Um incerto Kafka & Perpetuum mobile

Dois contos de Carlos Neves

Um incerto Kafka

Eu o chamava de Kafka, embora seu nome fosse Celso. Fomos colegas de faculdade. Na época ele tinha idade para ser professor. Nunca me disse porque chegou tarde à escola, Kafka. Não disse, é? E não vou dizer enquanto não parar de me dizer Kafka. Sabes que sou Celso. Ou não sabes?

Sei, sempre soube. Também ele nunca me pediu para explicar porque Kafka. Nem eu lhe expliquei, não havia razão, e ele provavelmente não aceitaria justificativas, caso lhe contasse.

Mas digo aqui: ele não era um Kafka legítimo, dado a desatinos e extravagâncias surreais, embora fosse um pouco excêntrico, algo pachorrento, de um conformismo estoico, certamente indolente, quase um despropósito. No meio de suas aparentes esquisitices havia um método. E como vocês sabem, todo método traz no bojo algum tipo de esquisitice.

Quando lhe contei que pensava ler Proust, ele riu daquele seu jeito imperturbável. És um bobo, disse. Vais perder tempo lendo Proust. Por quê?, questionei. Tens a vida pela frente, ele disse, E vais passar o tempo lendo Proust?, repetiu. Como és ridículo.

Ele implicava com pontos, e também com vírgulas. Dizia que as usávamos mal e desnecessariamente. Em alguns casos cheguei a concordar. Em outros construí umas frases muito requintadas. Ele ria, a seu modo, piscava os olhos em silêncio. Questão de costume, dizia. Estamos todos desaprendendo a ler.

A cara. Estava na cara. Foi por isso que o chamava de Kafka. Não estava rigorosamente na cara, assim, na boca ou no nariz. Estava nas orelhas, principalmente, umas conchas meio saltadas, em abano, para frente. E aquele cabelo riscado ao meio, o pescoço curto, os olhos vivos, tremeluzidos. Era isso.

E ele sabia. Bastava olhar para ele, censurava-me: Celso! Mete isso na sua cabeça.

A paixão dele era um filósofo romeno chamado Cioran. Dizia-se também ele um obcecado pelo pior. É como se definia Cioran, ele me disse. Um obcecado pelo pior.

Nas aulas de arte, enquanto ouvíamos besteiras, eu sempre aterrorizado, olhava para Kafka no canto da sala e lá estava ele piscando os olhos, a triturar em silêncio aquela litania exótica que os supostos professores de arte grunhem quando ficam à frente dos alunos.

Era um retrato absoluto daquela obsessão pelo pior.

Chegamos a trabalhar juntos. Ele foi meu primeiro editor numa revista sobre metalurgia e fornos. Eu não sei como escrevia aquilo. Encontrava-o no limiar do expediente, o prédio quase a fechar e ele lá, como um oficial tranquilo e sereno às portas da lei, à espera do pobre texto que me seria devolvido depois do seu rigoroso exame para cortes e reparos.

Era um momento sublime para ele. Tenho certeza.

Cismava sobretudo quando punha aspas nas falas dos entrevistados. Mas não sou eu que estou dizendo, dizia a ele. Isso é do entrevistado. Meu caro, ele dizia, isso está evidente na frase. Você desaprende a ler, percebo, como todos nós.

A última vez que soube dele trabalhava no Estado. Chegamos a nos falar pelo Facebook. Perguntei-lhe sobre Proust. Ele riu, sabia fazer isso escrevendo. E disse: desaprendi a ler, meu caro.

 

 

Perpetuum mobile

O primeiro homem caiu não eram cinco da tarde. A praça cheia. Caiu estatelado, feito uma porta quando se desprende de um batente. Não repararam, ou fingiram não ver. A orquestra, por natureza, seguia seu ofício no palco, indiferente.

Logo um outro tombou, um sujeito sem chapéu, e bateu o occipício no chão. O sangue espalhou-se, talvez tenha manchado um ou outro sapato, talvez, mas nada além disso aconteceu. A orquestra estendia suas notas. Um fagote deslocado pôs um olho a vagar em dúvida por ali.

Nas extremidades da praça, outros corpos despencavam, aos poucos, espaçados, como se se soltassem de uns cabos invisíveis, que os prendessem por trás ou pelo alto. Já então se percebia o movimento daqueles pesos em estranhas quedas. A imobilidade fora abalada. Eram agora visíveis os deslocamentos de ar.

O corpo é peso e o peso é morto.

Pensaram numas sereias, como as homéricas. Talvez a orquestra fosse feita de algumas delas. Não se sabe, e nem se acredita muito nisso, pois logo o trompista, o primeiro, que ficava quase atrás do fagote deslocado, também virou e caiu, de olhos abertos, a trompa entupida por sua própria língua.

Seria uma estranha sereia, se fosse.

A orquestra porém firme e sublime continuou.

Da plateia, ao final, dois seres ficaram em pé. Praticamente dois. Em pouco mais de uma hora, em meio a uns duzentos ou talvez menos. Uma mulher e um anão cruzaram os dedos entre si, os mínimos, como se tivessem medo ou por algum zelo religioso pudessem com aquele tênue toque digital evitar a queda ou o que fosse aquilo.

Apenas o piano permanecia no palco, em perpetuum mobile.

A essa altura.

Tarde então, as lojas tinham baixado suas portas, a praça esvaziava-se. E não seria exagero dizer que se exauria em transe.

Um ambulante vendedor de água, num canto extremo e talvez oculto da praça, agora lisa ou branca, não sei por que cargas d’água sorria.

E ainda sorri.

Carlos Neves é músico, fotógrafo e escritor (poeta e jornalista). Lançou em maio de 2017 seu primeiro romance, Máscara da invisibilidade, pela editora Patuá – para o qual compôs trilha musical, agora em fase de gravação, inspirada em cenas e personagens do livro. Em 2016 participou da coletânea de contos Taras, tarô e outros vícios (Risco Editorial/Casa das Rosas), organizada pelo coletivo literário Palavraria, do qual Neves faz parte desde 2015. Recebeu uma menção honrosa do selo Off-Flip pelo conto “Estreia” (publicado em 2009). No momento prepara um novo romance e organiza sua primeira coletânea de contos e novelas curtas.

15 de outubro, 2017
Categoria: Ficções
 Tags: Carlos Neves, Franz Kafka, Marcel Proust, Emil Cioran, Homero