por quê?, questionei. Tens a vida pela frente, ele disse, E vais passar o tempo lendo Proust?, repetiu. Como és ridículo.

Ele implicava com pontos, e também com vírgulas. Dizia que as usávamos mal e desnecessariamente. Em alguns casos cheguei a concordar. Em outros construí umas frases muito requintadas. Ele ria, a seu modo, piscava os olhos em silêncio. Questão de costume, dizia. Estamos todos desaprendendo a ler.

A cara. Estava na cara. Foi por isso que o chamava de Kafka. Não estava rigorosamente na cara, assim, na boca ou no nariz. Estava nas orelhas, principalmente, umas conchas meio saltadas, em abano, para frente. E aquele cabelo riscado ao meio, o pescoço curto, os olhos vivos, tremeluzidos. Era isso.

E ele sabia. Bastava olhar para ele, censurava-me: Celso! Mete isso na sua cabeça.

A paixão dele era um filósofo romeno chamado Cioran. Dizia-se também ele um obcecado pelo pior. É como se definia Cioran, ele me disse. Um obcecado pelo pior.

Nas aulas de arte, enquanto ouvíamos besteiras, eu sempre aterrorizado, olhava para Kafka no canto da sala e lá estava ele piscando os olhos, a triturar em silêncio aquela litania exótica que os supostos professores de arte grunhem quando ficam à frente dos alunos.

Era um retrato absoluto daquela obsessão pelo pior.

Chegamos a trabalhar juntos. Ele foi meu primeiro editor numa revista sobre metalurgia e fornos. Eu não sei como escrevia aquilo. Encontrava-o no limiar do expediente, o prédio quase a fechar e ele lá, como um oficial tranquilo e sereno às portas da lei, à espera do pobre texto que me seria devolvido depois do seu rigoroso exame para cortes e reparos.

Era um momento sublime para ele. Tenho certeza.

Cismava sobretudo quando punha aspas nas falas dos entrevistados. Mas não sou eu que estou dizendo, dizia a ele. Isso é do entrevistado. Meu caro, ele dizia, isso está evidente na frase. Você desaprende a ler, percebo, como todos nós.

A última vez que soube dele trabalhava no Estado. Chegamos a nos falar pelo Facebook. Perguntei-lhe sobre Proust. Ele riu, sabia fazer isso escrevendo. E disse: desaprendi a ler, meu caro.

 

*

Perpetuum mobile

O primeiro homem caiu não eram cinco da tarde. A praça cheia. Caiu estatelado, feito uma porta quando se desprende de um batente. Não repararam, ou fingiram não ver. A orquestra, por natureza, seguia seu ofício no palco, indiferente.

Logo um outro tombou, um sujeito sem chapéu, e bateu o occipício no chão. O sangue espalhou-se, talvez tenha manchado um ou outro sapato, talvez, mas nada além disso aconteceu. A orquestra estendia suas notas. Um fagote deslocado pôs um olho a vagar em dúvida por ali.

Nas extremidades da praça, outros corpos despencavam, aos poucos, espaçados, como se se soltassem de uns cabos invisíveis, que os prendessem por trás ou pelo alto. Já então se percebia o movimento daqueles pesos em estranhas quedas. A imobilidade fora abalada. Eram agora visíveis os deslocamentos de ar.

O corpo é peso e o peso é morto.

Pensaram numas sereias, como as homéricas. Talvez a orquestra fosse feita de algumas delas. Não se sabe, e nem se acredita muito nisso, pois logo o trompista, o primeiro, que ficava quase atrás do fagote deslocado, também virou e caiu, de olhos abertos, a trompa entupida por sua própria língua.

Seria uma estranha sereia, se fosse.

A orquestra porém firme e sublime continuou.

Da plateia, ao final, dois seres ficaram em pé. Praticamente dois. Em pouco mais de uma hora, em meio a uns duzentos ou talvez menos. Uma mulher e um anão cruzaram os dedos entre si, os mínimos, como se tivessem medo ou por algum zelo religioso pudessem com aquele tênue toque digital evitar a queda ou o que fosse aquilo.

Apenas o piano permanecia no palco, em perpetuum mobile.

A essa altura.

Tarde então, as lojas tinham baixado suas portas, a praça esvaziava-se. E não seria exagero dizer que se exauria em transe.

Um ambulante vendedor de água, num canto extremo e talvez oculto da praça, agora lisa ou branca, não sei por que cargas d’água sorria.

E ainda sorri.


Carlos Neves

é músico, fotógrafo e escritor (poeta e jornalista). Lançou em maio de 2017 seu primeiro romance, Máscara da invisibilidade, pela editora Patuá – para o qual compôs trilha musical, agora em fase de gravação, inspirada em cenas e personagens do livro. Em 2016 participou da coletânea de contos Taras, tarô e outros vícios (Risco Editorial/Casa das Rosas), organizada pelo coletivo literário Palavraria, do qual Neves faz parte desde 2015. Recebeu uma menção honrosa do selo Off-Flip pelo conto “Estreia” (publicado em 2009). No momento prepara um novo romance e organiza sua primeira coletânea de contos e novelas curtas.

15 de outubro, 2017.  Volume: 1. Seção: Ficções Index: Carlos Neves, Franz Kafka, Marcel Proust, Emil Cioran, HomeroPublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan.


Rota intermediária

Rota intermediária

4 poemas de Bobby Baq

Corresponder
ao mistério
com o canto do nariz
(que é a parte mais anônima
do rosto enquanto
registro
e do ser enquanto domínio).

Corresponder ao mistério
a partir do mínimo.

Corresponder ao mistério
como soa o que trinca no vidro,
com notas sem precisão.

Corresponder ao mistério
mesmo que ele

não.

 

*

 

Pra saber
que entre duas coisas
cabe uma pessoa,

entre três pessoas
talvez caiba
um sentido

e entre um e outro sentido
não fica espaço
pra mais nada:

É preciso
cair
de uma
escada.

 

*

 

Há semelhanças entre os quadrados
e o omitido.

A rota errada
espelhada
na correta.

A correta
espalhada pelo resto
do caminho.

Não estar com um pé em cada,
mas nas duas,
em ambas sozinho.

Através do retrovisor:

A rota intermediária
atravessa quem não veio
e aquele que já passou.

 

*

 

Como se fosse possível
mãos dadas
serem translúcidas,
preenchidas por transparência
se postas
sentido ao Sol.

Como se fosse possível
mãos dadas feito
concha
emprenharem de bicho
inseto
verme, líquen,
caracol.

Como se fosse possível
mãos dadas
de duas pessoas
serem toda de terceiros:

Unha, dedo
osso e pelo.
Linha, toque de precisão.

 

No entanto, parece plausível
que formem outro organismo
dado à falta de abrigo
e com triplo
de visão.


Bobby Baq

É poeta, roteirista e dramaturgo. Autor dos livros Nébula, Suspensivos e Eu findo mundo. Trabalha com o silêncio na palavra escrita e a performatividade na palavra oral. Desenvolveu experimentos cênicos com artistas de outras áreas misturando música, poesia oral e dança, além de spoken words, vídeo-poemas, colagens e algumas oficinas. Acredita na força das coisas que ainda não têm nome e trabalha para pari-las sem batizá-las.

22 de setembro, 2017. Volume: 1. Seção: Poesia Index: Bobby BaqPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan MaitanImagem de capa: Colagem de Bobby Baq.


A primeira vez de Lila

A primeira vez de Lila

Conto de Natália Zuccala

1.

Senti que algo me tocava no ombro. Os ônibus estão sempre lotados, quase sempre. Quase sempre há coisas que tocam os seus ombros, as suas pernas, às vezes até suas coxas. Sem fazer disso uma decisão, permaneci com os olhos e a cabeça enterrados no livro que lia. Não me virei pra ver o que era. Não tinha por quê. Submersa de corpo inteiro na história daquela mulher que, em sua lua de mel. Não, não era uma mulher, menina era. Da minha idade talvez. Daquela menina que casara-se com um rapaz bacana, rico. Mas na noite de núpcias tinha sido estuprada e espancada por ele. É uma história que se passa há muito tempo.

Estava mergulhada naquelas linhas como se contassem a minha vida e sentia um prazer imenso em não ceder a quaisquer que fossem as seduções externas, da vida comum. Do transporte público, das ruas. Acompanhava os passos de Lila como se fossem os meus porque, pensava, eles eram muito mais intrigantes que a minha própria narrativa, tão pedestre. Casara-se. Livrara-se da casa dos pais. Viveria feliz. Seria mulher! Ao contrário de mim. Como seria casar-se? E ser mulher? Como seria ser estuprada daquela forma na noite de núpcias? Mal compreendia a dimensão daqueles acontecimentos, de todo inusitados para o leitor, quando, uma vez que insistentemente algo permanecia a cutucar meu ombro, tive de virar pro lado.

Apontava minha cabeça. Gritei. Uma arma. Mas o tiro foi mais rápido que o meu reflexo e, em poucos segundos, já havia sido atingida no pescoço por aquele homem. Homem que eu nunca vira na vida, nunca sequer imaginava poder vê-lo, nem em sonho ou pesadelo. Aquele homem. Feito de carne. Muito mais real que o marido de Lila. Stefano. Feito somente de palavras. Ejaculou em meu pescoço.

Simplesmente assim. Sacou o pau pra fora e gozou. Em mim. Era ele então que se esfregava contra o meu ombro, não uma bolsa uma pasta um casaco ou uma sacola. Aquele homem. Com aquela cara. Era o pau dele que, de tanto se friccionar contra mim, afinal ejaculava livremente. Assim, no meu pescoço. Feito um tiro. No meio do ônibus. Em plena avenida. Em mim.

Eu, assim como Lila, pela primeira vez na vida, recebia o sêmem de um homem em meu corpo e, assim como ela, involuntariamente, assim como ela, inadvertidamente, assim como ela, à contragosto, assim como ela, não sentira nem um pouco de prazer.

Parecia que tanto a literatura quanto a vida me ensinavam, sem um pingo de didática, como é que um homem goza.

 

2.

Mal posso reproduzir os acontecimentos que a este sucederam. Saíram em minha defesa os muitos homens e mulheres que ali estavam. Não sei em que momento, mas o ônibus parou. Não sei bem por quê, mas os justiceiros de plantão foram contidos para não fazer lei de próprio punho. Não sei bem como, mas aquele homem manteve-se ali, sem esboçar reações, olhando fixamente a adolescente meio sem jeito na qual ele havia acabado de ejacular. E pro seu livro. Num tempo que me pareceu eterno.

Será que ele leu o que eu estava lendo? Sabia do drama de Lila? Se identificava com Stefano?

Lembro-me dos seus olhos. Talvez essa tenha sido a imagem mais penetrante de toda a tarde. Entrevi em seus olhos, que me encaravam excruciantes e sem desvio, entrevi em suas retinas a primeira experiência sexual de todas as mulheres do mundo. Naquele ali, ou melhor, nele, contemplei a primeira vez que a minha mãe tocou no pênis do meu pai, a primeira vez que a minha avó foi penetrada, que a minha vizinha chupou um pau, que alguém enfiou a mão na calcinha da minha irmã, a primeira vez que Lila deitou-se com seu marido. Devia ser assim afinal. Só podia ser assim. Como uma esporrada à contragosto.

Faz tempo eu tentava vislumbrar tal ato. Como poderia ser a primeira vez. É claro que já tinha beijado na boca. Havia chegado mais longe, claro. Trocara uns apertos e já tinha me sentido excitada. Ou melhor, muito excitada. Da última vez, inclusive, em que estivera com alguém, havia sido tão excitante que estava decidida a perder a virgindade logo. Queria ser penetrada. Queria experimentar o sexo em sua plenitude e de muitas maneiras. Queria sentir o gosto de outro corpo na ponta da língua. Queria gemer de prazer. Queria gozar. Queria até, quem sabe, que alguém gozasse no meu pescoço! Mas não assim.

 

3.

Entendia a agressão que sofria sem bem entender. Enquanto seus olhos sumiam nas entranhas da multidão que o tragava, questionava-me sobre o seu ato. Eles queriam me vingar. Ouvia sirenes e me perguntava: que mal aquele homem havia feito afinal? Não tinha me batido, machucado, nem dirigido alguma palavra ofensiva. Que mal havia feito? O que eu poderia dizer quando os policiais me perguntassem o que ocorreu? E quando minha mãe me perguntasse, meus amigos perguntassem, os jornais? O que ele te fez? Esporrou na minha cara, ou melhor, não havia nem sido na cara, esporrou no meu pescoço. Que diabos significa isso? O que é que significa dizer isso? Tivesse esporrado em minha cara logo e não teria sido tão difícil. Por acaso tinha sido estuprada como Lila? Tinha sido roubada? Violentada? Machucada?

Não sabia o que era um estupro.

 

4.

Queria ter podido gritar enquanto eles te arrastavam pra viatura o que naquele então não entendia com clareza e hoje sei.

Queria que os jornais tivessem me filmado inflamada, dizendo: você não me machucou tanto assim! Eu não me sinto constrangida. Eu não tenho vergonha. Não por mim. Por você talvez. Acima de tudo, sei que não tenho culpa. Você não me feriu por dentro. Vou me regenerar tão rápido que não vai dar tempo de você sair da cadeia. Em pouco tempo, vou poder conhecer outros garotos, beijar, amar, ter prazer novamente. E você não vai mudar isso.

Você não desonrou o meu belo pescoço. Não feriu a minha moral. Seu pau pra fora não me humilha. Sua esporrada não me abrevia. O ódio que eu sinto por você é ter de pensar no seu pau quando pegar em outro. É ter de sentir o calor da sua ejaculação quando outro homem gozar em mim. É selar minha sorte com seu maldito azar. É você inscrever-se nas minhas retinas com o seu olhar. É ter de pensar em você quando tiver prazer. A força do seu ato é macular o meu e a sua violência reside tão somente em sua arbitrariedade.

Mas naquele momento eu não sabia nada disso.

 

5.

Naquele momento eu saí do ônibus conduzida por uma mulher de meia-idade. Seus dedos firmes agarravam meus braços com gentil firmeza, quando o meu ombro, o mesmo ombro que parecia pra aquele homem excitante ao ponto de fazê-lo ejacular, foi quando o meu ombro encaixou-se perfeitamente no espaço entre os seios dela. Olhei em seus olhos um tanto assustada, mais com a familiriadade com que me acolhia nos seios do que com o incidente do ônibus, e ela sorriu com doçura. Sorri de volta, respirei fundo e percebi em mim um desejo enorme de ser acolhida em seu colo. Larguei completamente minha cabeça em seu peito. Pude chorar. Ela também.

Fiquei feliz por ela ter seios, não pênis, e contente por tê-los também. Aconchegada num choro manso, lembrei-me da última fala de Lila: “Não estou nem aí pras surras. Passa um pouco de tempo e estou melhor do que antes”.

Ser mulher será isso? Ter de ser melhor do que antes?


Natália Zuccala

é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e professora de Literatura. Escreveu as peças A e Fenda, montadas pelo coletivo de teatro Antessala. Publicou contos na antologia Alguma objeção? e em revistas como Jandique, Empena e Caos Descrito.

9 de setembro, 2017. Volume: 1. Seção: Ficções Index: Natália ZuccalaPublicação: Luan Maitan. Revisão: Caique ZenLuan MaitanImagem de capa: Nick Turpin.


Lembramos para você a preço de atacado

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Borges vs. Musk – a memória artificial e a literatura

[1]

Maio de 2017. Elon Musk, o homem que promete colonizar Marte, anuncia a criação da Neuralink, startup que conectará o cérebro humano a computadores. A ideia é viabilizar a simbiose entre homem e máquina ou, nas palavras exatas de Musk, permitir “a fusão mais próxima entre inteligência biológica e inteligência digital” por meio dos chamados neural laces, dispositivos que serão capazes de transferir arquivos (pensamentos, lembranças, conceitos) de hardwares para seres humanos e de seres humanos para hardwares.

Os objetivos de Musk, como sempre, são os mais nobres possíveis. Inicialmente, a tecnologia prestará serviços a pessoas com lesões cerebrais causadas por derrames, tumores ou outras enfermidades. Só depois de testados por essa população, é que os neural laces chegarão ao mercado.

Todos poderemos, então, “impulsionar a velocidade de conexão entre nosso cérebro e a versão digital de nós mesmos”, eliminando o inconveniente da arrastada expressão pela palavra. “Há um monte de conceitos nas nossas cabeças”, diz Musk, “que os nossos cérebros tentam comprimir nessa incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”. Caso tivéssemos “duas interfaces cerebrais”, poderíamos perder menos tempo com a troca entediante de signos linguísticos estabelecendo “uma comunicação conceitual não comprimida”, mais afeita à rapidez de nosso tempo.

 

[2]

Basta ler a palavra ciborgue, nessa incrivelmente baixa taxa de dados a que chamamos escrita, para que uma série de associações conceituais não comprimidas seja disparada em algum lugar de nossa mente. Imagens roubadas à ficção científica, certamente distópicas, monopolizam o significado do termo, e mal paramos para pensar que o ser humano normal, nômade ou sedentário, caçador-coletor, agricultor ou cliente-Walmart, nunca esteve muito longe de ser uma “criatura dotada de partes orgânicas e cibernéticas que utiliza tecnologia com a finalidade de potencializar suas capacidades” (definição da Wikipédia para o conceito de ciborgue).

Desde aquela primitiva startup, criada – ou roubada, diriam as más-línguas – pelo empreendedor Prometeu, o ser humano tem se valido das mais diversas bugigangas. Com a mesma entrega apaixonada de um nomofóbico que tateia seu iPhone, o Homo sapiens sempre esteve disposto a abrir mão de uma suposta pureza de sua humanidade para se entregar ao primeiro apetrecho, ao primeiro gadget ou app que o auxiliasse minimamente na labuta diária.

“Somos criaturas tecnológicas” – escreve Tom Chatfield, em Como viver na era digital. – “Faz parte de nossa natureza ampliar a nós mesmos e ao mundo – e ir além dos limites e nos adaptarmos”. Dificilmente, portanto, poderíamos separar o humano dos objetos que ele mesmo cria para atender às suas necessidades. Do osso voador de 2001: Uma Odisseia no Espaço aos neural laces de Musk, o mesmo instinto prometeico impulsiona o homo tecnologicus.

 

[3]

“Dos diversos instrumentos do homem”, diz Borges, “o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.

 

[4]

Em “A memória de Shakespeare”, Hermann Soergel, um professor cuja vida toda foi dedicada a “trivialidades eruditas”, recebe, de um melancólico colega de academia, a memória de Shakespeare. “Não era”, como esclarece Borges, autor do conto, “a memória de Shakespeare no sentido da fama de Shakespeare, isso teria sido muito trivial; tampouco era a glória de Shakespeare, mas sim a memória pessoal de Shakespeare”. Uma memória involuntária que pode irromper nos momentos de sonho ou de vigília, quando surge sorrateira enquanto seu depositário folheia as páginas de um livro, vira uma esquina ou prepara um café.

Hermann Soergel, então, recorda de repente certas palavras de Chaucer enquanto se barbeia em frente ao espelho; assobia uma melodia muito simples, que jamais havia ouvido, ao sair do Museu Britânico; relembra as feições de um homem, talvez um vizinho, que, embora não figure em nenhuma biografia, devia ser avistado com frequência por Shakespeare.

Com o tempo, porém, a memória de Shakespeare passa a oprimir Hermann: “A princípio as duas memórias não mesclaram suas águas. Com o tempo, o grande rio de Shakespeare ameaçou, e quase inundou, meu modesto caudal. Temeroso, percebi que estava esquecendo a língua de meus pais. Já que a identidade pessoal baseia-se na memória, temi por minha razão. À medida que transcorrem os anos, todo homem tem a obrigação de carregar o crescente fardo de sua memória. Duas me oprimem, confundindo-se às vezes: a minha e a do outro, incomunicável”.

Para Piglia, a visão borgiana de literatura estaria cifrada nesse conto derradeiro (sim, é possível que a “Memória de Shakespeare” tenha sido o último conto de Borges): “A figura da memória alheia é a chave que permite a Borges definir a tradição poética e a herança cultural. Recordar com uma memória alheia é uma metáfora perfeita da experiência literária. A leitura é a arte de construir uma memória pessoal a partir de experiências e lembranças alheias. As cenas dos livros lidos voltam como lembranças privadas. São acontecimentos entremeados ao fluir da vida, experiências inesquecíveis que voltam à memória, como uma música”.

A partir dessa ampla e certeira metáfora proposta por Piglia (em suma: ler é apropriar-se da memória alheia), podemos arriscar a proposição de duas consequências.

Primeiro: as ideias de tradição poética e herança cultural remetem à cena original do pacto fáustico, à oferta demoníaca de um bem extremamente precioso, mas que pode levar à ruína aquele que o aceita. Quando lemos, damos vida às palavras e aos autores semimortos na penumbra das estantes; aceitamos de boa vontade o perigoso intercâmbio entre nossa consciência e a consciência de um outro. Respeitando a solenidade do acordo, o detentor da memória de Shakespeare deve oferecê-la em voz alta a seu herdeiro, que, por sua vez, deve aceitá-la também em alto e bom tom. Só então o pacto pode ser consumado.

Segundo: a memória literária é viva, e, como tal, admite o intercâmbio entre o próprio e o alheio. Como um organismo de baixa imunidade, o bom livro, ao mesmo tempo em que contamina quem o lê, não costuma opor resistência às contaminações do ambiente. Livros são dispositivos de troca, e não de mera recepção. Por isso, um livro diz também sobre as circunstâncias de sua leitura: o local, a fase da vida, o estado de espírito de seu leitor.

E, last but not least, a memória literária, por seu caráter orgânico, admite o sagrado esquecimento. E é justamente por essa imperfeição da memória (como soube Borges mais que ninguém) que lembranças podem ser manipuladas, desviadas, distorcidas e inclusive enriquecidas pela imaginação.

 

[5]

Mas a leitura não é somente o diálogo privado entre autor e leitor (fosse isso, seria a mais banal das tecnologias, pertencente à frívola estirpe do WhatsApp ou do telefone): “Quando lemos um livro antigo”, diz Borges, “é como se estivéssemos lendo todo o tempo transcorrido do dia em que foi escrito até que chegasse a nós. Hamlet não é exatamente o Hamlet que Shakespeare concebeu no início do século XVII, Hamlet é o Hamlet de Coleridge, de Goethe e de Bradley”.

Os sucessivos atos de leitura enriquecem uma obra ao longo do tempo. A literatura é uma espécie de palimpsesto, ou memória coletiva, de código aberto, em que “cada nova escrita cobre a escrita anterior e é coberta pela que segue”.

 

[6]

Com a invenção do neural laces, substituiríamos nossas lentas interações verbais por transferências telepáticas de alta velocidade. Em um diálogo, por exemplo, “você não precisaria verbalizar, a menos que quisesse acrescentar um pequeno charme à conversa. Mas a conversa mesmo seria uma interação conceitual em um nível que é difícil conceber hoje”, diz Elon Musk.

E por que o mesmo não ocorreria com a leitura, esse hábito anacrônico, incompatível com o ritmo frenético da era digital? Para que leríamos Borges, para que leríamos Shakespeare, se pudéssemos transferir suas obras completas para nossos cérebros? Bastaria um clique em “adicionar ao carrinho”, e já não precisaríamos sacrificar à literatura nossas melhores horas de amor, como disse Drummond.

O que incomoda aos futuristas do século XXI, fiéis ao culto da velocidade, é que continuamos, em plena era digital, “lendo na mesma velocidade que nos tempos de Aristóteles” – como bem observa Piglia. E, embora a circulação da informação cresça vertiginosamente, não podemos fazer nada para tentar abarcá-la a não ser decifrar lentamente as palavras – “words, words, words” – a razão de 300 vocábulos por minuto (segundo as estatísticas mais otimistas).

Como pensar a leitura fora dos limites da “incrivelmente baixa taxa de dados que chamamos de discurso ou escrita”? As ideias excêntricas de Musk remetem à famosa anedota de Woody Allen sobre a leitura dinâmica: “Fiz um curso e li Guerra e paz em 20 minutos. É sobre uns russos”.

 

[7]

“Fala-se no desaparecimento do livro”, diz Borges, “eu acho que é impossível. Alguém perguntará que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco. A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido, um disco, da mesma forma, é ouvido para ser esquecido, é uma coisa mecânica, e portanto frívola. Um livro é lido para a memória”.


Caique Zen

Coeditor.


Agora Burros

Agora Burros

Conto de Livia Piccolo

I

“Colocar a Úlcera bem na entrada do apartamento, no pendurador de chaves, ah não, que ideia, vai ser esquisito para os convidados. É melhor outro lugar. A porta da geladeira já tem Edredom, Indecente, Anêmona, tá ótimo. No espelho do banheiro! Sim, a Úlcera vai ficar colada no espelho em cima da pia. O problema é que toda vez que eu escovar os dentes vou dar de cara com ela. Será? É uma palavra tão bonita, tem essa força bem no começo, esse u preenchido com o acento agudo. Úúúúúúúlcera. Mas não dá para ficar no quarto, aí é demais da conta. Seguindo essa lógica posso colocar no cifão do tanque. A Úlcera pode experimentar ficar mais limpa.”

 

II

Miguel é colecionador de palavras.  É um homem baixo, compacto, usa óculos de armação leve e relógio de pulso antigo. Perdeu todo o cabelo aos vinte anos. Ganha a vida como corretor de imóveis e passa os dias na companhia do gato Fellini, presente de grego da ex-namorada que mudou de estado para se casar com um cirurgião dentista que sempre exagera na loção de barbear. A mulher pretendia levar o gato junto, mas o animal protestou com fortes golpes de unha. Apesar de não ser lá muito apegado ao bicho, Miguel não teve escolha e precisou ficar com ele.

Todos os dias escreve algumas palavras no seu pequeno caderno de capa laranja. Aquilo que escuta e lê. O céu é o limite e as fontes são muitas. As estações de rádio, os áudios de celular enviados pelos amigos, a tagarelice dos desconhecidos na rua, as conversas no trabalho, os jornais impressos e todo tipo de texto que encontra na internet. Há dias de vacas gordas e dias de vacas magras. O final do ano é um período maravilhoso. Os bares e restaurantes ficam cheios, as pessoas falam alto e bebem mais, hábito que estimula a comunicação. Já as manhãs nos ônibus são áridas. O cansaço dos corpos se espraia pelo veículo e o mutismo é geral.

Há dias caudalosos em que Miguel preenche várias páginas do caderninho. A única regra é que as palavras sejam encontradas fora: na rua, na vida alheia, no mundo de consistência sólida. Não em sua cabeça gasosa. Abrir ao acaso o caderno significa encontrar lado a lado as palavras Símile, Carvão, Tapinha, Arrependida, Gárgula. Palavras estrangeiras incorporadas ao idioma entram na roda. Por isso à esquerda da Gorjeta está o Videogame e embaixo da Fera está a Selfie.

Ele gosta de variar e foge do comodismo. Se escolhe a banca em frente ao trabalho e abre o caderno de ciências, no dia seguinte folheia o caderno de esportes. Se primeiro presta atenção na conversa de mãe e filha na agência dos correios, depois entra na academia de ginástica, pergunta à recepcionista informações genéricas e dá uma volta na sala de musculação só para ouvir o que conversam os corpos brilhantes de suor. Todo espaço tem palavra: essa é a ética silenciosa de Miguel.

Tenta a todo custo não cair na repetição. Mas como a memória não é cofre de ferro, Miguel falha. Quando se dá conta que escreveu uma palavra repetida, se desfaz dela sem hesitação com um risco horizontal vigoroso no papel. Seu colecionismo começou há mais de três anos, primeiro como um hábito ingênuo, sem compromisso. Com o tempo a prática se adensou e não há um só dia em que Miguel não escreve pelo menos uma palavra no caderno. Alguns meses atrás viveu uma fase particularmente delicada, pois o que antes era costume inofensivo começou a se mostrar um perigoso vício. Não houve assunto capaz de penetrar a cabeça de Miguel com mais força do que essa coisa incessante das letras. Seu chefe mostrou preocupação com a queda no trabalho. Deixou clientes esperando e errou informações básicas. Os amigos ressentiram-se com sua ausência. Com muita força de vontade conseguiu controlar a obsessão e escapou dos malefícios do vício.

Chegando em casa Miguel gosta de organizar as palavras do dia em ordem alfabética, em um caderno maior, sem pauta, que fica em cima do criado mudo. O caderninho laranja e roxo é o viajante, está sempre dentro do bolso da calça indo de um lado para outro. Visitou portão de escola, livraria, fila de banco, praça abandonada, bloco de carnaval, restaurante coreano, posto de saúde, barbearia, loja de material de construção, pastelaria, cemitério e empório de salchichas alemãs. Já o caderno do criado mudo tem capa de veludo azul escuro, é austero, pacato, ermitão. Não sai nunca do lugar. Esse é o ritual que ele repete todos os dias, antes de dormir, junto com uma xícara de chá de camomila no inverno ou um copo de suco de maracujá no verão. Hoje está passando a limpo com caneta preta as palavras Apego, Câncer, Celulose, Celulite, Entendendo, Entrosada, Feita, Fiozinho, Omeprazol, Perfume e Paçoca. Sua companhia silenciosa antes de pegar no sono.

 

III

Acontece que o colecionismo de Miguel não é comum. Não se trata de juntar palavras como se acumulam chaveiros antigos, estátuas de coruja ou cartões postais. Durante a semana ele pinça as ditas cujas. Sábado e domingo, sob o olhar falsamente curioso do gato Fellini, escolhe algumas da lista alfabética, transcreve-as com cuidado em pedaços pequenos de papel e as espalha pela casa com fita crepe. A nova etapa leva tempo, às vezes o dia inteiro. É preciso pensar cuidadosamente no lugar que cada palavra merece ocupar. Uma vez dentro de casa, tanto faz a origem. Se vieram dos jornais, da boca do vendedor de parafusos, da estagiária do escritório ou da celebridade bêbada na internet, pouco importa. Miguel gosta de acreditar que dentro de casa não há hierarquia nem berço de ouro. Não importa se a palavra está no passado, no presente ou no futuro. E tanto faz se é substantivo, verbo ou adjetivo. Mas como nas famílias numerosas os pais têm cada um o filho preferido, assim também acontece aqui. Coisa difícil de admitir.

Todas as palavras começam sempre com letra maiúscula. Miguel as considera entidades únicas e inconfundíveis. Se os países têm geografias e conflitos particulares, por que seria diferente com  Paternidade, Zero ou Quiabo? Por trás dos nomes próprios existe uma pessoa de carne e osso com aflições enraizadas. A mesmíssima coisa acontece com o Gabinete, a Viscosa e o Maldizer.

O resultado de tudo isso é uma decoração doméstica impossível de se ignorar. No tampo da mesa da sala está a Escuridão, no box do banheiro estão Viagem, Licença, Descuido. Na gaveta de meias e cuecas, Comungar e Picadeiro. No pote de comida do gato Fellini o papel arranhado mostra Suficiente. Embaixo da fechadura da porta, Pêssegos.

Quando o apartamento está silencioso Miguel experimenta falar a palavra em voz alta. Como um vaga lume, algo aparece e desaparece deixando um rastro inquieto.

 

IV  

Até hoje, o dia em que Miguel está em dúvida sobre o que fazer com a Úlcera,  estava satisfeito com a dinâmica que encontrara. De tempos em tempos renova sua decoração, trocando algumas palavras por outras. Obviamente não todas, ele se afeiçoou a um bocado delas. Mas é inviável manter todos os papeizinhos, seria atordoante. O gato Fellini provavelmente perderia o apetite com tanta falação pelos cômodos. E é normalíssimo que certas palavras caiam em desuso.

Mas agora Miguel se sente fora do lugar. Pela primeira vez não tem vontade de se desfazer de nada. “Será que estou meio carente?” ele pensa. Descarta essa possibilidade enquanto come um misto quente e coloca a Úlcera apoiada na moringa de água. “Estou com medo de não encontrar novas palavras.” Mas no fundo ele sabe que não é isso. Sempre foi bom na caça e ao longo do tempo sua habilidade se aprimorou. Termina o sanduíche e toma coragem para assumir a si próprio o que realmente quer: arriscar. Fazer algo perigosamente novo. Talvez uma besteira. Está cansado do que já conhece. Da rotina tão organizada, do ronronar do gato e da prostração dos papéis escritos. Está cansado de sua vida cozinhando em fogo baixo.

Vai até a pia do banheiro e lava o rosto. Ajeita os óculos e arregaça as mangas como quem vai cortar lenha. Lê em cada perna da poltrona da sala o seguinte: Burros, Teu, Oceano, Agora.

Uma onda de calor invade o corpo de Miguel, ele sabe que esse é momento em que vai quebrar a ordem que se impôs até agora, e a sensação é boa, é estimulante. Vai eufórico até a poltrona e pega de uma só vez as quatro palavras. Quase tropeça. Nas coxas coloca Burros, Oceano. Depois experimenta Teu Oceano. Teu Burros. Agora Burros. Que delírio! O gato Fellini dorme e ele descobre uma nova galáxia. Neste momento subverter é muito bom, ele quer mais. A sensação de prazer é como um banho muito quente, daqueles em que a água quase queima a pele, deixando marcas vermelhas. Pega papel e caneta, não mais um pedaço mirrado de papel, mas uma folha inteira, branca, tão exposta em sua autoridade frágil. Agora pode caçar também dentro de sua cabeça. Vai começar com uma palavra aparentemente simples, pequena, de uma só letra. Uma palavra compacta como ele.

Tomada a decisão, escreve: Teu oceano agora é burro.


Livia Piccolo

formou-se em Artes Cênicas na ECA/USP. Trabalha como preparadora vocal, atriz e performer. Na mesma instituição desenvolveu sua pesquisa de mestrado, investigando o trabalho do ator com a palavra sob uma perspectiva interdisciplinar, entre a música contemporânea, o teatro e a performance. Estudou literatura nos cursos livres do escritor Cadão Volpato e atualmente trabalha em seu primeiro livro de contos. Tem textos publicados nas revistas Ensaia e Parêntesis.

18 de agosto, 2017.  Volume: 1. Seção: Ficções Index: Livia PiccoloPublicação: Natália Zuccala. Revisão: Luan Maitan.


Diante do mar, flores abrem na primavera

Diante do mar, flores abrem na primavera

Dois poemas de Haizi traduzidos do chinês por Marcelo Medeiros e Zhou Chunlin

The death of the poet Haizi will become a myth of our age

Xichuan

 

Haizi (海子), a “criança do mar”, pseudônimo de Zha Haisheng (查海生), nasceu em 1964 em uma pequena vila rural na província de Anhui, China central. Em 1979 é aprovado na prestigiada Universidade de Pequim, onde estuda Direito. Após a graduação, passa a lecionar no departamento de Filosofia da Universidade de Política e de Lei, também em Pequim. Segundo testemunhos de amigos, Haizi, de temperamento tímido, dedicava-se à poesia com fervor, sendo praticamente sua única ocupação além do trabalho na faculdade. Sobre sua personalidade, diz Xichuan: “solitário, sensível, rico em criatividade e, ao mesmo tempo, intenso, fácil de se machucar e ardente amante da terra e da natureza”. Haizi é um poeta de veia lírica romântica, tendo sua poética marcada por uma sensibilidade transcendental, pela força comunicativa e pela clareza da linguagem, assim como pela recorrência de temas e imagens rurais que remetem à infância do autor, a exemplo dos campos de trigo. Segundo o próprio autor: “o ideal da minha poesia é realizar na China um tipo de poesia grandiosa da coletividade. Eu não desejo me tornar um poeta lírico, ou um poeta dramático, tampouco desejo me tornar um poeta da história da poesia [um poeta erudito ou acadêmico], eu só desejo fundir-me ao movimento da China, realizando uma espécie de síntese do folclore chinês e da humanidade, poesia e verdade unificados em um grande poema”. Em 26 de março de 1989, Haizi tirou sua própria vida deitando-se sobre uma linha de trem próxima a Pequim. Os comentadores de sua obra dividem-se quanto à causa de seu suicídio, sendo que alguns atribuem o ato a uma desilusão amorosa, enquanto outros o relacionam à sua condição mental. Além de poemas curtos, aos quais o autor deve sua celebridade, Haizi escreveu também poemas longos e prosa. Destacam-se em sua vasta obra os poemas Diante do mar, flores abrem na primavera, Azaroleiro e Pátria, ou poetas cujos sonhos são cavalos. Trazemos abaixo dois poemas deste autor, que permanece inédito em língua portuguesa, traduzidos diretamente do original.

TRIGAL E POETA

麦地与诗人

Pergunta

correndo no trigal verde
luz de neve e sol brilhando

poeta, você não tem como retribuir
os laços amigos do trigal e do brilho

um certo desejo
uma tal simpatia
você não tem como retribuir

você não tem como retribuir
uma estrela vai brilhando
sobre sua cabeça arde solitária

询问

在青麦地上跑着
雪和太阳的光芒

诗人,你无力偿还
麦地和光芒的情义

一种愿望
一种善良
你无力偿还

你无力偿还
一颗放射光芒的星辰
在你头顶寂寞燃烧

Réplica

trigal,
outras pessoas conseguem vê-lo
sentem-no belo e morno
porém eu permaneço
no coração de sua questão dolorosa
      sendo queimado por seu fogo
eu permaneço sob as agulhas duras do sol

ah, terra e trigo
inquiridor misterioso

quando permaneço com essa dor em sua frente
você não pode dizer que não tenho nada neste mundo
você não pode dizer que minhas duas mãos estão vazias

ah, trigal, a dor da humanidade
é a poesia e o brilho que ela irradia

答复

麦地
别人看见你
觉得你温暖,美丽
我则站在你痛苦质问的中心
     被你灼伤
我站在太阳   痛苦的芒上

麦地
神秘的质问者啊

当我痛苦地站在你的面前
你不能说我一无所有
你不能说我两手空空

麦地啊,人类的痛苦
是他放射的诗歌和光芒!

*

DIANTE DO MAR, FLORES ABREM NA PRIMAVERA

a partir de amanhã serei uma pessoa feliz
dar água aos cavalos, cortar lenha, viajar por todo o mundo
a partir de amanhã me preocuparei com grãos e vegetais
em uma casa em frente ao mar, onde flores abrem na primavera morna

a partir de amanhã escreverei para todos os meus amados
contarei a eles da minha felicidade
o que o raio da felicidade me contou
eu irei contar para todas as pessoas
e darei um nome doce a cada rio e montanha

desconhecido, eu também lhe desejo felicidades!
espero que você tenha um futuro esplêndido
espero que você encontre um amor para a vida toda
espero que você obtenha felicidade neste mundo efêmero
eu só desejo olhar o mar enquanto flores abrem na primavera

面朝大海,春暖花开

从明天起,做一个幸福的人
喂马,劈柴,周游世界
从明天起,关心粮食和蔬菜
我有一所房子,面朝大海,春暖花开

从明天起,和每一个亲人通信
告诉他们我的幸福
那幸福的闪电告诉我的
我将告诉每一个人
给每一条河每一座山取一个温暖的名字

陌生人,我也为你祝福
愿你有一个灿烂的前程
愿你有情人终成眷属
愿你在尘世获得幸福
我只愿面朝大海,春暖花开


Marcelo Medeiros

Estudante do curso de Letras com habilitação em Chinês na Universidade de São Paulo (USP), tendo realizado intercâmbio para a cidade de Xi’an, China, por um ano, entre 2016 e 2017. Suas principais áreas de estudo são a poesia e a filosofia chinesas. Além de traduzir poetas contemporâneos e atuar como professor de português para chineses, no momento realiza uma pesquisa na área de filosofia chinesa comparada.

Zhou Chunlin (周春林)

Graduada no curso de Português da Universidade de Estudos Internacionais de Xi’an da China, atualmente faz mestrado em Tradução Literária na Universidade de Macau. Suas principais áreas de interesse são a tradução literária (chinês-português) e a poesia moderna chinesa.

10 de agosto, 2017. Volume: 1. Seção: Poesia Index: Hai Zi, Xi Chuan, Marcelo MedeirosZhou ChunlinPublicação: Lucas R. Gaspar. Revisão: Luan Maitan