“As cidades e a memória 3” é um dos textos que compõem a obra As cidades invisíveis, de Italo Calvino. No livro, em que Marco Polo descreve a Kublai Khan as cidades de seu império, a cidade deixa de ser um conceito geográfico para se tornar o símbolo complexo e inesgotável da experiência humana.

Este vídeo é uma extensão do projeto de leituras de obras literárias com desenho sonoro do canal Vigília. Conheça o Labirinto.

zaíra // as cidades e a memória 3

Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever a cidade de Zaíra dos altos bastiões. Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe.

A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.

zaíra: as cidades e a memória 3
as cidades invisíveis, italo calvino
26 março 2019 (3min 42seg)

texto  italo calvino
tradução  diogo mainardi
editora  companhia das letras
voz e edição  luan maitan
música  –
index  italo calvino
palavras-chave memória, as cidades invisíveis

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