Trilhas

Conto de Tadeu Renato

As flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis.
“Campo de Flores”, Carlos Drummond de Andrade

 

Primeira estação

tempo espaço tempo-espaço passos passos tempo tem? Talvez o tempo seja só uma ficção, um jeito de entender mudanças, aí só existiriam o espaço e suas coisas. Os corpos se deslocando e uma sucessão de movimentos que só podemos entender se inventarmos o tempo. Meu corpo inchando e caindo e levantando, a barriga crescendo e a Luiza saindo de dentro. De dentro do tempo, ou apenas desocupando espaço, tempo espaço, tempo espaço tempo-espaço espaçotempo, o trem encostando de leve na estação, vai lotar, o ar vai ficar pesado lá dentro, não tem janela, as pessoas não têm por onde sair. E esse calor insuportável, bem que podia cair uma chuva. Ninguém espera, todos querem entrar e sair de uma só vez, como se o bairro do Brás ainda estivesse sobre ataque aéreo, como nos remotos. Todos querem ocupar espaço, mas dois corpos não ocupam o mesmo espaço, somente na gravidez. Quinze anos não é idade pra ter filhos, mas eu queria o Davi, ele me queria e eu cedi. Cedo descobri que não estava nos seus planos durar em lugar algum. Fiquei com a menina e com minha mãe nos criando.

 

Segunda estação

– Vem, mãe.

No vagar do movimento, o vagão balança e os corpos são grãos numa peneira. A jovem vai na frente, empurrando com as sacolas, abrindo caminho até o corredor. Seu vestido enlaça no cabo do guarda-chuva de um homem, que murmura qualquer palavra, tanto pode ser caralho como desculpa. Catarina espreme-se a sua esquerda, os olhos voltados à porta, esperando que nas paradas um fio de vento fresco pouse em seu rosto. Luiza tem uma gota de suor descendo pelo pescoço, alcançando o decote, que ela mexe freneticamente esperando um alívio. O homem de há pouco observa com cautela. Catarina avisa com os olhos para que a filha não mostre demais os seios. Eu não vejo problemas em mostrar minha pele, este país tão quente. Davi queria só ver os seios, eu disse só ver, mas quando levantei a camiseta, ele apertou com avidez. Guardei, incomodada, enquanto ele se ria, pedindo outra chance. Mas não gosto que olhem demais, me sinto invadida, parece que meu corpo se desfaz entre tudo mais que tem no campo de visão. Só ver, eu disse, e mostrei novamente. Ele encostou de leve a boca, e um beijo fez calmaria. O trem dá um sinal e avisa o itinerário. Quando fecham as portas, os que se espremiam parecem encaixar de algum modo seus contornos e é até possível relaxar, ainda que todos se encostem e tornem-se uma só massa. O sacolejo do vagão empurra Luiza pra frente e seu decote se expõe com maior clareza diante dos olhos do homem que observa. A mãe a coloca de volta no lugar e silenciam conversas, apenas os olhos. Catarina olha a filha, suas curvas, seu tamanho, sua pressa em crescer. Teve pressa ou eu é que não memorizei todos os espaços por onde ela passou? Que acontece na vida: ver outra pessoa que se parece muito comigo quando eu era nova? Encontro de espelhos, não de fotografias, encontro de semente. É, uma planta que brotou de uma semente e esta planta dá semente e esta nova semente cai na terra, se acomoda na terra e lá descobre a semente original, imagina o susto desta primeira semente?

– Pensando em quê, mãe?

– … nada.

 

Terceira estação

Como faço pra não olhar pra ela, pensa o homem, enquanto busca uma imagem diferente nos velhos galpões que passam à margem. O trem acaba de deixar a estação Mooca, mas Luiza tem a impressão de que meia hora passou e nada mudou no percurso, chegaria a Santo André só depois de dois dias se continuasse assim. Continue assim, deste ângulo eu vejo melhor as curvas, a calça justa justificando minha distração…

– Falta de respeito.

A jovem tira os olhos da propaganda de faculdade que balança no vagão e volta atenção a Catarina, que estremece após o sussurro mal saído de seus lábios. Como a mãe não continua a fala, puxa do bolso de trás o celular e escreve qualquer mensagem pra qualquer pessoa que estiver ilhada em outro celular. Falta de respeito, tira os olhos da menina, um homem com idade de pai, o Davi te daria uma porrada se estivesse aqui e não em Minas Gerais. Precisa ir tão longe?, ficamos bem, segue a vida, cada um sua rota, mas não precisa inventar um caminho tão distante do nosso. Preciso de mais espaço, meu corpo agora é outro espaço e não adianta voltar, porque ele foi outro espaço em outro contexto, agora é uma forma neste instante, mas instante também é tempo. Tome tento, homem, arranca sua fome de cima dela. O vidro inviolável faz tela e pinta má impressão feita de respirações.

Na estação Ipiranga, duas pessoas descem e outras oito entram, além do homem que toca flauta e canta músicas evangélicas. Que é que esse cara quer, rumoreja o homem do guarda-chuva, dinheiro ou que eu me converta? Só quando deus me der um carro eu seguro na sua mão, até lá quero mais é um banho frio. O trem tranca com força as portas e, junto com o sinal de partida, um trovão ecoa longe.

 

Quarta estação

era quase, quero dizer, nem sempre era quase, às vezes multiplicava-se por quilômetros e como uma mola esticada ao extremo voltava com tal violência que o encontro gerava uma certa explosão silenciosa. Era amor aquilo ou o que era que depois me entregou o Jorge, tomando a filha como se dele, ele saindo do trabalho esta hora?

– Será que a gente encontra o pai aqui?

Catarina dá de ombros, sorrindo de leve, enquanto procura com os olhos a presença de Jorge entre os que entram e saem da estação Ipiranga. Gosta de ouvir a filha chamá-lo de pai, assim como chama Davi. Seus olhos cruzam os do homem, que disfarça procurando um problema imaginário no guarda-chuva. Catarina observa os próprios seios, observa os seios da filha, algo da pele transmitindo cheiro de fêmea, o homem também olha e volta a disfarçar. O trem volta ao sacolejo do trajeto e os passageiros encontram outros vãos, inclusive Luiza, que se afasta da mãe em busca de mais espaço abaixo do ar-condicionado. Fico aqui, que sou mesmo de ficar, gosto de criar jardim onde vivo, mas não fechar, jardim público que possa ser frequentado por outros, pois mesmo tirando folga do mundo vez e outra, quero mais é ver gente, mas não com os olhos deste homem, que agora não tem mais o que olhar. Um riso baixo escapa do canto da boca e ela espreita envergonhada a possibilidade de alguém tê-la ouvido.

Tamanduateí fica pra trás e a estação de São Caetano aponta logo mais, na curva. Meu presente de natal seria um pouco de chuva, espero ansiosamente, leio todas as previsões, mas estão todos perplexos com as ameaças que não se concretizam, sempre este suspense, só uma chuvinha de nada. A mulher passeia os olhos pelo vagão lotado e encontra e fixa em um rosto qualquer, sem notá-lo em suas expressões. Um pedaço de música passa em suas ideias, e antes que chegue ao refrão identifica no rosto o olhar do homem que a encara há tempo. Só então Catarina percebe que o homem do guarda-chuva vigiava a ela, e não a filha.

 

Quinta estação

Queria era dar um grito agora, não importando se a esta hora ninguém mais se incomodaria. Chegar em casa e tomar uma cerveja, eu que nem bebo álcool, mas talvez isso me traga felicidade, quem sabe tomar um banho pensando no cheiro dela. Falta de respeito, não vê que eu uso aliança, tanto tempo tanto tempo que outro não me alcança, mas comigo não. Outra mensagem chega no celular e Luíza olha incrédula para o aparelho. Com o indicador escreve célere uma longa resposta que termina Próxima estação: Utinga com um enviar raivoso. Quer ver o Jorge nervoso é alguém me olhar tateando, mapeando os espaços do meu corpo, não que tenha ciúme. Me pedir pra ficar demarcando todas as praças nuas numa sexta-feira, patrão é sempre uma merda, rosna o homem. E se eu jogasse o cabelo de lado, cobrisse meu rosto? Queria saber falar inglês, não entendo nada do que cantam. Brummmm. Tudo é um sinal, vai pensar que estou gostando. O trem para no meio do caminho por um minuto, mas o tempo se dilata com o calor. Se eu chegasse mais perto, se eu perguntasse seu nome, se eu dissesse algo, se eu…

– Afff…

Olhou para o outro lado, isso é bom, meu bom Jesus. I don’t speak nada. Será que me descabelei, por isso desistiu de espiar? You understand me? Jorge me levava sempre ao parque do museu, mas faz tanto tempo. No museu. Mais perto: e se eu?

Sexta estação

Pedreiros no trem planejam o próximo dia, mais uma construção que suspenderá a cidade, mantendo no ar uma possibilidade de vivência, embora apartada: só falta o acabemento interno. Aqui é interior ou ainda é capital? Luiza reflete-se no vidro do trem. Ele chegou perto demais agora, segurando o mesmo cano, não vê que sou casada? Se eu escorregasse a mão e sentisse sua pele, estar vivo é sentir a pele, sentir na pele. Amendoim, amendoiiiimmm, canta o ambulante, enquanto o trem pausa. O suor desaguando no decote de Catarina. Davi, Jorge, nomes a mais que não dizem nada sobre eles, nomes que não dizem deste homem que nada diz mas sabe que ouço seu gesto de querer minha mão, falta de respeito, alcançar meus dedos. Chegar em casa arranco a roupa, tomo banho, ligo a internet, procuro uma imagem qualquer, um apelido qualquer que queira conversar e deixar que eu mostre que meu corpo ainda é viril, ainda aguenta, mesmo que ele desapareça no uniforme. Chegar em casa entro na net e falo direito com ele, não gosto de conversar pelo celular, letras miúdas de comendo até sobrar vogais e. Não diz nada, ele não diz nada e eu também não consigo me mexer.

A porta tenta fechar, mas alguém chega no último movimento e a segura para que possa entrar no trem. O condutor reclama, sua voz que não se sabe máquina ou autônoma vazando na plataforma Prefeito Saladino. A mão deslizando no cano, Catarina se equilibra num único pé, mas o corpo não acompanha o que seria um passo. Desde as seis andando de trem, tanto tempo que não volto pra casa que já me esquecia como fazia isto. Não que não lembrasse o caminho (ele bate com a ponta do guarda-chuva no cano de ferro em que segurava, ritmando o pensamento), mas faz tempo não encontro na memória a maneira como eu chegava em outro tempo, qual ânimo eu tinha naquele tempo, hoje de manhã, tempo tempo tempo tempo tempo de mais para não pensar em nada e de menos para o corpo, olha o tamanho da minha filha. A composição segue dromedária pela trilha, enjoando alguns pelo balanço, navio em um mar de gente.

 

Sétima estação

O que nos liga: o chão, o ar, o cano frio onde escorego minha mão e sinto se avizinhando o calor dos dedos que ela não deixam fugir. Será que eu deixo ele encostar? Só falta chover agora, que tempo mais estranho, vou ouvir outra estação. O trem se equilibra lento nos trilhos, alguém talvez tenha se atirado na linha esperando a pancada da morte, mas o condutor – ou uma voz gravada – informa apenas a existência de problemas técnicos. Delicada esta forma de se aproximar, imagino uma paixão por milésimos de segundos, me deixe lembrar o susto das descobertas. Não entendi nada desta canção, mesmo sendo na minha língua. Claro que ela sabe de mim, dos meus planos futuros para nós que nunca sairão de mina boca, qual o limite que nos separa? Vamos, desce Estação Santo André, toque minha mão, um esbarrão, um sorriso. Ela poderia subir o dedo e roçar meus poros que se abrem para tudo. Mãe, a porta abriu. Luiza é levada pela enxurrada de corpos que se movimentam, Catarina desatenta do aviso de fechamento. O guarda-chuva vai ao chão e o homem se abaixa para pegá-lo, a mão deixando longe a pele de Catarina, que é conduzida pra fora pela pressa que não lhe pertence, a mão ressentindo do desencontro, ele se dispersando no espaço, ela se desmanchando no seu tempo:

– Falta de respeito.

17 de julho, 2017
Categoria: Ficções
 Tags: Tadeu Renato, Carlos Drummond de Andrade

Tadeu Renato é poeta e dramaturgo. Publicou os livros Letras para melodias corporais e Lenz, um outro (Edições de Risco) e, em parceria com Daniel Gatti, o infantil Genésio: a cobra acrobática (Lamparina Luminosa). Escreve para diversos grupos, como Coletivo Quizumba, 28 Patas Furiosas, Cia. do Trailler, Cia. dos Inventivos, entre outros. Mantém o blog Varandeando e é coeditor da revista Saúva.